Doces Palavras
5 Capítulo 5 ஃ "Só faltava o beijo!"
Notas iniciais
5 — Só faltava o beijo!
A primeira coisa que Leonel fez ao pisar em casa, foi dispensar os sapatos e sentir o chão frio sob os pés ainda quentes. Era um conforto chegar ao lar e ir jogando as vestes e os tênis no caminho da sala até a cozinha. Os cômodos minúsculos estavam, ao menos, limpos. Tudo bem uma baguncinha saudável de vez em quando, já que não tinha ânimo algum para jogar nem mesmo a camiseta no cesto de roupas sujas lá no banheiro.
Até mesmo as calças foram dispensadas. Nada melhor que ficar seminu e usufruir dos benefícios de morar sozinho.
Os finais de semana o deixavam o pó e ele desejava uma massagem nos pés cansados, mas nem mesmo tinha uma companhia para esses momentos. E pagar por esse luxo, era fora de questão e de salário. Mal sobrava para a universidade. Só restava mesmo ele próprio dar um jeito e esquecer do cansaço como podia.
Com um galão de suco e metade de uma lasanha requentada, fez o que precisava no momento, jogou-se no sofá cheio de almofadas e buscou por algum filme interessante na TV a cabo. Qualquer coisa com ação ou suspense, já servia.
E assim ele se esquecia do cliente idiota com a câmera na mão.
Não que estivesse lembrando do idiota agora, mas o cartão abandonado sobre a mesinha de centro, junto aos livros de estudo, o fez recordar o desgosto da tarde.
Rocco Ferrara...
— Fica com o meu cartão, caso mude de ideia.
— Sabe que eu vou rasgar e jogar no lixo logo que eu voltar pro balcão. — Ele evidenciou o que deveria ser óbvio quando o bolso do avental foi invadido por aquela mão esperta na qual ele teria adorado estalar um tapa.
— Eu sei que não vai. — O fotógrafo soou presunçoso; o sorriso de lado e os olhos com um brilho divertido.
Que homem mais convencido aquele! Irritante. Atrevido. E sem nenhuma noção. Ele teria adorado rasgar aquela porcaria em pedacinhos e jogá-lo no rosto daquele metido, mas a política do bom tratamento ao cliente, foi o que o impediu de realizar o desejo.
E de fato ele não havia rasgado ou jogado o cartão no lixo, e sequer sabia o motivo, já que não o usaria para absolutamente nada. Não precisava de serviços de mídia digital, muito menos do riquinho com ares de galinha. A maneira com a qual o tal sem vergonha o havia olhado, era como se estivesse nu em pelo servindo os clientes. Um absurdo!
Ao menos a gorjeta o tinha livrado de fazer hora extra. Para alguma coisa o maníaco da câmera havia servido.
ஃ
A conclusão da noite chegou de maneira frustrante para Dionísio: Ricos realmente comiam feito passarinho.
Havia uma grande variedade de pratos no menu, desde os complicados nomes em francês até os típicos italianos, todos em quantidades absurdas de pequenas. Dio gostava de comer. Era quase como um passatempo, mas jamais se sentiria satisfeito com aquelas porções mínimas. E os engravatados ainda deixavam metade no prato. Que absurdo!
E não era como se ele fosse dado aos bons modos e etiqueta à mesa, lembrava-se pouca coisa a respeito, mas imitou o escritor e a maneira elegante com a qual ele cortava a carne de nome rebuscado e levava aos lábios. Dionísio desejou ser aquele talher e quase suspirou com o pensamento.
Na verdade, ele se satisfazia muito mais ao ver Nicolai jantando do que qualquer outra coisa. Ele também queria ser aquele guardanapo ordinário que limpava os lábios de Werner. Aqueles objetos não sabiam a sorte que tinham.
Mas quem não tinha tanta sorte assim, era ele próprio.
Que lástima!
Assim que terminaram o jantar, a bruxa tratou de arrastar o ídolo bonitão para um passeio na vassoura. Bianca fez questão de enlaçar o braço de Nicolai e desfilar com ele como se fosse a senhora Werner. Que aquele salto quebrasse e ela desse com as fuças maquiadas no chão!
O pior foi que Nico sequer reclamou ou declinou o convite da megera. Claro, com uma mulher linda e loira daquelas, quem é que iria reclamar?
O décimo suspiro, agora de frustração, deixou os lábios quando, com o canto dos olhos, viu Nico posar para uma foto ao lado de Bianca. O nome deles nem mesmo combinava: Nicolai e Bianca… Não! Não era sonoro, era argh! Agora, Nicolai e Dionísio, soava perfeito e ninguém contestaria tal perfeição. Claro, se soubessem que ele existia.
Não havia muito o que fazer em um restaurante chic cheio de desconhecidos ricos e de nariz empinado depois de ser dramaticamente abandonado. Ele até teria bocejado, mas preferiu conferir as horas no visor do celular. Passava das onze e Yuri havia mandado uma mensagem dizendo que estava tudo bem e que ele deveria aproveitar a noite.
Aproveitar. Ele claramente estava aproveitando.
