Doces Palavras

12 Capítulo 12 ஃ "Um pouco de empatia"


Notas iniciais
Boa noite, galera! Tudo bem com vocês? Espero muito que sim! Bem, vamos aos agradecimentos O/ Agradeço a todos que favoritaram a história, que colocaram nos acompanhamentos e que comentaram no capítulo passado: Jeslaly, Black Magic, sabrinavilanova, Nanami, Mahii, princesa de jade, JaeBerry, Nilla e AnaBia ♥ 'Cêis são demais! Agradecimento especial a Babs, parceira de escrita e amiga ♥ Como sempre, ela me aguenta nos surtos e me dá muitas ideias pro enredo O/ E ELA RECOMENDOU A FIC! É uma recomendação tão doce e fofa ♥ Obrigada de novo, mana! Eu amei! Bem, galera, espero que vocês gostem do capítulo! Eu ri demais com os comentários passados. Teve gente meio que acreditando que essa cena final podia muito bem ser uma viagem do menino Dio com o Werner, e teve gente questionando se o Nico é ou não um velhote XD Boa leitura, nenéns ♥

Capítulo 12 — Um pouco de empatia

A admiração que Dionísio nutria por Nicolai, chegava a ser febril. A expectativa nos grandes olhos azuis, era palpável no cintilar úmido direcionado aos esverdeados do escritor.

Ele continuou parado, mesmo quando os dedos de Werner deixaram os lábios e ele comentou qualquer coisa sobre o sabor do glacê. Em seguida o ouviu pedir desculpas, tal qual uma criança que não podia ver doces, pois não controlava a vontade de provar.

Certo, ele o havia tocado na bochecha até o canto dos lábios… Somente por impulso? Podia muito bem ser aquela a realidade, mas Dio gostava muito mais da ideia de Nicolai estar interessado em sua pessoa, a ponto de ser ousado e em seguida soar desconsertado por tal ousadia. Que fofo ele era.

Ainda o encarava como se ele fosse a melhor coisa do mundo. Melhor que chocolate belga e melhor que seu café. Não havia o que pudesse dizer sem que soasse estúpido e atrapalhado, então, o encarava com uma adoração que beirava à divina, com o rosto elevado e as mãos se desmanchando no avental.

Além de todos os fatos já citados, ele estava paralisado e com os batimentos cardíacos em disparada.

Podia jurar que havia coraçõezinhos palpitantes sobre suas cabeças, mas não tinha muita certeza de qualquer coisa depois de tudo. Só sabia que, se não tomasse cuidado com os próprios impulsos, acabaria derrubando aquele homem sobre o balcão, montaria sobre os quadris dele e…! Não! Seus pensamentos +18 eram irritantes e inconvenientes. Aquele era um momento fofo, digno de alguma cena de um dos livros de Werner. Era melhor que buscasse rápido por algo bacana para quebrar a tensão que, infelizmente, vinha somente de sua parte.

— Foi como se a gente tivesse se beijado… — Desenrolou a língua, sendo, como sempre, um inconveniente que não sabia como controlar as falas vergonhosas.

Werner o havia beijado indiretamente e ninguém tiraria isso de sua cabeça.

— Dionísio…

Dio não chegou a saber o que Nicolai falaria logo após seu nome, pois no instante seguinte a porta se abriu e eles agora tinham plateia.

A primeira reação foi dar alguns passos de distância e tentar recuperar alguma dignidade e postura. Estava uma lástima! Agora ele sabia, mas não era como se fosse ter tempo para ficar apresentável ao olhar avaliativo de Dona Flora, a proprietária da cafeteria. Ao lado da mulher com expressão séria e de estatura mediana, estava Leonel, armado de uma expressão culpada.

— Dona Flora, eu—

Dionísio começou, lutando para não gaguejar. Sentia que o rosto estava em chamas e sentia que estava enrascado por ser imprudente. Havia esquecido completamente que a patroa chegava por aquele horário, trazendo informações sobre encomendas e novos produtos para o preparo de novas receitas. Ela era uma mulher realmente séria. Gostava de todas as coisas no lugar e não tolerava que a desobedecessem. A Doce Aroma era herança de família e cuidava para que o estabelecimento jamais perdesse a qualidade e o bom atendimento. Além da boa fama como um estabelecimento familiar.

