Doces Palavras
6 Capítulo 6 ஃ "Fã, modelo, casamento e... Filhos?!"
Notas iniciais
6 — Fã, modelo, casamento e... Filhos?!
Todas as bebidas daquele dia, seguiram para os clientes decoradas com corações em chocolate no chantilly. Tudo tão fofo, doce e perfeito, que causaria diabetes em quem somente olhasse para as xícaras enfeitadas.
A Doce Aroma exalava ares românticos naquela manhã.
— É preocupante eu não ter ouvido a sua agradável voz por mais que dois minutos hoje. — Leonel comentou. Não era como se gostasse do falatório nos ouvidos, mas o amigo mal lhe dava trégua para anotar os pedidos, desandava a falar e a atropelar as palavras. E claro, mal lhe dava a chance de responder.
— Disse alguma coisa? — Os olhos azuis piscaram de maneira perdida e ele quase errou a arte no café. Parecia ter ouvido a voz de Leonel bem ao longe.
— Cara, eu não quero ser um chato e destruidor de sonhos, mas você 'tá exagerando.
— Nos desenhos? — Dionísio não via problema algum em compartilhar o modo como estava se sentindo, com os adoráveis clientes do amado lugar onde trabalhava. — Eu achei bonitinho.
— Não acredito que falou no diminutivo... — Leonel suspirou. Era mais grave do que pensava. Claro, todos tinham o direito de flutuarem em nuvens de algodão cor-de-rosa depois de encontrarem o ídolo, trocarem mais que algumas palavras e receberem um beijo na testa. Era mesmo algo memorável e que seria levado pela vida toda, mas era preocupante que aquele mocinho se iludisse tanto.
— Meu querido, Leo, acho que você precisa arranjar alguém. — Foi a resposta de Dionísio ao se afastar com a bandeja.
Arranjar alguém?
Ele mal tinha tempo para as necessidades básicas de uma vida normal, ter que dispensar atenção a um relacionamento, estava fora de questão. Não era lá muito bom em uma vida a dois e odiava cobranças quanto a falta de atenção e de carinho que ele sequer lembrava em dispensar aos parceiros. Não tinha saco para coisas melosas e cheias de drama. Não era nada romântico e odiava invasão de privacidade. Era quase uma porta. E estava muito bem, obrigado.
Mas por falar em relacionamento...
Um pouco antes de sair de casa e ir para o trabalho, uma odiosa mensagem fez o celular vibrar.
Não fazia ideia de como o idiota e pervertido tinha conseguido seu número, mas respondera o bom-dia, de maneira nada educada.
— Bom dia é o meu—
— Podia considerar sair com alguém. — Dionísio retornou ao balcão. Um sorriso implícito na fala cantarolada. — Tem tanta gente interessante por aí.
— Aham. Muita gente. — Os olhos rolaram nas órbitas. — Olha só todas essas pessoas, meu Deus! Não sei qual delas escolher. — Soou azedo ao fim da frase. Ninguém ali era suficientemente interessante para que sequer dispensasse um segundo olhar.
— Seu mau humor é um charme. — Dio zombou. — O que acha daquele ali? — Apontou discretamente para um cliente mais afastado em um dos cantos: óculos, cabelos grisalhos, mas o ar jovial.
Não para Leonel.
— Velho. — Foi o que respondeu. Embora preferisse as mulheres, Leonel já havia saído com alguns rapazes, nada aos extremos. Eram apenas beijos em festas da faculdade, mas porque ainda não se sentia seguro em tentar algo a mais. Não conhecia caras que valessem a primeira vez. Não ainda. Mas aceitava bem a bissexualidade, embora os pais sequer imaginassem.
E anos atrás, o primeiro garoto que tinha beijado, estava ali na sua frente, tentando lhe arranjar companhia. Fora um beijo bêbado e atrapalhado. Dionísio quis tentar uma espécie de sedução e criou a certeza de que ele estava interessado naquela dança esquisita e sem desenvoltura que insistia em fazer na pista. Não, não havia funcionado, mas acabaram em uma amizade bacana e verdadeira depois do episódio embaraçoso.