Então, uma última viagem entre o espaço e o tempo…
Em um mundo utópico e azul, Nicolai Werner tinha olhos somente para ele, mas como a utopia existia apenas na cabeça de certo barista e estava longe de ser real, o escritor nem sequer estava ao alcance de suas mãos curiosas e já saudosas.
— Ele com certeza 'tá enfeitiçado pela bruxa. — Comentou ao rolar os olhos e mover a perna em impaciência. Olhar para os enfeites sobre a mesa, já havia cansado sua beleza.
— Que mundo pequeno!
A exclamação o fez cessar qualquer movimento e parar de resmungar. Pensariam que ele era louco caso o vissem falando sozinho em um ambiente lotado. Não entenderiam que era uma ótima terapia e evitava que ele se erguesse e fosse lá passar vergonha ao inundar os ricaços com perguntas toscas e animadas.
— Dionísio, o garoto da cafeteria.
Ao ouvir o nome e visualizar o rosto bonito do homem que entrou em seu campo de visão, Dionísio teve a certeza de que sim, o mundo era mesmo pequeno. Ou era só a cidade mesmo.
— E você é o cara sem noção com a câmera fotográfica. — Sem noção e muito, muito bonito. Bonito do tipo que daria, sem o menor remorso, para perder uns dez ou quinze minutos com ele. Não era qualquer um que tinha um sorriso daqueles unido ao ar cafajeste que era realmente atraente.
— O seu amigo não veio? — Ele pareceu esperançoso sobre encontrar certo loiro em alguma parte do salão ao vagar os olhos claros pelas mesas. — Que pena. Aposto que ele fica uma graça vestindo um terno.
— Se tem mesmo algum tipo de interesse pelo Leonel, jamais o chame de graça. — Dionísio aconselhou. Oras, era um romântico por natureza e estava destinado a juntar os casais apaixonados. Era mais fácil do que ajeitar a vida amorosa. — Ele não é das pessoas mais fofas que você vai conhecer. — E só estava comentando para o caso de o outro não ter percebido a falta de fofura do melhor amigo.
— Não é mesmo a palavra que eu usaria. — O fotógrafo comentou com um riso sacana, parecendo reviver alguma lembrança com o assunto da conversa.
— Certo, Don Juan… A propósito, qual o seu nome? — Porque falar com as pessoas sem ao menos saber o básico, era mais que estranho e desconfortável.
— Rocco. — A mão se estendeu para o cumprimento que, não era assim tão necessário já que se “conheceram” umas horas antes. — Eu não sabia que era conhecido do Werner. Ele é seu cliente?
Dionísio podia, e claramente imaginou aquela cena sobre Nicolai ser um dos seus clientes mais fiéis. Não era impossível, era só fazer o homem se apaixonar por seu café. E se lembrava bem de ter conseguido alguns paqueras simplesmente por ser ótimo naquilo que fazia.
— Ainda não, mas quase. — Soou orgulhoso e com a promessa de que poderia surpreender até mesmo ele próprio. — Olha, você podia tirar uma foto minha e do Nico. — A melhor ideia da noite. Ele mandaria fazer um pôster, chaveiros, botons, camiseta, tatuagem e tudo mais o que a imaginação – e o dinheiro – permitisse.
— Eu até poderia, sabe… — Rocco puxou a cadeira com o pé e se sentou de maneira displicente.
— Mas…? — Porque era óbvio que estavam barganhando. E que fosse uma troca justa e barata!
— O número do seu amigo, por uma foto com o Nico. — O apelido do escritor, foi usado com ar de zombaria. Já tinha algo com o qual pentelhar o escritor.
Dionísio não precisava pensar muito, estava claro que aceitaria o preço, mas Leonel o mataria e… Certo, ele nem precisava saber no fim das contas.
— Primeiro a foto! — Sem o mínimo tato, ele se ergueu e puxou o fotógrafo pelo braço, arrastando-o pelo salão. — Faça o seu trabalho direito ou não tem Leonel na sua vida. — De qualquer forma, Rocco não teria seu amigo nem que se pintasse de ouro.
Nicolai estava cercado por gente bacana como quando Dionísio havia chegado. Eles nem sequer tinham aproveitado a presença um do outro por culpa de certa bruxa. Privar dois amantes destinados a estarem juntos, era um pecado universal! E foi pouco ele ter pisado no pezinho de Cinderella de Bianca, ao passar por ela e ouvi-la reclamar. Os olhares orgulhosos que ela direcionava a sua deslumbrante pessoa, já tinham cansado.
— Eu também quero uma foto. — Cantarolou ao envolver o braço ao de Werner, metendo-se entre os desconhecidos. — Acho que eu mereço um agrado. — Um sorriso brilhante se formando ao ter a atenção dos olhos castanhos. Agrado, não significava foto, mas, ele deixaria os ali presentes pensarem que sim.
Nicolai desviou o olhar para a forma como o rapaz, muito entusiasmado, o agarrava com certa posse, passeando com os dedos por seu braço e fazendo-o se curvar levemente. Havia Bianca de um lado, mostrando-se nem um pouco satisfeita com a intromissão de Dionísio, mas Werner admitia, ainda que internamente, que a espontaneidade o agradava um pouco.
