Doce Sangue

1 Uma Gota de Sangue


Ainda me lembro do olhar de minha mãe antes de sair de casa, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto pálido era o que me atormentava durante a viajem. Finalmente eu tinha dezoito anos, estava me mudando para Fênix, tinha ganhado uma bolsa de estudos em Javardy, uma das melhores faculdades da região. Foi uma alegria quando soubemos dessa bolsa de estudos, mas não muito para minha mãe, apesar dela ficar muito feliz por mim, por outro lado ela se preocupava muito em saber que eu teria de morar no campus da faculdade, sozinho. Minha mãe e eu vivíamos juntos, meu pai morreu há alguns anos, agora eu estava me mudando para Fênix, o que deixava minha mão triste e preocupada, mas o que me deixava aliviado é que ela não estaria completamente sozinha, Hanna minha tia a visitava quase todos os dias.

Meu celular tocou algumas vezes, ele estava no banco do carona junto a uma mochila onde eu levava todos os meus CDs e jogos. Talvez fosse minha mãe me ligando para saber se eu estava bem, não sei eu não podia atender, meus olhos estavam fixo na estrada, estava chovendo e eu não podia me distrair, era perigoso. Ao longe avistei uma placa indicando um posto de gasolina logo a frente, resolvi parar precisava descansar um pouco, também precisava de gasolina.

Quando me aproximei do posto, deixei meu carro perto da bomba de gasolina, um senhor se aproximou com uma capa amarela, estava com ela devido a chuva que ainda estava intensa.

- Gasolina? — Perguntou o senhor ao se aproximar da janela do meu carro,

- Sim, cinquenta reais por favor — Eu disse abaixando o vidro e depois entregando a chave ao senhor

Ao lado do posto tinha uma lanchonete, era como um café de beira de estrada. Depois que paguei a gasolina fui até essa lanchonete estacionei o carro perto de um coqueiro que estava ali em frente. Depois desci do carro e corri até o local, estava chovendo ainda e eu não queria me molhar. Ao entrar na lanchonete notei que ali haviam algumas mesas, todas perto das janelas, assim quem se sentava podia olhar o que acontecia do lado de fora. Não tinha muita gente ali, apenas dois casais, e uma mulher com uma criança. Eu me aproximei do balcão, uma moça muito simpática veio até mim com um sorriso no rosto

- Pois não — Perguntou a moça, ela era loira, linda por sinal, tinha o cabelo preso por causa do uniforme que usava

- Eu queria um achocolatado, será que vocês tem? — Perguntei me sentando no banco que ficava ali próximo ao balcão

- Claro que temos, só um minuto — Ela respondeu simpática e seguiu em direção a cozinha que ficava nos fundos

Eu voltei meu olhar para o local, olhei em cada canto, era um lugar bem agradável. Olhando pela janela ainda dava pra ver a chuva caindo intensamente, os pingos escorriam pelo vidro. O Tempo estava escuro, parecia noite pelas nuvens escuras que cobriam o céu, mas ainda eram duas horas da tarde.

- Com licença, aqui está seu achocolatado — disse a moça voltando minha atenção ao balcão. Ela colocou o copo, ao lado uma xícara com açúcar, uma colher e um guardanapo de papel ao lado.

- Muito obrigado — Respondi, depois eu peguei o copo nas mãos e comecei a beber.

A moça ficou ali limpando o balcão e algumas mesas enquanto eu tomava meu achocolatado. Depois que terminei deixei o dinheiro embaixo do copo. Ela pegou e levou ao caixa, se surpreendeu com a gorjeta que eu deixei a ela. Realmente gostei do atendimento, então deixei um agrado. Eu estava para deixar o local, mas precisava ir ao banheiro, estava muito apertado e seria melhor ir antes de seguir viajem

- Você teria um banheiro? — Perguntei antes de sair pela porta

- Claro, fica nos fundos, pode ir se quiser — A moça respondeu apontando com o dedo o caminho

Eu agradeci com um gesto, e segui para o banheiro. Ao chegar no fundo da lanchonete avistei o banheiro, era bem pequeno, ficava ao lado da lanchonete na parte do fundo. Entrei no banheiro era bem limpo para minha surpresa, geralmente banheiros de postos e lanchonetes de beira de estrada são sujos ou fedorentos. Fiz minha necessidade lavei minhas mãos e sai.

Do lado de fora notei que alguém estava chorando. Corri os olhos pelo lugar, foi quando notei um menino, ele estava agachado com as mãos na cabeça encostado em uma árvore ali próximo a lanchonete. Corri até lá e tentei chamar o garoto, mas ele não mostrava o rosto.

- Ei menino, você está bem? Quer ajuda? Posso te ajudar — Eu falava enquanto me aproximava mais do menino, mas ele parecia recuar cada vez que eu me aproximava

- Vai embora — ele gritou sem mostrar o rosto

- Está tudo bem, calma — eu disse isso tentando acalma lo, depois coloquei minhas mãos no ombro do menino, ele ainda estava de cabeça baixa

De repente o garoto surtou, pegou minha mão e mordeu, notei que sua boca estava sangrando antes mesmo dele me morder. Empurrei o garoto, ele saiu correndo mas eu não fui atrás dele, estava mais preocupado com minha mão que estava sangrando muito. corri para dentro da lanchonete outra vez, as poucas pessoas que estavam ali se assustaram quando entrei com a mão sangrando.

- Meu Deus do céu o que houve? — A garçonete perguntou espantada de olhos arregalados ao ver minha mão sangrando

- Foi um garoto louco, ele me mordeu — Eu disse ainda sentindo muita dor

- Espere, tem um quite de primeiro socorros aqui, vou buscar, se acalme — Disse a garçonete e saiu correndo

Não demorou muito para ela voltar, eu estava sentado em uma cadeira, as poucas pessoas que estavam ali ficaram em volta me olhando, enquanto a moça gentilmente passava um algodão com álcool em minha mão, aos poucos ela foi tirando todo o sangue que havia na minha mão.

