Doces Palavras
13 Capítulo 13 ஃ "A gente vai dar um jeito"
Notas iniciais
Capítulo 13 — A gente vai dar um jeito
O que tocava nos fones de ouvido naquele fim de tarde, era a intitulada playlist da bad. Eram muitas as músicas nas quais ele incorporava os próprios cantores, imaginando-se naqueles clipes tristes onde o protagonista observava a janela de alguma condução em imagens preto e branco. Era exatamente assim que se sentia naquele momento, mas não estava observando a vida passar através de uma janela, o ônibus ainda não havia chegado e ele continuava no ponto, sentado no banco de concreto, usando capuz e admirando a tela quebrada do celular enquanto a audição se enchia com uma música de uma das suas cantoras favoritas.
A canção era sobre amor, mas ele ignorava essa parte e se focava na tristeza e no desespero que se pareciam muito com o que ele estava sentindo.
Não era nada bacana ouvir o quanto você era inútil naquilo que se dedicava a fazer e que acreditava que fazia ao menos de uma maneira aceitável. Dona Flora havia sido comedida nas palavras, mas ele sabia o que ela pensava sobre ele ser um desastre até mesmo para respirar. No fim, ela estava certa e o sensato foi mesmo dispensá-lo. Qualquer outra pessoa que ela colocasse em seu lugar, faria um melhor papel, e ele tinha a plena certeza, tal pessoa jamais seria dispensada por um motivo tão estúpido.
Qual é?! Nem ele e nem o Werner estavam em um momento íntimo naquela cozinha – o que era mesmo uma pena –. Mas se parasse para pensar a respeito do que se desenrolara na conversa com o escritor, chegaria a certeza de que Nico correspondia o seu amor platônico. O cara o tinha beijado indiretamente!
Quase suspirou com a lembrança do toque dos dedos do mais velho em sua bochecha. Céus! O que aqueles dedos fariam em outras partes de seu corpo? Ele não queria pensar muito sobre as cenas exclusivas para adultos, mas ainda era melhor que voltar para a realidade e perceber o quanto era um inútil.
Flora estava mesmo certa.
E ele estava viajando naqueles pensamentos impróprios uma vez mais.
— Dionísio, meu filho, você não aprende mesmo. — Murmurou em frustração, colocando a música em loop.
Havia sido chutado de um bom emprego por aquele tipo de pensamento; Idealizar uma vida onde ele e Werner juravam amor eterno. Era nada sensato e nada recomendável para o horário de trabalho, mas não era culpa sua se…
Oh, certo, era culpa sua, sim. Apenas sua.
Outro suspiro de frustração e o ônibus finalmente chegou.
Só para se afundar de vez junto com a playlist memorável, ele correu infantilmente para um assento ao lado da janela.
Agora sim, estava em um clipe triste, mas guardaria as lágrimas ou não conseguiria disfarçar quando a mãe perguntasse o motivo de ter borrado a maquiagem.
Ah, ele não usava maquiagem.
— Você não é uma diva do pop… Infelizmente.
Naquela noite, ele não era nada. Leonel bem que tentou animá-lo e o loiro era péssimo em qualquer tipo de conforto e sentimentalismo, mas valia a intenção. Ele podia ter ido para o apartamento do amigo, mas queria ficar um pouco sozinho e refletir sobre a própria estupidez. E pensando bem, Leonel tinha sido um ser humano muito fofo e preocupado e não queria contagiá-lo com seu humor amargo.
Nos últimos dias, coisas boas tinham acontecido, mas agora era como se de nada valessem. Sem emprego, o sorriso de seu escritor favorito não tinha muita importância. E Werner era somente simpático com todos os fãs, não haveria nenhum clichê do cara rico e famoso se encontrar apaixonado pela pessoa atrapalhada e pobre. Aquilo estava fora de questão, mas seu cérebro insistia em formular mil e uma cenas onde os dois estavam juntos e felizes, com ternos brancos e sendo recebidos por uma chuva de arroz.
Ele entraria na igreja com um buquê de rosas azuis.
Era por isso que agora estava jogado na sarjeta, chorando na rua da amargura e sem perspectivas para o futuro. Quem sabe se não pegasse um chapéu velho e o violão quebrado que tinha no quarto e inventasse de cantar, não alcançaria fama quando algum programa de TV o notasse. Não era uma má ideia, afinal, não tinha uma voz tão ruim assim. É, quem sabe. Não poderia descartar nada no momento de extrema dificuldade.
