Doce Promessa
17 Dezessete
Notas iniciais
Às vezes, nenhuma palavra precisa ser dita.
Olhares, toques, gestos. Joana e Joseph compartilhavam tudo isso e ainda assim diziam tanto, mesmo sem realmente dizer coisa alguma pelo que parecera extensos minutos. Ela não sabia qual o momento exato, durante a enxurrada de sentimentos que os arrebatara tempos antes, em que foi parar no colo de Joseph. Os braços fortes a mantinham no lugar, de onde ela nem sequer por um segundo rejeitara a ideia de permanecer.
Mais um suspiro de contentamento lhe escapou quando Joseph envolveu seu punho, para logo em seguida encostar os lábios na pele bem ali. Joana o estudou enquanto ele permanecia com os olhos fechados, parecendo sorver seu cheiro, sua essência e suas preocupações, a largando em meio a uma calmaria. Ele não podia ver, mas os lábios de Joana curvavam-se em um sorriso quando a mão dela que descansava em sua nuca lhe atingiu os cabelos, entrelaçando-se nos fios. O sutil toque pareceu despertar Joseph, que ergueu as pálpebras para revelar dois mares índigos, atentos à mulher colada em si.
Com os olhares presos um no outro, Joana minuciou os detalhes do rosto de Joseph. Ela analisou a curva da sobrancelha escura e quis traça-la com o dedo, então ela o fez. Desejou percorrer o nariz reto e um segundo depois seu dedo já o fazia atrevidamente. Com as pontas dos dedos sentiu a aspereza da barba quando seus olhos foram atraídos para ali. Então sua atenção alcançou os lábios de Joseph e ela sabia que não os queria sentir sob seu toque. Mesmo que tentasse negar de todas as formas possíveis, com Joseph ela sabia exatamente o que queria. Desejava a sua presença, seu carinho, seu olhar sobre ela. E, naquele momento, desejava ter seus lábios sobre os dele.
Então ela o fez.
Lançando-se em busca do contato íntimo que já lhe era tão familiar, Joana atou os braços em volta do pescoço de Joseph, permitindo que ele a levasse para lugares que ela não tinha mais medo. O beijou com ímpeto, seu corpo pressionando-se com força ao do homem que lhe envolvia cada vez mais. Sentiu o rebuliço na barriga e não ficou surpresa. As batidas de seu coração tornaram-se frenéticas e Joana quase sorriu contra os lábios de Joseph, que também ameaçavam desenrolar um sorriso.
Joseph não teve a menor chance. Vira algo nos olhos de Joana, enquanto ela o estudava, que nunca havia notado. Algo que aumentou a esperança que ele nem mesmo sabia que nutria. Ele a observou e o caminho do toque dela o intrigou um pouco mais, quando subitamente Joseph lembrou das palavras que o trouxeram até aquele momento. Então as peças pareceram se encaixar e Joseph soube que algo grande estava acontecendo.
Enroscando a mão nos cabelos de Joana, ele voltou a beija-la, como se dali pudesse extrair todas as respostas que procurava.
Passara os últimos dias tentando descobrir o que Edward Fretcher fazia em Recife. Importuna-lo não poderia ser o único motivo, mas Joseph temeu que sim. Percebeu com profunda perturbação que Edward já criava contatos na cidade. Ele bem sabia o quanto era difícil conter os estragos de uma pessoa com poder, influências e mal-intencionada. Então ele manteve-se em seu quarto e pensou. O muro que Joseph erguera para se proteger começara a ruir quando lembranças indesejadas serpentearam em sua mente. Se viu juntando suas coisas e partindo, mas algo o impedia de se mover. Quando a carta de Joana chegou através de Pedro, ele soube.
Como se um raio de luz brotasse em sua frente e indicasse para onde ele deveria seguir, Joseph precisou segurar-se para não correr até ela. Apenas naquele momento, pois sabia que cedo ou tarde encontraria o caminho para Joana. Ao pôr os olhos sobre ela naquele começo de noite, surpreendeu-se ao perceber que ela sempre faria o oposto ao que ele esperava, ao desmoronar por completo a proteção que ele criava. Joana jamais seria capaz de erguer aquele muro e ele estaria sempre à deriva enquanto ela estivesse por perto. Se com isso Joseph esperou sentir aquela mesma necessidade de fugir, nada poderia lhe ser mais revelador que sentir-se apenas mais atado a Joana.