- Isso foi alguma brincadeira? — A Garçonete falou com a voz um pouco desapontada

- O que? Não.. é claro que não, o garoto me mordeu, está doendo eu juro — Falei tentando convencer a moça

- Não tem nenhum machucado aqui, sua mão está bem, se realmente for verdade o que você diz, o sangue não era seu — Falou a moça se levantando

Eu olhei para minha mão e realmente não tinha nada, nenhum ferimento, nenhuma cicatriz, ainda sentia muita dor, mas minha mão estava perfeitamente bem.

- Me desculpa pelo susto — Falei com a voz baixa, ainda impressionado, eu tinha visto minha mão sangrando, como era possível que agora estivesse bem

- Tudo bem, — A moça disse isso e voltou a seu trabalho, todos que estavam em volta também voltaram a suas mesas.

Mesmo achando muito estranho, não tinha mais nada o que fazer ali. Precisava seguir viajem para Fênix, já estava perto, precisava chegar antes de escurecer ou eu não entraria no campus.

Agradeci outra vez e depois sai da lanchonete, voltei ao meu carro, antes de sair, peguei meu celular e disquei para minha mãe.

- Alô — Ela disse do outro lado

- Oi Mãe — Falei

- Charlie, meu filho você já chegou em Fênix? está tudo bem? — Minha mãe parecia muito preocupada como sempre

- Calma mãe, eu estou em um posto de gasolina, parei para descansar, mas já estou voltando a estrada

- Que bom que está bem, me liga assim que chegar ok

- Certo mãe eu ligo, agora fica tranquila tá bem?

- Sabe que não posso né, mas vou tentar

- Tá bem, eu te amo

- Te amo

Depois que desliguei o celular voltei a estrada, fui dirigindo até Fênix, sem paradas dessa vez. Não demorei muito a chegar, entrei na cidade, o tempo estava melhor aqui, estava chovendo mas bem pouco, corri pela cidade até chegar no Campus de Javardy. O porteiro me deixou entrar assim que eu mostrei minha identificação e meus documentos.

Era um lugar enorme, como um condomínio, deixei meu carro na garagem e depois segui caminhando até o prédio um, que era onde ficavam os dormitórios. Na recepção estava uma senhora de cabelos brancos, óculos e um terninho. Me aproximei com minhas malas depois entreguei um papel a ela. A senhora me olhou dos pés a cabeça, depois deu um sorriso de canto

- Bem vindo a Javardy Senhor Pierce, seu quarto é no quarto andar, número duzentos e vinte e dois.

- Obrigado — respondi com um sorriso.

Depois caminhei até o elevador. Não tinha muitas pessoas ali no momento. subi sozinho até o quarto andar, depois caminhei com dificuldade carregando minhas malas até o quarto duzentos e vinte e dois. Bati na porta, estava fechado, alguns alunos corriam pelos corredores, outros estavam com a porta de seus quartos aberta, e outros ouvindo músicas com a porta fechada. De repente a porta do meu quarto se abriu. Um garoto lindo, olhos claros, cabelo preto, uma pele clara deixando ainda mais visível seus lábios vermelhos e carnudos. ele usava uma regata e um shorts, estava descalço, seu corpo era bem definido, diferente de mim que era magro. Eu também tinha os cabelos escuros, olhos claros, mas sempre tive o corpo magro, muitas meninas me achavam bonitos no colégio, mas elas não me interessavam, todas sabiam que eu era gay, mas mesmo assim sempre davam em cima de mim.

- Você é? — Perguntou o rapaz, sua voz era grossa e sexy

- Sou o seu novo colega de quarto, eu acho — Respondi ainda tímido

- Que merda — ele disse com muito desprezo, depois saiu de frente da porta, me deixando passar, mas sem ao menos me cumprimentar ou dar boas vindas

Eu me aproximei da minha cama, o quarto era dividido assim. uma cama e um guarda roupas de um lado para um aluno, e uma cama e um guarda roupas de outro lado para outro aluno. apenas um banheiro para os dois.

Joguei minha bolsa na cama, depois abri o guarda roupas, comecei a separar minhas roupas para guardar. O Meu colega de quarto ainda parecia furioso, ele estava na cama dele com o notbook em cima das pernas, olhando atentamente para a tela.

- Meu nome é Charlie — Falei tentando puxar um assunto

- E o que isso importa? — ele respondeu com a voz grossa. Resolvi não falar mais, percebi que ele não tinha gostado de mim, ainda não entendia porque, mas ele realmente não foi com minha cara.

Depois que guardei toda minha roupa, fui até o banheiro, precisava de um banho. tirei minha roupa assim que fechei a porta, entrei debaixo do chuveiro e deixei a água quente cair em minha cabeça e no meu corpo, tentando relaxar. Depois que eu terminei o banho fui para frente do espelho, fiquei me olhando como sempre, notei que algo estava estranho em meus olhos, ele não estava da mesma cor de sempre, sempre tive os olhos claros, mas eles estavam um pouco escuro o que me deixou muito preocupado. Depois me vesti e sai do banheiro, fui até minha mala e peguei um colírio, voltei ao espelho para poder pingar o remédio, mas ao me olhar outra vez no espelho notei que meus olhos estavam normais, do mesmo jeito de sempre. Isso me deixou muito intrigado. Voltei a minha cama e me deitei. Meu colega já estava dormindo, resolvi fazer silêncio, pois não queria acorda lo para fazer ele me odiar mais do que já odeia.