Mas não sabia tocar e sua voz era sim, muito ruim.
Cantar estava fora da lista de atividades que poderia fazer para conseguir dinheiro.
Quando o ônibus parou no ponto o qual sempre descia, percebeu que havia desperdiçado aquela gloriosa janela e se frustrou ainda mais. Não poderia ser ator também. Outra profissão descartada com sucesso. Era melhor continuar no café e ser apenas mais cuidadoso e centrado. Esse era o problema, parecia impossível conseguir mudar em tão pouco tempo.
Os passos arrastados o levaram pelas ruas iluminadas do bairro onde vivia. As luzes nos postes fazendo círculos amarelados no asfalto e trazendo as sombras das mariposas que flutuavam ao seu redor. Se tivesse qualquer talento para a dança, tentaria se agarrar a algum cano e girar como aquelas mulheres faziam, mas qual talento mesmo? Café seria sempre uma ótima pedida.
E enquanto pensava no café, observou uma figura alta caminhar em direção ao mercadinho do bairro, na esquina de sua casa. Se fosse alto como aquele homem e tão elegante quanto, tentaria carreira na moda, mas adorava comer e tinha uma estatura apenas aceitável. E céus! O perfume que ficou no ar, pagaria todos os seus boletos sem exagero. Não que fosse um cão, mas farejou o ar e ficou um tanto atordoado, pisando em falso.
E pisou em alguma coisa e se surpreendeu ao ver uma carteira branca com detalhes dourados na calçada. Parecia estar recheada de boas vibrações e era até mesmo capaz de ouvir o barulho de cifrões somente de olhar para ela, mas jamais ficaria com algo que não era seu.
Com a carteira na mão e as palavras “Cidadão de bem” piscando em neon sobre sua cabeça, empurrou a porta de vidro do mercadinho e buscou pela figura alta e elegante de perfume divino. Foi fácil de encontrá-lo, mas Dionísio fez uma pausa dramática ao encarar o homem de cabelos loiros amarrados em um rabo de cavalo e notar o quanto ele era bonito. Não bastava ser alto e rico, o infeliz ainda era bonito.
Pessoas muito bonitas eram um problema, mas ele precisava devolver a carteira e tinha certeza que ela só poderia pertencer ao desconhecido bonito que buscava por uma bebida em uma das geladeiras.
— Moço? — Chamou, cutucando-o no ombro e ficando sem ar por alguns momentos ao encará-lo de perto.
Como diria o Seu Madruga, filósofo contemporâneo: Que moço bonito. Que moço formoso. Que moço bem feito!
— Sim? — O próprio Adônis perguntou, franzindo levemente o cenho de mármore. — Você está bem?
Dionísio notou um sotaque diferente naquela voz e tentou não se apaixonar momentaneamente por um desconhecido em um mercado. Sua vida se resumia em rápidas paixonites por estranhos nos mais improváveis lugares e não queria aumentar a lista.
Ele estava bem? Não parecia uma resposta muito fácil e acabou se perdendo no estranhamento de achá-lo parecido com alguém e não era bem com um deus grego. O que era uma bobagem, pois a única pessoa realmente atraente que conhecia, era o Werner.
— Sim! — Respondeu por fim, sentindo o rosto esquentar em vergonha. O dia tinha sido em maior parte muito desmotivante, mas ver um rosto bonito dava um arzinho gostoso para a noite que passaria em claro. — Eu… Essa carteira é sua. — Mostrou o objeto, afirmando o dono.
Os olhos claros do homem loiro se surpreenderam ao encontrarem algo tão importante nas mãos de um estranho e honesto rapaz.
— Eu sou mesmo muito desatento. — O loiro comentou, um sorriso que parecia ser de alívio surgiu e trouxe dentes perfeitos à mostra. Ricos eram assim mesmo, tinham mais dentes do que podiam contar e todos muito brancos. — Eu nem sei como agradecer. Posso te dar uma recompensa, se isso não for te ofender.
Os dedos longos envolveram a carteira e quase se fundiram ao couro branco devido a palidez. Um simples gesto de pegar algo em mãos, ficava elegante naquele homem.
— Não precisa. — Dionísio acabou sorrindo também. — Eu já ganhei a minha recompensa. — Piscou um dos olhos, faceiro como se estivesse de paquera em alguma festa. O pensamento e a expressão do loiro causaram vontade de gargalhar, mas ele se conteve. — Boa noite. — Desejou antes de começar a caminhar.
