Doctor Who - Primeira Temporada (2025)

9 Episódio 2 - Um Espetáculo a Loucura (Parte 4 de 5)





A Doutora movia-se rapidamente pelas sombras, cada passo um sussurro no chão de madeira empoeirado, a luz suave do seu disposição, cortando a escuridão quase total após a explosão das lâmpadas do teatro. O cheiro de ozônio misturava-se ao mofo, um lembrete do caos que elas haviam desencadeado. Ao seu lado, Abby mantinha o ritmo, os cabelos ruivos brilhando sob o brilho azul do sônico, os olhos arregalados de medo, mas firmes com uma determinação que a Doutora admirava. O rosnado furioso do Mestre ecoava em algum lugar na plateia, um som que, apesar da raiva, revelava uma ponta de surpresa. Ele não esperava que elas revidassem tão rápido, nem que sua aliança, forjada há tão pouco tempo, fosse tão resiliente.




A mente da Doutora fervilhava enquanto desciam para o porão. O Mestre, com sua megalomania e inteligência retorcida, era capaz de horrores, mas a escala daquele teatro corrompido — a manipulação do tempo, das mentes, da própria realidade — estava além de seu modus operandi usual. Ele raramente operava sozinho com tamanha sofisticação em manipulações temporais em massa. Geralmente, usava exércitos, cultos ou tecnologias roubadas. Controlar centenas de mentes, mantendo-as em torpor enquanto extraía emoções forçadas, sugeria um poder amplificado.




— Ele não tem esse poder mental sozinho — murmurou a Doutora, os olhos semicerrados enquanto varria o corredor com o sônico. — Algo, ou alguém, está amplificando ele. Uma tecnologia… ou uma entidade.




Abby, ofegante ao seu lado, engoliu em seco, a voz tremendo, mas firme. — Tipo o quê? Alguma máquina doida? — perguntou, os olhos dardejando para as sombras. — Isso é loucura, Doutora. Só quero sair daqui!




— Eu sei, Abby. E vamos sair — respondeu a Doutora, a voz calma, mas vibrante. — Fique comigo. Estamos quase lá.




Elas se agacharam ao passar por uma pilha de adereços empoeirados, o sônico varrendo o ar em busca de anomalias energéticas que não fossem do Mestre. A Doutora pensava nos vitrais bizarros da fachada do teatro, nas ornamentações metálicas retorcidas que pareciam componentes orgânicos ou tecnológicos. A atriz no palco, com seus olhos negros, era uma marionete, mas talvez ligada a uma fonte de poder maior. Quem ou o que estaria ajudando o Mestre a criar essa farsa sádica? Uma raça alienígena com habilidades psíquicas? Uma tecnologia temporal corrompida?




De repente, passos rápidos e pesados ecoaram atrás delas. A Doutora girou, o sônico erguido, a luz azul cortando a escuridão. Abby, tensa, posicionou-se ao seu lado, os punhos cerrados, o rosto pálido de medo. — Ele tá vindo! — sussurrou ela, a voz carregada de urgência.




O Mestre surgiu das sombras, não com a lentidão calculada de antes, mas com uma velocidade assustadora, como se tivesse se materializado. Seus olhos, antes brilhando com delírio, agora ardiam com uma fúria gelada. — Sempre tão previsíveis em sua imprevisibilidade! — sibilou ele, a voz carregada de ameaça. — Fugindo, sempre fugindo! Mas para onde, Doutora? E você, garota, acha que pode escapar do meu palco?




Abby, tremendo, mas firme, retrucou: — Não me importo com seu palco doentio! Só quero todo mundo fora daqui, seu maluco!




O Mestre riu, mas havia tensão em seu sorriso. Ele deu um passo à frente, e a Doutora sentiu uma distorção no ar. As paredes de madeira escura, com seus entalhes pulsantes, começaram a ondular, as linhas se alongando, as texturas se dissolvendo, o espaço se dobrando sobre si mesmo.




— Notaram as paredes que somem? — perguntou ele, o tom zombeteiro. — Este “teatro” tão… adaptável? Tão ingénuas!




Com um gesto teatral, ele ergueu a mão, e a Doutora sentiu um lampejo em sua mente — a imagem da TARDIS dela, deixada na rua, piscando como uma memória distante. A revelação a atingiu como um choque elétrico.




— Este não é o Globe Theatre, Doutora! — vociferou o Mestre, a voz subindo em um crescendo triunfante. — Este lugar… tudo isso aqui… está dentro da minha TARDIS!




Abby engasgou, os olhos arregalados. — Sua… nave? — balbuciou, olhando para a Doutora. — Estamos presos dentro disso? Como vamos sair?




A Doutora cambaleou, a verdade esmagadora. As paredes mutáveis, os corredores que se reconfiguravam, o silêncio absoluto lá fora — tudo se encaixava. O Mestre não estava manipulando um teatro em Londres; ele havia abduzido um pedaço da realidade, construindo um universo de pesadelo dentro de sua TARDIS.




