Doces Palavras
4 Capítulo 4 ஃ “Apaga esse fogo, Dionísio!”
Notas iniciais
Capítulo 4 — Apaga esse fogo, Dionísio!
— Eu não roubei esse cartão e esse carro é meu, caso esteja interessado. — Dionísio não esperou que o outro rapaz o acusasse, ele foi logo se desvencilhando da mão intrusa em seu braço e ajeitando o blazer. Havia recolhido a dignidade restante e só queria sair dali o mais rápido possível, mas o homem do cabelo legal não parecia muito disposto a deixar isso acontecer.
Que noite, senhores!
— Mas eu nem disse nada. — O outro se defendeu ao erguer as mãos, livrando-se de qualquer possível culpa.
— Mas deve ter pensado, como aquela outra lá dentro. — Sim, ele estava acusando o desconhecido, simplesmente por ele pertencer a mesma classe social de todos os convidados daquele restaurante de luxo. Estava sendo tão preconceituoso quanto a mulher de roupas finas e olhar desdenhoso. Vergonha, Dionísio. — Desculpa. — Pediu em um sopro de timidez quando as orelhas esquentaram.
E não soube o motivo pelo rapaz que ainda o encarava, abrir um sorriso ante o seu seu pedido de desculpas. Será que até para pedir desculpas ele era uma comédia?
— Eu sou o Túlio. — Ele se apresentou, estendendo a mão para o cumprimento formal. — E esse moço bonitão logo atrás, é o Filipo, meu namorado.
Túlio... Ele se trajava com elegância, embora mais moderno do que os outros engravatados com os quais já havia se deparado por aí. E o fato de ir logo sabendo da orientação sexual do recém-conhecido, causou uma ponta de afinidade entre eles.
— Dionísio. — Apertou a mão quente de Túlio e recebeu um aceno de Filipo. Eram mesmo um casal bonito e foi impossível não se imaginar ao lado de certo escritor que era somente o homem mais maravilhoso do universo, andando por aí de mãos dadas, saltitando e cantarolando em um campo florido ou em uma praia deserta com um belo pôr do sol e...
— Tudo bem com você, Dionísio? — Túlio se preocupou ao ver a expressão do garoto de bonitos olhos azuis. Ele parecia ter entrado em uma espécie de transe, vendo algo que definitivamente não estava ali.
— Ah... — Os olhos piscaram algumas vezes quando voltou a realidade. Sonhar era bom demais e ser interrompido devia ser algo proibido e com direito a multa. E a realidade era tão sem graça e sem cor. — Pode me chamar de Dio. — Consertou a postura sonhadora e abriu a porta do carro. — Eu já vou indo, então. Foi bom conhecer vocês. — E nem diria o famoso “a gente se vê”, porque provavelmente não se topariam depois daquilo.
— Mas por que já vai? — E era por isso que ele o havia segurado pelo braço uns momentos antes. Claro, que esquecido. — Veio até aqui e desistiu de entrar? Aliás, você é amigo de algum dos convidados?
Alguém ali era mais curioso que ele próprio.
— Na verdade, uma mulher não me deixou entrar. — A que ponto havia chegado? — E não, quer dizer... O Werner me convidou, mas não é como se fôssemos amigos. — Mas se fossem, que a amizade fosse colorida e cheia de glitter, amém.
— O Werner? — Foi Filipo quem falou, mas ele não o olhou como a loira emperiquitada o havia olhado, menos mau. E antes que recebesse uma resposta, o namorado o interrompeu.
— Essa mulher que não deixou você entrar, é uma loira e alta? — Túlio fez uma expressão engraçada ao se referir a distinta senhorita.
— Segundo ela, eu roubei esse cartão. — Dio rolou os olhos ao dizer o absurdo. Nunca havia roubado sequer uma agulha. Além do mais, por que raios roubaria uma agulha? A não ser que estivesse com uns furos nas roupas e... Não! Nem mesmo assim. Aí precisaria roubar a linha e, somando sua péssima habilidade com costura mais o fato de ele não ser um ladrão, não faria sentido roubar tal objeto. — E quem é essa mulher? — Porque ela deveria ter algum tipo de autoridade para se achar no direito de destratá-lo. Logo ele, um convidado de tão alta estirpe.
— Bianca. Na cabeça dela, ela é uma espécie de namorada do Nicolai. — O braço se uniu ao de Dionísio quando o puxou para caminharem rumo à entrada do Palazzo Rosso. — Mas nunca assumiram compromisso algum.
Dionísio teria questionado aquele braço em volta do seu, mas ao ouvir sobre a tal “namorada” ele tropeçou no meio fio da calçada e usou a palavra abençoado para chamá-lo mentalmente. Tudo o que não precisava era encontrar as fuças no ladeado e fazer cosplay de zumbi daquela famosa série que, inclusive, não via a hora de retornar com a nova temporada.
Mas se era só na cabeça loira da tal Bianca, tudo bem. Ou melhor, nada de novo sob o sol, pois em sua cabeça de fã maluco, Werner era mais do que apenas seu escritor favorito.
