Doces Palavras
1 Capítulo 1 ஃ "Eu vou fazer um altar pra você!"
Notas iniciais
Capítulo 1 — Eu vou fazer um altar pra você!
Dionísio Barelli, olhou pela décima vez no relógio de parede, enquanto preparava uma bandeja com pãezinhos açucarados e café latte.
Era evidente a ansiedade que sentia naquele dia em especial. Todos que o conheciam, percebiam a maneira afobada com a qual ele preparava os pedidos e nos grandes sorrisos brancos que dispensava aos clientes.
Nem mesmo quando começou a chover ele perdeu o ânimo.
A cafeteria Doce Aroma, estava cheia naquele início de tarde. As mesas quadradas e pequenas eram ocupadas por casais de amigos ou namorados. Um som ambiente preenchia o local, deixando-o propício para estudos ou conversas baixinhas ao pé do ouvido.
Os pingos grossos da chuva batiam contra os vidros largos e mostravam a movimentação ao lado de fora; pessoas correndo em busca de abrigo, carros apressados passando pelas poças de água e um desfile de guarda-chuvas dos mais variados tipos e cores.
A bandeja com o pedido da mesa 11 quase foi ao chão, mas Dionísio conseguiu recuperar o equilíbrio. Se quebrasse mais alguma coisa… Céus! Seria expulso a pontapés e não podia perder o emprego.
Sorriu para a moça loira e simpática ao lado esquerdo e voltou para o balcão, permanecendo com o sorriso branco e brilhante feito o gato de Cheshire.
Todos aqueles sorrisos, hoje tinham um motivo muito mais que especial.
Era um fato bem óbvio de que todos tinham um ídolo, fosse a mãe, pai, avó ou alguma entidade divina, a lista era extensa, e Dionísio era fã de um escritor.
Não era nada fora do comum, mas nem todos tinham a sorte de conhecer esses ídolos. E essa era a razão de toda aquela alegria que mal cabia no peito.
Nicolai Werner, o romancista mundialmente conhecido, estaria naquele fim de tarde, autografando o último livro lançado. Livro que Dionísio havia conseguido comprar com as moedinhas que juntou durante três meses. O que recebia ali, não sobrava para que usasse com passeios ou itens supérfluos. O dinheiro ia praticamente todo para a casa, para ajudar a mãe e os irmãos. Era trabalhador e desde cedo batalhava para ter um futuro e dar um futuro digno para a família.
Ele merecia mais do que ninguém aquele autógrafo, o aperto de mãos e a foto.
E por isso olhou novamente para o relógio.
— Vai dar tempo.
Ouviu a voz do amigo e colega de trabalho soar bem próxima e desviou os olhos dos ponteiros para o rosto quadrado e pálido de Leonel Adamo.
— Você 'tá quase subindo nas mesas e dançando a conga. — O rapaz loiro se apoiou no balcão, olhando-o com uma curiosidade divertida.
— Eu vou apertar a mão do meu amor platônico daqui a algumas horas. — Levou as mãos aos cabelos e os ajeitou melhor no lenço que fazia parte do uniforme. — Tem noção que eu posso desmaiar, entrar em coma e morrer aos 20 anos por causa disso? — Dramático? Ele não era.
— Só por causa de um aperto de mão? — Leo arqueou as sobrancelhas e engoliu a vontade de rir e assustar os clientes com uma gargalhada desnecessária.
— Não é um aperto de mão, é o aperto de mão. — Corrigiu. — Imagine se você apertasse a mão daquela atriz sofredora da série?
Leonel imaginava muito bem.
— Certo, mas eu não morreria por isso... — Talvez ficasse em choque e não lavasse mais a mão, mas morrer, não era assim tão dramático. — Talvez eu tentasse agarrá-la, claro, discretamente.
— Mas se eu agarrar o Werner, vou ser expulso da biblioteca e ser motivo de piada na internet. — Fez beicinho.
— Cara, é sério, se controla, a gente precisa de você respirando. — Leonel o segurou pelos ombros. — Se você morrer, eu te mato, Dio.
— Você morreria logo em seguida. — Dionísio fez o melhor ar convencido que conseguia antes de ser chamado por um dos clientes.
Faltava tão pouco para o encontro do século.
ஃ
Hálito: Ok.
Perfume: Ok.
Visual: Ok.
Foi o que Dionísio constatou ao se encarar no espelho do banheiro.
— Você não está com cara de maníaco, Dio. — Falou para o reflexo, ajeitando os cabelos. — Você é só um cara que admira o trabalho de um renomado escritor. — E sim, ele estava tentando se convencer sobre isso.
Não era como se fosse pular no pescoço do homem e enfiar a língua na boca dele, longe disso. Mas poderia tentar, discretamente, apalpar o…
— Não, Dio, você seria acusado de assédio. Não tem grana pra pagar processos. — Mal tinha dinheiro para comprar os livros...
