Doce obsessão
19 Capítulo 19: Gelatina.
Notas iniciais
Santana L.:
Brittany e eu ficamos por mais alguns minutos na arquibancada até finalmente lembrarmos que estávamos perdendo aula.
Seguimos em silêncio pelo corredor. Brittany parece pensativa. Talvez um pouco chateada. Gostaria que tudo voltasse a ser como antes. Não antes de conhecê-la. Apenas antes de nos beijarmos, quando nos comportávamos simplesmente como boas amigas. Agora tudo parece incerto. Sinto que Brittany já não confia em mim o suficiente. Não como antes. E isso me leva a acreditar que estou fazendo algo errado.
Eu queria poder fazer Brittany feliz da mesma forma que ela me faz, eu só não sei como. Sei que a ter ignorado na biblioteca foi ridículo. Se eu queria consertar as coisas, eu fiz totalmente o contrário a isso.
Agora ela já não me diz o que a aflige e sempre se retraí. O silêncio entro nós duas não me parece mais tão agradável quanto antes e tenho medo do que ela pensa enquanto isso.
– Hum... acho que agora seguimos caminho diferentes. – Digo quando chegamos ao final do corredor. Brittany apenas balança a cabeça concordando, olhando para o chão. Suspiro, querendo perguntar o que há de errado. — Certo. Então me espere ao final da aula para irmos embora juntas.
Brittany concorda e me oferece um sorrisinho. Ela dá um beijo na minha bochecha e segue para a aula. Eu a olho ir e resolvo fazer o mesmo.
Não quero a forçar a falar algo que ela se sente insegura em revelar. Não que eu não possa induzir ela a me dizer e é por isso que vamos embora juntas hoje. Aproveitarei para tentar arrancar tudo dela. Simples assim.
Noah não entendeu muito bem quando eu sai da biblioteca preocupada com Brittany. É claro que ele não entenderia, ele não sabe que a namorada dele anda beijando outra pessoa. Reviro os olhos, só em pensar na bagunça que tenho feito com minha vida. Cada dia mais confusa.
Chego na sala de aula e vejo que o professor já tem iniciado a matéria. Bato à porta e peço licença. Ele me olha sério e até mesmo irritado, para logo em seguida indicar meu lugar, me permitindo assistir a aula. Me jogo de qualquer jeito na cadeira, jogando a bolsa no chão ao meu lado. Quinn, que tem essa aula comigo, me olha curiosa.
– Você está bem, San? – Sussurra, estudando minha postura relaxada.
– Só estou tendo um dia cheio, Quinn. – Respondo, encerrando o assunto.Ela continua me olhando, agora com uma sobrancelha arqueada.
Ela logo bufa contrariada e se vira para frente, prestando atenção na aula.
Não evito um sorrisinho vitorioso e logo também passo a prestar atenção na aula tentando me distrair.
Não se passa muito tempo e já me sinto entediada com a aula e pensativa sobre Brittany. Mordo a tampa da caneta e passo uma das mãos pelo cabelo, nervosa e ansiosa. Não consigo tirá-la da cabeça. Quero que ela volte a me ver da mesma forma. Que não se sinta insegura comigo. Não é qualquer pessoa. É a Brittany, a garota que sempre faz meus dias mais felizes e coloridos.
Suspiro novamente. Imagino que eu tenha feito isso por mais vezes do que eu possa contar. Olho para a caneta e vejo que a tampa se encontra num estado lastimável. Tiro ela de cima da caneta e miro a lixeira da sala. Antes que eu possa jogá-la, uma mão pálida a arranca de mim. Olho para o lado indignada e vejo Quinn me olhando zangada.
– Será que dá para ficar quieta? Para com isso, garota. – Ela manda, me fazendo revirar os olhos. Quinn é uma imbecil chatíssima.
Apoio minha cabeça na mão esquerda em completo tédio. O relógio acima da lousa parece não avançar os ponteiros. Pego meu celular e confiro as horas. Certo, o relógio não está quebrado. Eu só precisava confirmar.
Ainda faltam quinze minutos para a aula acabar e Quinn, como a aluna exemplar que é, certamente não irá querer papo comigo agora.
Pego o celular novamente e digito uma mensagem:
Em completo tédio. Como lidar? -S
Rapidamente a resposta chega:
xD se vira aí. Minha aula está incrível. -P
Encaro o celular irritada. Puck ama me irritar. Consegue todas as vezes. E ainda ressalta que a aula dele está boa. Ridículo. Qual a necessidade?
Idiota. -S
Olho para frente e vejo o professor me lançando olhares irritados, então digito rapidamente para Puck o informando que irei embora com a Brittany e logo guardo o celular.