Flora havia confiado em si, mas pelo olhar que ela lhe direcionava, a confiança havia acabado de ruir.

— Nós só estávamos conversando. — Nicolai tomou a palavra, desencostando-se do balcão e ficando ao lado de Dionísio que, ele notou, estava realmente constrangido. — Perdão se invadi a sua cozinha, não foi a intenção que—

— Dionísio sabe muito bem o que eu penso sobre esse tipo de conduta. — Flora interrompeu, soando severa. — Gostaria de pedir que o senhor se retire. — Indicou a saída. — É horário de trabalho e o Dio tem muito o que fazer.

Nicolai buscou o olhar de Dionísio e o encontrou observando os pés. Sentiu-se mal por ser ele a protagonizar aquela cena e passou os dedos entre os fios castanhos.

— Eu só não quero causar problemas para o Dionísio. — Enfatizou, lançando olhares de preocupação ao barista. — Ele não é culpado e eu peço novamente desculpas por essa situação.

Flora suspirou, mas balançou a cabeça em concordância, aceitando o pedido de desculpas do homem que, ela não deixou de notar, era muito atraente, mas era bem uns anos mais velho que seu funcionário.

Com um último olhar em direção a Dionísio, encontrando agora os azuis cravados aos seus, ele buscou passar com os olhos que o rapaz poderia contar com ele caso algo desse errado. Estava se sentindo constrangido também. Oras, era um homem feito, maduro e de atitudes sóbrias, mas, de repente, estava na cozinha de uma cafeteria enquanto provava do glacê do rosto do garoto com quem tinha ido apenas conversar e esclarecer uma ou duas coisas.

Com os lábios em uma fina linha rígida e a expressão desgostosa de quem sabia que aquilo não teria um final feliz, segurou no braço do loiro na entrada da cozinha e fez um sinal para que ele o acompanhasse.

Restaram então Dionísio com um profundo constrangimento e dona Flora com sua expressão marcante e que prometia uma séria conversa.

— Eu acho que o seu irmão se ferrou…

Yuri teve a atenção tomada pela fala do ruivo, virando o rosto para encontrar as sardas que decoravam as bochechas e o nariz do Cooper. Ele não era idiota, não precisava do geniozinho para dizer-lhe o óbvio e irritou-se com o sorriso sarcástico que se desenhou nos lábios dele.

— Te perguntei alguma coisa? — O fuzilou com o olhar estreito que assemelhava-se a um céu nublado. — Você devia ter um pouco de empatia, mas eu duvido que essa palavra exista no seu vocabulário.

Anthony torceu os lábios para a frase de Yuri. Claro, como se aquele infeliz fosse detentor da tal da empatia. Era bem o caso onde o sujo falava do mal lavado.

— O seu irmão procurou. — Deu de ombros. — E conhecendo a fama que ele tem—

— 'Tá falando do quê? — Yuri apertou os punhos e sentiu uma veia pulsar no pescoço, só de imaginar o que o desgraçado alegaria sobre Dionísio. E mesmo assim, ele queria ouvir, afinal, precisava de mais motivos para quebrar a cara daquele babaca. — Que fama?

O ar risonho e provocativo, tomou as faces de Anthony e ele estalou a língua no céu da boca antes de voltar a falar.

— A fama de ser fácil, você sabe. — Comentou de maneira casual, embora o único motivo fosse irritar o moreno, estava somente repetindo o que ouvia por aí. — O seu irmão troca de homem como eu troco de meias. É o que dizem. — Ergueu as mãos quando o outro fechou ainda mais a expressão. — Certeza que ele arrastou o Werner pra cozinha pra se insinuar pra ele.

As palavras ferinas, Yuri sabia, eram somente para tirá-lo do sério. O pior é que o filho da mãe sempre conseguia. Anthony acabava com sua paciência de maneira veloz e assustadora. Bastava alguns minutos ao lado do típico riquinho babaca e pronto, lá se ia a pouca paciência que lutava para conquistar.