— E aquela moça ali? — Dio tentou uma segunda vez. Seus dotes de cupido eram decadentes, mas não custava tentar.
— Muito séria. — Uma rápida análise e ele tinha a certeza de que não se dariam bem. — Desiste. O assunto aqui é você e os seus suspiros apaixonados. Eu 'tô em um relacionamento sério com os estudos. — Amém!
— A culpa é do Werner! — A lamúria não demorou a surgir. Era dramático e suas paixões nunca engatavam em relacionamentos legais. — Ele é tão perfeitamente perfeito que me dá vontade de bater. — O segundo lamento veio com a constatação ridícula. — E tem aquela bruxa estilo vilã de novela mal feita. — Não que Bianca fosse o maior empecilho para que desse uns amassos no escritor, mas ele fingia muito bem, que ela era o único obstáculo.
— Eu já ouvi esse papo de fulano ser perfeito. E no fim, era pura ilusão. — Não queria, mas estava acostumado as paixonites do melhor amigo e a ceder o ombro para que ele se lamentasse quando as coisas não davam certo.
— É que você não conhece o Nico. — O homem era fascinante e tinham passado uma noite agradável entre conversas e até mesmo risos. — Nós tiramos algumas fotos juntos e você nem imagina quem foi que...
— Quem foi o quê? — As sobrancelhas clarinhas se arquearam com o corte na frase. — Porque olha, de fotógrafo, eu não quero saber nada. Já me basta o louco me mandando mensagem. — Poderia quebrar o celular se ele não tivesse sido caro. Poderia quebrá-lo sejá houvesse terminado de pagar as parcelas. — Aliás, eu queria muito saber como aquele idiota tem o meu número. — Sondou, olhos estreitos e a acusação velada.
— Ah... — Céus! Era péssimo em disfarçar e chegou até mesmo a ficar vermelho. — Bom, eu... Assim... Ele é bonitão e... Aí ele... E nós... Foi isso. — Encolheu os ombros, e antes que a ira de Leonel pairasse sobre ele, escapuliu para entregar a conta a um cliente.
Amigo mais filho da... Certo, Dona Regina era um anjo!
Leonel respirou fundo. As ideias ridículas e românticas de Dionísio nunca resultavam em bons finais.
Por exemplo, sua maior vontade naquele momento, era enfeitar as fuças do tal do Rocco com os punhos. Uma lembrancinha de amor.
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Nicolai coçou os olhos castanhos ao dispensar os óculos para a mesa de trabalho. Olhos cansados de quem passara a noite em claro com muito café amargo e o notebook com o enredo do próximo livro. Tinha prazos com a editora e tinha inúmeros compromissos naqueles dias devido ao lançamento do livro mais recente. E precisava concentrar-se para desenvolver aquele novo personagem do futuro romance.
Sobre a mesa, havia papéis devidamente organizados, a cafeteira já quase sem o precioso líquido e o computador mostrando os rascunhos da nova trama. Era um afortunado por nunca passar por bloqueios de criatividade, mas no caso, toda aquela comoção pela sessão de autógrafos e o jantar com velhos amigos e conhecidos, o tirou da concentração que devia dispensar ao projeto já aclamado antes mesmo de se sentar para digitar. A confiança que depositavam nele, era nada mais que seu talento e compromisso com o que mais amava fazer: escrever. Escrever e transportar as pessoas para um mundo novo onde todos os sonhos eram possíveis.
E ele estava ali para provar que desistir não era uma opção, afinal, do interior de uma cidadezinha na Alemanha, ele agora levava o sobrenome da família a um novo patamar. Dava o devido e merecido conforto aos pais e garantia que Raffaelo tivesse um futuro promissor, sem necessidades e com a tranquilidade que o espólio alcançado os brindava.
Mas, no momento, nem mesmo aquele famoso Blues tocado por um de seus grupos favoritos e que irradiava dos fones, contribuiria para ajudá-lo com as palavras que devidamente colocadas, dariam forma ao livro.