Seus lábios fugiram dos dela, para percorrer um caminho que o levava direto a seu objetivo. Lhe sentiu o cheiro, beijou cada centímetro de pele exposta do pescoço e só deteve seu trajeto impetuoso quando pressionou os lábios contra a têmpora de Joana, o aroma de seus cabelos o envolvendo.
— Minha doce Joana...
Aquele sussurro carregado de emoção pegou Joana desprevenida. Por um momento ela mal foi capaz de se mover, o olhar perdido em algum ponto distante na cozinha. O carinho e o pesar que Joseph despejara na frase serpeava em volta dela, pulsando em um sentimento desconhecido. Então, subitamente, Joana teve medo que ele estivesse se despedindo.
Pensou em quando ficara tão claro para ela que Edward Fretcher era o motivo pelo qual Joseph se recusava a permanecer em Londres. Ele estava sempre fugindo, ela ponderou, até seus olhos marejarem a ponto de deixar sua visão turva. Joana não ousou piscar, tentando manter as lágrimas sob seu controle. Mas falhara, tanto quanto falhou ao tentar conter o medo que lhe atravessou. Ela iria perdê-lo e por algum motivo aquilo a assustava.
Imaginou sua vida seguindo sem Joseph por perto e seu coração apertou um pouco mais. Vivera até agora todos os seus 23 anos muito bem, a perspectiva de conhecer alguém como Joseph jamais lhe passando pela cabeça. Por que agora tudo estava diferente? A ideia de precisar da presença de alguém a aterrorizava. Alguma coisa não estava certa e Joana espantou-se com o pensamento de que se tratasse de...
— Você está chorando? – a voz de Joseph lhe atingiu, interrompendo seus pensamentos.
Joana apenas negou com a cabeça, incapaz de falar enquanto escondia o próprio rosto na curva do pescoço de Joseph. Então notou uma lágrima solitária o atingir ali e ela chorou um pouco mais, os olhos fechados com força. Pare com essa bobagem, por favor.
— Você está. O que aconteceu?
Com o cenho franzido de preocupação, Joseph tentou afasta-la de si e trazer o olhar de Joana para o seu, mas ela se manteve firmemente agarrada a ele. Ele desistiu após um momento, para levar a mão as costas dela, afagando lentamente.
— O que está acontecendo, Joana?
Ela voltou a negar com um movimento agitado.
— Esse silêncio não combina com você.
O choro silencioso se transformou em um fungado grosseiro e Joseph a apertou mais, utilizando sua outra mão para tentar ver seu rosto. Joana prontamente impediu.
— Converse comigo. – ele pediu. – É a biscoutaria?
Mais uma negativa.
— São as máquinas? Diga que sim e as jogarei fora agora mesmo, para você parar com essas lágrimas.
Joana notou que se tratava de uma provocação, o tom de voz de Joseph denunciando um sorriso na tentativa de anima-la, então transferiu um tapa no ombro dele. O sorriso de Joseph aumentou.
Tão lentamente quanto o sorriso de Joseph surgira, ele despareceu, à medida que se dava conta de algo.
— Sou eu? – arriscou, em um murmúrio.
Dessa vez Joana não negou, se mantendo quieta antes levar a mão ao rosto, afastando o rastro que sobrara de lágrimas. Respirou fundo e, apoiando-se na força que sabia que possuía, ela se ergueu para encarar Joseph.
— Você vai embora, não vai?
Confuso, Joseph piscou algumas vezes antes de encontrar a voz.
— Por que você acha isso?
— Porque seu pai está aqui. – Joana exprimiu, sem hesitar. – Você vai fugir outra vez, não é? Eu não estou fazendo nenhum julgamento com isso. É a sua vida e suas decisões. Não sei o que aconteceu entre vocês, mas diante da forma que você se refere a ele e de que te vi chorar, algo que nunca pensei ver, imagino que deixou profundas marcas aqui. Então não tenho o direito de fazer nenhum julgamento.
Erguendo a mão, Joana a deixou descansar sobre o peito de Joseph, seu olhar nunca deixando o dele. Joseph não se moveu, observando a respiração dela começar a se alterar, o ritmo desenfreado de palavras atropeladas. Encontrou-se novamente dentro daquele pequeno cômodo escuro no teatro, todos os seus sentidos sendo atraídos para Joana. Relembrou o beijo que mudara tudo e desejou fazê-lo de novo, agora mesmo. E o faria, assim que tirasse aquela ideia da cabeça dela.
— Joana...
— Eu preciso saber. Só me diga se você está indo. Se isso aqui é uma despedida, não a faça dessa maneira.
