Doce Tentação
19 Armação...
Armação...
O conversível de Heero adentrava a mansão Yui. Seu pai, já sabendo que ele havia chegado, foi esperá-lo na porta. Todas as vezes que Heero se lembrava de ter visto seu pai na porta esperando-o, é porque o assunto era muito sério. Estacionou o carro em frente à escadaria, e pensou antes de sair. Não sabia o que iria fazer, mas, sabia que algo teria que ser feito e rápido.
– Heero? Vai ficar aí o dia inteiro? – Repreende-o Hiko, pela demora que teve em sair do carro.
Heero vendo que não tinha mais tempo, se deu por vencido e saiu. Caminhou apressadamente para Hiko e quando chegou cara a cara com o pai, viu este dar-lhe as costas e entrar. Passou a segui-lo com passos firmes. Passou pela sala onde haviam encontrado David estirado e sorriu discretamente com a memória de ver o local todo manchado com o sangue do rapaz. Continuou a seguir o pai até entrarem no escritório dele e Heero fechou a porta atrás de si.
– Bom... Aqui estou! Quem é o suspeito? – Por favor, me digam que é algum Zé Mané da rua...
– Veja essa foto... – Hiko estendeu a mão para que Heero pudesse pegar e olhar para o pedaço de papel.
– Zechs? – Disse Heero em assombro, sua voz era quase um sussurro, apesar de suas feições não demonstrarem nada, Hiko conseguiu não só escutar o nome pronunciado pelo filho, como notou a imperceptível inquietação do mesmo.
– Você o conhece? – Hiko olhou fixamente para o filho ao passo que se levantava da cadeira que antes havia sentado.
Heero respirou fundo. Sabia que de nada serviria mentir para o pai. Olhou seu pai firmemente e assentiu com a cabeça.
– Até onde você sabe dessa história? Conte-me a verdade!
– Sim... Mas antes quero saber onde conseguiu essa foto?
– Coloquei vigias a paisana na porta do quarto de David no hospital. E a única pessoa desconhecida que vi entrar foi esse cara. Então juntei dois mais dois...
– Quem mais sabe disso?
– Só nós dois, por agora... – Pelas feições frias de Hiko, podemos ver que Heero teve a quem puxar...
– Ótimo... Sente-se... A conversa é longa! – Heero puxou uma das cadeiras a sua frente e se sentou ainda encarando seu pai que continuava em pé.
– Quanto... Você sabe dessa história? – Hiko voltou a perguntar, encarando o filho, agora sentado, com a feição visivelmente tensa.
– Tudo! – Disse Heero calmamente. Seu pai concordou com a cabeça e sentou de frente para o filho prestando muita atenção.
Heero começou a contar para seu pai tudo o que havia ocorrido com ele dês do dia que conheceu Relena na festa de noivado. Absolutamente tudo. Hiko era um homem decidido e não gostava de ladainha. Mas sabia que precisava ouvir a história toda, porque se seu filho, quem quase nunca se abria ou falava, estava contado àquela história era porque deveria ser importante. Por isso resolveu se calar e prestar muita atenção.
–/-/-
– Entra querida Julia... O David está acordado!
Alicia estava realmente feliz em ver aquela a quem sempre quis como nora. Seu sonho de ver David casado com Julia podia se realizar finalmente, agora que ele e Relena já não tinham mais nada. Julia Vancourt era filha única do maior advogado do país, herdeira de uma das maiores fortunas, resolveu seguir os passos do pai na carreira de direito.
– Obrigada Alicia! – Ao entrar a primeira coisa que fez foi sorrir para seu amado, que devolveu-lhe um aceno de cabeça apenas. – Como você está David? – Dito isso correu ao encontro deste, ignorando o fato dele não estar nem um pouco alegre em vê-la.
– Estou bem Julia, obrigado... – David virou a cabeça para o lado contrario ao da moça, que continuava a ignorar a falta de educação do rapaz.
– Mas quem foi o idiota que fez isso com você meu querido?