Yuri não era a melhor das pessoas que se tinha notícia. Ele vivia se metendo em confusão, omitia a idade para frequentar certos lugares, envolvia-se com gente ruim e fazia a mãe passar por poucas e boas quando decidia dormir fora sem avisar. Ele não era a melhor das pessoas e estava pouco se fodendo para a boa conduta e regras sociais, mas ele não suportava que abrissem as malditas bocas para falarem mal de sua família, as pessoas com as quais ele realmente se importava.

E Dionísio, era um de seus maiores motivos para meter-se em brigas.

Quando o pai abandonou a família, alegando que a esposa fizera do filho uma bichinha, Yuri estava lá, ouvindo tudo, espiando a confusão pela fresta na porta enquanto os irmãos menores se abraçavam a sua cintura. Ele quis muito sair daquele quarto e contestar tudo o que o pai jogava na cara da mãe, mas Monalisa tinha as faces manchadas por lágrimas e Virgílio sentia medo do que poderia acontecer se o mais velho afrontasse o pai.

Ele tinha doze anos na época, certamente apanharia ao ir com ira para cima do homem que vomitava aquele bando de palavras horríveis em cima da esposa, mas ele não se importaria de levar uns sopapos contanto que o fizesse dar logo o fora dali. Mas seu maior desejo, era que ele percebesse o quanto aquilo podia magoar e deixar feridas difíceis de cicatrizar.

O papel dos pais não era apoiar os filhos, dar amor, aconselhar, preocupar-se e lutar para que eles tivessem uma vida decente e independente? Pois o pai acabava de mostrar da pior maneira que não era bem assim. De fato, o casamento já não era dos melhores. Eles viviam discutindo, embora Regina fizesse parecer que estava tudo bem. O estopim, veio com a descoberta da sexualidade do filho mais velho.

E ele dissera palavras tão duras para Dionísio, que sua maior vontade foi correr para confortar o irmão que, ele sabia e jamais duvidaria, era uma ótima pessoa. O mais velho dos Barelli, era um cara incrível, por mais que muitos insistissem em dizer o contrário e as piadas ridículas partissem de todos os lados. Yuri confiava plenamente na índole do irmão e o defendia com unhas e dentes, afinal quando a primeira merda do que era ser um adolescente aconteceu, Dionísio foi quem o amparou e ficou ao seu lado.

E por tudo o que ele representava, não suportava que ficassem de risinhos e o difamassem por aí. Sua maior vontade no momento, foi derrubar o ruivo cheio de preconceitos e palavras afiadas no chão e socá-lo até que ele retirasse o que havia dito, mas conseguiu pensar racionalmente e chegou a conclusão de que ferraria de verdade com o emprego do irmão se brigasse na cafeteria.

Mas estava irado com o babaca sorridente.

Infelizmente, socá-lo até que entendesse uma ou duas coisas sobre a própria babaquice, não era a mais funcional das opções. Infelizmente.

— Sem argumentos? — O ouviu perguntar, sentindo uma odiosa satisfação nas palavras. — É, realmente não dá pra defender o Santo Dionísio.

E enquanto ele tagarelava, ocorreu que poderia sim fazer alguma coisa e deixá-lo tão puto quanto ele o havia deixado.

Tinham pedido mais café, e as xícaras ainda estavam cheias. Por que não…? Uma delas foi pega sem cerimônia e virada de uma vez sobre o teclado do notebook caro do ruivo, a segunda teve o mesmo destino.

Aquilo sim era satisfatório.

Os olhos de Anthony nunca pareceram tão grandes e espantados como ficaram após aquela cena de terror. Sentiu um fogo subir por suas faces naturalmente avermelhadas e crispou os lábios, mergulhado em raiva como o teclado estava mergulhado em café.

— Seu filho da puta! — Esbravejou ao pegar o computador, enchendo o teclado com lenços de papel para tentar salvar o aparelho. — O trabalho...! — Rosnou ao testar as teclas e comprovar que nada funcionava.