— Todos eles… — murmurou a Doutora, os olhos voltando-se para a direção da plateia, cujas lágrimas e aplausos agora pareciam ainda mais trágicos. — Todos estão presos aqui… dentro da sua TARDIS!




O Mestre riu, um som seco e triunfante. — Exato! Uma obra-prima de engenharia temporal e manipulação psíquica! Os limites são para os fracos, Doutora. E vocês duas estão no palco principal do meu mais grandioso espetáculo!




Abby cerrou os punhos, o medo dando lugar à raiva. — Você é doente! — gritou ela. — Prender pessoas assim? Isso não é espetáculo, é tortura!




— Sempre subestimando a complexidade, Mestre — retrucou a Doutora, um brilho de desafio nos olhos. Ela ergueu o sonic, que zumbia suavemente. — Se esta é sua TARDIS, há um console. Há sistemas. E onde há sistemas, há falhas.




O Mestre inclinou a cabeça, o sorriso voltando. — Otimista como sempre. Mas não há porta para fora do meu palco particular.




A Doutora ignorou a provocação, trocando um olhar rápido com Abby. A pista do “mapa” no porão, mencionada por Abby, ainda era válida. Dentro da TARDIS do Mestre, o porão poderia ser o núcleo de controle da ilusão ou a fonte de energia que manipulava as mentes. — Vamos encontrar esse mapa, Abby — sussurrou ela. — E acabar com isso.




Abby assentiu, os olhos brilhando com determinação apesar do medo. — Beleza, mas é melhor ser rápido, porque ele tá logo atrás! — disse, a voz firme, mas com um toque de pânico.




Com um aceno, a Doutora mergulhou na escuridão, Abby seguindo-a de perto, enquanto o riso do Mestre ecoava atrás.






A Doutora e Abby avançavam pelos túneis da TARDIS do Mestre, a luz do sônico iluminando o caminho. As paredes pulsavam, reagindo à vontade do Mestre, os corredores se retorcendo como um pesadelo arquitetônico. Escadas levavam a lugar nenhum, portas abriam para abismos, silhuetas de salas de controle se dissolviam ao toque. A valsa arranhada persistia, acompanhada por um sussurro multifacetado — as vozes dos humanos presos, clamando em uníssono, um lamento que parecia vir de cada sombra.




— Ele tá brincando com a gente — murmurou Abby, a voz tremendo, mas decidida. — Isso é tudo um jogo pra ele, né? Como vamos achar qualquer coisa aqui?




— Ele quer que a gente se perca — respondeu a Doutora, o sônico varrendo os arredores. — Mas uma TARDIS tem lógica, mesmo uma tão retorcida quanto a dele. Fique de olho em qualquer coisa estranha.




Abby apontou para uma fenda na parede. — Ali! — disse, a voz tensa. — Parece… diferente. Mais frio, sei lá.




A Doutora sorriu, impressionada. — Bom olho, Abby. Vamos ver aonde isso leva.




Ela concentrou o sônico na fenda, e a parede estremeceu, os entalhes se agitando como em agonia. Com um crack seco e um silvo de ar pressurizado, a passagem se abriu, revelando uma escada íngreme que descia para a escuridão. O cheiro de mofo e maquinário antigo era avassalador, um contraste com o aroma forçado do teatro. Elas desceram, o sônico iluminando túneis claustrofóbicos repletos de cabos emaranhados e tubulações zumbindo.




O som da valsa diminuiu, substituído por um batimento rítmico e profundo, como o coração de uma máquina maligna. A Doutora seguiu o som, a mente trabalhando para identificar a fonte. — Isso não é só a TARDIS — disse ela, a voz tensa. — Há algo mais aqui, algo… alienígena.




Elas dobraram uma esquina e se depararam com uma sala vasta e circular. No centro, uma estrutura imponente de metal escuro e vidro esverdeado pulsava com uma luz sinistra. Cristais giravam lentamente, conectados por fios a dezenas de crânios humanos flutuando em cilindros de vidro. Suas órbitas vazias pareciam fixas na máquina, emanando uma ressonância perturbadora, como se coletassem e amplificassem o sofrimento da plateia.




Abby recuou, o rosto pálido. — Meu Deus… o que é isso? — perguntou, a voz rouca de horror. — São… pessoas?




— Não mais — respondeu a Doutora, a raiva misturada com pavor. — É a fonte do poder do Mestre. Uma máquina que se alimenta de angústia, usando esses… restos como condutores.




Ao lado da máquina, sobre uma mesa de metal, havia um painel de controle e um rolo de pergaminho amarelado, coberto de símbolos e diagramas complexos. O mapa. A Doutora correu até a mesa, Abby hesitando, mas seguindo-a. Antes que pudessem tocar o pergaminho, uma voz ecoou pelo porão, calma e gélida.