De fato, tinha tido um jantar... Agradável talvez fosse a palavra correta. Estava acostumado com toda a formalidade dos eventos, e não era a primeira vez que tinha a companhia de algum fã, mas era a primeira vez que dispensava ao fã em questão, mais que alguns momentos de atenção.
Dionísio falava para uma vida inteira. Parecia ter um dicionário na ponta da língua, mas não filtrava muito bem o que dizia, as palavras jorravam e ele tentava consertá-las e acabava piorando tudo. Foi um bom momento de descontração no fim da noite.
Agora, de volta a vida real, os dedos precisavam digitar o que confabulava na mente, mas a concentração parecia um tanto difícil de alcançar em meio ao fervoroso casal da família.
Lillian corria para lá e para cá, assim como o empresário, irmão do escritor. E Vladimir Werner estava sempre correndo atrás da bela babá do sobrinho. A história daqueles dois, daria uma bela comédia romântica se escrita pelas mãos certas. Quem sabe um dia.
— E como foi ontem com a Miss Itália? — Lillian perguntou ao buscar na geladeira, uma jarra com um suco verde e sem açúcar. Não que houvesse ciúmes em sua pergunta, ela estava apenas... Curiosa. — Os seios dela são mesmo falsos? — Encheu um copo até a metade e pareceu se deliciar com o café da manhã.
Vladimir, entretanto, pegou o copo das mãos da morena de belos olhos esverdeados e provou da milagrosa mistura que garantia aquele corpo que, mesmo sob as roupas sempre comportadas do uniforme, deixavam claras as curvas sinuosas que Liliana insistia estarem acima do peso ideal. Para o empresário, tudo estava como deveria ser, nada fora do lugar.
— Você devia parar de beber essa coisa. — O cenho franzido e o gosto amargo na boca. As mulheres faziam sacrifícios estranhos em nome da beleza ideal.
— É a última tentativa de perder cinco quilos. — A babá se frustrou e recuperou o copo, bebendo tudo em um gole só. Não que gostasse, mas se garantisse o corpo daquela atriz de seu filme favorito, tudo bem. — E então? — As sobrancelhas se arquearam de maneira sugestiva, trazendo a pergunta anterior ainda sem resposta.
— Eu não dormi com ela, se é essa a sua acusação. — Vladimir deixou um discreto sorriso com a descrença implícita nos olhos da mulher. — Não sei porquê todo esse mau juízo que tem de mim. Eu sou um homem sério e—
— Não aguentaria um mês sendo fiel. — Lillian desafiou. Um brilho afiado nas íris verdes e o sorriso cafajeste que o empresário exibia a pouco, desenhou-se em sua boca vermelha de batom.
— Um mês...? — Parecia uma tarefa simples, mas por outro lado, dispensar todas aquelas mulheres quando sequer era comprometido, doía na alma. E doía em outro lugar também. — Não podemos baixar para duas semanas? — Tentou negociar, mas recebeu um pano de prato no rosto quando a morena resmungou um “imbecil” e saiu caminhando para fora da cozinha, estalando os saltos altos no chão vinílico como as modelos com as quais costumava sair.
E ela sempre se irritava ao fazer aqueles desafios descabidos que mereciam suas respostas sinceras. Mulher difícil e cheia de regras! E talvez não fosse possível superar aquela atração, porque desde a adolescência, quando namoraram por alguns meses – e ele a traiu com a mocinha da biblioteca – que tentava consertar a infidelidade de um garoto imaturo de dezesseis anos.
— Duas semanas? — A voz do irmão o fez virar o rosto para encará-lo. — Eu achei muito bom.
Nicolai estava claramente debochando de suas falhas tentativas de reatar com a babá. Um voto de confiança de seu próprio sangue, seria muito bem-vinda por ali. Mas ao que parecia, o fã maluco do irmão, tinha renovado a jovialidade do mais velho.