Joseph tentou chama-la mais uma vez, mas Joana parecia perdida dentro dos próprios pensamentos, soando como se fosse romper-se em duas se não os colocasse para fora. Era assim que Joana era e Joseph desejou que ela nunca mudasse.
Ele sentiu o momento em que os dedos dela fecharam-se em seu peito, o tecido de seu colete escuro sendo torcido nos dedos finos. Sua mão cobriu a dela.
— Não quero acordar amanhã e descobrir que você se foi. – fora a confissão sussurrada de Joana, que provocou em resposta uma sobrancelha erguida de Joseph.
— É mesmo? – ele a provocou. – Achei que quisesse me jogar dentro de um navio de volta para o lugar de onde eu vim.
Joana bufou, mas estava sorrindo.
— Não me tente.
Por além das paredes da biscoutaria, a luz do dia deixava a cidade, dando lugar aos primeiros lampiões que eram acesos pelas ruas. Pessoas apressavam-se para suas casas e o ruído dos cascos dos cavalos era mais proeminente que as conversas, daqueles que seguiam para a vida noturna. A sinfonia de um grilo podia ser ouvida a distância e tudo parecia extremamente tranquilo e habitual.
No entanto, dentro da cozinha da biscoutaria, um sentimento ímpar fervilhava entre aqueles dois. Não importava se já era noite ou dia – eles não notariam. As outras pessoas do mundo pareciam incapazes de alcançar aquele próprio mundo, onde Joana tinha um sorriso preso ao rosto e Joseph a correspondia da mesma forma. Como as coisas podem mudar tanto, ela se perguntou, quando a mão dele lhe envolveu o rosto.
— Não estou indo embora, Joana.
E aquele mundo que naquele momento parecia bom demais para Joana, ficou ainda melhor.
— Mesmo?
Confirmando, Joseph deslizou o polegar pela lateral do rosto de Joana, estudando seus traços.
— Sei que dessa vez não vou conseguir. – ele admitiu, a energia em seu olhar deixando claro para Joana tudo o que ele queria dizer.
Por dentro, alívio percorreu o corpo de Joana, a deixando momentaneamente sem fôlego e palavras. Por fora, ela pressionou os lábios em uma linha fina, assentindo levemente com a cabeça.
— Você vai ficar bem, então? – ela quis saber.
Em resposta, Joseph apenas deixou um suspiro escapar. Perguntou-se o que era exatamente estar bem. Em sua concepção, ele estava bem. Não estava estendido sobre uma cama lutando por sua saúde. Não tinha problemas financeiros. Qualquer questão emocional ele acreditava que podia dar conta. Ainda assim, Joana continuava o encarando, como se enxergasse por além do que ele mostrava, do que ele mesmo acreditava. Então Joseph tentou reunir tudo que poderia contar para fazê-la entender.
— Levante-se.
Ainda que o pedido a deixasse intrigada, Joana se pôs de pé. Joseph fez o mesmo um segundo depois, começando a movimentar-se pela cozinha, enquanto ela se ocupava em o observar. Seu sorriso despontava um pouco mais a cada vez que Joseph se movia, para alcançar uma chaleira ou o café. Joana percebeu, fascinada, que ele sabia exatamente cada uma das coisas, desde onde ficavam as xícaras à forma de queimar o fogo. Ele havia se tornado parte daquele lugar.
— O que foi?
Joana recuperou o foco quando uma xícara com café aquecido fora depositada em sua frente. Erguendo o olhar, encontrou a própria xícara de Joseph, que também possuía café. Seu sorriso aumentou.
— Nada. – ela soprou, a xícara próxima ao rosto para que pudesse sentir o aroma que tanto amava.
Ela respirou fundo. Joseph ainda a olhava desconfiado, sentando-se ao lado dela. Um instante depois, a atmosfera entre eles tornou-se séria e franca.
— Acredito que as coisas entre Edward e eu ficaram piores logo após a morte da minha mãe. – Joseph começou, o olhar distraído entre o vapor que saía da bebida. – Não porque ele se tornou uma pessoa pior, mas porque eu não tinha mais a única pessoa a quem procurar e, principalmente, porque ela era o alvo principal dele. Então toda a atenção dele concentrou-se em mim. Apesar disso, eu tinha que aguentar. Minha mãe morreu assim que Olivia nasceu e eu me senti totalmente responsável por minha irmã. Ainda me sinto.