Desde o início da adolescência, ele soube que não se interessava sexualmente por mulheres. Elas eram amigas, quase irmãs, e isso foi um balde de água fria na família. O pai acusou a mãe por tornar o filho um homossexual. Foi uma briga bem feia e o casal acabou se divorciando. Também não havia sido fácil para a mãe, mas estavam bem. Podia contar com ela para qualquer coisa.
Inclusive, ela o aguardava para saber sobre o tal escritor.
O homem era bonito. Muito! Parecia um ator de Hollywood e isso contribuía para toda aquela euforia.
Sabia pouco sobre ele, afinal, Werner não falava muito de sua vida, mas era viúvo e tinha um filho o qual sempre dedicava as obras.
— Ô, seu maluco, fica aí falando sozinho que o seu amor platônico não vai te esperar a tarde toda! — Leonel chamou, lembrando-o que o relógio estava correndo.
Rápido como uma bala, mas desajeitado feito um camelo de três patas, Dionísio se lançou para fora do banheiro e acenou para o amigo, correndo para a chuva.
A calçada estava repleta de pessoas, era o horário de pico e muitos voltavam para casa. Tentou encontrar um táxi, mas não era tão longe assim e ele preferiu não parar. As poças de água encharcaram os tênis e as roupas ficaram úmidas. Bem, não seria uma chuvinha daquelas que o impediria de realizar um sonho.
De repente, estava em um filme de ação, correndo dos bandidos e se misturando a multidão. Pensar assim, que era perseguido, o ajudava a correr ainda mais rápido. Certo, ele era meio maluco...
Saltou bancos, trombou em desconhecidos e quase foi atropelado ao atravessar a avenida. Ia dar tempo, tinha que dar.
Mas como tudo o que é bom dura pouco…
Em uma calçada, antes de o sinal fechar, presenciou algo que chamou sua atenção.
Um garotinho que corria atrás de um cão.
Pequeno demais para estar sozinho, parou ao seu lado. Ele pensou em perguntar onde estavam os pais, mas antes que pudesse externar o pensamento, o menino desceu para a rua, alheio aos perigos e aos carros ainda em movimento.
O coração de Dionísio deu um salto e ele avançou, pouco antes de uma tragédia acontecer.
A cena seria mesmo digna de um filme. Ele praticamente se jogou sobre o corpo menor, fazendo um carro popular, parar quase em cima de ambos. Xingamentos foram ouvidos e uma chuva, dessa vez de buzinas, o atacou. O cãozinho correu e sumiu entre os carros.
— Eu salvei uma criança, seu desgraçado! — Gritou para o homem no volante. O fulano quase o atropelara e ainda se sentia no direito de ofendê-lo. O que fez um pouco da raiva passar, foram as palmas e assobios que recebeu das pessoas na calçada. Sentiu-se até mesmo um tanto célebre. Os 15 minutos de fama estavam ali. — Você está bem, menino? — Se abaixou para verificar se não havia nenhum ferimento nos braços e joelhos. — Não sabe que não pode atravessar quando os carros estão em movimento? — Por Deus, até um cachorro sabia disso. Ou não...
O menino mordeu o lábio inferior, parecendo prestes a chorar. Era só o que faltava, fazer uma criancinha chorar. Onde seu coração havia caído naquela corrida maluca? Ah, talvez estivesse debaixo do pneu daquele carro...
— Não chora, menino. — Tocou os cabelos negros e ondulados do pequeno. — Mas você fez algo errado. Podia ter se machucado ou ter sei lá, ido pro além.
O garotinho ergueu o rosto, dando ao mais velho, a visão de seus olhos negros. Negros iguais aos cabelos.
— E então, o gato comeu a sua língua? Cadê os seus pais?
— Eu não sei… — A voz baixa soou temerosa.
— Como não sabe? — Dionísio olhou em volta. Tinha gente ali, mas nenhuma delas parecia se importar com o garoto. — Olha, eu preciso ir. Fica ali naquele banco e espera os seus pais, tá? — Apontou para o lado, em um ponto de ônibus, mas o menino não seguiu seu gesto. — Vem garoto. — O pegou pela mão e o levou até o banco de pedra. Ao menos ali, ele ficaria protegido da chuva. — Cuidado com a rua.
E sua boa ação estava feita. E quando começou a andar, percebeu a dor no joelho e um rasgo nas calças. Aquelas calças tão caras! Tudo por culpa de um pirralho que já o havia atrasado demais.
Um pirralho sozinho, perdido dos pais…
— Droga, Dio! — Ralhou consigo mesmo ao dar a volta. Seu coração estava ali, e ele era feito de manteiga. Conferiu as horas no relógio de pulso e foi com dor que percebeu que faltavam apenas cinco minutos para fecharem a biblioteca.
