Doce Promessa
16 Dezesseis
Notas iniciais
Nem a luz do sol que lhe revestia era capaz de aquecer e afastar a tremedeira de frio que alojava no corpo de Joseph. O garoto de 17 anos atravessava a Edgware High Street em direção à casa do pai, o Eton College ficando cada vez mais para trás a cada passo. Era uma tarde em meados de dezembro de 1858 e os garotos finalmente obtiveram autorização para voltar para suas casas, para as comemorações de final de ano. Ele ainda quase podia ouvir a euforia e algazarra quando os portões de ferro abriram-se, uma corrida desesperada para o que muitos encaravam como liberdade.
Joseph não se sentia livre.
Joseph não estava animado para voltar para casa.
— Achei que não viria mais. – a voz da senhora Fernsby lhe alcançou os ouvidos quando Joseph ultrapassou a porta de entrada, seus pertences sendo levados escada acima.
Davina Fernsby, a governanta da família Fretcher há mais de 15 anos, encarava o rapaz de cabelos escuros revoltos com um misto de expressões em seu rosto emoldurado por fios brancos – algo entre alívio e preocupação. Joseph abandonou a postura ansiosa para empertigar-se sutilmente, irrequieto.
Nada mudara na casa, ele constatou, naqueles 4 anos em que estava longe estudando. A discreta penumbra da sala de estar, reforçada pelos móveis de madeira escura e a grande cortina cor de carmim à janela. Pinturas, jarros decorativos e o relógio de pé residiam nos mesmos locais. O silêncio, a ausência de calor e o arrepio na espinha também estavam lá.
Voltando-se para a mulher ao seu lado, Joseph a envolveu pelos ombros com um braço e, como a altura lhe aparecera muito cedo, tivera que curvar-se para deixar um beijo no topo da cabeleira branca.
— O trem atrasou. Mas a senhora sabe que uma hora ou outra eu estou de volta.
A senhora Fernsby resmungou um pouco, tentada a perguntar até quando isso duraria, mas mordendo a língua em seguida porque Joseph ainda era o filho de seu patrão, mesmo que mais lhe parecesse seu próprio filho.
— Onde estão todos?
— Seu pai está trancado no escritório desde cedo e Olivia está no quarto com a preceptora.
Aquela última informação fora a que mais lhe chamou a atenção. Não lembrava de Olivia possuir uma preceptora e de repente sentiu-se curioso e desconfiado. Que essa mulher tratasse bem a irmã ou ele perderia a cabeça ao mínimo indício de zombaria ao fato da gagueira nervosa da garotinha de 10 anos.
Subindo a escada de dois em dois degraus, Joseph bateu levemente na porta aberta do quarto de Olivia, o olhar preso na figura pequena de cabelos encaracolados sentada ao chão com um livro sobre o colo.
— Jo-Joseph! – Olivia guinchou, assustando a mulher ao seu lado, que tentava lhe ensinar a ler.
A garotinha jogou-se nos braços de Joseph, que a apanhou com facilidade.
E era aquilo que fazia a volta para casa valer a pena.
Ver a animação no rosto de Olivia, estar pronto para a receber nos braços, sabendo que era exatamente o que ela faria, pois era o que tinha feito nos últimos anos e o que faria nos próximos enquanto os dois não seguissem caminhos diferentes. Era o motivo pelo qual Joseph ignorava a vontade súbita de manter-se em seu quarto em Eton, ignorando que aquela casa existia.
Mas nem mesmo sua irmã era capaz de abrandar tudo que implodia na mente e no coração de Joseph. Foi com muito mais revolta que tristeza que Joseph abriu a porta do seu antigo quarto para encontrar o vazio. Apenas a cama com dossel e a escrivaninha permaneciam no lugar, cercados pelos pertences de Joseph escondidos dentro de caixas. Seu pai não seria mais direto nem mesmo se tentasse, pensou com azedume, notando que seus livros e anotações sobre física haviam desaparecido.
— Achei ter deixado uma irmã no começo ano. Agora volto e vejo que temos aqui um pequeno animal.
Olivia desmanchou-se em uma risada. Com ela agarrada a sua perna e sentada sobre seu sapato, Joseph a arrastava em direção ao salão de jantar, encontrando o olhar enervado de Edward Fretcher assim que entrou.
— Sr. Fretcher! – Edward o saudou com falsa animosidade. – Estava me perguntando por quanto tempo o senhor me faria esperar. Mas entendo que o senhor é um homem muito ocupado.