— Chegaram à minha sala de controle — disse o Mestre, emergindo de uma passagem lateral, não mais delirante, mas recomposto, o sorriso cínico de volta. — Mas tarde demais.




A Doutora girou, o sônico erguido, enquanto Abby se posicionou ao seu lado, os olhos arregalados, mas firmes. — Tarde pra quê? — retrucou a Doutora, a voz firme. — Pra descobrir que sua peça é uma bagunça? Achamos um furo bem grande no seu roteiro.




Abby, tremendo, mas determinada, acrescentou: — Você não vai nos prender aqui pra sempre, seu doente!




O Mestre riu, desdenhoso. — Uma bagunça? É minha obra-prima! Cada alma neste teatro contribui para ela. E o pergaminho? Apenas os devaneios de um tolo que disse que poderia ver o futuro.




Ele se aproximou, os olhos fixos na Doutora. — Estão na minha TARDIS, no coração da minha criação. Eu controlo a realidade aqui. Em breve, controlarei vocês.




A Doutora trocou um olhar rápido com Abby. — Ele tá falando demais — sussurrou ela. — O pergaminho é importante, ou ele o teria destruído.




Abby assentiu, engolindo o medo. — Ou ele pode tá blefando, ele é maluco! — disse, a voz urgente, mas prática. — Mas, já que estamos aqui...




Com um movimento rápido, a Doutora agarrou o pergaminho, enquanto Abby se posicionou entre ela e o Mestre, pronta para intervir. O Mestre ergueu a mão, e um feixe de luz pulsante desceu do teto, mirando a Doutora. Ela jogou-se para o lado, rolando pelo chão empoeirado, o sonic raspando a mesa. Abby, com reflexos rápidos, chutou a mesa, desestabilizando o Mestre por um instante.




A Doutora desenrolou o pergaminho, a luz do sônico revelando símbolos e diagramas. Mas não era um mapa de rotas. Eram visões. Imagens materializaram-se do pergaminho: a Doutora, em um futuro caótico, em um campo de batalha com luzes explodindo. Companheiros lutavam ao seu lado, rostos familiares, incluindo Abby, com um olhar determinado. Então, a cena mudou: a Doutora, no centro do conflito, estendendo a mão para um vórtice brilhante, uma determinação terrível nos olhos. A imagem final era a mais aterrorizante: a Doutora, cercada por aliados, A Tardis destruída, Abby e a Doutora mortas em meio de uma invasão de Daleks Zumbis e Cybermans despedaçados. O fim de tudo.




Os corações da Doutora disparam. Não era um mapa de fuga, mas uma profecia — uma armadilha psicológica do Mestre, projetada para expor seus medos de sacrifício. Abby, ao seu lado, viu as imagens e engasgou. — Isso… é a gente? — perguntou, a voz tremendo. — Isso vai acontecer?




— É o que ele quer que nós acreditamos — respondeu a Doutora, a voz firme apesar do tremor em suas mãos. O pergaminho brilhou, aquecendo-se perigosamente. Com um grito sufocado, ela o largou, e ele irrompeu em chamas negras, consumido em segundos.




O Mestre, recuperado, riu sombriamente. — Finalmente entendeu a lição, Doutora? Seu fim. E eu estarei lá para vê-lo. O final de arco. O fechar das cortinas.




Abby avançou, furiosa. — Você não vai tocar nela! — gritou, a voz cheia de raiva e medo. — Não vou deixar você machucar mais ninguém!




A Doutora, ofegante, sentiu o eco da profecia em sua mente, mas a coragem de Abby reacendeu sua determinação. Ela apontou o sônico para a máquina, ajustando a frequência. — Você pode ter escrito a peça, Mestre, mas eu sou péssima com roteiros — disse, o tom desafiador.




O sônico zumbiu, enviando um pulso disruptivo à máquina. Os cristais giraram freneticamente, a luz verde pulsando, os crânios vibrando nos cilindros. Um som de distorção ecoou, o espaço se rasgando. Acima, a plateia despertou, os gritos cessando, substituídos por suspiros de alívio. As ilusões vacilaram, as paredes da TARDIS piscando entre o teatro e seus corredores reais.




O Mestre urrou, correndo para a máquina. — Não! Minha obra! — gritou, o horror em seus olhos.




A Doutora agarrou a mão de Abby, puxando-a para uma passagem lateral. — Vamos, Abby! Hora de sair do palco dele!




Enquanto corriam, Abby olhou para a Doutora, o rosto pálido, mas resoluto. — Aquela visão… você acha que é verdade? — perguntou, a voz baixa, mas firme.




— Não sei — respondeu a Doutora, apertando a mão dela. — Mas não vou deixar ele decidir meu futuro. Vamos achar o console da TARDIS dele e acabar com isso.




O teatro rugiu, as paredes tremendo como se protestassem contra sua fuga. Mas a Doutora e Abby, movidas por sua parceria, sabiam que tinham apenas uma chance de virar o jogo. E não tinham mais tempo a perder.