— Certo, e por que mesmo você 'tá me arrastando pra ser humilhado uma segunda vez? — Perguntou ao ver novamente os seguranças prostrados feito guardas da Rainha Elizabeth. — Eu prefiro manter a minha dignidade, sabe? — Até um cão sabia quando não era bem-vindo em um ambiente.
— Relaxa, você vai entrar com a gente. — Túlio usou um tom que remetia a algo como “se eles não deixarem você entrar, eu explodo esse lugar”, ou talvez, Dio estivesse exagerando.
E foi nesse momento que os olhos dobraram de tamanho e a ansiedade tomou conta de cada célula. Ele ia mesmo voltar para casa com o rabo entre as pernas e se lamentar por uma, duas ou três vidas o fato de não poder jantar com o amor platônico, mas era só isso. Um dia ia passar.
— É sério? — E aquele era o tom do tipo “você nem gente, é anjo”
Filipo foi quem tomou a frente e deixou claro que Dionísio também era um convidado e não havia motivos para não deixá-lo entrar, e a Poderosa Chefona não mandava em nada por ali. E quando os dois armários se dispersaram para dar espaço aos convidados, Dionísio achou que teria um infarto aos 20 anos, o que também lhe renderia uma manchete no jornal local e mais alguns minutos de fama.
— Me ajuda a não passar vergonha. — Ele sibilou para o novo colega ao soltar o braço dele. Oras, não eram um trio, embora, olhando bem para eles, nada contra fazer parte ou se jogar em um sanduíche ali no meio. Nada contra e nada mau mesmo.
— Como assim? — Túlio acabou rindo da frase um tanto absurda, mas achou fofa a maneira como o rapaz parecia deslumbrado com tudo ao redor.
E não era para menos, o lugar era de puro requinte: Os quadros em preto e branco das celebridades que por ali já tinham passado, as cadeiras de veludo vermelho em mesas redondas de toalhas brancas e garrafas de vinho com velas acesas como parte da decoração. Era um lugar muito propício para encontros românticos. Havia uma agradável música que, ele sabia, era escolha de Werner. E pensar que a oitava maravilha do mundo seria uma dança de rostinho colado com o escritor, fez um tom aquecido queimar as bochechas.
— É que... Eu tenho uma veia cômica. — Explicou como se fizesse algum sentido. — E eu não quero estragar essa noite especial. E antes que eu me esqueça, muito obrigado por me fazer entrar. — Se estivessem no Japão, ele faria aquela reverência toda polida e legal, mas não estavam e ele só agradeceu com palavras mesmo.
— Eu te achei o máximo, sabia? — Túlio confidenciou. O namorado havia se afastado para cumprimentar os conhecidos. — O Filipo as vezes é muito sério e os amigos dele são todos iguais. — Não que estivesse reclamando, afinal, amava aquele homem, mas tudo bem conhecer gente nova e divertida para sair em noites de tédio.
— Comigo não tem isso, não! — Dio deu um tapinha no ombro do... — O que você faz? — Perguntou curioso e já foi logo falando. — Eu trabalho em uma cafeteria, se quiser dar um pulo por lá, à vontade. — Quanto mais clientes, melhor!
— Eu sou jornalista. Trabalho numa redação local lá da minha cidade. — A animação do colega era contagiante. E ele continuou tagarelando, porque era como o namorado dizia, quando davam corda a ele, ele desenrolava feito carretel.
Dionísio estava ouvindo tudo, mas parou de prestar atenção quando a personificação da beleza surgiu em seu campo de visão. Ele queria um pôster para colar em uma das paredes do quarto ou no teto, assim, dormiria olhando para aquele homem lindo e tão... Tão...
— 'Tá fazendo o quê? — Túlio se sobressaltou ao ver o movimento brusco que a mão de Dionísio fez.
— É o Werner! — Oras, ele estava acenando. Algo leve, delicado feito uma Miss na passarela, chamando a atenção de todos os pares de olhos presentes no salão.
— É, é ele. Nos encontramos mais tarde. — O jornalista se juntou ao namorado, não sem antes pensar que se o outro não queria passar vergonha, estava começando da maneira errada. Ele era uma figura.
Uma figura sem noção que apressou o passo para alcançar o escritor que, até o momento, não o tinha visto. Ele parecia um pouquinho enfadado com toda aquela gente ao redor e buscava sempre pelo filho que brincava com uma garotinha e com a babá na outra extremidade do recinto. Tão fofo todo preocupado. E quando os olhos dele o encontraram em meio aos vários convidados, Dionísio sentiu as pernas falharem naquele velho clichê que o acompanhava desde quando assistiu a primeira entrevista do escritor.
— Nico! — O sorriso nunca foi tão grande naquele rosto, evidenciando as covinhas nas bochechas e mostrando o dente torto o qual ele tanto abominava. O que não importava no momento, afinal, sorrir era a única coisa que conseguia fazer ao olhar para o monumento de cabelos castanhos claros e barba desenhada que exibia uma surpresa divertida ao encará-lo de volta.
— Nico...? — O escritor verbalizou a surpresa ao ser chamado de maneira íntima e que remetia a sua infância.