David ouvindo a pergunta dela se pôs a pensar. O que faria agora? Contaria a verdade e aguardaria que Zechs viesse tirar satisfação? Ou manteria o segredo como um covarde... Aquilo não o deixava descansar... O que faria? Porque na cabeça de David, ele era inocente e não mereceu aquilo tudo...
– Fala filho... Conta pra nós quem foi o desgraçado que fez isso com você amor...
– Sim! E então eu terei o prazer de colocá-lo em cana.
A última frase de Julia chamou a atenção de David. — Colocar o Zechs em cana, não é uma má idéia. – Pensou ele. — Do jeito que Relena adora o primo, aceitaria com certeza fazer um acordo comigo para vê-lo em liberdade... E assim ela se casaria, finalmente, comigo!
– E então David? O que me diz?
– Hum... Prende-lo. É realmente uma ótima idéia...
– É claro que é meu amor... Não podemos deixar esse monstro a solta. Encarregarei-me pessoalmente de que ele vá preso e pague pelo que lhe fez.
David sorria maliciosamente com a sua nova idéia. Usar Zechs para obrigar Relena a casar com ele e abandonar Heero era como matar dois coelhos numa só cajadada. Fora que também daria um bom susto em Zechs pelo que fez com ele...
– Então filhinho... O que fará? Você viu seu agressor, não foi?
– Sim mãe.
– Então me fala quem é para que possa puni-lo como ele merece! – Concluiu Julia, altiva.
David sorriu, olhou sua mãe depois fixou o olhar em Julia, então falou:
– Seu nome é Zechs... Zechs Marquise o primo-irmão de Relena!
–/-/-
– Sim... O nome dele é Zechs Marquise, ele é primo-irmão da Relena e foi quem causou todo esse problema. Não o investiguei. Sinceramente, não senti nenhuma vontade de fazê-lo. Afinal, ele só estava defendendo a honra dela.
Heero falava calmamente. Haviam se passado umas três horas que ele e seu pai estavam trancados naquele escritório. O rapaz havia contado absolutamente toda a história que envolvia o trio: David x Relena x Heero, e agora com o acréscimo de Zechs Marquise.
Hiko estava perplexo. Em vários momentos teve vontade de matar David. Principalmente quando soube do motivo pelo qual Zechs o espancou. Nisso Hiko, Heero e Zechs estavam cem por cento de acordo. Mas, também quis dar uma boa surra em seu filho por dois motivos, um não ter lhe contado o que se passava antes e dois por ter aceitado a maldita proposta de David.
– Ah... Já ia me esquecendo... Com toda essa bagunça, esqueci de parabenizá-lo pai...
– Hum? Parabenizar-me de que?
– Você será Avô! – Disse Heero na maior naturalidade!
– Avô? – Hiko levantou da cadeira, eufórico. Finalmente ele teria um neto. Seu filho a quem pensava que nunca iria construir uma família, lhe daria um grande orgulho. – Relena... Relena está grávida?
– Sim! – Finalmente, Heero sorriu.
– Mas, que maravilha...
Hiko foi até o filho e o puxou para um forte abraço. Mal podia acreditar que no meio de todos os problemas tinha uma noticia tão maravilhosa assim. Mas, depois de seus cinco minutos em pura alegria, caiu a ficha. Como eles fariam para salvar Zechs do grande problema em que este entrou?
Heero entendeu perfeitamente a mudança de humor de seu pai. Que de uma euforia alegre, passou para um rosto preocupado...
– Sim... Agora você entende meu dilema?
– Entendo. Mas, não podemos deixar as coisas como estão. Heero... Temos que agir... Reúna os melhores e vamos trabalhar as possibilidades! Não podemos ficar de braços cruzados torcendo para que David resolva ficar de boca fechada!
– Bom... De qualquer forma, duvido que ele não fale!
Hiko e Heero concordaram mudamente. O pai colocou a mão no ombro do filho e sem dizer nada começou a pensar no que poderiam fazer...
– Se ao menos pudéssemos provar as falcatruas de David...
– Mas, para isso precisamos de provas...
– E alguém capacitado o suficiente para se infiltrar e investigar...
De repente um estalo se apossou de ambos e disseram em uníssono:
– Hadja!!!