— Foda-se o trabalho e foda-se você também! — Yuri deu zero importância aos surtos do ruivo. Não esperou que ele inventasse de tentar brigar, levantou-se e seguiu em direção a porta. — Você paga a conta. — Foi o que disse antes de sair da cafeteria e caminhar para a calçada, sumindo das vistas do Cooper, mas não sem antes mostrar ambos os dedos do meio em um gesto bem infantil.

Trabalho em dupla era uma merda e ele não era o maior fã dos estudos.

A única coisa em que pensava, é que teria que arranjar o que fazer, caso Dionísio fosse chutado do emprego.

— Dona Flora, por favor. Eu preciso muito desse emprego.

Dionísio estava tão arrependido por ficar prostrado feito idiota em frente a Nicolai, agindo como se protagonizassem uma cena de romance que só existia em sua cabeça. Se o tivesse agradecido por ter ido pessoalmente dizer que era melhor dispensarem o passeio devido a toda repercussão que aquela foto havia gerado, a patroa não os teria pego em flagrante e não o estaria olhando com aqueles olhos julgadores envoltos em muito rímel e lápis preto.

— Eu jamais traria um homem aqui com esse intuito. — Defendeu-se das palavras anteriores, sentindo-se até mesmo indignado por ela supor que ele era desse tipo, que não respeitava nem mesmo o ambiente de trabalho.

— Não foi o que eu acabei de ver. — A mulher foi dura no tom. Ela não queria julgá-lo, mas não estava supondo nenhuma situação, havia visto aqueles dois muito próximos e em uma cena suspeita na cozinha de seu estabelecimento. Não havia defesas para algo assim. — Um homem mais velho com o meu funcionário, tão próximos que eu pensei que iam se beijar. Ou quem sabe, vocês não estivessem se beijando antes de eu abrir a porta e surpreendê-los.

Dionísio quis rir, mas o assunto era sério e preocupante. Quisera ele estar aos beijos com Nicolai, mas a realidade era bem diferente do que Flora imaginava. Ele havia errado sim, mas não era como se estivesse aos amassos na cozinha do lugar onde trabalhava.

— Era só uma conversa. — Falou novamente, tentando fazê-la entender. — Ele já estava de saída e não foram nem cinco minutos, eu juro. — Talvez fossem seis, mas ela não precisava saber.

— Que assunto importante, não é mesmo?

Ela falava como uma mãe repreendendo um filho e fazia suposições silenciosas a respeito do que havia encontrado.

— Você sabe como as coisas funcionam por aqui, Dionísio. — Um suspiro deixou os lábios pintados de vermelho. — Trouxe um homem para… Para fazer sabe-se lá o quê nessa cozinha.

— Não! — Dio se apressou em negar. — O Nicolai é uma figura pública, ele não se prestaria—

— É o homem com você na foto. Eu percebi. — Ela novamente o interrompeu. — Estão dizendo umas coisas bem ruins a respeito disso. Eu sei que são boatos, mas hoje eu chego e pego os dois em uma situação suspeita. O que acha que eu estou pensando?

Dionísio se limitou ao silêncio. Sabia o que ela pensava.

— E existem outros detalhes. — Flora continuou. — A porcelana quebrada, os doces no chão. Você as vezes parece que está no mundo da lua. — Um novo suspiro e agora o olhar se desviou do rosto do barista.

Sempre acabava estragando tudo e não estava surpreso, somente decepcionado com o quão péssimo e trapalhado ele conseguia ser. E não era somente no trabalho, era na vida.

— Eu sinto muito.

Ela podia sentir, mas não muito.

Não como ele estava sentindo. Como se algo já muito frágil, houvesse se partido de vez.

Com o mínimo da força de vontade que sempre exibia por aí, ele deixou a cozinha ao dedicar um aceno de cabeça a proprietária.

Havia passado um tempinho sem ter um dia tão ruim como aquele, mas parece que as coisas voltavam a ser como antes.

O primeiro destino foi o banheiro, onde refrescou o rosto e se limpou. O reflexo não estava dos melhores, mas precisaria fingir se não quisesse preocupar a família.

A família que também dependia dele.

Leonel não soube o que dizer no momento.