— Posso ao menos te oferecer uma carona? — Ouviu novamente aquele sotaque e parou a caminhada.
— Eu moro nessa rua, é bem perto daqui, mas agradeço. — Deus o livrasse de estar com um desconhecido bonitão dentro de um carro. O cara podia muito bem ser um psicopata e fatiá-lo feito um peru para a ceia de Natal.
Era melhor correr ou se tornaria uma presa em potencial, já que não era muito bom em recusar convites por duas vezes.
Ao menos era um cara bonito em uma noite cheia de conflitos e crises existenciais. Pessoas bonitas, embora suspeitas, eram muito agradáveis e o deixavam flutuando no ar como as borboletas nas luzes dos postes.
Agora, só precisava ir para casa e agir como se o dia houvesse corrido de forma normal.
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Assim que alcançou a porta, ouviu os risos dos irmãos e sentiu-se miserável por não merecê-los. A família dependia dele também, já que se deixassem tudo nas costas da mãe, não poderiam arcar com as despesas.
A família contava com ele e daria um jeito de consertar aquela burrada sem que eles soubessem que foi dispensado e… Sentiu o coração saltar uma batida ao recordar que Yuri estava na cafeteria no momento em que as coisas aconteceram. Será que o irmão havia comentado com a mãe ou não dera tanta importância e confiava que ele fosse resolver a situação? Esperava pela segunda opção ou não saberia como encarar a mãe.
Forçando uma coragem que não existia, girou a maçaneta e encontrou os irmãos e a mãe assistindo a um filme e comendo pipocas. Imagina se iria estragar aquela bela cena familiar com sua estupidez e dramas...
— Vem sentar com a gente, Dio! — Mona chamou assim que os olhos pousaram no recém-chegado. Poucos momentos antes ela estava em uma disputa com a última almofada do sofá e o irmão de topete. — O Yuri fez pipoca doce! — A bacia foi erguida e o conteúdo um tanto queimado podia ser visto.
Yuri sequer direcionou os olhos aos seus e isso o deixou aliviado. Não queria encará-lo e talvez ele soubesse disso.
— Tem um lugar pra você aqui. — Regina se moveu para o lado, deixando um pedacinho vago naquela confusão gostosa de mãe e filhos. O sofá era antigo e grande justamente porque ela queria que todos ficassem unidos. Todos debaixo de suas asas. Ou de seu cobertor feito de retalhos coloridos.
— Mas o filme 'tá na metade. — Virgílio faria questão de contar o que havia se desenrolado da trama até ali e deixaria os outros malucos por terem que ouvir o que tinham acabado de ver, já que era extremamente detalhista.
— Eu vou tomar um banho. — Dio deixou a mochila no cabideiro ao lado da porta e o casaco também. — 'Tô bem cansado. Certeza que durmo cedo.
Regina estranhou aquela fala. Conhecia muito bem os filhos e não disfarçou o cenho franzido ou a preocupação estampada no rosto. Mesmo cansados, eles todos sempre teriam tempo para a família.
— E não vai jantar? — Perguntou com suspeita. Seu filho mais velho nunca dispensava sua comida.
— Eu comi um lanche no caminho, não precisa se preocupar. — Foi até a mãe e deixou um beijo na testa dela. Não era mentira, mas estava mesmo sem apetite. — Bom filme pra vocês e boa noite.
Era melhor sair da sala antes que a dona Regina inventasse mais algumas perguntas e ele acabasse se enrolando. Um banho o ajudaria a se sentir um pouco melhor, era com isso que ele estava contando.
O quarto, ele dividia com os dois irmãos, o que era uma lástima para Yuri que queria muito trazer a garota com quem ficava para dormir em casa. Era uma cama de solteiro e uma beliche, um guarda-roupas no canto e sua amada estante cheia de livros. Todos os livros escritos por Nicolai Werner estavam na primeira prateleira. Talvez devesse lê-los pela milésima vez e ver se aprendia alguma coisa com os personagens.
É, faria isso depois de um demorado e reconfortante banho.
As roupas foram para o cesto e a água morna era mais que bem-vinda. De olhos fechados e tentando não se sentir tão ruim com aquilo tudo, pensou no homem loiro e bonito ao se lembrar com quem o achava parecido.