Sem mais nada a dizer e apenas com a concordância silenciosa de seu pai, Heero saiu às pressas da mansão. Não podia mais perder tempo.
–/-/-
Heero estava em seu escritório olhando pela enorme janela que ia do teto ao chão, observando a maravilhosa vista da cidade que tinha. Todos já haviam ido embora, o expediente do dia havia acabado e não havia nenhum funcionário no prédio além de faxineiros, seguranças e Heero.
A porta do escritório dele se abre sem bater... Por ela entra Hadja. Seu sorriso irônico no rosto, já esperando o que viria...
– Me chamou?
Heero limitou-se a olhar pra ela e quando viu o sorriso, entendeu que ela já imaginava de que se tratava...
– Está informada?
– Por alto... David ta no hospital... – Ela foi até uma das cadeiras de frente a mesa e sentou. – E você precisa descobrir o culpado... Mas não quer. Ou já sabe e não quer incriminá-lo... To perto?
Heero sorriu.
– Você sempre acerta! Bom... Mas, vamos ao que realmente interessa!
– Em que posso ser útil?
– Você acertou... Já sei quem é o culpado... Mas não quero que ele saia prejudicado. E também não posso esperar que David se recupere e arme algo contra ele...
– E quem seria... Ele?
– O primo-irmão da Relena!
Hadja arregalou os olhos, mal podia acreditar no que estava ouvindo. O cara que causou todo aquele barulho é da família da Relena...
– Uau... Eu já o respeito por isso! – E assim terminou por dizer. E sorriu.
– Achei que você iria gostar!
– Claro que sim... Mas e agora... O que quer que eu faça? Termine de matar David para que não abra a boca?
– A idéia é tentadora... Mas, seremos mais “cautelosos”...
– Detesto “cautela”, sabia?
– Ah é? – Heero começou a rir.
– O que foi?
– Imaginar como você e o Quatre são diferentes e o quanto se amam é engraçado!
– Olha quem fala... Heero e Relena... Tem algo parecido comigo e com o Quatre?
– Fato! – Heero sorriu ao lembrar-se de sua amada.
– Ta... Mas e aí? Vamos ficar aqui falando do quanto amamos nossos pares? Ou vamos ao que interessa? Destruir David!
– Escolhi a pessoa certa, para o caso! – Heero e Hadja trocam sorrisos de cumplicidade. Pensavam iguais!
Heero pegou uma pasta que estava em frente a ele na sua mesa e entregou à Hadja. A moça abriu e se surpreendeu com o que viu. Na pasta continha um crachá e alguns documentos. O crachá tinha a foto dela e o nome de Anne Montana. Hadja riu e olhou para Heero entendendo tudo.
– Você quer que eu me infiltre no escritório de advocacia do David?
– Já está tudo pronto. Até já está empregada. – Ele sorriu.
– E o que exatamente estarei procurando?
– Falcatruas, Propinas, Corrupção de um modo geral!
– Hum... E o que fará com isso?
– Irei me certificar de que a boca do David se mantenha fechada!
Hadja deu mais uma passada de olho pelos papeis e continuou a falar.
– E acha que vai funcionar?
– Se não funcionar... Te deixo acabar com ele! O que me diz?
Hadja sorriu maliciosamente.
– Acho que vou torcer para que não funcione! – Heero sorriu com o comentário. – Mas... Quatre sabe disso?
– Ainda não. O que você deseja? Conto pra ele?
– Não sei... Prometi a Quatre me manter quieta...
– Hadja... Não quero causar problemas entre vocês dois. Você é a pessoa mais capacitada pro serviço que conheço. Mas, se achar que terá problemas com ele por conta disso, ou não quiser fazer... Fale. Arrumarei outra pessoa.
A moça respirou fundo e pensou por uns instantes. Lembrou de quem era e o quanto Quatre a ajudou. Hadja era uma ex-espiã. Foi descoberta quando estava em uma missão e quase morreu em um tiroteio. Para a sorte dela, no prédio onde ela foi encurralada estava hospedados Quatre e Heero. Que quando ouviram o tiroteio foram ver de que se tratava.