Joseph limpou a garganta, tentando encontrar as palavras seguintes enquanto levava a xícara a boca. Ao contrário dele, Joana permanecia imóvel, atenta, o calor em seu olhar o incitando a continuar.
— Então, pelo bem dela e pela paz naquela casa, eu tive que suportar. Tentei me tornar o que ele queria que eu fosse. Se ele me disse para fazer algo, eu fazia. Se gritasse, eu não respondia. Mas Edward Fretcher não passa de uma alma gananciosa e com o pior tipo de caráter, que menospreza os próprios filhos e bate na mulher. Ele nunca ficaria satisfeito até que eu me tornasse como ele e ficava louco quando percebia que não iria conseguir. Ele queria que eu me tornasse médico, ou seguisse qualquer outra profissão que me tornasse rico, para compensar a falta de títulos na nossa família. Foi aí que eu percebi que não importava o quanto eu tentasse, ele nunca iria mudar, e eu não estava mais disposto a sacrificar meu futuro por isso.
Com os dedos torcendo-se envolta da louça branca, Joseph deu um sorriso resignado, e Joana precisou apertar as próprias mãos para se manter no lugar. Ele despejava-se crua e honestamente na frente dela, como nunca havia feito com alguém – talvez nem consigo mesmo –, e Joana nunca sentira tanto por ele.
— Eu segui com a minha vida. – Joseph exprimiu, depois de inspirar com força. – Fiz da forma que queria. Trabalhei dia e noite, estudei dia e noite. Levei Olivia para longe dele. Mas Edward nunca aceitaria perder para mim e quando meu negócio começou a dar certo, ele ficou por perto, me prejudicando, tentando levar meu nome a lama. Agora você pode entender por que eu escolhi viajar tanto. Era mais fácil assim e, depois, se tornou algo com o qual me acostumei. Eu vivia bem assim. Não tinha nada com o que reclamar, afinal. Fora os momentos em que ele insiste em dificultar minha vida, eu estou bem. Então respondendo a sua pergunta, sim, vou ficar bem. Se tive aquele momento de fraqueza mais cedo, foi apenas frustração.
Eu não quero fugir dessa vez, ele reprimiu, não é como se agora eu conseguisse me imaginar te deixando.
Mais um gole de café e o toque da xícara contra o pires encerrou o que Joseph acreditava ser o suficiente de informações. Joana continuou em silêncio por algum tempo, refletindo sobre as palavras de Joseph.
— Eu sinto muito que tenha vivido dessa maneira. – ela finalmente disse. – Sinto mesmo. Vocês alguma vez já conversaram sobre isso? Sobre o motivo de ele ser assim?
Joseph franziu o cenho, não esperando por aquela pergunta.
— Nunca tive uma conversa normal com ele para descobrir. Você acha mesmo que existe um motivo?
Com um movimento sutil com a cabeça, Joana afirmou, mantendo toda a sua atenção em devolver o olhar dele.
— Posso estar errada com a observação que faço desse mundo, mas acredito que o que somos tem muito a ver com as pessoas que convivemos ao longo da nossa vida. Principalmente com o que você chamar de família. Você é a prova disso, eu sou a prova disso.
Juntando a mão ao peito, Joana continuou.
— Você sabe muito bem que não consigo me comportar da maneira que deveria. Eu não deveria abrir a boca em nenhuma hipótese para dizer o que penso, e é o que sempre faço. Eu nem deveria estar aqui com você. E grande parte disso é porque cresci assim, com uma família que não queria regrar cada passo meu, contanto que eu não me perdesse pelo caminho. Então sim, eu acredito que quem somos é muito influenciado pelas pessoas que convivemos, seja para afetar quem somos ou quem não vamos ser. Você também foi influenciado pelo seu pai, quando decidiu que não seria como ele. Então não me surpreenderia se houvesse, sim, um motivo.
Com um leve sorriso, Joana lhe ofereceu sua mão sobre a mesa. Seu apoio estava ali, quando Joseph fechou a mão sobre a dela, assistindo os dedos entrelaçaram-se. Se questionou se deveria contar a única informação que deixara de fora do seu desabafo, mas imaginou que aquela era uma culpa que ele apenas dividiria com Edward Fretcher.
— Você não está sozinho. Você tem a mim e agora faz parte de uma grande família.
Joseph quase perguntara se ela referia-se a própria família, para perceber que se tratava da biscoutaria. Não parecia muito diferente, afinal, e ele estava devolvendo o sorriso de Joana ao constatar que se apaixonava cada vez mais por cada parte da mente daquela mulher.