Ele atendia uma dupla de garotas quando Dio deixou a cozinha e seguiu para o balcão. Percebeu de imediato que a conversa com dona Flora havia sido péssima e que o amigo tentara disfarçar a expressão cabisbaixa ao lavar o rosto e ajeitar os cabelos. Os olhos sempre vivazes, estavam entristecidos e o sorriso que ele lhe direcionou, não chegou a alcançá-los.

Quis largar as clientes e confortá-lo, mas também precisava daquele emprego. Anotou os pedidos das meninas que cochicharam algo a seu respeito e caminhou até onde Dionísio fingia ler o cardápio.

— Isso é injusto. — Comentou com a expressão fechada ao passar os pedidos para ele. — Você não fez nada. Se eu disser a ela que—

— É melhor não. — Dio suspirou. As mãos estavam trêmulas devido ao nervosismo, mas concentrou-se em não deixar a porcelana ir ao chão ou pioraria as coisas e somente confirmaria o que ela havia dito. — É uma decisão irredutível, segundo ela mesma.

— Essa mulher endoidou. — Leonel exasperou, mas tomou cuidado para que a patroa não o escutasse ou seriam os dois chutados para a rua feito cães. — Você precisa desse emprego, ela sabe disso. E não houve um motivo pertinente pra te demitir.

— Não foi só isso. Ela alegou umas coisas sobre a foto, sobre eu ser desastrado e derrubar tudo o que tenho nas mãos, essas coisas. — Deu de ombros, fazendo parecer que não se importava com as palavras ou mesmo com o fato de agora ser um desempregado.

— Dio…

— Eu 'tô bem. — Um sorriso surgiu quando mirou os olhos no rosto pálido do loiro. — Eu vou procurar outra coisa, quem sabe o meu charme atrapalhado não conquiste um bom emprego. — Piscou um dos olhos e passou o pedido na bandeja, voltando a atenção para o cardápio em seguida.

— Por que não fala com o Werner?

Os olhos se ergueram novamente, encontrando as costas do loiro quando ele se virou para ir atender as clientes. Esperou que ele retornasse e o encarou de maneira séria.

— Eu não quero incomodar. Esse assunto é meu. Já dei trabalho demais pro meu escritor favorito. — Ele tinha verdadeiro pavor de incomodar qualquer pessoa com seus assuntos e problemas pessoais. Nico não queria que se encontrassem devido a repercussão daquela foto. Ele concordava que era o sensato a se fazer.

E ele devia ser capaz de resolver os próprios problemas.

— Não é questão de incomodar, Dionísio. Ele tem participação nessa coisa toda. — Leo queria enfiar aquela ideia na cabeça do amigo, mas Dio era uma pessoa difícil de fazer mudar a opinião. — O cara tem condições de te arranjar um emprego bacana e não precisa de esforço pra isso, só precisa do nome. — E não estava cogitando algo como se aproveitar da situação. O amigo havia salvo a vida do filho do escritor, Nico tinha uma eterna dívida com ele. — Ele deixou um cartão comigo, disse que era pra ligar se as coisas dessem errado. — Indicou um cartão preto sobre o balcão, ao lado de um bule decorativo. Era por esse motivo que Nicolai o havia praticamente arrastado com ele para fora da cozinha. — Ele quer ajudar.

Dionísio vagou os olhos pelo cartão e optou por dar um fim no objeto. Antes que Leonel conseguisse ter posse sobre ele, seus dedos já o rasgavam e os pedacinhos surgiam para serem abrigados no bolso dos jeans que usava.

— É melhor assim. — Ditou sob o olhar descrente do loiro. O amigo parecia prestes a chacoalhá-lo pelos ombros. — Eu vou dar um jeito nisso, Leo.

Leonel não duvidava que ele tentaria, mas as coisas andavam tão difíceis, que temia que o amigo não conseguisse arranjar um bom lugar para trabalhar.

E Dionísio podia dizer quantas vezes quisesse que estava bem, ele não estava.

— Esse é um péssimo comportamento. — A voz fina e estridente sobressaiu nos sons de talheres e passos dos empregados. — Estou decepcionada. O que direi as minhas amigas? — Ela bateu as unhas pintadas contra a mesa e os pés contra o assoalho de madeira. Estava assim desde muitas horas antes, pois recebera uma ligação do colégio referente a um desentendimento com um colega do filho que acabou terminando com um professor de olho roxo. E Anthony não havia lhe contado nada sobre esse assunto pavoroso.