A aula finalmente acaba e eu levando rapidamente. Dou tchau a Quinn, que está ainda organizando os materiais, e saio da sala, me encaminhando para a saída.
Chego do lado de fora da escola e olho em volta procurando por Brittany. Não demora muito e a vejo se despedindo de seus amigos e vindo em minha direção sorrindo.
– Vamos, San? – Pergunta, passando seu braço direito pelo meu esquerdo. Balanço a cabeça concordando.
– Então, Britt... Como foi sua aula? – Indago, querendo puxar assunto.
– Foi bem curiosa e um pouco chocante. Vimos um vídeo que mostrava o nascimento, então foi meio nojento. Não foi muito bonito como eu esperava que fosse, San. – Ela comenta me olhando como uma criança chocada ao descobrir do que é feita a gelatina.
Dou risada e concordo com ela.
Continuamos caminhando e percebo que estamos indo rápido demais. Assim não dará tempo de conversamos direito. Passo a reduzir o passo e ela me acompanha, passando a caminhar numa exagerada lentidão.
– E quando vamos comer pizza, Britt? – Pergunto, lembrando do convite. De repente ela para, como se só agora lembrasse. E imagino que ela realmente tenha se lembrado apenas agora.
– Oh, sim. É mesmo. Bom, estou livre esse final de semana, o que acha? – Questiona, voltando a caminhar.
– Por mim perfeito. Sábado, então. – Confirmo. Certo, agora não sei como interrogá-la.
Brittany não diz nada após minha confirmação. Ela apenas passa a chutar uma pedrinha que tinha do meio do caminho.
– Sabe, Britt, eu sei que vamos resolver nossa situação juntas, mas enquanto isso, espero que as coisas não mudem entre nós duas. – Falo, sem olhá-la.
– E não vão San. – Garante, me olhando rapidamente e voltando a olhar para a pedrinha.
– É só que... as coisas já mudaram Brittany. Você não era tão retraída assim. Não comigo. – Afirmo mostrando chateação. – Sinto muito por te fazer ficar chateada, mas não se afasta assim.
– Não estou me afastando, San. Eu só estou te dando e dando a mim mesma a liberdade de pensar sobre tudo isso. – Diz, parando de andar e me olhando. – Eu adoro passar o dia com você e fico triste quando não te vejo na escola. Acredite: eu não estou me afastando.
– Não nesse sentido, Britt. Digo você sempre parece refletir antes de me dizer algo. E não é assim que deve funcionar. Você se retraí, como se tivesse medo. Você pode não perceber, mas eu noto cada pequena mudança.
– Desculpa, San. Não quero que as coisas funcionem dessa maneira entre nós. Eu não quero acabar dizendo algo algo que estrague tudo. Eu só preciso arrumar meus pensamentos. Colocar tudo em ordem, sabe?
– Eu entendo o que você quer dizer, Britt. Juro que entendo. Mas por favor, entenda que você só irá estragar tudo se continuar agindo assim. Conversamos sobre isso hoje e combinamos de resolver as coisas juntas. – Falo, ansiosa por fazê-la entender.
– San, você não está compreendendo. Eu preciso disso. Preciso colocar em ordem os meus pensamentos. – Ela diz, enfatizando. – Não dá para fazer isso com outra pessoa.
– Você está sendo egoísta. Eu estou tentando, okay? Eu quero que a gente volte a ser como antes. Quando só em estar com você alegrava meu dia. Mas agora eu fico mais preocupada do que feliz. Olhe só o que estamos fazendo... Estamos discutindo num ponto de ônibus só porque de repente você decidiu fazer tudo sozinha. – Desabafo, finalmente notando onde paramos.
– Eu não decidi fazer tudo sozinha, Santana. Pelo amor de Deus. São meus sentimentos e eu preciso de tempo.
– Você precisa de tempo? – Pergunto irônica. – Ah, por favor, Brittany. Nos beijamos e eu nem ao menos sei o motivo. Você faz ideia do quanto eu estou confusa? Eu só quero voltar ao normal.
– E você acha que eu quero diferente? Santana, estamos apenas complicando algo simples. Por favor, vamos esquecer isso e deixar que as coisas se resolvam com o tempo. – Hã? Não, não é assim. Brittany quer fazer disso algo simples, mas ao mesmo tempo faz com que seja mais difícil.
– Não! Vamos resolver isso de uma vez por todas. Eu te ajudo e você me ajuda. Juntas. Lembra disso? Falamos sobre isso hoje mesmo. Juntas, Brittany. – Lembro-a, indignada.