Subitamente, voltou a ficar sério.
— Você não está tentando me convencer a conversar com ele, não é?
O sorriso de Joana também desapareceu, dando lugar a uma expressão estarrecida.
— É claro que não. Essa é uma decisão sua.
— Então vamos encerrar esse assunto. Há uma coisa que quero muito fazer agora.
Joana o encarou com suspeição no olhar, uma sobrancelha erguendo-se ao tom astucioso que Joseph empregara na frase. A expressão de espanto em seguida durou poucos segundos, logo sendo substituída por um sorriso ardiloso que tomou os lábios dela quando o homem a sua frente abaixou-se para lhe alcançar o tornozelo, a mão subindo perigosa e lentamente até depositar a perna dela em seu colo.
— Vejo que o senhor não consegue manter as mãos longe de mim.
Os dedos de Joseph continuaram a testar a meia sob o toque esperto, a mão envolvendo sua panturrilha. Um arrepio impetuoso percorreu o corpo de Joana.
— Não consigo imaginar tortura maior que me manter longe de você.
A rouquidão na voz de Joseph a tirou o fôlego por um átimo e, quando a mão dele alcançou a renda da calçola na altura dos joelhos, as batidas de seu coração tremularam. Ele não desgrudara os olhos dela durante todo o percurso, assistindo as mudanças em seu rosto com um brilho descarado no olhar. Notando aquilo, Joana foi tomada por sua própria ousadia e, utilizando o outro pé para livrar-se do sapato, deslizou lenta e atrevidamente o pé sobre a coxa de Joseph, observando o momento em que a respiração dele alterou-se.
— Tem certeza? – ela o desafiou, recebendo um sorriso lascivo em resposta.
Joseph lhe deteve o pé.
— Você não vai querer me provocar.
Ignorando a interrupção, Joana continuou o percurso para um caminho desconhecido.
— Talvez seja exatamente o que eu quero.
Ela não sabia se algum dia entenderia o que acontecia consigo, que tipo de força aquele homem era capaz de exercer sobre ela. Sentia-se livre, ousada, confiante, um olhar dele o suficiente para enlouquecê-la. Fechava os olhos por um segundo e tentava imaginar se o mesmo acometia Joseph, alheia ao fato de que o mesmo arrepio que lhe percorria também o atingia.
Joseph nunca sentira-se tão orgulhoso de seu autocontrole. Tudo ali lhe parecia perigoso demais para sua sanidade. Joana, o silêncio do vazio que os cercava, o som das respirações e sussurros. E a mulher ainda o estava provocando, ele respirou com dificuldade, retirando o pé dela de sua coxa e ocupando-se em massagear o tornozelo de Joana, tentando convencer a si mesmo que a mesa daquela cozinha não era uma boa opção.
— Vou devolver sua pergunta. – ele tentou os deslocar para um terreno mais seguro.
Joana se manteve atenta a como os dedos de Joseph agora trabalhavam maravilhosamente em seu pé.
— Qual pergunta?
— Você vai ficar bem?
Confusa por um instante, Joana logo se tornou tensa ao notar a direção do aceno de Joseph. Durante um longo minuto, ela não disse nada, o olhar fixo nas máquinas.
— Sei o quanto obstinada você pode ser, mas no fundo você também sabe que não vai conseguir evitar isso.
Ela bem sabia. Encarar o amontoado de material frio não ajudava. Fugir não mudaria nada. Lembrou-se do que dissera ao seu pai, que jamais deixaria a biscoutaria. Ao que parecia, ela perderia a batalha.
— Tudo bem. – ela respirou fundo, voltando-se para Joseph. – Me conte seu lado da história.
A movimentação da mão dele cessou, jamais abandonado o toque em sua perna. Joseph pareceu devanear em lembranças, antes de começar a falar.
— Eu estava de folga das aulas e viajei com um dos amigos que fiz em Eton, Benjamin Patel, para visitar um tio dele em Londres. Benjamin sempre o chamava de “capitalista” e eu não fazia ideia do que se tratava, até estar dentro da Patel & Lennox, a maior indústria têxtil de Londres naquele momento. Benjamin ficou aterrorizado pelas condições de trabalho que encontramos, enquanto eu tive algo como um sentimento de epifania. Fiquei fascinado pelas máquinas, com a ideia de que algo feito de peças pudesse ganhar vida daquela forma. Passei dias pensando naquilo e nas palavras de Benjamin, então percebi que se os salários dos trabalhadores haviam diminuído, se a carga horária de trabalho era excessiva e se era perigoso lidar com aquelas máquinas, a culpa não poderia ser inteiramente delas.
