Doce Pecado

Céu

É tão frio! Ou talvez eu perceba a baixa temperatura com uma sensibilidade maior devido ao tempo em que permaneci em meio ao fogo. De qualquer maneira, o frio combina com este lugar. Escuro, o jardim para o qual Alexis me trouxe me passa a sensação de uma noite eterna, iluminada pela lua cheia, cujo brilho toca fracamente a natureza que me cerca.

Apesar da baixa luminosidade, posso ver cada mínimo detalhe, desde as nervuras em uma folha até os pequenos pontos de terra misturados à grama. Tudo é muito nítido para mim. Atrevo-me a dizer que agora percebo melhor as coisas do que percebi em todo o tempo em que estive sob o olhar do sol. Lembrar-me da estrela, faz com que eu eleve meu olhar ao firmamento, marcado pela lua e pelo brilho pulsante das estrelas. Olhando-as assim, as estrelas parecem com pequenos corações batendo na imensidão do firmamento. Bilhões de corações batendo juntos em harmonia.

- Assim como acontece no planeta, não é mesmo? – a voz baixa e calma de Alexis me tira de meus pensamentos.

Viro meu rosto, intrigado com a pergunta. Alexis não me olha, mantendo o olhar fixo no céu, assim como eu estava fazendo. Sob a luz da lua, essa estranha mulher parece um fantasma, tão pálida e espectral. A roupa negra e o cabelo escuro parecem se misturar às sombras, restando apenas a pele clara e os lábios vermelhos. Um belo fantasma, uma pintura de uma época esquecida, talvez. Um sorriso vermelho aparece e as íris escuras são dirigidas a mim.

- Seus pensamentos são tocantes, padre. – ela diz – Mas não acha que sua visão acerca das estrelas pode ser usada para descrever os humanos que habitam esse mundo?

- Como assim? – pergunto, curioso sobre a proposta e o que ela diz respeito. Essa já é a segunda vez que Alexis demonstra poder ler meus pensamentos. Como ela consegue?

- Bilhões de corações batendo em harmonia. Há bilhões de humanos nesse mundo, cada um deles tem um coração pulsante no peito. Todos batem juntos em plena harmonia. Correto?

- Sim. – respondo. Não havia pensado por esse lado. – Alexis? – chamo, querendo perguntar algo, mas sem a coragem necessária para isso.

- Apenas pergunte. – ela diz e sorri para mim.

- Como pode ler meus pensamentos? – algo em minha pergunta faz com que o sorriso nos lábios vermelhos aumente.

- Tem certeza de que não sabe? – Alexis pergunta, tocando minha face, meus lábios – Não mantenha seus pensamentos em silêncio, diga-os em voz alta. Quero ouvi-lo, Amadeus.

Incapaz de resistir ao pedido, deixo que minha voz saia, formando poucas palavras, um rápido e até mesmo óbvio raciocínio, mas que, para mim, é difícil julgar correto.

- Chamaram-me de vampiro. É isso que você é, Alexis? Você é uma vampira?

- Sim. – ela parece perceber a surpresa que a resposta me causa, pois pergunta: — É tão difícil para você acreditar nisso mesmo depois de tudo pelo que passou?

- Nunca pensei que vampiros pudessem realmente existir. – respondo – E ainda não consigo acreditar completamente no que aconteceu.

- Não. – Alexis diz, olhando em meus olhos, as íris escuras brilhando tanto quanto a lua no céu — Você apenas nunca se viu como um vampiro, mas sim como um pecador. Focado no que você fez, você nunca prestou atenção no que você é.

- Se me vi como um pecador, então prestei atenção no que eu sou. – retruco – Apenas não me apeguei ao título de vampiro.

- Se você tivesse se visto como vampiro, então teria atentado para o que você é. Julgando-se um pecador, você deu importância apenas ao que você fez e não a quem você é.

- E o que difere um vampiro de um pecador? – pergunto – Que importância tem eu me considerar um dos dois?

- Ambos são classificações, títulos. Querer se encaixar em um deles mostra o quanto você depende de uma palavra para se identificar.

- Do que está falando? – pergunto. Sinto minha mente girar. Parece que, quanto mais converso com Alexis, mais damos voltas e voltas em vários assuntos, de diversas maneiras. Ou talvez seja um único assunto, abordado de diferentes formas. De um jeito ou de outro, não estou com cabeça para me ater a esse detalhe agora.

- Por que você insiste em se chamar de pecador? Por que se recusa a ser chamado de vampiro? Se para você ambos são a mesma coisa, criaturas que vão contra as leis de Deus, que diferença faz ser chamado de um modo ou de outro?

- Nunca falei nada disso! – respondo – Nunca me vi como vampiro, não há nenhuma recusa nisso. Considero-me um pecador porque é isso o que eu sou! Chame-me de vampiro ou de pecador, não me importo!

