Aquela pode ser considerada a tarde mais longa da minha vida, pois ela demorou demais para passar e ainda estávamos exaustos mentalmente de preocupação por tudo o que estava acontecendo.

Depois de algumas horas, finalmente o Dr. Cunningan se levantou, fechado a pasta.

-Olha, essa é a primeira vez que pego um caso de família assim, mas posso garantir que é sólido. Temos grandes chances, com essas provas todas, de que a Sally consiga ter uma sentença reduzia — explicou ele.

-Então, eu irei para a prisão de qualquer jeito? — perguntei, tentando parecer menos assustada do que eu realmente estava.

-Bem, não dá para saber. Pode ser que sim, pode ser que não, depende da decisão do juiz.

-Mesmo assim é muito agoniante ficar aqui, esperando notícias — disse minha mãe, aflita.

-Eu entendo que deve ser estressante. Mas uma coisa que você precisa saber é: caso a polícia venha atrás de você, não tente resistir à prisão e não tente fugir. Isso só vai piorar tudo.

-Está bem, eu não vou resistir — prometi.

Ao se despedir, minha mãe levou o Sr. Cunningan até a porta. Leah veio até a mim, assustada:

-Sally... Você vai presa? — perguntou, preocupada.

-Não sei, mas independente se eu for ou não, vai ficar tudo bem — prometi, mesmo eu não tendo certeza disso.

O clima em casa ficou estranho depois disso, Aiden ficou o tempo todo calado, retraído, parecia não estar confortável na casa de estranhos e pior ainda, preocupado com a possibilidade de eu ir presa.

-Vem comigo — eu disse, puxando Aiden para o quarto onde eu dormiria.

-É seu antigo quarto? — perguntou ele, baixo.

-Sim, era um só. Mas minha irmã e eu não éramos tão próximas quando mais novas, então ela gastou um bom dinheiro para fazer uma parede e dividir o quarto em dois — expliquei.

Ele apenas assentiu e se sentou na cama, deixando a mochila no chão e abraçando as pernas. Sentei-me ao seu lado e o abracei.

-Vai ficar tudo bem — sussurrei, acariciando seus braços.

Ele me abraçou com força, apesar de claramente estar lutando para não chorar.

Ficamos ali por um bom tempo, Aiden estava visivelmente com medo, mas aparentemente nada do que eu falasse, ajudava. Ajudei minha mãe a fazer o almoço, mesmo sem ânimo, Aiden foi à mesa.

-Então, Aiden. Você tem notícias da sua mãe? — perguntou minha mãe.

-Não. Mas eu tenho certeza que meu pai tem e já contou toda a situação para ela — respondeu ele, comendo.

-Certamente, mas fique tranquilo, tenho certeza que ela te conhece bem e vai te ajudar.

-Espero que sim...

Leah também tentou puxar um assunto com Aiden, contando sobre as amigas dela e que ela poderia apresentá-lo para seu grupo de amigos e assim, Aiden socializaria mais. Ele concordou, mas não pareceu empolgado.

Depois do jantar, ajudei minha mãe a lavar tudo enquanto Leah ia para o quarto. Eu podia ouvir claramente ela conversando com seu grupo de amigos sobre algo aleatório. Coisa de adolescente. Quando terminei, fui direto tomar um banho e entrei no quarto. Aiden já estava na cama, olhando para o teto, mas virou-se os olhos para mim quando me viu chegar.

-Espero que não se importe, não tinha outra roupa — ele disse, só então notei que ele estava apenas de cueca.

-Sem problema nenhum. Até acho que prefiro você assim — falei sorrindo de leve para ele.

Ele não achou graça. Então, deitei ao seu lado na cama estreita, então ele me abraçou de novo e dessa vez, chorou baixinho. Suspirei ao ouvi-lo chorar e o abracei com força.

-O que foi? — perguntei, o abraçando.

-Não quero ficar sozinho... — sussurrou ele.

-Você não vai ficar sozinho.

-E se te levarem presa? Só tenho você.

-Não, você também tem minha mãe e a Leah. Elas vão cuidar de você até tudo se resolver.

-Mas não é a mesma coisa...

-Vai dar tudo certo, eu prometo... — sussurrei, acariciando os cabelos dele.

Demorou, mas ele finalmente dormiu. Eu já estava quase pegando no sono quando meu celular apitou. Bufei, mas resolvi ler, vai que Matt resolvesse mandar alguma indireta ou ameaça? Ao abrir a mensagem, notei que era da agência de babás que eu trabalhava.

"Cara Sally,

Recebemos a denúncia de um envolvimento seu com um menor de idade que já ficou sob seus cuidados, o que gerou um escândalo enorme. Infelizmente, temos nossas regras e não queremos nosso nome envolvido em um caso como esse. Então, por conduta antiética, estamos te desligando da nossa agência com efeito imediato. Você está em nossa lista negra a partir de agora.

Att. gerência"

Bufei, Matt não só me denunciou como agora também queria arruinar minha carreira só para me prejudicar de todas as formas.

Botei o celular novamente onde estava e fechei meus olhos, finalmente dormindo.

***

No dia seguinte, novamente acordei com Aiden agarrando-se à mim. Lentamente, fui me soltando de seus braços e me levantei da cama. Dei um beijo rápido e suave na sua testa, preocupada com o bem-estar dele. Então, levantei-me e fui ao banheiro escovar meus dentes. Ao terminar, fui para a cozinha.

-Bom dia filha — disse minha mãe.

-Bom dia mãe — bufei, coçando os olhos.

-Dormiu bem?

-Sim.

-E como tá o Aiden?

-Péssimo. Passou um bom tempo chorando antes de dormir, com medo de ficar sozinho.

-Ele está realmente arrasado.

-Pois é.

Sentei-me na mesa e comecei a fazer meu café da manhã. Logo em seguida, Leah também apareceu:

-O Aiden ainda não acordou? — perguntou.

-Não sei, talvez ele tenha acordado, mas não quer sair da cama — contei.

-Ele está tão ruim assim?

-Tinha que ver como ficou ontem, antes de dormirmos.

Minha mãe soltou um leve suspiro.

-Pela sua expressão, você está preocupada com ele né? — disse ela.

-Claro, eu gosto muito dele. E vê-lo dessa forma me deixa triste, principalmente porque a culpa disso tudo é minha — confessei.

-Que bom que reconhece o erro filha. Isso é o mais importante para o caso — sorriu minha mãe.

-Espero que sim.

-Vai dar tudo certo, irmã — Leah disse, pegando minha mão.

-Eu sei que vai. O difícil é convencer ele — lamentei.

Demorou um tempo, mas terminei meu café e voltei para o quarto, pois Aiden não havia se levantado e aparecido na cozinha. Ao entrar, Aiden estava mexendo no celular, com lágrimas nos olhos.

-O que foi? — perguntei, correndo até ele.

Só então eu vi que ele estava vendo as fotos da infância dele, tiradas ao lado de sua mãe e pai, antes dela ficar viciada em remédios e o divórcio. Ele sentia muita falta daquela época.

Sem dizer nada, afinal, não havia o que ser dito, o abracei novamente, era horrível vê-lo naquele estado, mas eu sabia que seria temporário.