Ele era como o personagem de Em Outra Frequência, o primeiro livro escrito por um Werner ainda adolescente. Que coincidência engraçada aquela. Via claramente aquele loiro no papel do protagonista Louis, mas era apenas sua mente associando tudo com o escritor favorito.
Nicolai estava em sua vida desde que se lembrava. Desde que despertara seu interesse por livros. As palavras dele lhe passavam esperança e sentimentos que queria eternizar, mas por que inventar de gostar do homem além das páginas que lia? Aquela obsessão não o levaria a lugar algum, mas era complicado de fazer o coração e o cérebro entenderem.
A água continuava caindo, mas as sensações não escorriam para o ralo junto a ela.
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Devagar, abriu a porta do quarto e espiou os embrulhos de cobertas na beliche ao lado, observando se a luz que vinha do corredor, despertaria algum dos irmãos. Tinha demorado intencionalmente no banho, esperando até que todos dormissem e não fizessem quaisquer perguntas ou ele não aguentaria e deixaria as coisas transparentes feito água.
Com um suspiro baixinho, arrastou-se até a cama, tomando cuidado para não fazer barulho e ser o desastrado o qual a dona Flora o acusara mais cedo naquele dia. Não queria chorar, mas quando as costas bateram no colchão, as mãos subiram para o rosto e o cobriram.
Os olhos ardiam, e pensar no quão ferrado e desamparado se sentia, fez com que transbordassem e lágrimas aquecidas deslizassem por eles. A cama era a culpada, claro.
Não podia contar a mãe a maneira e o motivo pelo qual havia perdido o emprego. Sentia-se um fardo naquele momento, deixando o peso de tudo nos ombros de Regina que não merecia um filho tão atrapalhado e imprestável feito ele.
Ele era um desastre. Se estivesse empenhado em manter o emprego, não sairia quebrando as coisas, esbarrando nos clientes ou tropeçando no tapete. Se tivesse algum bom senso, jamais teria envolvido Nicolai naquele fatídico assunto e jamais se deixaria levar por cenas de livros que nunca aconteceriam na vida real.
Esse era o fato; se vivesse a realidade, não se tornaria uma piada, não seria abandonado ou convidado a se retirar dos lugares.
Era tudo por sua culpa. Que não conseguia nunca fazer nada direito e em silêncio. Sua culpa por viver no mundo da fantasia e ter mais sonhos do que poderia conquistar. Estava bem longe de ser aquela pessoa que idealizara ainda na infância, que conquistaria mais do que bens pessoais com o trabalho e esforço, que cursaria Medicina Veterinária e que traria orgulho e conforto à família, além de ajudar os animaizinhos de rua.
Não estava dramatizando quando sentia que tudo o que imaginou para o futuro havia ruído feito um castelo de areia numa forte maresia. Dependia daquele salário para as despesas, para o colégio dos irmãos que tinham apenas meia bolsa.
Os dedos se apertaram no rosto quando um soluço deixou a boca. Além da inutilidade, era também um baderneiro, fazendo barulho enquanto os irmãos dormiam, pois teriam escola na manhã seguinte.
O corpo se encolheu e buscou abrigo nas cobertas, mas o tecido pareceu preso e não conseguiu puxá-lo até deparar-se com a silhueta do irmão através da pouca luz que partia da janela sem cortinas.
O coração se apertou ainda mais e quis cobrir a cabeça e dispensar o que quer que Yuri tinha para dizer. Não queria enfrentá-lo, sentia-se completamente mal e tão culpado que preferia guardar qualquer pensamento somente no profundo da alma. Para todos que o vissem, ele estava bem e possuía o melhor sorriso para comprovar o que dizia.
Mas ali, tão desnudo e constrangido quanto o sentimento que o assolavam, não conseguiria sorrir e fingir. Seria no mínimo patético se tentasse.
Mas era teimoso.
— Eu… Eu só estou cansado. — Soprou as palavras, preocupado se Virgílio também acordaria . — Pode voltar—
A frase se perdeu no ar quando o corpo foi puxado para cima e envolvido em um abraço.
Um abraço, era isso o que precisava.
Os dedos de Yuri se confortaram em seus cabelos úmidos em um cafuné desajeitado e o cheiro de cigarros e colônia, preencheram seu olfato.