Joseph inspirou, percebendo como lhe parecia estranho conversar sobre aquilo com alguém, sem estar tentando convencê-lo de algo ou sendo zombado. Joana permanecia com o semblante genuinamente interessado e ainda não parecia pronta para lançar algo em sua direção.
— Mesmo sabendo de toda essa realidade, ainda era o que você queria fazer? – ela questionou.
Ele confirmou, sem hesitar.
— Nunca quis tanto alguma coisa assim. Queria ser responsável por criações como aquelas. Queria mudar e facilitar as vidas das pessoas. Mas eu queria fazer direito. Quando crio um projeto, passo noites em claro pensando no aquilo vai representar para quem vai manuseá-la, não apenas em quem vai ganhar dinheiro com ela. É claro que isso se tornou um problema para os outros industrialistas, principalmente quando declarei meu apoio a organizações de trabalhadores. Apesar disso, nenhum deles seria capaz de me fazer desistir e, mesmo que o que eu faça hoje não seja exatamente como projetei minha carreira, não vou abdicar disso.
Joana suspirou, deixando-se afundar mais na cadeira. Podia facilmente compreendê-lo e não seria capaz de negar que cada vez que conhecia mais sobre Joseph, o admirava um pouco mais. Ele era forte, determinado e generoso. Ainda assim, sentia-se inquieta e não sabia se um dia conseguiria se livrar desse sentimento.
— Como exatamente você imaginou? – ela quis saber, voltando a olhá-lo.
— Como eu disse, queria facilitar as vidas das pessoas com minhas criações, não apenas satisfazer os interesses individuais de empresários. Mas isso não é tão fácil sem apoio e investimentos, e eu tinha que sobreviver.
Apoiando-se na mesa, Joseph passou os dedos pela barba. Uma mania que ele parecia possuir sempre que considerava algo, Joana reparou.
— Quando olho para esse país aqui... – ele continuou – Quase consigo ver tudo em que ele pode evoluir.
— Então meu pai está se iludindo ao acreditar que vai conseguir te manter aqui para sempre?
Fora uma provocação e Joseph até se pegara rindo, mas, de certa forma, Joana falava sério.
— Sendo sincero, sim, ele está. – ele sorriu, distraidamente voltando a correr as pontas dos dedos pela perna de Joana. – Mas assim como vejo o quanto esse país pode crescer, vejo o mesmo para esse lugar. E é por isso que estou tentando fazer você enxergar as coisas de outra forma. Porque as coisas vão evoluir e eu não quero que você fique para trás, Joana. É preciso ser lógico para fazer um negócio dar certo.
— Tudo bem.
Joseph espantou-se.
— Tudo bem?
Com um sorriso astuto, Joana apenas assentiu.
— É isso? – ele desconfiou.
— Você me deu coisas com o que pensar, e é isso que eu farei. Mas não estou prometendo nada. Eu te entendo, entendo suas motivações, mas também preciso levar minhas opiniões em consideração.
— Devo ficar com medo dessa complacência?
Mordendo o lábio para conter um sorriso, Joana tentou acertá-lo com o pé, que fora rapidamente detido por Joseph.
— Bom. – ele continuou – Porque agora tenho outras coisas que gostaria de te deixar pensando.
Então ele arrastou a cadeira de Joana até coloca-la próxima de si, seu rosto a centímetros do dela. Toda a tranquilidade se dissipou do ar, o toque lascivo voltando a percorrer sua pele coberta pela seda branca. Joseph continuou lentamente subindo sua mão, envolvendo sua coxa e então subindo, subindo.
Joana ofegou.
— O que está fazendo?
A pergunta sussurrada dela foi respondida com o mesmo tom grave por Joseph.
— Devo parar?
Se ele planejava fazê-la desintegrar-se bem ali, estava sendo muito bem sucedido. Tudo que Joana conseguira fazer fora o olhar com a mesma intensidade, os lábios separando-se sutilmente para deixar o ar passar. Aquele foi o convite perfeito para Joseph encaixar seus lábios nos dela, a arrebatando em um beijo quase indecente. Então a mão voltou a subir e estava tão, tão perto de...
O som baixo do baque de algo contra a madeira adentrou a cozinha, alarmando Joana, que quase caíra da cadeira para afastar-se de Joseph.
— Ouviu isso?
Joseph franziu o cenho, não tendo certeza, seu olhar voltando-se para a entrada da cozinha.