Bianca o havia monopolizado após o jantar. Ela era, de fato, uma companhia agradável e vibrante, mas também não era como se estivesse comparando-a com o rapaz ao lado. Eram polos opostos e a aura jovial de Dionísio, lembrava certo alguém do passado.
— Uma foto! — Bianca ajeitou-se no outro braço de Nicolai, puxando-o discretamente para o seu lado e sorrindo sem mostrar os dentes, contendo o desgosto de ter o moleque que sequer deveria estar ali, a se intrometer em seus negócios.
— Ah, não querida. — Dio fez questão de enfatizar falsamente a última palavra e afastar o toque da loira para longe. — Eu quero uma foto com o Nico. Só com ele. Tudo bem? — Perguntou ao escritor e o puxou mais para o outro lado, deixando Bianca vermelha de raiva e constrangimento. — Olha, eu só quis te livrar daquela chata. — Ele cochichou como uma criança sapeca. — Pode me agradecer depois por isso.
Dionísio daria um rim – eles estavam no auge das funções – para saber o que raios aquele homem emproado pensava. Não precisava ter passado mais que alguns minutos com o escritor, para saber que ele não era de falar muito. Talvez ele só ficasse sem palavras diante da pessoa fabulosa que ele era. É, devia ser isso.
— Faz uma cara bonitinha, Nico! — Rocco, que já havia, e nada discreto, debochado do desgosto palpável de Bianca ao ser deixada de lado, não se contentou em ser formal, o apelido era divertido e merecia ser usado.
— Agradeço por isso. — Nicolai soprou ao fã, soando irônico, embora não desse real importância a um apelido e até soasse bacana na maneira natural como soava na voz de Dionísio.
Que evolução! Era um agradecimento, braços dados, uma foto juntos, muitos flashes e pessoas ao redor… Só faltava o beijo e o buquê de flores.
Faltava o padre também.
Detalhes.
E assim, era o início do “felizes para sempre”.
Podia ouvir a multidão gritando para que se beijassem logo e…
— Dio? — Werner balançou uma mão frente ao rosto do rapaz de expressão sonhadora e… Ele estava fazendo um curioso bico com os lábios.
— Nossa, eu sinto umas coisas quando você me chama assim... — Era um fato que ele não filtrava ou sequer pensava antes de desenrolar a língua. Era mais forte que ele, mas sempre depois de soar feito um idiota apaixonado, os olhos se arregalavam e ele se atrapalhava com as palavras. — Mas não são coisas do tipo tesão! Não mesmo! Eu não sou um pervertido e nem nada do tipo. Pode ficar tranquilo, Nico! — O sorriso amarelo nunca foi tão grande, mascarando a vergonha colossal. Ele tinha usado a palavra com T.
E pensando que sempre acabava afastando os pretendentes com a língua sem freios, observou os novos conhecidos. Túlio e Filipo eram a meta de relacionamento que Dionísio aspirava ter. O casal estava em uma das mesas, só os dois, conversando baixinho e sorrindo um para o outro: Fofos. Ele queria ser fofo assim com o homem ao lado, mas imaginou Werner sussurrando umas besteirinhas em seu ouvido, e quase teve uma síncope.
— São coisas de fã, claro. Eu entendo. — Nicolai comentou ao dispensar um olhar ao fotógrafo e cunhado que, ele sabia, tinha alguma piada na ponta da língua.
— É que o limite entre passar vergonha e ser sincero, não são muito claros pra mim. — Encolheu os ombros. E falou o que não devia de novo. — Se desconsiderar noventa por cento das coisas que eu falo, a gente pode manter uma proximidade legal.
Uma estranha proximidade, mas muito desejada. Era tipo aqueles filmes dos anos 2000, com as mocinhas que conheciam os ídolos e faziam de tudo para se tornarem mais que apenas fãs. Não que ele fosse uma mocinha. Não que ele fosse conseguir algo a mais.
— Você me lembra alguém.
Nico sim era uma gracinha. Dizendo aquelas coisas para que ele não se sentisse tão constrangido e bobo.
— Espero que não seja o seu filho. — O ar jovial voltou quando percebeu que Nicolai não parecia incomodado com as bobagens que ele dizia. — Porque as vezes eu sou um pouquinho infantil, sabe? Só um pouquinho. Mas nada contra o Raffa! Criança de ouro. Inclusive, eu acho uma coisa tão incrível você ter inspirado um personagem no seu filho.
Os olhos do escritor se desviaram por um momento antes que um sutil sorriso surgisse. Era como havia pensado, a seriedade e enfado do jantar, ficariam mais leves com a presença do garoto bacana.
— E então, Dio, de qual dos meus livros você gosta mais?
Aquele era um assunto o qual ele passaria a vida toda falando. Sabia as frases, as páginas e qualquer coisa a respeito dos livros do Werner. E agora teria a oportunidade de conversar com o autor e dizer tudo o que pensava e em como os escritos tinham sido importantes em uma fase difícil da vida.
E era agora que eles se beijavam e juravam amor eterno?
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