Yuri Barelli quem o confortava agora, depois de todas as conversas e fugas, todas as broncas e puxões de orelhas e a rebeldia que, vez ou outra, o tornava um filho, um irmão e uma pessoa de gênio difícil e explosivo. Mesmo com a personalidade arredia, o mais novo não pestanejou em passar algum conforto à sua fragilidade.
E as sensações tornavam-se ainda mais doloridas quando alguém trazia o calor de um abraço e dizia que tudo ficaria bem. Ele estava lá, Yuri sabia, não precisava dizer o que tinha acontecido depois.
— Me desculpa… — Pediu baixinho e com a voz quebradiça. Ele era o irmão mais velho, mas nunca fora o mais forte, apenas fingia bem. — Eu não faço nada direito. — Apertou os dedos na camiseta do mais novo. — Eu sou um inútil…
Não era só pelo fato de ter perdido o emprego, Yuri sabia. Naquele momento, Dionísio se desculpava por tudo o que ainda não havia dado certo em sua vida.
Até mesmo pelo degradante abandono paterno de anos atrás.
Os dedos se apertaram mais nos fios castanhos do mais velho e um suspiro deixou os lábios. Ele não era o melhor em passar qualquer tipo de conforto, esse era o papel da mãe e da irmã, mas ver alguém chorar e se culpar por coisas das quais realmente não era o culpado, era algo impossível de ignorar.
Ainda mais quando essa pessoa era o Dionísio Atrapalhado Barelli.
— Eu devia te socar por dizer essas coisas. — Embora a fala não fosse a mais acolhedora para o momento, o tom suave passava a certeza de que a bronca não era válida. Os dedos se apertaram mais nos fios encaracolados enquanto sentia as lágrimas molharem sua camiseta. — Você… — Ele estava mesmo se dedicando a confortar o irmão com algumas palavras, mas aquele negócio era complicado e sentia-se idiota e sem muitas palavras no vocabulário. — É uma das melhores pessoas que eu conheço.
A fala baixa e tão cheia de sentimentos, trouxe mais batidas ao coração de Dionísio que qualquer outra declaração já havia trazido. Yuri não era de dizer quaisquer palavras bonitinhas e floreadas e não era raro que se ofendessem e brigassem por pouca coisa, embora o amor entre eles fosse forte, não era demonstrado em falas e ouvi-lo dizer que era uma das melhores pessoas que ele conhecia, foi seu maior alento naquela noite, pois havia tanto significado naquela frase, que nada mais pareceu importar.
— E ele… Aquele cara, é um infeliz. — Yuri continuou. Precisava dizer aquela parte também. — A gente vai dar um jeito, Dio.
E determinação escorria de cada fala e gesto do irmão mais novo, aquecendo o peito de Dionísio e livrando-o daquele peso sobre os ombros.
Não era um miserável, era um fortunado por ter com quem contar.
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Foi inconsciente. Quando percebeu, os olhos estavam focados na mesa da fileira ao lado. A única mesa vazia naquela manhã.
Algo parecia incomodá-lo naquele dia. As aulas foram como sempre, mas ele não se concentrou como devia e teria que estudar em dobro quando chegasse em casa.
Porcaria!
Encarou o trabalho que entregaria a professora e teve vontade de apagar aquele nome na capa. O idiota nem mesmo havia ido ao colégio e não sentiria falta da nota, já que estava certo de que não a teria.
Mas já que estava feito, o entregaria assim mesmo. Era sua boa ação do dia, mesmo com raiva do infeliz por seu notebook prejudicado. Acaso o outro achava que ele tinha um estoque tecnológico em seu quarto? Aquele “incidente” lhe custaria toda a mesada.
Aquele idiota!
Idiota. Yuri era um idiota. Fazia algumas semanas que ele não faltava e imaginava o motivo de sua ausência naquela manhã como sendo algo relacionado ao irmão.
E por que mesmo estava pensando naquele cara?
— Você pode perguntar.
A voz de Akane soou irritante em seus ouvidos e ele não se preocupou em direcionar um olhar a japonesa de cabelos descoloridos. Era a hora do intervalo e ele buscava por algo para ler, vasculhando no armário.
— Você pode me perguntar sobre o Yuri. — Ela deu ênfase no nome que ele não queria ouvir, embora não conseguisse bloquear os pensamentos sobre aquele ser desagradável.
A manhã, apesar de tudo, estava plena e sem maiores preocupações de sua parte, até aquela garota ir encher seus ouvidos.