— É bonitinho. Combina com Dio. — O sorriso perdurou e ele nem mesmo percebeu a bobagem que dizia. — Eu posso te chamar assim, né? — O tocou no braço, sendo ainda mais íntimo e invasivo que antes. Não era bem no braço que queria colocar as mãos, mas, devagar e sempre. Um dia, quem sabe, ele não colocasse os dedinhos ali mais para baixo. Quem sabe.
— Por que não? — Nicolai soou com o ar despreocupado, já longe do enfado de momentos antes. A simplicidade e espontaneidade do rapaz de olhos azuis, beirava o contagiante. E se precisava de alguma coisa naquela noite, era sentir-se leve antes de retornar à pressão da editora e da imprensa. — Não quer se sentar? — Fez um gesto para a cadeira ao lado da sua.
— Do seu lado? — Dionísio não guardou o espanto e acabou chamando a atenção de quem estava ao redor, mais uma vez. Discrição não era algo que fazia parte de seu vocabulário. — É que... A sua família pode não gostar. — Encolheu os ombros de um jeitinho adoravelmente acanhado. — Ou a sua namorada. — Ergueu os olhos, buscando alguma reação no rosto esculpido por anjos artesãos.
— Namorada? — Nicolai teve sim uma reação, a de franzir o cenho e jeitar os óculos sobre a ponte do nariz.
— Bianca. Foi o que Túlio disse. — Não, não foi, mas ele estava jogando verde. Mas também, era óbvio que aquele homem teria alguém e que a pessoa seria tão bonita e refinada quanto a loira metida que ficava desfilando pelo salão.
— Fez amizade com o Túlio? — O escritor pareceu desconversar do assunto anterior ao se sentar e insistir com mais um gesto para que o rapaz se sentasse ao lado.
— Eu o encontrei na entrada. Moço simpático. — E se não fosse por ele, ainda estaria lá fora, remoendo a tragédia de ser impedido de entrar e desfrutar de tudo o que tinha direito naquela noite. — Mas e então? Você tem namorada? — Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa e prendeu os olhos aos castanhos, inquisidores. — Não que eu me interesse, digo! — Atrapalhou-se com os talheres que caíram para o chão. Ô desastre! — Eu não me interesso no sentido sexual, sabe? Não! É só como fã mesmo! — Que diabos estava falando? Sentido o quê? — Esquece! Eu não perguntei nada! — Balançou as mãos em negativa ao pegar a faca e o garfo do chão.
A noção do ridículo, até mesmo ela havia saído correndo das baboseiras que ele dizia. Como podia alguém ser tão atrapalhado em menos de dois minutos? Se pudesse enterrar a cabeça na terra tal qual aquele pássaro gigante, ele... Provavelmente nem terra encontraria, dada a maré de sorte em que surfava.
— Você deve me achar meio maluco. — Comentou com um sorriso amarelo ao mirá-lo com o canto dos olhos.
— Eu não diria maluco. — Nicolai o ajudou com os talheres, perdendo o prender de respiração quando os dedos tocaram nos dele. — Diria divertido. Alegre. Espontâneo.
— Assim soa bem melhor. — O sorriso retornou e os olhos chegaram a se apertar. — Sabe, se você quiser, pode ir lá na cafeteria onde eu trabalho. — Era um assunto um tanto melhor e ao ver a xícara enfeitada ser levada aos lábios de Werner, lembrou-se que ele era também um amante daquela preciosa bebida que garantia seu sustento. — O meu café é muito melhor do que esse aí. — E a modéstia passava longe quando o assunto era aquele.
— Agora fiquei curioso pra provar o seu café. — Werner jamais abriria mão daquela bebida, e em suas viagens, sempre descobria novos sabores e acabava se surpreendendo com a variedade e qualidade cafeeira de cada região. E Dionísio parecia ser capaz de surpreendê-lo de uma maneira positiva.
— Só o café? — Não havia malícia na fala de Nicolai, mas isso não impedia Dionísio de vir com mais um daqueles absurdos do qual sentiria vergonha mais tarde. Ou minutos depois.
— E o que mais você tem pra eu experimentar? — Curiosidade não era algo que fazia parte de seu cotidiano, mas ali estava ele, curioso em relação ao fã. Fã e anjo da guarda do filho.
Ah, ele tinha! Dio tinha muitas coisas que aquela boca sexy precisava experimentar, mas não era como se pudesse enumerá-las. Era um jantar de família, negócios e outras discussões saudáveis, nada de coisas proibidas para menores de 18 anos.
Apaga esse fogo, Dionísio!
— Doces! — Respondeu depois de mais uma meia dúzia de pensamentos impróprios. — Tem várias opções. O pirra... O Raffaelo vai adorar. — Buscou o garotinho com os olhos e o encontrou com a doida da mulher que pensava ser a namorada do Werner. Ou será que era mesmo?
E agora ela estava vindo em suas direções.
Era como a bruxa que afastaria a princesa do príncipe encantado.
Mas Dionísio não era uma princesa.
E não sabia se isso era algo bom ou ruim no fim das contas.
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