Distante daquela porta, mais precisamente contra a parede do corredor escuro da biscoutaria, Isabel e Matilda esgueiravam-se para fora do lugar sobre a ponta dos pés, os sapatos nas mãos. Nem mesmo ousavam respirar, com medo que aquilo provocasse qualquer barulho que fosse. Apenas quando deixaram depressa o lugar, quase tropeçando nos próprios pés, Matilda soltou o ar com força.
— Isso... foi... loucura. – ela arfava, enquanto as duas tentavam correr e calçar-se ao mesmo tempo.
— Eu te disse, não disse? Que alguma coisa estava acontecendo com a Joana. Aposto que aquela carta foi para ele.
Isabel estava radiante. Acertara em cheio na suspeita que a fizera arrastar Matilda pelas ruas até a biscoutaria. Estariam encrencadas se alguém – seus pais, mais precisamente – descobrissem, mas valeria a pena para descobrir o que Joana estava aprontando. E como estava, Isabel sorriu.
— Eu te disse que havia alguma coisa diferente no jeito que a Joana tem olhado para o Sr. Fretcher.
— Eles estavam se beijando! – Matilda arquejou, como se ainda não pudesse acreditar. – Acho que não deveríamos ter feito isso. Sinto que invadimos a privacidade da Joana.
Parada diante do casarão, Isabel fez uma careta. Que mal havia investigar? Não era como se ela fosse sair desonrando a irmã.
— Bem... – Isabel espiou o interior da casa, antes de puxar Matilda consigo. – Não vamos contar para ninguém. Nem mesmo para ela. Então não se preocupe demais.
Decidindo que a sala de desenho era um esconderijo mais rápido, as duas entraram depressa, jogando-se sobre o sofá amarelo. Matilda apanhou um livro qualquer sobre a mesinha de centro e o atirou para Isabel, então as duas permanecerem sussurrando sobre as folhas de papel.
— O que você acha que vai acontecer se descobrirem? – Matilda indagou. – Acha que o papai os obrigaria a se casarem?
Isabel refletiu por um momento e então sorriu.
— Se toda a cidade não ficar sabendo, acho muito difícil papai conseguir obrigar Joana a fazer alguma coisa que ela não queira. Mas, considerando o que vimos, não acho que vai ser obrigação alguma para ela.
Com os olhos arregalados, Matilda tentou conter uma risada por trás do livro.
— Mas o que eles estão fazendo agora... não é errado? Uma moça não deveria dar tais liberdades para um homem com quem não está casada. O que vai acontecer com Joana se o Sr. Fretcher não a pedir em casamento?
Com um movimento com os ombros, Isabel rejeitou a ideia. Lembrava-se bem do sermão da madame Conceição sobre isso, mas não conseguia impedir que seus pensamentos seguissem por outro caminho.
— Nunca imaginei que a Joana se envolveria assim com alguém. – Isabel ponderou. – O que só me leva a crer em uma coisa: ela está completamente apaixonada por Joseph Fretcher.
*
Joana continuou pensativa até a manhã seguinte. Passara longos minutos deitada em sua cama, contemplativa com as palavras de Joseph, com Dalton ressonando ao seu lado. Era frustrante o fato de que, por mais que pensasse, não lhe restava muitas opções. Teria que confiar em Joseph e no futuro da biscoutaria, mesmo que não chegasse a entender porque ela precisava mudar. Assim, de repente, se pegou imaginando se surgisse uma concorrente, uma outra fábrica de biscoito em Recife, e o que isso poderia significar para a DeCastro. O que ela faria?
Prolongou essa pergunta enquanto se vestia com a ajuda de Prazeres e então saiu para o corredor, trombando com Isabel no caminho.
— Bom dia, irmã. – Isabel a cumprimentou, animada.
A mais nova possuía um sorriso enorme no rosto, a encarando com humor. Desconfiada, Joana estreitou os olhos.
— Está me assustando.
A empolgação de Isabel aumentou.
Desceram as escadas até o salão, onde o café da manhã era servido. Matilda surgiu logo atrás, seu rosto assumindo um tom avermelhado assim que pôs os olhos em Joana. A mais velha das três De Castro chegara em casa não muito tempo depois que Isabel e Matilda, mas não descera para o jantar, conseguindo mais um sermão de Francisca e impedindo que elas se encontrassem até agora.
