O próximo dia chegou e parecia ter amanhecido mais cinza do que o anterior. O tempo estava abafado, e mesmo sem chuva, o ar carregava uma certa umidade, como se o mundo inteiro estivesse suspenso, esperando alguma coisa acontecer — tal qual nós.

Olhei para Aiden adormecido ao meu lado e abri um sorriso, ele dormindo era como um anjo, nem parecia estar passando por toda aquela situação. Levantei-me e fui direto ao quarto para fazer minha higiene matinal. Ao sair e voltar ao quarto, vi Aiden se espreguiçando.

-Bom dia — sussurrou ele.

-Bom dia — falei, me ajoelhando ao seu lado e beijando sua testa.

-Dormiu bem?

-Mais ou menos... Como estamos?

-Bem... — soltei uma risada baixa — E você?

-Não chegou nenhuma notificação do Dr. Cunningan?

-Ainda não, mas vai chegar a qualquer momento.

Tentei não deixar o nervosismo e a ansiedade transparecerem na voz enquanto dizia isso, mas Aiden não se importou.

Passei toda a manhã tentando distrair Aiden com qualquer coisa. Era quarta-feira, mas ele não quis ir para a escola, alegando que não estava com a cabeça boa para pensar em matérias da escola. Permiti que ele faltasse, mas só naquele dia. Coloquei um filme que ele gostava, preparei panquecas, até sugeri que fôssemos dar uma volta no bairro. Mas tudo que ele fazia era responder com um sorriso fraco e olhar perdido. O trauma já o havia alcançado, e por mais que ele quisesse fingir que não, seu corpo já carregava a tensão.

Por volta das 14h, meu celular vibrou. Uma mensagem do Dr. Cunningan.

"Sally, preciso que esteja em casa até o fim da tarde. A promotoria está acelerando o processo. Existe a possibilidade de uma intimação chegar ainda hoje.”

O estômago revirou. Tive que apoiar a mão na parede.

— O que foi? — Aiden perguntou, assustado com minha palidez repentina.

— Nada... só um lembrete do advogado.

Ele não pareceu convencido, mas não insistiu.

O dia passou lentamente. Leah estava ajudando minha mãe na cozinha. Aiden tomava banho. Eu estava na sala, olhando para o celular como se isso fosse me proteger.

Então a campainha tocou.

Meu coração parou por um instante. Levantei devagar. Minha mãe olhou pra mim, e eu assenti. Fui até a porta e abri. Dois homens, um de terno, outro de uniforme policial.

— Boa tarde, senhorita Sally Hayes?

— Sim...

— Temos aqui uma intimação oficial. A senhora está convocada a comparecer à audiência preliminar na próxima sexta-feira, às nove da manhã. É obrigatória sua presença. O não comparecimento será interpretado como resistência legal.

Assinei, mesmo com as mãos trêmulas. Os dois homens foram embora.

Fechei a porta lentamente. Minha mãe já estava atrás de mim.

— Recebeu?

— Sim... é sexta-feira.

— Isso é bom. O advogado vai ter tempo pra montar sua defesa. Você ainda está em liberdade, e isso já é meio caminho.

Assenti, mas minha garganta estava fechada, tanto que, mesmo minha mãe tendo feito o jantar maravilhoso como sempre foi, eu não conseguia comer direito; a comida não descia.

Após o jantar, Aiden estava deitado, olhando o teto, como na noite anterior. Mas dessa vez, algo em seu olhar parecia mais resoluto. Como se o medo tivesse virado raiva, ou talvez... coragem.

— Você vai sair dessa — ele disse de repente.

— Não sei, Aiden. A justiça nem sempre enxerga as coisas como elas são.

— Então eu falo a verdade. Digo que fui eu que insisti, que você tentou evitar, que...

— Ei! — interrompi, segurando seu rosto — Você não vai mentir por mim. Mesmo que tenha sido confuso... não foi culpa sua. Isso é importante. Você entende?