Joseph achou ter ouvido algum som estrangulado vindo dos criados, mas ignorou, deixando Olivia sobre uma cadeira e aos cuidados da senhora Fernsby, enquanto deixava a si mesmo cair sobre uma cadeira em frente ao pai. Joseph apenas precisava ignorar Edward, engolir aquele jantar e manter-se no andar de cima até que pudesse arrumar suas coisas e partir mais uma vez.
Pelos próximos minutos, enquanto consumiam o jantar, Joseph achou que seria fácil. Um silêncio tomava conta do lugar, quebrado apenas vez ou outra por protestos de Olivia que irritavam Edward profundamente, deixando Joseph a ponto de saltar na direção do pai pelo modo como tratava sua filha mais nova.
— Ano que vem será o seu último em Eton, Sr. Fretcher. O que pretend...
— Pare de me chamar assim. – Joseph o interrompeu, entredentes.
Com um sorriso sarcástico e a taça de vinho nos lábios, Edward encarou o filho.
— O que foi? Não gosta de ser tratado como um homem? Não é isso que o senhor é?
Ignorar, Joseph repetiu, a colher de sopa presa com força a sua mão. Mas Edward não tinha nenhuma intenção em deixar aquela mesa antes de deixar claro como as coisas funcionavam naquela família.
— Está tudo arranjado para o senhor iniciar a escola de Medicina no novembro seguinte.
Joseph não sabia se o que borbulhava em seu peito era uma simples vontade de rir ou pura raiva.
— Já disse que não irei para essa porcaria de escola. Não me importa o quanto o senhor tente.
Diante de uma tragédia iminente, criado por criado deixou o salão, com exceção de Davina Fernsby, que permaneceu a porta temendo por aqueles dois e, principalmente, por Olivia, que encarava sua família com olhos arregalados.
— Tome cuidado com o seu linguajar na minha casa. Não estou mais te dando o direito de escolha, Sr. Fretcher. Cheguei ao meu limite ao receber uma carta do diretor de Eton, me contando como o senhor anda passando o tempo. Estou gastando centenas de libras com seus estudos para o senhor me retribuir assim?
Joseph sabia exatamente do que o pai estava falando. Esse último ano havia sido uma mistura de descobertas com degradação. Envolvera-se com os amigos errados e matara tantas aulas que perdera a conta, perdido entre pedaços de ferro e cálculos de física. Fora pego, castigado e repetira tudo outra vez.
— O que o senhor fez com os meus livros? – Joseph questionou subitamente.
— Os queimei.
Então foi a gota d’água. Soltando a colher sobre a mesa com um baque, Joseph ergueu-se para ficar de pé, jamais deixando de encarar Edward.
— Já chega. O senhor não vai...
— Sente-se, Sr. Fretcher. – a clara ameaça na voz de Edward não afugentou o filho.
— Não serei médico, nem político, muito menos um advogado. Quanto antes o senhor aceitar isso, melhor.
— O que será então? Engenheiro? – Edward soltou uma risada desprovida de humor. – Não criei filho meu para passar fome. O senhor sabe que é isso que era acontecer, não sabe?
— Não, não irá acontecer. Os efeitos da revolução industrial estão apenas começando e eu me tornarei o melhor engenheiro mecânico de toda a Inglaterra, pode apostar nisso. Mas não vou perder meu tempo tentando explicar isso ao senhor. Mais uma vez. Eu priorizo outras coisas além de fazer dinheiro.
— Erro seu.
Sentindo seu último fio de autocontrole se desfazer e alheio a tudo que acontecia envolta que não fosse a expressão de desdém de seu pai, Joseph cerrou os punhos, os lábios manchados de um sorriso irônico.
— É mesmo? Tenho o próprio exemplo diante de mim de que dinheiro não é suficiente para fazer uma pessoa completamente feliz. Não é suficiente para apagar todos os erros que se cometem durante uma vida.
Um soco transferido contra o tampo da mesa e foi a vez de Edward levantar-se.
— Cale a boca! O senhor acha que sabe alguma coisa sobre o que eu sinto? Eu sou muito feliz na minha vida.
— Tem certeza? Um investidor financeiro que só não foi à falência ainda porque trapaceia e engana os próprios clientes, que detesta e é detestado pelos próprios filhos, que maltratou tanto a própria mulher até leva-la ao...