Ao vê-la machucada e sangrando, Quatre a salvou. Matou o atirador que tinha ela na mira e cuidou dela. Pagou hospital e arcou com todas as necessidades dela. Heero ofereceu a ela asilo político, se ela largasse a vida de espiã. Temendo por sua família, Hadja aceitou e o The Preventer’s assumiu a responsabilidade por ela. Heero mandou buscarem a Cléo e arrumou uma casa para elas. Nova vida e emprego.
Foi quando com a convivência, Hadja e Quatre começaram a se apaixonar. Ele era diferente de todos os homens com quem ela já tinha se envolvido. Ele era doce, cuidadoso e verdadeiramente se importava com ela, incondicionalmente. Ele deu o primeiro passo e ela aceitou. Isso já faz muitos anos. Desde então, Hadja tem servido como informante para eles, mas nunca trabalha com a ação. Na maioria das vezes, faz serviços burocráticos. E é assim que Quatre prefere. Ele ainda tem medo de perdê-la...
– Então Had... O que me diz?
Ela foi tirada de suas lembranças abruptamente. Olhou para Heero e concluiu.
– O caso é meu... Vou conversar pessoalmente com o Quatre!
– Ótimo. Qualquer coisa peça para ele me procurar!
– Ok!
A moça se levantou e começou a andar em direção a porta, quando se lembrou de algo. Virou-se para Heero e com um largo sorriso na face, disse:
– Já ia me esquecendo! Parabéns... Papai!
Depois de dizer isso, deu as costas pra ele e saiu. Heero que tinha olhado para a moça quando ela começou a falar, continuou estático. Viu-a sair pela porta, sem realmente ver. Ele não tinha ainda se tocado com isso, os acontecimentos do dia haviam sido tão tumultuados que ele não tinha tido tempo de entender realmente o que estava acontecendo.
Agora sim... Ele finalmente entendeu. Relena está grávida e o filho é dele. O líder do The Preventer’s soltou seu peso e seu corpo caiu sentado na poltrona atrás dele.
– Eu... Eu vou ser pai!
Era difícil assimilar aquela situação. Onde ele estava que não tinha entendido isso antes. Ele até mesmo deu a noticia para seu pai e recebeu os parabéns dele, pela novidade. Mas, porque só agora ele entendeu de que se tratava?
– Será que eu estive adormecido? Meu Deus... Eu vou ser pai... Relena está grávida! Vamos ter um... Um... Um filho... Um Filho?
Acho que agora sim caiu a ficha. Heero levantou da cadeira e começou a andar de um lado para o outro. Levou a mão para o rosto e subiu para o cabelo o bagunçou e começou a rir. Quem o visse naquele momento, pensaria que havia ficado louco. Será que não ficou mesmo?
Sem pensar mais em nada, Heero correu para a mesa e pegou seus pertences. Pegou seu paletó e saiu correndo do escritório. Entrou em seu carro e acelerava a toda velocidade. Passou em frente a uma floricultura e decidiu comprar um buquê de flores para sua amada... Depois seguiu a toda velocidade para seu apartamento. Relena o estaria esperando...
Quando entrou em casa, ela estava dormindo no sofá e um livro aberto caído no chão a seu lado. Ele vendo aquela cena, se aproximou de sua amada e colocou o buquê na mesinha de centro em frente à moça. Debruçou e delicadamente depositou um beijo nos lábios dela. Então, desceu sua mão sobre o ventre dela e começo a acariciá-lo. Sorrindo como nunca ninguém viu. Então, ele se aproximou e depositou um doce beijo na barriga dela e encostou a cabeça como se quisesse ouvir algo.
Relena despertou e viu Heero encostado nela. Sorriu e passou a mão pelos cabelos dele. Brincando com os fios.
– Desculpa... – Disse Heero.
– Pelo que?
– Por toda tristeza que fiz você sentir. – Ele não a olhava. Continuava com a cabeça deitada sobre a barriga dela.
– Isso já é passado. – Ela dizia com sinceridade e um sorriso nos lábios.
– Vamos nos casar? – Agora ele levantou a cabeça e a encarou firmemente.
...Continua...
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