Doce Pecado

6 Coração


Doce Pecado

Coração

Por que isso parece um sonho? Ter Alexis aqui, na minha frente, abraçando-me e sorrindo. Isso parece tão... Perfeito... Que não pode ser real. Hesitante, ergo minha mão e toco a face pálida, sentindo a maciez da pele sob meus dedos. Sem que possa evitar, um sorriso nasce em meus lábios. Não é esse momento que parece um sonho, é todo o resto, tudo o que aconteceu antes. Como se eu tivesse passado um longo tempo adormecido e só agora despertasse.

Ao mesmo tempo, não consigo parar de perguntar o motivo de tudo isso. Por que Alexis escolheu a mim para transformar, para ajudá-la a encontrar a redenção que procura? O que há por trás dessa redenção? As palavras de Alexis me soaram tão profundas e verdadeiras e, principalmente, sem o menor tom de arrependimento. Não entendo. Se ela não sente pelo que fez, então por que procura um meio de se redimir?

Olho nos brilhantes olhos escuros. Pergunto-me se, nesse exato momento, Alexis está lendo meus pensamentos. Se sim, o que ela pensa sobre minhas perguntas? Ela seria capaz de respondê-las, estaria disposta a isso? Fecho os olhos, sentindo os lábios de Alexis tocarem meu queixo, depositando um suave beijo em minha pele.

- O que quer saber? – a pergunta é dita em um sussurro, a boca vermelha ainda próxima do meu maxilar.

Respiro fundo, abaixando minha mão e tocando a cintura de Alexis. É estranho. Quanto mais próxima de mim ela fica, mais eu sinto essa vontade de saber mais sobre quem realmente ela é. Quase como se ela me instigasse a perguntar, a querer saber. Com a mão livre, toco a lateral do rosto de Alexis, as pontas dos meus dedos quase tocando os lábios vermelhos. Alexis, por acaso, estaria querendo se confessar?

- Quem é você? – pergunto quase sem perceber.

Essa não é a pergunta com a qual queria começar, mas ela parece adequada. Talvez sabendo quem Alexis é, eu possa descobrir o que ela quer comigo e para ela mesma. Antes de me dar uma resposta, Alexis me oferece um sorriso vermelho acompanhado de um leve carinho na minha nuca.

- Você sabe quem eu sou. – ela diz – Sou Alexis, um vampira.

- Não. – digo descendo o toque de meus dedos para o pescoço de Alexis e um pouco mais, até atingir o colo, onde abro minha mão – Quero saber quem realmente você é. Qual a sua história? Como se tornou um vampira? Como...?

- Como o quê? – ela me encoraja a continuar, ainda sorrindo e parecendo não se incomodar com meu interrogatório ou com meus toques. Como se conseguir tudo isso fosse o objetivo dela.

- Como cometeu seu pecado?

Alexis fica em silêncio por alguns segundos. Ela solta meu pescoço, pegando minhas mãos e guiando-me até um dos bancos espalhados por esse jardim. Gentilmente, ela faz com eu me sente, sentando-se ao meu lado e voltando a acariciar minha face com a ponta dos dedos.

- Diga-me, Amadeus, você acha que amar é um pecado?

Não respondo de imediato. Que tipo de pergunta é essa, o que ela tem a ver com o que Alexis fez? Mas o que mais me incomoda é o modo como Alexis me olha, tão calma! É quase como se ela realmente não se importasse em falar, como se quisesse falar. Talvez eu esteja certo. Talvez para Alexis se confessar seja um meio de se aproximar de sua redenção.

- Não. – respondo – O amor está muito longe do pecado.

- E quando esse amor causa apenas dor? – Alexis pergunta – E quando, ao invés de fazer o amado sorrir, uma pessoa apenas o faz chorar? Esse amor não seria um pecado?

- O sentimento é puro, as ações é que são impuras. – respondo – O pecado não é o que se sente, mas como se age.

- Mas as ações não nascem do sentimento? – as unhas de Alexis deslizam pela lateral do meu rosto, atingindo meu pescoço, os dedos tocando a marca em minha pele. A marca que ela deixou – Se a fonte não é pura, como os frutos podem ser? Se os frutos são impuros, não significa que a fonte está corrompida?

Toco o pulso de Alexis, sentindo a pele macia sob meu toque. Os olhos escuros observam meus movimentos, mas parecem não dar importância. Há algo nas íris, uma espécie de neblina. Para mim, parece que Alexis está viajando em seus próprios pensamentos, em suas... Lembranças?

Sinto os dedos pálidos se fecharem sobre minha mão, segurando-me. É um toque bom, diferente dos primeiros. Antes, sentia dor com a aproximação de Alexis, agora já nem tanto. A dor ainda está presente, mas está calma, suavizada pelo carinho com que ela me trata. Carinho. Amor. Quero responder que a situação dos frutos independe da situação da fonte, mas não consigo. Já ouvi falar de vários tipos de amor, tipos que machucam, que matam. A pureza do amor, a inocência. Será que nada pode permanecer imaculado nesse mundo?