— Suas amigas fúteis não se importam com isso. — O marido contrapôs, recebendo um torcer de lábios da esposa. — Mas o seu filho é uma decepção. — Os olhos verdes em um tom mais escuro que os do filho, não se ergueram para mirarem na direção do rapaz que movia o garfo distraidamente pela comida no prato. — Não estou surpreso. Seu lado da família sempre foi uma fábrica de inúteis.

Diana irritou-se com aquela fala e não escondeu o desgosto. Quando o filho recebia medalhas ou trazia um boletim recheado de notas azuis, o marido limitava-se a dizer que ele não fazia mais que a obrigação, mas não esfregava em sua cara aquela péssima frase. Ela empertigou-se na cadeira e experimentou da taça com vinho branco, mirando o filho caçula com os olhos castanhos.

— Esse tipo de situação desprestigia o nome da família. — Ela retomou a fala. — Não sei o tipo de pessoa com quem está andando, mas sugiro que pare antes que fiquemos mal falados por aí.

Era, de fato, o que realmente importava para a mãe. Ela tinha um círculo de amizade que Anthony não cansava de pensar no quanto era ridículo. Era como naqueles filmes antigos de comédia, onde um grupo de mulheres ricas juntavam-se para projetos de caridade que, ele bem sabia, era somente uma fachada para discutirem sobre qual delas era a alma mais generosa da cidade. Não achava que era válido se faziam somente para manter qualquer aparência, mas dava pouca importância aos assuntos de Diana.

Já com o pai…

Podia contar nos dedos quantas vezes ouvira qualquer palavra de incentivo saindo da boca dele. Talvez fizesse tanto tempo que sequer conseguia recordar. Se é que algum momento assim havia existido entre eles. Segundo o pai, ele o criava como havia sido criado, da mesma maneira, para que se tornasse um homem de fibra; líder nato que herdaria os negócios da família e prosseguiria com a linha de sucessão dentro da empresa. Era um papo cansativo aquele, mas buscava agradar ao patriarca sempre que solicitado para discussões sobre o futuro, sobre sua conduta, sobre educação e sobre como se impor diante dos empregados ou mesmo com as mulheres.

Sobre o último ponto, ele não levava muito em consideração.

E ainda havia a irmã, mas com essa, mal conseguia uma conversa por mais de dois minutos. Arabella era uma pessoa pública nas redes sociais, vivia tirando fotos e fazendo propagandas de produtos famosos ou trabalhando como modelo. Muitas vezes ela chegava a ficar meses fora de casa, viajando com os amigos e o namorado pelo mundo.

No fim, tinha um péssimo relacionamento familiar, mas um ardente desejo de agradar ambos os lados e ser o que chamavam de orgulho da família.

Certo, havia perdido esse posto desde muito tempo.

Um suspiro deixou os lábios quando ouviu a mãe perguntar se ele prestara atenção no discurso estúpido que ela insistia em soltar sempre que ele saía da linha. A tênue linha entre ser um bom filho e um vagabundo sem futuro com os quais ela o comparava. Se para as amigas dela ele era o filho perfeito, das notas mais altas e com o melhor comportamento o qual se tinha notícia, cara a cara ela não deixava um traço de sua personalidade errônea passar.

— Vou subir. — Limitou-se a dizer, já que se os deixasse sem dizer uma palavra, seria obrigado a ouvir mais que um sermão da mãe e receber o olhar repleto de descontentamento do pai. — Tenho trabalho de literatura pra fazer. — Deixou claro, antes que Diana inventasse os mais variados motivos para ele fugir para o quarto.

E ela estava certa, ele estava fugindo.

— Boa noite. — Deu as costas aos dois e caminhou com pressa para as escadas. Ao menos no quarto ele teria alguma privacidade.

Mas mesmo assim, decidiu trancar a porta.