— E quando vai ser a data do casamento? — Se Nicolai podia, ele também implicaria. — Porque a senhorita Davoglio, tem a estranha certeza de que será levada ao altar.
Não era nenhuma novidade aquela ideia ilusória da atriz e modelo, mas não era como se ele alguma vez houvesse tocado no assunto “casamento”. Tudo o que viesse a partir desse pensamento, não fazia parte do que tinham ou teriam. Depois da esposa, não cogitava outro matrimônio.
— Gosto dela, mas não a esse ponto. — E não era segredo para ninguém, ao menos para as pessoas mais próximas, que não estavam, de fato, em um relacionamento. Era reservado e não compartilhava a intimidade com a imprensa. Acabava sempre desconversando quando perguntavam algo a respeito.
O que tinha com Bianca, era uma espécie de gratidão por ela ter sido importante quando acreditou que não mais conseguiria seguir sem a esposa. Ela era um boa mulher, mas não queria que ela esperasse algo a mais do que tinham. Mesmo que oferecesse pouco.
Tantas expectativas e confiança, não acabariam bem. E ele não queria que terminassem brigados ou machucados um com o outro.
Ou mesmo deixá-la pensar que casariam e teriam gêmeos.
Acabou desfazendo a preocupação estampada no rosto, ao lembrar-se da memorável pergunta de Dionísio Barelli:
— Se você tivesse mais filhos, quais nomes daria? Assim, eu gosto muito de Madalena, aí ela seria chamada de Nena. E combina com Nico!
O garoto havia sugerido que tivessem uma filha e acabou entrando em uma discussão com Bianca, sobre seus futuros filhos e nomes femininos e masculinos.
Os quais nem sequer pensava em ter.
— Pela sua expressão, a Bianca não deve ser tão ruim assim... — Vladimir implicou ao passar pelo irmão.
Nicolai decidiu ir ver o filho e voltar ao trabalho depois. Aquela conversa não o levaria a lugar algum.
Fã, Modelo, Casamento e Filhos!
Preferia os livros e Rafaello.
Eram muito mais seguros.
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Ir ao colégio era um saco.
Yuri não era burro, mas não usaria aquelas fórmulas ridículas ou as matérias estúpidas e ultrapassadas sobre história.
E nem mesmo sabia a porcaria do motivo para ter entrado em sala de aula. Tinha feito uma prova a qual sabia que teria boa nota e, segundo o professor, se ele se empenhasse com mais vontade e evitasse matar aula, teria um boletim aceitável no fim do semestre.
Não que ele desse a mínima ao que os professores diziam. O que o confortava no fim, era que faltavam poucos minutos para o término da fatídica aula de Literatura Inglesa. Uma verdadeira perda de seu precioso tempo.
— A próxima dupla...
A professora decidiu fazer um sorteio estúpido sobre as duplas para um trabalho o qual ele não fazia ideia de qual seria.
Os olhos cinzentos, dispersos da mulher de óculos e de toda aquela chatice, encontraram os esverdeados de um ruivo com um belo arroxeado na maçã do rosto. Yuri não evitou erguer as sobrancelhas e se fazer de inocente ante a raiva de...
— Anthony e Yuri!
A atenção dos dois se voltou a preceptora. A mulher só podia estar louca.
— Porra nenhuma! — Foi Anthony quem se pronunciou primeiro, fazendo a professora repreendê-lo pelo palavrão.
Um milhão de alunos e ela vinha com aquele papinho estúpido de dupla. Mereciam.
— As duplas não serão mudadas. Caso não façam o trabalho, é nota vermelha na matéria. — Simples assim e esse foi o ultimato, pois em seguida o sinal soou.
Yuri não estava nem aí para as notas, mas sentiu uma vontade linda de se empenhar no trabalho em dupla. Ergueu-se assim que o ruivo foi para o corredor e o alcançou em um dos armários. Braços cruzados e ares falsos de bom moço estampado no rosto.
— Na minha casa ou na sua?
Anthony tinha a certeza de que aquele seria o início de seu inferno pessoal.
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