Aquela fala de Joseph nunca fora concluída, pois uma taça do mais puro cristal voou sobre a mesa em sua direção. Ele agradeceu aos seus reflexos, responsáveis por deixar que o objeto apenas se espatifasse contra a parede. Os dois homens encararam-se duramente, com o choro agudo de Olivia ao fundo, desaparecendo a medida que a senhora Fernsby a levava para longe.
— Como eu pude ter um filho como você? – a voz de Edward não passava de um murmúrio. – Como posso ter errado tanto?
Com aquilo, Joseph puxou o casaco e partiu, para qualquer lugar que o levasse para longe dali. E, assim que seus pés tocaram a calçada, ele jurou que nunca mais moraria sob o mesmo teto que Edward Fretcher.
— Sr. Fretcher! Sr. Fretcher! – o rugido de Edward reverberou pela rua deserta, sendo ignorado pelos ouvidos do garoto que não interrompera seus passos até desaparecer de Londres.
— Sr. Fretcher.
Joseph piscou com força, afastando as memórias de sua mente. Não ouvia aquela voz a meses e não estava ansioso para voltar a ouvi-la. Mas isso não impediu que Edward Fretcher caminhasse lentamente para dentro da biscoutaria e em sua direção. O silêncio tomava conta do lugar, enquanto todos tentavam entender quem era aquele homem de cabelos e barba branca enorme, trajando um elegante terno marrom, com direito a bengala e chapéu pretos combinando. Apenas quando Edward estava perto o suficiente, o olhar cauteloso que jamais abandonava o brilho de desdém, Joseph encontrou a voz.
— O que está fazendo aqui?
— Isso é jeito de cumprimentar o seu pai?
Então Edward aproximou-se para tocar o ombro de Joseph, que prontamente desviou com um passo para trás, o cenho franzido em desconfiança. Todo o ar pareceu ser consumido do lugar, bem como dos pulmões de Joana, que assistiu à cena com a mão no peito. Um sentimento incomum começou a alojar em seu estômago e ela não conseguiu se mover. Manoel se manteve ao lado de Joseph, pronto para defendê-lo do que fosse.
Ao mesmo passo em que todos pareciam chocados com o intruso, Edward aparentava achar graça da situação.
— Não precisa me olhar assim, Sr. Fretcher. Só estou fazendo uma visita.
— Saia. – a voz de Joseph o cortou.
— O que?
— Para fora. Não vou conversar com o senhor aqui.
Sem mais uma palavra, Joseph passou pelo pai, desaparecendo pelas portas da biscoutaria e por além da praça. Edward não se moveu por um momento, um sorriso de descrença desenrolando a medida que ele avaliava o lugar sob os olhos críticos. Se deteve assim que o mesmo olhar alcançou a figura da mulher parada logo a frente, o encarando como se quisesse arrancar um pedaço dele com as próprias mãos.
— A senhorita que é Joana de Castro?
Joana arregalou os olhos, a fúria em seu rosto cedendo apenas por um lance de segundo para dar lugar a confusão. Como aquele homem sabia sobre ela?
Em resposta ao silêncio de Joana, que lhe confirmava tudo, Edward somente soltou uma risada e, com uma breve reverência, seguiu o caminho que Joseph havia feito.
— Diga de uma vez o que está fazendo aqui.
Joseph o abordou, sem titubear. Parados protegidos do sol e dos olhares curiosos, Edward deixou os sorrisos de lado, ocupando-se com o que realmente o levara até ali.
— Apenas fiquei curioso para descobrir como era o lugar que o senhor aparentemente resolveu chamar de casa.
Casa, Joseph respirou fundo.
— Isso não te diz respeito.
— E, é claro... – Edward o ignorou. – Quis ver com meus próprios olhos se o senhor ainda estava em posse das suas faculdades mentais, para decidir vir morar aqui. Achei que dessa vez tinha sido o peso da culpa que fizera o senhor esconder-se aqui. Mas, agora que coloquei os olhos sobre aquela mulher dentro desse lugar que o senhor chama de fábrica, eu finalmente entendi. Ela é realmente muito bonita, mas vale tanto?
Sentindo a raiva começar a cutucar sua mente em caos, Joseph deu um passo na direção de Edward, o fazendo colidir contra o tronco de uma grande árvore. Ele não sabia que Joana estava na biscoutaria, mas não teve nenhuma dúvida de que era à ela que o seu pai se referia.