Ele hesitou. Depois assentiu, com os olhos marejados.

— Mas é tão injusto... ver você perdendo tudo.

— Não perdi você.

Ele fechou os olhos e encostou a testa na minha.

— Ainda não.

-Mas você não vai me perder nunca.

Ele negou com a cabeça.

-Meu pai é um homem poderoso e influente. Toda mentira que ele contar para metade da cidade, todos vão acreditar nele...

Eu queria falar palavras de apoio para Aiden, para que ele se sentisse mais à vontade, para reduzir um pouco o estresse antes que ele tivesse um colapso emocional, mas eu não queria dar falsas esperanças. Tanto para mim, quanto para ele, queria esperar que o advogado pudesse dar uma resposta convicta de tudo se resolveria em paz para todos nós.

Deitamos, fiquei deitada com Aiden na cama por um tempo. Estava de olhos fechados, ele já havia dormido tranquilamente, mas eu não conseguia fazer nada para pegar no sono. Mas, eu não podia ficar assim, a audiência amanhã era cedo e eu não podia faltar, mas se dormisse tarde, não ficaria bem apresentável no tribunal. Incapaz de suportar aquilo, levantei-me devagar para não acordar Aiden e fui até a cozinha. No caminho, encontrei minha mãe no corredor.

-Que susto mãe — sussurrei.

-Ainda acordada filha? — perguntou ela.

-Não consigo dormir. E isso me preocupa.

-Certamente essa situação está mexendo com você e te deixando com insônia. Vem, vou te dar um remédio pra dormir.

-Não, aí eu não acordo — protestei.

-Fique tranquila, esse remédio nem é tão forte. Agora são 23:45 então é capaz de você acordar lá pelas oito horas — explicou.

Assenti e fui com ela até a cozinha, onde ela me deu um comprimido.

-Depois que seu pai nos deixou, esse remédio me ajudou muito a controlar meu sono — disse ela.

-Que bom que ajudou — falei enquanto tomava.

Deixei o copo logo depois e me levantei.

-Está tremendo filha — observou ela.

-Estou nervosa mãe. Aiden está cada vez mais com medo de eu ser presa e ele ficar sozinho, eu tento falar algo encorajador, mas não consigo, essa possibilidade também me assusta.

Ela suspirou, vindo até a mim.

-Eu sei o que está pensando. Mas o Dr. Cunningan disse que temos grandes chances de dar tudo certo — ela disse.

-Não é só por isso... Vê-lo assustado assim, acaba comigo também! — confessei.

Com um leve sorriso, ela se aproximou de mim.

-Você gosta mesmo desse garoto né?

-Claro que gosto. Apesar de tudo isso, ele é inteligente e maduro. Muitos adolescentes como ele fazem coisas erradas, principalmente quando estão em uma situação como essa, mas mesmo assustado e com medo, ele está lidando com isso com maturidade desde que passou a morar na minha casa.

Minha mãe sorriu mais uma vez.

-Parece até que ele estava pronto para morar sozinho, só precisava de um incentivo pra sair de casa — ela riu.

-Talvez, mas mesmo assim, a maturidade dele para lidar com isso é impressionante. E eu gosto muito dele, me preocupo demais com o que ele pode fazer se eu perder esse processo — desabafei.

Ela pegou minhas mãos, sem diminuir o sorriso.

-Você vencendo ou não, eu sempre estarei aqui para te ajudar.

-Mesmo depois de tudo o que eu fiz?

-Você errou ao querer se vingar do Sr. Clifford, mas acolheu o filho dele e o impediu de virar sem-teto. E você ainda é minha filha, eu jamais te deixaria sozinha em qualquer ocasião — garantiu ela.

Sorri e a abracei, totalmente agradecida por todo o apoio que ela estava me dando. Após uns segundos, o remédio começou a fazer efeito e então fui para o quarto, onde rapidamente consegui dormir.