— Olha garota, eu não tenho nada a ver com o seu Yuri. — Pegou um dos livros e bateu a porta do armário. Que ideia estúpida aquela! E ele lá queria saber daquele garoto arrogante?
— Meu Yuri? — Akane riu. Era mesmo divertido irritar aquele ruivo que já era naturalmente nervosinho. — Será que isso não é ciúmes?
Ah, pronto! Era só o que faltava agora!
— Se enxerga! Você seria a última garota que eu me interessaria! — Que aquilo ficasse claro e ponto final.
— Mas eu não estava falando de mim, Cooper…
Foi com um sorrisinho debochado que Akane viu o rosto cheio de sardas se avermelhar. Que gracinha, pensou. Um babaca, claro, mas ainda era uma graça.
— E eu entendo, afinal, eu não sou um moreno alto, bonito e sensual de olhos azuis-claros. — Cantarolou.
— São azuis-acinzentados! — Falou por entredentes, dando-se conta segundos depois e se ofendendo mentalmente por isso. Que importava a cor dos olhos daquele idiota? E com um olhar atravessado e o constrangimento deixando-o ainda mais nervoso, passou pela japonesa como um furacão, mas foi perseguido. Ela não se tocava mesmo!
— Foi bonitinho o que você fez. — Akane comentou, seguindo os passos do ruivo e desviando dos alunos pelo caminho. — Mesmo tendo sido um babaca lá no café, você—
— Espera. — Tony parou de maneira abrupta, fazendo a garota trombar em suas costas, dando pouca importância a ofensa que recebeu em seguida. — Aquele idiota te contou sobre isso?
— E não podia contar? — Ela arqueou a sobrancelha quase inexistente, encarando-o de modo analítico. Cara estranho… — Nós somos amigos e ele me conta tudo.
Amigos?
— Amigos? — Que papinho furado aquele. Yuri era um belo de um fofoqueiro, não somente pelo último acontecimento entre eles, mas porque sabia que ele devia ter contado outras coisas além de tê-lo deixado na cafeteria e com o computador em pane. E Akane ia pelo mesmo caminho, pois devia ter contado sobre o…
Um toque de mensagem fez com que perdesse a linha de raciocínio e os olhos seguiram os movimentos da asiática de cabelos descoloridos. Ela digitou uma resposta e logo recebeu outra mensagem com um apito irritante.
— Ele está agradecendo pelo trabalho. — Mostrou a tela do celular. — Ele disse; bom garoto.
Agora ele era um cachorro para receber aquele tipo de agradecimento? Estava vermelho de raiva, pois seu dia sempre piorava quando o Barelli estava por perto, mesmo que na tela de um aparelho telefônico, mas ao vagar os olhos por outra mensagem, leu algo no mínimo, preocupante.
— O idiota vai abandonar o colégio? — Perguntou incrédulo, não disfarçando a surpresa. Yuri não era a pessoa com mais vontade em sala de aula e pouco se esforçava, mas não imaginava que ele largaria a escola na metade do último ano do ensino médio. Mesmo para alguém como ele, muito mais para alguém como ele, os estudos tinham que ser prioridade.
Akane recolheu o celular e o guardou no bolso da jaqueta larga e laranja neon que vestia. Sua resposta não verbalizada foi um suspiro e um dar de ombros.
— Não é nada certo ainda. Mas você devia falar com ele. — E ela teria continuado a contar mais sobre aquele assunto, mas foi chamada por uma garota da mesma turma e se afastou, seguindo com ela pelo corredor.
Ele devia falar com o Topete Boy? Ele? Akane era maluca, estava óbvio. Devia ser toda a água oxigenada naquele cérebro, era isso, afinal, desde quando Yuri o ouvia? E desde quando ele sequer pensaria em aconselhar um inútil a não deixar o colégio?
Aquele idiota…
Pegou o próprio celular e se arrependeu por não ter excluído o contato do Barelli. Apertou o aparelho.
Se Yuri saísse do colégio, seria um favor a sua pessoa. Afinal, seria o paraíso não vê-lo nunca mais, não ouvir aquela voz irritante ou ter os ouvidos feridos pelas implicâncias sem fundamento que era obrigado a escutar.
Tudo seria melhor em mundo sem Yuri Barelli. Não seria?
Odiou a resposta silenciosa que recebeu.
No fim, ele também era um idiota, só não queria aceitar.
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