– Não vai acontecer, eu sinto muito. Eu estou sozinha nessa. Não que você tenha feito algo errado, porém a cada dia você me mostra mais o quanto estou sendo boba, San.
– Por Dios! Se eu não fiz nada de errado, o que então está errado? Não venha me dizer que é você e não eu. Isso não funciona comigo.
Brittany olha em volta, como se pedisse socorro. Para sua infelicidade, não há ninguém por perto, somente algumas pessoas que passam caminhando em alguns momentos.
– Não tem nada errado, San. Eu quero ir embora. – Ela diz, com olhar infantil e fazendo um bico que eu acharia fofo se não estivesse irritada.
– Brittany, pare de fugir. Pare de tentar disfarçar algo que eu nem sei o que é. As coisas não se ajeitam sozinhas. Não seja inocente quanto a isso. — Peço, chateada. – Eu só quero te ajudar.
– Eu não preciso que você faça isso. Não se preocupe, okay? – Ela diz, arrumando a alça da mochila.
Suspiro, sem saber como prosseguir diante do impasse de Brittany. De repente parece que existe uma barreira interminável que me impede de chegar até ela.
– Olha, eu cansei. Por hoje chega. Eu não vou tentar salvar o que temos sozinha. Se você não quer isso, eu que não vou forçar. Não quero continuar com essa discussão e acabar te chateando de novo.
– San, por favor. Eu não quero esse clima ruim entre nós. Não quero sair como a egoísta. E você nunca vai me chatear. Independente do que você faça, eu jamais irei conseguir ficar verdadeiramente magoada. – Ela afirma, abaixando a cabeça.
– Olha para mim, Britt. – Peço, segurando seu queixo e levantando sua cabeça.
– Você não pode dizer isso quando eu vivo estragando as coisas. Seja sincera comigo pelo menos agora.
– Você não estraga nada. San, a última coisa que você faz é me magoar. Eu faço isso sozinha. Eu bagunço tudo. – Ela novamente abaixa a cabeça, com um bico nos lábios, como se fosse chorar a qualquer momento. – Eu só quero que você esteja comigo enquanto ajeito tudo.
– E eu estarei, B. Eu juro que estarei. Mas por favor, me deixa te ajudar. Ver você assim acaba comigo. – Revelo, passando a mão em seu cabelo. Ela balança a cabeça em sinal de negação. – Por quê? Por que eu não posso te ajudar?
– Porque você só poderia me ajudar de uma única forma San. E esta não se trata de receber conselhos seus como amigas normais fariam.
Olho para a Brittany ali toda fragilizada, sem entender ao certo o que ela quis dizer. A abraço, querendo passar conforto. Quando foi que passamos de uma discussão sobre nós duas para uma conversa sobre os sentimentos dela?
– Britt, eu não estou entendendo, querida. – Digo, fazendo cafuné em sua cabeça e ainda a abraçando.
Sinto Brittany envolver minha cintura em seus braços e apertar fortemente minha blusa em suas mãos.
– Eu amo você. – Ela sussurra, tão baixo que por um momento imagino não ter entendido. – E não é como amiga, San.
Paro com o carinho que estava fazendo na cabeça dela, sentindo de repente minhas pernas um pouco trêmulas. Como se fossem inteiras de gelatina.
Certo... A cada hora meu dia se torna mais bagunçado e turbulento.
Eu gostaria de entender o que se passa comigo agora. Meu dia deu voltas intermináveis. E todas essas voltas foram causadas por uma única pessoa: Brittany Pierce. A mesma que acaba de revelar que me ama. Ela não só gosta de mim, ela me ama. É totalmente diferente.
Não sei como irei lidar com isso. Parece que tudo de tornou muito mais delicado. Se antes eu já sofria por não querer chateá-la, agora me sinto pisando em ovos para não a magoar.
Brittany me conquistou de uma maneira que eu definitivamente não esperava. Ela se tornou a amiga ideal de uma hora para outra e ela é a última pessoa que merece meus erros e meu egoísmo. Eu não sinto que estou preparada para retribuir esse sentimento que hoje ela afirma ser amor. Eu tenho um namorado e toda uma confusão interna. Não posso agir por impulso. Nesse momento eu poderia a beijar e acalmar toda a insegurança que ela anda sentindo, no entanto, amanhã as coisas não serão as mesmas e eu não posso ser inconsequente e fazer disso um fato irrelevante. Também não posso ignorar os sentimentos dela e os meus próprios.
Sinto aos poucos que toda a certeza que eu tinha está se esvaindo e eu realmente não sei o que fazer.
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