Respiro fundo e entrelaço meus dedos aos de Alexis. Com a mão livre, toco a face bela, afastando alguns fios de perto dos olhos escuros. A neblina persiste, como lágrimas que não podem ser mostradas.

- Quem você amou? – pergunto em um sussurro. Alexis sorri.

- Um homem. – ela responde – Um homem puro e inocente, que me amou com todo seu coração, com toda sua mente e alma. Mas por mais que eu amasse, não fui capaz de retribuir o sentimento com a mesma pureza com que ele me oferecia. Minhas palavras, minhas ações, meus toques somente o machucavam. Meu amor não era carinhoso como o dele.

- Não foi sua culpa. – digo – Se você realmente o amava, você não tem culpa da dor que causava a ele. Se seu amor era verdadeiro, a dor foi apenas uma tragédia. Não havia intenção, sua ou dele, de fazer nascer essa dor.

- Você não entende, Amadeus. – Alexis diz, aproximando-se de mim – Havia intenção, sim. Havia a minha intenção.

- Alexis... – digo, não entendendo o que ela quer dizer, aonde ela quer chegar. Um forte desespero nasce em meu peito parecendo querer me avisar de que eu não quero entender.

- Eu queria que ele sofresse, eu queria que ele sentisse a dor de me amar. – um suspiro – Eu queria que ele visse, que ele experimentasse a minha escuridão. Eu o amava e por amá-lo eu queria machucá-lo.

- Por quê? – pergunto, meu tom de voz se elevando um pouco, refletindo o desespero que sinto espremendo meu coração.

- Porque eu sou uma pecadora. – Alexis responde e sorri mais abertamente.

Não digo nada, perplexo demais para poder falar algo coerente. Alexis se aproxima mais, beijando meu rosto, meu pescoço, soltando minha mão e me abraçando, envolvendo-me com sua presença forte e sufocante. Nesse momento, o que era bom volta a ser agonizante, como da primeira vez. Novamente, quero fugir dela, mas, agora, também quero ficar. Para sempre nesses braços.

Alexis toca meu olho esquerdo, deslizando as pontas dos dedos pela queimadura em forma de cruz. O sorriso ainda está presente nos lábios vermelhos, assim como a névoa nos olhos escuros.

- Eu o marquei. – ela diz – Como meu, somente meu. Mas então, como tudo nesse mundo, nosso amor teve que acabar. Eu o deixei, o abandonei em uma escuridão mais profunda e mais densa do que a minha. Eu o amei, o torturei, o marquei e o deixei. Esse é meu pecado, Amadeus. – os lábios macios tocam minha orelha – Meu doce pecado. – um sussurro que me arrepia.

- O... O que aconteceu com ele? – pergunto, fechando os olhos, envergonhado ao notar minha voz tremer levemente.

- Ele permanece na escuridão, mas eu ainda espero. – ela responde – Espero que luz da alma dele volte a predominar e o salve do caminho em que o joguei.

Assinto lentamente, engolindo em seco. Quero me solidarizar com esse homem que Alexis amou, mas não consigo. Os únicos sentimentos que consigo ter são todos voltados a ela, em como, apesar da dor, gosto de quando ela me toca, quando está comigo. Quero tê-la para mim como esse homem teve. Toda dor, todo amor... Eu quero sentir!

- Você se arrepende do que fez com ele? – pergunto, voltando a abrir os olhos, admirando as íris escuras que me observam.

- Não. – Alexis responde – Não me arrependo de tê-lo amado.

- Então por que procura por redenção?

- Porque sei que preciso pagar pela dor que causei. – a resposta é dita em um tom resignado.

- Como posso ser sua redenção? – pergunto, tendo plena consciência de que não estou oferecendo ajuda, estou me colocando como o caminho, o preço a se pagar. Não posso evitar! Quero ajudá-la!

O sorriso de Alexis aumenta e ela volta a beijar minha face, a queimadura em meu olho, meu maxilar, meu pescoço, a marca que ela fez.

- Quer mesmo ser minha redenção? – a pergunta é sussurrada diretamente contra minha pele.

- Sim. – digo em um tom de voz baixo demais, quase inaudível.

- Então se torne meu pecado.

- O quê?! – pergunto, surpreso com a resposta que recebo.

- Diga, Amadeus, quantos pecados você está disposto a cometer?

Alexis não me dá uma chance de responder. Passo meus braços pela cintura fina, abraçando o corpo magro, puxando-o contra o meu próprio. Os dentes de Alexis rasgam a pele do meu pescoço e os lábios macios sorvem meu sangue com fome e paixão.

Oh, Deus, perdoe-me. É a única coisa que posso pedir ao tomar consciência do que estou fazendo e de minha resposta à pergunta de Alexis.

Para permanecer ao seu lado... Quantos forem necessários...

Notas finais
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