— Se voltar a mencionar a Joana eu juro que...
Edward rompeu em uma risada, desvencilhando-se de Joseph para dar passos lentos para longe, a ponta da bengala batendo contra o chão.
— Está apaixonado, Sr. Fretcher? Sei o que senhor sempre se considerou um defensor dos demais, mas nunca o vi reagir assim por outra mulher.
Apaixonado não parecia nem chegar perto do que Joseph estava sentindo, pensou com amargura. Estava louco por Joana de Castro, se esse termo fosse mais correto. Mas jamais compartilharia aquilo com o pai. Tudo que desejava naquele momento era desaparecer. Sentia o familiar comichão no peito, que sempre o compelia a arrumar suas coisas e fugir do lugar onde estava.
— Se o senhor quer ficar aqui em Recife, em outro país ou do outro lado do mundo, eu não dou a mínima. Faça como quiser. Apenas fique longe do meu caminho.
— Não acho que isso vai ser possível, Sr. Fretcher. – aproximando-se de Joseph mais uma vez, o sorriso de Edward desapareceu. – Sou seu pai. Isso é uma coisa da qual o senhor jamais conseguirá fugir.
O vento forte farfalhou a árvore naquele momento, uma folha caindo em uma suntuosa dança agitada, para escorregar-se pelo chão da praça em direção à biscoutaria, onde foi detida sob a bota de uma cliente que entrava no local. Às portas e grandes janelas, outros clientes e funcionários empoleiravam-se, tentando alcançar as duas figuras estrangeiras com o olhar. Pronta e eficientemente, Aurélia espantou a atenção.
Joana não estava gostando nem um pouco daquilo. Uma inquietação tomava conta do seu coração, enquanto ela seguia o pai até o escritório. Os dois ocuparam cadeiras opostas, um momento suspenso no espaço, onde ambos esqueceram-se da distância com o qual estavam se relacionando nos últimos dias. Bem, não totalmente.
Manoel olhou para a filha que parecia devanear, a expressão confusa no rosto.
— O que foi, Joana?
Afastando-se do lugar distante para onde seus pensamentos a levavam, Joana concentrou a atenção no pai.
— O senhor não acha estranho que esse homem tenha aparecido agora?
— Não acharia estranho um pai vir procurar pelo filho, se não fosse aquela atmosfera que eu percebi. – alcançando a pena sobre sua mesa, Manoel girou a ponta metálica entre os dedos, distraidamente. – Duas pessoas que claramente não se gostam. Não sabia que o Fretcher era acometido por esse tipo de problema.
Joana bem sabia e isso só piorava tudo. Já fazia longos minutos desde que Joseph se fora com o pai e ela tinha que torcer os dedos em agitação para não levantar-se e correr até eles. Precisava saber como Joseph estava. O que ele estaria sentindo? O que estaria passando em sua mente?
— ...mas irei conversar com o Fretcher em outro momento. E, a depender, irei proibir que aquele outro inglês pise na DeCastro. Não quero minha fábrica sob o alvo de fofocas.
Manoel continuava a falar, mas Joana permaneceu encarando o nada, os nós dos dedos assumindo uma tonalidade branca.
— Joana! Está me ouvindo?
— Hum? – ela esticou-se na cadeira, voltando o foco para o pai.
Manoel apenas revirou os olhos, soltando um longo suspiro, para ocupar-se com papéis que sem demora deixou a frente de Joana.
— Volte ao trabalho, Joana. Aqui estão listados os pedidos que temos que entregar até o final do mês. Certifique-se de que tudo está correndo bem, nem que você tenha que contar biscoito por biscoito das caixas para saber.
Com uma fungada resoluta, Joana deixou o escritório do pai. Pensara em tocar no assunto de Bento e sua demissão, mas o que diria? Nunca concordaria com o pai e tudo parecia resolvido entre eles. De nada adiantava ela extenuar suas frustrações agora. Os dois pareciam ter feito as pazes e Bento não estava vagando por aí, desempregado. Isso teria que sossega-la.
Joana bufou. Seria mais fácil retirar o açúcar grão em grão do glacê de um biscoito.