Joana acomodou-se em seu lugar habitual, começando a passar manteiga em um pedaço de pão. Então, quando levava a comida à boca, notou dois pares de olhos a encarando, sua mão interrompendo-se suspensa no ar. Isabel parecia achar graça de algo, enquanto Matilda tentava disfarçar seu olhar indagador.
— Por que estão me olhando assim?
— Por nada. – foi a resposta rápida de Matilda.
— Apenas admirando o quanto você parece radiante hoje.
Perdida, Joana tocou o próprio rosto com as pontas dos dedos.
— Não há nada diferente no meu rosto.
— Ah, não estou falando do seu rosto. – Isabel esclareceu, enchendo sua xícara com café forte. – Estou falando do seu olha...
A palavra dissipou-se antes de ser completa quando Matilda pisou no pé de Isabel por baixo da mesa, a silenciando. Ela respondeu com uma careta e recebeu um resmungo de volta. Joana apenas alternava o olhar entre as duas, indecisa entre se preocupar ou não com o que aquilo significava. Era claro que as duas estavam escondendo alguma coisa, mas também era de Isabel e Matilda que ela estava falando. As duas sempre estavam aos cochichos.
Antes mesmo que Joana pensasse em um jeito de obriga-las a falar, Francisca entrou no cômodo acompanhada de seu marido. Manoel logo se sentou, ocupando-se com seu café.
— Minha irmã respondeu.
Todos voltaram a atenção para Francisca, notando um envelope em sua mão. Joana espiou sua mãe sentar-se, deixar o objeto de lado e depositar uma fatia generosa de queijo em seu prato, parecendo tranquila e encantadora, como sempre estava.
— A senhora escreveu para tia Emília? – Matilda perguntou.
— Sim, não a vemos há tanto tempo. Pensei em fazermos uma visita e ela já respondeu, dizendo que somos bem-vindos para passar alguns dias por lá. Você disse que gostaria disso, lembra, Joana?
Manoel resmungou quando Joana confirmava.
— Desejo boa sorte para vocês. Estou me retirando dessa empreitada.
— Manoel... – Francisca amuou, o tom entre advertência e pedido.
— Não irei visitar a louca da sua irmã. Além disso, tenho que trabalhar. E, se fosse você, também não levaria suas filhas. Emília é uma péssima influência para elas.
Atrás de xícaras e pedaços de frutas, as três falharam em conter as risadas, deixando Francisca ainda mais exasperada.
— Elas irão comigo sim. De todo jeito, não quero viajar para Olinda sozinha.
— Eu também tenho que trabalhar. – Joana comunicou, mesmo que seu pai soubesse e desconsiderasse a ideia.
— Você pode ir. Faça companhia a sua mãe. E como a mais velha, fique de olho em suas irmãs.
A ideia de ficar dias longe da biscoutaria lhe era tão ruim em tantos aspectos que Joana não conteve um muxoxo, encontrando os sorrisos traiçoeiros de Isabel e Matilda voltados exclusivamente para ela. Que os céus a ajudassem.
Francisca deixou sua comida de lado, satisfeita.
— Está decidido então. Partiremos essa tarde.
— Mas já?
O sobressalto de Joana desviou todos os olhares para ela. Isabel era a única que sorria, sem se conter.
— Por que, Joana? Tem algum motivo muito, muito especial pelo qual você não quer ficar longe?
Abandonando a xícara sobre a mesa – e sua paciência –, Joana a encarou.
— Tudo bem, Isabel. Diga de uma vez o que você tanto quer dizer.
Isabel balançou os ombros, os lábios curvando-se em falsa inocência.
— Não tenho nada para dizer.
— Não me faça ir até aí e arrancar a resposta de você.
— Às vezes você é tão insuportável, Isabel. – Matilda fungou.
Isabel a olhou com incredulidade.
— O que eu fiz de tão errado?
— O está acontecendo com vocês hoje? – Francisca interviu. – Estão agitadas demais.
Depois disso, Isabel começou a queixar-se ainda mais, acompanhada de Joana e Matilda, todas falando ao mesmo tempo. Francisca acreditou que enlouqueceria tentando conter o falatório, enquanto Manoel apenas recostou-se a sua cadeira, abrindo um exemplar do Jornal do Recife.
Aquele burburinho, a bagunça que sua família era capaz de fazer, de alguma forma que ele tentaria negar, aquecia seu coração e ele se pegou sorrindo para o papel em suas mãos, continuando a falar mesmo que soubesse que não seria ouvido.
— Vou ficar aqui e torcer para que nenhuma das três volte para casa com a reputação arruinada ou com um casamento arranjado por um escândalo.
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