- Não se importa? – embora o tom da minha voz tenha se alterado, tornando-se mais alto e nervoso, a voz de Alexis permanece baixa e suave. – Vampiro. Pecador. Viu como há diferença para você?

- Não. – respondo, não entendendo a última pergunta.

- Você se manteve firme quando o chamei de vampiro, mas quando o chamei de pecador, seus olhos tremeram por um segundo. Ser chamado de vampiro não causa a menor impressão em você, mas ser julgado como pecador te machuca.

Fico em silêncio, pasmo ante as palavras de Alexis. Não percebi nenhuma alteração em mim quando fui chamado de vampiro e pecador, mas ela viu. Alexis notou as emoções do meu subconsciente. Ela viu em mim algo que eu mesmo não consigo notar.

- As pessoas possuem a irritante necessidade de se intitularem. – Alexis começa – Parece que elas sentem prazer em dizer “eu sou isso” ou “eu sou aquilo”, mas elas não percebem o desconforto que esse gesto pode causar nas outras pessoas. Por exemplo: para mim, você é apenas Amadeus, mas você, assim como seus colegas religiosos, se vê como um pecador. Eu não ofereço um título, os outros e você mesmo, sim e esse título machuca você.

- Quando digo que sou um pecador, posso me machucar, mas não causo nada a você. Portanto, se auto-intitular não é um ato que pode atingir outros.

- Tem certeza? – ela pergunta – Quando você diz “eu sou o melhor”, você imediatamente coloca o outro como o pior, ou alguém que não é tão bom assim. Quando você se engrandece, você diminui o outro. E o contrário também ocorre. Quando você se diminui, você engrandece o outro. Colocando a si mesmo como pecador, você faz dos outros inocentes para o que quer que eles façam com você.

- Quer dizer que eu não devo me ver como pecador? – pergunto.

- Quero dizer que você não deve dar tanta importância a esse título. Como disse, esse é o mundo dos pecadores. Bilhões de corações que se afogam em pecado, batendo desesperadamente em busca da luz da inocência.

- Não acredita que existam inocentes nesse mundo? – questiono, surpreso e incomodado com o ceticismo de Alexis.

- As crianças, talvez. – ela responde – Mas somente até elas crescerem e finalmente conhecerem o mundo. A inocência não é eterna. Infelizmente. – um suspiro deixa os lábios vermelhos e apaga o sorriso.

- Sou um pecador, reconheço isso, mas acredito que há pessoas que não são como eu, que são inocentes. – digo em um tom baixo.

- Então me diga o nome de uma. – Alexis pede – Diga o nome de um inocente, de alguém com a alma pura e intocada. Alguém que não seja mais criança.

Não obedeço imediatamente ao pedido. Fico alguns minutos em silêncio, pensando em alguém, em um nome, mas, por algum motivo, minha mente está vazia. O toque de Alexis em meu pescoço me traz de volta à realidade. Os dedos tocam o colarinho, as unhas arranhando minha pele.

- Dirá o nome de alguém que, assim como você, usa essa batina? Alguém que é incapaz de tentar entender aquilo que desconhece antes de julgar e destruir? Dirá o nome de um daqueles homens que o jogaram contra o chão, o feriram e o abandonaram em meio ao fogo? Responda, Amadeus. Que nome dirá?

Embora não tenha pensado em nenhum nome para dizer, as palavras de Alexis despertam as lembranças do que passei e, principalmente, do que fiz. São exatamente essas lembranças que me trazem a resposta que Alexis pede.

- Lucas. – respondo, minha voz clara e firme – Lucas era inocente.

Alexis sorri.

- Inabalável. – ela diz em um tom baixo e então afasta a mão do meu pescoço, voltando a olhar para o céu – Quantas estrelas são inocentes? Quantas delas explodirão no vermelho do pecado sem conhecerem o brilho branco da redenção?

Observo enquanto Alexis faz suas perguntas e uma palavra chama minha atenção.

- É isso que você procura? Redenção? – pergunto – Se sim, o que a sua busca tem a ver comigo?

- Redenção não é algo que você pode conquistar sozinho. – Alexis responde, olhando-me.

- Por que procura por redenção? O que fez e de que se arrepende? – pergunto, as palavras saem rápidas quase se fundindo umas com as outras, mas não posso evitar. Alexis é tão misteriosa que não consigo conter a curiosidade, a vontade de saber mais sobre ela. Mais e mais.

Alexis se aproxima, passando os braços por meu pescoço, sussurrando a resposta, os lábios macios roçando nos meus.

- Destruí uma alma. Quebrei-a em mil pedaços e então a abandonei na mais negra e profunda solidão.

Sem perceber, respondo às palavras de Alexis:

- Eu te perdoo.

Um sorriso vermelho.

- Obrigada, padre.

Notas finais
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