Então seu pensamento voltou para Joseph e ela resolveu que tentaria ignorar aquilo, pelo menos até que ele voltasse a aparecer. Com os papéis sobre o braço, Joana agitou seu vestido rosa chá de um canto a outro pela biscoutaria, conferindo e despachando, resignada, pedidos de biscoitos para São Paulo e Rio de Janeiro. Como não conseguia controlar-se, também ocupou seu tempo no balcão, servindo os clientes e ajudando a ocupar a falta de Ramos, que recebera a semana de folga por conta do recente casamento.
Logo que entardeceu, para a agonia de Joana, Joseph ainda não havia dado sinal de vida. Ela apagou a última vela que iluminava a biscoutaria, banhando o lugar na escuridão – esta que desapareceu apenas no dia seguinte, sob os raios de sol e mais uma ausência de Joseph.
Joana já se preparava para deixar o lugar no fim daquele dia, quando a grande porta principal se abriu de supetão. Seu coração pulou no peito e ela se virou tão rápido que quase trombou com o balcão, na expectativa de ser aquele que não saía de sua cabeça. Mas no lugar de Joseph, encontrou um sorridente Alfredo.
— Senhorita Joana. – ele a cumprimentou, avançando para transferir um beijo no dorso de sua mão já enluvada.
Conseguindo unicamente uma pequena reverência como resposta, Alfredo forçou-se a sorrir. É claro que ele havia notado o olhar consternado de Joana ao se dar conta de que era ele que havia chegado. Mas se Joana acreditava que isso iria afugentá-lo, Alfredo só pôde sorrir mais.
— Como a senhorita está?
— Bem. – ela o enrolou, desesperada para deixar Alfredo para trás.
Joana quase o fazia, fechando o livro de registro com um baque surdo, seu sorriso de falsa inocência voltado para o homem a sua frente.
— Fiquei sabendo do que aconteceu aqui ontem. Edward Fretcher, pelo que soube. E desde então o Joseph Fretcher não dá as caras por aqui.
O sorriso de Joana desapareceu e ela se pegou correndo o olhar a sua volta, percebendo que todos já haviam ido. Por algum motivo, ela não queria ficar a sós com Alfredo, então tratou de jogar o livro de qualquer jeito atrás do balcão e se encaminhar para a saída.
— Então já estão fofocando por aí.
— É claro. Quando as pessoas dessa cidade não fofocam?!
— Não sou muito dada a fofocas. Mas já que o senhor gosta desse tipo de passatempo... – Joana o provocou, mordendo o interior da bochecha para conseguir manter a expressão séria, abrindo a porta do lugar.
Alfredo ficou rígido, pisando em ovos para tentar agrada-la. Cerrando os dentes, ele tentou sorrir outra vez.
— Eu não disse isso. Apenas disse que as notícias se espalham.
— Entendo. O senhor não tem vindo muito aqui.
Acreditando que suas intenções estavam surtindo efeito, o sorriso de Alfredo aumentou, bem como a distância entre os dois diminuiu. Ele deu mais três passos à frente, ela três passos para trás, até estar fora da biscoutaria. Mas Alfredo ainda estava em seu encalço.
— Tenho estado ocupado e...
— E já percebi que se aborrece muito quando meu pai toma decisões sem consulta-lo. Mas, se reparar, o senhor quase nunca está por perto quando há decisões a serem tomadas. – Joana proferiu, de forma despreocupada, esperando que o assunto fosse capaz de afastá-lo.
O humor de Alfredo caiu por terra a medida que se aproximavam do casarão. O que ela queria dizer com aquilo?
— Por que está dizendo isso agora?
— Nada em especial. Apenas fiquei refletindo que o senhor é parte da história da biscoutaria e se eu fosse dona de um lugar como esse, o mínimo que eu iria querer das pessoas que estivessem ao meu lado era que fizessem jus a essa história.
Lentamente, enquanto algo lhe ocorria, os cantos da boca de Alfredo se erguerem.
— É claro. Não esperaria menos da senhorita. Acho que a senhorita seria muito boa para a biscoutaria. – com uma reverência, ele começou a se afastar. – Avise a seu pai que passei por aqui. Tenha uma boa noite, senhorita Joana.
Parada diante da porta do casarão, Joana assistiu Alfredo desaparecer na escuridão do fim da rua, algo fazendo os pelinhos do seu braço eriçarem. Balançando a cabeça para afastar os pensamentos, Joana fechou a porta atrás de si, se detendo antes mesmo de completar uma passada. Ela avaliou a informação que Alfredo lhe dera antes. “E desde então o Joseph Fretcher não dá as caras por aqui” ele dissera, confirmando as suspeitas de Joana.