Que ao menos ele fosse para o céu por aquela boa ação.
Com um suspiro pesado, ciente de que o amor platônico não teria o prazer de conhecê-lo naquela tarde, ele puxou a mochila para frente e se largou no banco ao lado do menino.
— Sou eu de novo, pirralho. — Não que precisasse anunciar a presença, mas o garoto pareceu tão alheio, balançando o pezinho de uma maneira desolada. — Qual o seu nome?
— Rafaello. — A vozinha era até agradável.
Dionísio tinha irmãos. Seria pedir demais para que o abandonasse ali, a própria sorte.
— E o seu? — O menino arriscou, um pouco mais confortável.
— Me chama de Dio. E você não tem ideia de onde os seus pais estão? — Reparou que ele estava muito bem-vestido. Devia ser de família rica. Provavelmente colocariam até a NASA atrás da criança.
— Não sei. A minha babá pediu pra eu esperar, mas aí eu vi um cachorro e me distrai…
— Que problemão, ein? — Dio coçou a nuca e observou a chuva fina que ainda caía.
— Por que você voltou?
— Porque você é um menino bobo que não sabe atravessar a rua. — Apesar da fala, ele apertou a bochecha de Rafaello. — Olha, a gente tem que encontrar os seus pais ou a sua babá. Como eles são?
— Ela é bonita. E meu pai é alto e é bonito.
Crianças descrevendo…
— Tem muita gente bonita por aí — Não, não tinha. — Vai ser impossível encontrar seus pais assim. Vem comigo. Vamos dar uma volta no quarteirão.
A volta no quarteirão não foi suficiente, pois não encontraram ninguém da família do garoto. Agora Dionísio estava sem o autógrafo, sem o aperto de mãos ou a foto e era o tutor de um moleque perdido. Queria rir para não chorar…
— Ô, garoto, presta atenção! — Falou ao vê-lo tropeçar. — Foi por isso que quase morreu atropelado. — Ou talvez porque ele era apenas uma criança atravessando a rua sozinho… Talvez.
Rafaello encolheu os ombros ao ouvir a bronca. Só queria o pai e a babá, mesmo que o rapaz fosse bonzinho e o estivesse ajudando, sentia que ele já havia perdido a paciência.
— Vamos tentar mais uma vez. — Caso contrário, o deixaria em alguma delegacia.
E antes que o garoto desse o primeiro passo, a atenção de ambos foi tomada ao ouvir os gritos que vinham de perto. Era um homem e uma mulher, correndo como se as vidas dependessem disso, gritando o nome do garotinho. E havia mais gente com eles.
— Graças a Deus. — Dio respirou cheio de alívio. Queria ir para casa e se martirizar por não ter ido ao encontro com o escritor. — Se cuida, pirralho. — Deu as costas ao garoto e enfiou as mãos nos bolsos, seguindo pelo caminho contrário.
Ainda ouviu um pouco da conversa dos pais de Rafaello. Parecia um daqueles reencontros de final de novela, mas ele não esperava ser chamado por uma voz feminina e muito menos ser puxado pelo braço. Que abuso!
— Moço, não pode ir embora assim. — Ela foi falando enquanto o levava para perto do pai e do filho que estavam abraçados. — O Raffa, disse que você salvou a vida dele. — Aquele era o tom do tipo: Caralho, eu vou fazer um altar pra você!
Dionísio quase estufou o peito ao ser considerado um herói, mas estava incomodado, pois só queria sumir dali. Talvez a Marvel ou a DC se inspirassem nele para algum próximo filme.
— Olha, moça, não precisa agradecer. — E não precisava mesmo. — Eu só fiz o que todo mundo faria.
— Imagina, se enfiar na frente de um carro para proteger uma vida, não amigo, não é qualquer um que faria algo grandioso assim.
Dio concordaria, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, desviou os olhos para o pai do garoto.
— Salvou a vida do meu filho. Eu nem sei como te pagar. — A voz rouca e emocionada do homem, o fez perceber que ele havia chorado. Claro, um pai em desespero.
Mas…
— Não precisa, eu já disse pra sua esposa. — Deu de ombros. — 'Tá tudo bem. O importante é a vida do garoto.
— Aproveita, bobo. — A mulher ao lado o acotovelou, levando-o a franzir o cenho. — Não é todo dia que Nicolai Werner tem uma dívida com alguém.
— Não, é sério, eu…
Dionísio parou ao entender aquelas palavras. Antes que retornasse os olhos ao homem, o coração de manteiga bateu feito um tambor dentro do peito, mais sólido do que nunca.
Não era possível que o pai do pirralho, fosse exatamente seu amor platônico…
Certo, ele desmaiaria agora ou depois?
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