As costas se apoiaram na cadeira giratória e uma das pernas se ergueu, deixando o pé apoiado no assento de couro enquanto o computador ligava. Estava mesmo pensativo depois de tudo, embora a raiva não houvesse passado e certamente demorasse a passar. Os olhos verdes ainda irritados, passearam pelo notebook inutilizado sobre a cômoda e os lábios se tornaram uma linha fina.

Aquele filho da mãe! Tudo porque havia simplesmente comentado sobre o assunto tão banal quanto as coisas que diziam a respeito do irmão dele.

A maneira como Yuri o encarou e defendeu o irmão mais velho, foi isso que o fez parar com o andamento do novo trabalho de literatura e pensar na própria família.

Pensou se a família o defenderia assim, caso alguém vomitasse palavras ruins a seu respeito. Os olhos do colega ficaram irados com a menção da fama do barista, o que o fez perceber que havia tocado em alguma ferida antiga e mostrou o quanto ele se importava com o irmão.

Não foi difícil constatar que não, que nem a mãe, a irmã ou o pai o defenderiam daquela maneira. Ele próprio chegou a pensar que também não os defenderia com a mesma ferocidade. Talvez ficasse irritado, mas logo esqueceria o assunto e seguiria com a vida.

De repente, defender a honra de quem se amava de verdade, pareceu tão… Admirável.

Ainda sentindo-se estranho e com um gosto amargo de decepção na boca, buscou pela mochila que costumava levar para o colégio. Encarou o interior cheio de materiais antes de puxar o livro de capa amarela para fora e colocá-lo sobre a mesa de estudos. Os dedos roçaram pela lombada e afastaram a capa. O autógrafo de Werner estava ali, tornando seu livro favorito ainda mais especial.

Não era somente um romance, era uma história sobre superação, sobre a visão do mundo aos olhos de uma criança e sobre crescer em uma situação atípica e, mesmo assim, não desistir. Quando Não Houver Mais Amanhã, era pura poesia com toques de fantasia referente a imaginação infantil. Era seu livro favorito e apegou-se a ele desde o primeiro momento, quando o viu na vitrine de uma famosa livraria no centro da cidade.

Aquele livro o havia salvo de muitas maneiras.

E diante de todas as coisas especiais que para ele tinham um apego emocional, havia ainda uma inscrição peculiar e com letras até bonitas para a idade de quem as havia escrito ali.

Yuri era um babaca. Havia riscado seu livro favorito…

Passou alguns momentos encarando o coração torto acompanhado de um ridículo pedido de desculpas que o fizera querer esganá-lo na época. O filho da mãe era um debochado desde que se entendia por gente.

E desde que se entendia por gente, aquela simples frase o fazia se sentir bem consigo mesmo.

Quando resolveu fechar o livro e dar atenção ao monitor, decidiu fazer algo o qual provavelmente se arrependeria depois, mas, no momento, faria mesmo assim.

Notas finais
Gostaram? Olha, tivemos a continuação da cena final, porém, não terminou muito bem... =/ Dona Flora tá irredutível e não facilitou nada pro nosso Dionísio. Nico até quis ajeitar as coisas, mas achou melhor sair, a ousadia dele já causou certos problemas. Eita, olha os nossos adolescentes em conflito. Gente, eu sou uma autora apaixonada pelo Yuri, sério, na verdade, eu quero muito cuidar da família Barelli no geral, mas o Topete boy tá sendo o meu amorzinho por vários motivos. Vimos um pouquinho do que rolou quando o "pai" fez aquela cena horrível e abandonou a família, Yuri ainda sofre com isso, talvez até mais que o Dio =/ E ele jamais deixaria alguém falar mal do maninho sem fazer alguma coisa. E ele fez, né? Então a conversa irredutível com a patroa e Dio foi mesmo demitido D: Leonel bem quis fazer ele se comunicar com o Nico, mas o Dio não quer incomodar e não vai. Por último, vimos um pouco da família do ruivo e, mds, ô gentinha desnecessária essa! MAS! O fim foi até bonitinho, com o Tony pensando sobre o livro com o autógrafo e com a mensagem do Yuri ♥ Morri de amores com esse detalhe. Tony é um babaca, mas ainda tem conserto * fé * Espero muito que tenham gostado! Bjuss e até os próximos capítulos!