Ninguém parecia saber onde Joseph estava e ela bem que desconfiara quando por vezes Manoel aparecia na cozinha como se procurasse por algo, a feição denunciando que não encontrara.
Com a cabeça começando a doer de preocupação, Joana inspirou uma boa lufada de ar, antes de parar de novo. Então, de repente, ela se deu conta de quem saberia onde Joseph Fretcher estava.
*
Na ponta dos pés, tentando fazer o mínimo de barulho possível, Joana desceu as escadas do casarão furtivamente. O envelope permanecia nas mãos atadas às costas, um pequeno segredo que ela apenas permitiria dividir com Joseph. E, bem, com Pedro.
— O que está fazendo?
A voz de Manoel a atingiu como um pontapé e Joana cambaleou, encontrando apoio no corrimão de madeira da escada. Com a mão sobre o peito, ela tentou regularizar a respiração.
— O senhor me assustou!
— Ah, é? E por que?
Percebendo o tom que o pai usara, Joana logo tratou de recuperar a compostura, o semblante sério de volta.
— Por nada.
Manoel estreitou os olhos, a avaliando, para logo decidir que não se importava.
— Vou ao meu escritório organizar algumas coisas e em breve partiremos para a biscoutaria. Se vai fazer alguma coisa, se apresse.
— O-o senhor vai me acompanhar? – Joana questionou, alarmada.
— É claro. Algum problema?
Aquilo acabava com seus planos de seguir até a estalagem sorrateiramente e pedir a Pedro que entregasse sua carta a Joseph, onde quer que ele estivesse. Que não fosse em uma embarcação a caminho de Londres, Joana apelou, desgostando da ideia. Tão logo ela contemplou o furo em seus planos, Joana percebeu que tinha algo estranho. Manoel passara a fazer questão de vez ou outra acompanhar Joana, na ida até a biscoutaria ou na volta dela.
“Ultimamente, quando você está na biscoutaria, sempre volta tarde. É a última a sair sempre. Tem alguma coisa que você queira me contar?”
Joana estalou a língua. Então Manoel a estava vigiando? Aquilo era mais estranho que o olhar que seu próprio pai a estava dando.
— Algum problema, Joana? – Manoel insistiu.
— Ah. Não. Nenhum. Estarei com o senhor em alguns minutos.
Com um olhar desconfiado, Manoel chocou a bengala no chão de madeira, dando a conversa por encerrada e fechando-se em seu escritório. Só então Joana soltou o ar, indignada. Trazendo o envelope para seu campo de visão, ela roçou o polegar no material. Joseph disse em sua própria carta que teve que recorrer a medidas drásticas para conseguir falar com ela. Bem, agora ela estava devolvendo o favor.
— E agora? O que eu faço? – murmurou consigo mesma.
Não iria arriscar pedir a algum dos criados para se responsabilizar pela entrega. Mesmo acreditando que, caso eles descobrissem, não sairiam espalhando aos quatro cantos, Joana nem mesmo queria que eles descobrissem. Além de que seria o caminho mais fácil para cair nas mãos de Francisca.
Joana analisou a quietude que o lugar estava. Matilda e Isabel estavam trancadas em seu quarto, Francisca se ocupava nos fundos da casa com as tarefas domésticas e, como se em resposta a seu dilema, Domingos surgiu próximo a escada.
— Pisc! Domingos! – Joana cochichou. – Domingos! Aqui.
O homem de baixa estatura e fartos cabelos enrolados encontrou Joana esgueirando-se aos pés da escada, onde foi encontrá-la.
— Senhorita Joana. Como posso ajudá-la?
— Preciso de um favor muito, muito grande.
Como parte orgulhosa daquela família, Domingos encheu o peito, sorrindo prontamente.
— É claro, senhorita Joana.
— Preciso que desça até a estalagem do Luiz de Barros e peça que Pedro venha até aqui. É o filho dele. Não sei exatamente o que Pedro faz na estalagem, mas não deve ser difícil de encontrá-lo. Então lhe peça que venha, o mais rápido possível.
O rosto de Domingos logo se transformou em perturbação, diante do tom apressado que Joana utilizava. Indeciso sobre se deveria perguntar se ela estava bem, já que se tratava de sua patroa, Domingos apenas acenou com uma reverência.
— É claro, senhorita Joana. Agora mesmo.
Joana lhe sorriu em agradecimento e, outra vez, confiante, se deixou cair sobre os últimos degraus. Sim, aquilo teria que servir. Pedro entregaria a carta para Joseph e, com sorte, traria a resposta. Não tinha como dar errado.
Então Joana apoiou os braços cruzados sobre os joelhos, deixando sua cabeça repousar sobre eles. Com os olhos fechados, ela suspirou. Passara boa parte da noite em claro, avaliando seus sentimentos. Tentando entender como, subitamente, atração física parecia não explicar mais o que ela sentia em relação a Joseph. Atração física parecia não ter nada a ver com a preocupação que a estava corroendo agora.
Joana nem mesmo precisava beija-lo agora. Não precisava dos toques, do calor, dos arrepios. Agora apenas precisava colocar os olhos sobre Joseph, saber que ele estava bem. E se não estivesse, ah, como ela desejava poder fazer algo.
Tinha que haver alguma explicação para aquilo. Contudo, durante um momento em que Joana deixou suas ideias a varrerem para longe, sua mão afrouxou do aperto sobre o envelope e um esbaforido Dalton surgiu, arrancando-lhe bruscamente o papel da mão.
Erguendo a cabeça, Joana encarou com horror o cachorro começar a correr pelo salão, a carta presa entre os dentes.
— Ah, não. Não, não, não. Dalton!
Joana disparou atrás do cão, tentando levantar a barra do vestido. Ela nem mesmo podia gritar ou dar um de seus assobios para interromper o caminho de Dalton, pois isso chamaria toda a casa até ali. Então, para desespero maior de Joana, ela ouviu ao longe a voz de Francisca, originada da cozinha, notando que Dalton permaneceu parado atento ao som. Então olhou para Joana, uma faísca ali que parecia dizer “acho que sei para onde quero ir”.
— Nem pense nisso, Dalton. – Joana balbuciava. – Achei que estava do meu lado. Traidor.
Bufando, o cachorro continuou sua empreitada, carregando o envelope consigo em direção a cozinha. Por sorte, em uma medida desesperada, Joana contornou às pressas a mesa de jantar, se colocando a frente do corredor e impedindo a passagem de Dalton.
Parecendo se divertir com as tentativas falhas de Joana de alcança-lo, o cachorro tornou a correr na direção oposta, levando a carta para longe.
— Dalton! – Joana gritara, em alto e bom som, no mesmo momento em que o animal grande derrubava uma cadeira em seu percurso, provocando um barulho ainda maior.
Todas as linhas que Joana extenuava sua preocupação na carta, ela amuou, quando Dalton passou como um vendaval pelo salão de entrada. A linha em especial em que deixava claro que sentia falta dele, Joana desesperou-se, quando Dalton a enganara, dando a volta em direção as escadas.
— Mas o que está acontecendo aqui? – o som desesperado e confuso da voz de Francisca reverberou pelo salão, os olhos presos na perseguição de Joana e nos móveis revirados.
Isabel e Matilda já desciam a escada depressa, quando Isabel quase atropelara Dalton. Na tentativa descuidada de fugir, o cão atrapalhara-se e Isabel aproveitou para agarrar o envelope da boca dele, erguendo para dar uma conferida. Os olhos de Joana voltaram a saltar, bem como ela saltou em direção a irmã, lhe tomando antes que ela visse o conteúdo um pouco rasgado e coberto de saliva.
— Muito obrigada. – Joana se apressou, mas pôde ver um lampejo no olhar de Isabel e ela soube que a irmã vira algo.
Engolindo em seco, Joana deu meia volta, indo de encontro a Domingos, que permanecia estupefato ao lado de um Pedro de rosto avermelhado tentando conter a risada. Decidida, Joana marchou até o garoto, enlaçando seu braço no dele e o arrastando para fora.
— Você vem comigo.
Somente quando estavam longe o suficiente do casarão, Joana parou, para notar que Pedro saltitava em uma dança esquisita.
— Eu sabia, eu sabia, eu sabia.
Joana teve medo de perguntar, mas fizera mesmo assim.
— O que?
— Que estava acontecendo alguma coisa entre vocês dois. – Pedro deu um sorriso astuto, como se houvesse solucionado um enigma. – Bem, eu sempre suspeitei e quase tive minha confirmação quando Joseph me pediu para trazer aquela carta para a senhorita. Mas aí eu pensei “quem sabe ele não está cortejando a senhorita e sendo ignorado”. Entretanto, aqui está a senhorita. Querendo que eu entregue isto, não é?
E então tomou a carta da mão de Joana, jamais deixando de sorrir. Joana cruzou os braços, contrariada com a confusão e com o fato de que Pedro parecia se divertir com seu tormento.
— Não vai contar a ninguém, não é? – ela quis saber, num fiapo de voz.
— Claro que não, senhorita Joana. Lealdade de irmãos.
— Mas espera... Você disse que suspeitava de algo. Por que?
O sorriso de Pedro aumentou.
— Ah! A senhorita quer saber se ele fala da senhorita para mim.
— Eu não disse que...
— Mas não irei dizer. – Pedro a interrompeu. – Como eu disse, lealdade de irmãos.
Joana bufou.
— Tudo bem. Só entregue a carta. Por favor.
Pedro concordou com um aceno de cabeça e Joana enfim sorriu para ele, soltando o ar. Dera tudo certo no final. Mais ou menos.
Pronta para voltar antes que Manoel arrancasse os próprios cabelos de raiva por Joana ter seguido sem ele, ela finalmente notou que Dalton estava sentado aos seus pés. Adotando uma postura repreendedora, ela voltou-se para o cachorro.
— Ah, Dalton... Teremos uma conversa bem séria hoje.
Tamborilando os dedos contra a perna, Pedro se manteve parado, o cenho franzido. A mulher estava mesmo falando com o cachorro?
— O que você planejava com isso, hein? Queria que todos vissem para quem era a carta, me comprometendo? Você quer que eu acabe casada com o inglês?
Diante daquilo, para aumentar a revolta e a perplexidade de Joana, Dalton começara a pular e latir, desmanchando-se em animação. Joana estava boquiaberta, enquanto tudo que Pedro pôde fazer fora cair na gargalhada.
*
A resposta para aquela jornada veio em forma de bilhete no domingo. Joseph pedia para encontrarem-se no final do dia seguinte, na biscoutaria, como sempre. Apesar do encontro marcado, Joana não vira o momento em que ele chegou e instalou-se na cozinha. Devia ter entrado pelos fundos, ela contemplou, quando seu olhar pousou sobre Joseph.
Sentado com os braços apoiados sobre a mesa, as mãos unidas e o corpo curvado em sinal de cansaço. Com os olhos fechados, ele não notou quando Joana se aproximou. O coração dela estava disparado, de saudade e preocupação, quando seus dedos aventuraram-se pelos fios macios do cabelo de Joseph, atraindo a atenção dele para si.
Joseph ergueu o olhar para a mulher parada ao seu lado, estudando o rosto bonito que ele passara a gostar tanto de admirar. Encararam-se, olhos nos olhos, por longos minutos. Então Joseph achou que não havia momento mais inoportuno para seus sentimentos por Joana virem à tona. Ele a olhou e algo dentro de si rompeu, um fio se desfez e um muro enorme cedeu, desmoronando sobre si mesmo. Algo naquela mulher sempre o desarmara e, agora, Joseph sentia o peso daquilo mais do que nunca.
Sem que ele pudesse – ou desejasse –, uma lágrima solitária escorreu por seu rosto.
Joana arregalou os olhos e sua mão, que lhe acariciava o rosto, interrompeu-se.
— O que? Você... Não. Por favor, não chore.
Mas o pedido embargado de Joana, o som da voz dela, a preocupação em seu olhar, tiveram o efeito contrário em Joseph e ele se encontrou fazendo o que jamais permitira: chorando. Ondas de agonia e arquejos de desespero brotando em seu peito, derramando-se em lágrimas não contidas. Sua cabeça tombou contra a barriga de Joana, que ela prontamente embalou, perdida.
— Por favor, Joseph. Se você... Se você chorar eu vou...
Mas de que adiantava falar? Joana se pegou sem conter as próprias lágrimas, agarrando-se a Joseph o mesmo tanto que ele agarrava-se a ela. Colocando para fora tudo que ficara entalado em seu peito por anos, Joseph teve o pensamento mais inoportuno. Ele lembrou-se do que seu pai falara sobre chamar de casa. Pensou no que significava casa. Pensou sobre a sensação de lar, de estar em um lugar que te recebe e te aceita. Um lugar para onde você pensa em fugir depois de um dia de puro cansaço.
Então, ali, Joseph percebeu.
Joana era casa.
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