Doce Morada

7 Às claras


Notas iniciais
Atualizei antes do esperado, ein? Leiam as notas finais que tem uns recadinhos. Boa leitura!

Caí ao chão. Sentia como se toda a força houvesse sido tirada do meu corpo naquele instante. Meu corpo era leve como uma pluma, mas meu coração pesava bronze. Eu chorava e não conseguia controlar os sons que fazia. Qualquer um que abrisse a porta e olhasse pro corredor iria se deparar com essa deplorável cena.

Senti a dor da perda. Me era tirado o fôlego pra continuar. Me senti viúvo sem perder um esposo. Órfão sem perder os pais. Era apenas eu ali, na maior solidão. Com desconhecidos a minha volta que nunca chegarão a me conhecer de verdade. Talvez ninguém nunca conheceu.

Por que ele tinha que aparecer? Eu viveria uma miséria vida, isso me é óbvio. Mas agora parece que será ainda pior. Chegou a hora de ser castigado pelos meus pegados. Imagino um apedrejamento sendo planejado. Não me resta mais pureza. Entreguei demais de mim. E não há como eu receber de volta tudo o que dei.

Lorenzo Valença. Como seria a vida sem te conhecer? Por que tinha de cruzar meu caminho? Por que apareceu se não posso te ter? É minha culpa, eu sei. Poderia ter resistido. Ter me resguardado. Estou tão exposto. Envergonhado. Com raiva e almadiçoando o universo por não ter piedade de mim.

Vejo uma única saída para selar a dor. Ô morte, que dizem vagar entre a luz da noite, escolhendo sua vítima e lhe fazendo a visita decisiva. Bata na minha porta. Eu estou pronto. Permita que alguém viva por mais um tempo. Leve-me agora. Sou seu perfeito alvo.

Fiquei encostado na parede por minutos que não me importei de se passarem. Precisava de uma decisão. E apesar de poder acabar sendo influenciado, eu só podia tomar essa decisão de frente para ele.

Levantei daquele chão frio e caminhei para a porta de madeira marrom escura. Meu corpo parecia voltar a ocupar seu peso no espaço. Dei duas batidas na porta e baixei a cabeça. Ouvi passos, a chave, maçaneta. Aberta. Mas não levantei a cabeça. Não conseguia.

— Ei! — ele me tocou a bochecha com a mão. Estava fria, mas não foi por isso que me arrepiei. — O que aconteceu? Olha pra mim.

Entrei no quarto ainda de cabeça baixa. Contei mentalmente de um a três e a levantei, olhando fixamente em seus olhos. A vontade de chorar veio forte, porém segurei firmemente. Não era hora de desabar novamente. Eu tentava manter um olhar decidido, mas com certeza meu estado era de dar pena. Me aproximei do seu corpo e o abracei. Forte. Como se quisesse me fundir a ele e não houvesse como nos separar.

— Ouvi uma conversa dos meus pais. Eles falavam sobre nossa saída. Meu pai odiou e pensa que fez algo comigo. Não sei exatamente o quê, ele citou bebidas. Disse que vai te mandar embora pela manhã. — falei tudo de uma vez e agora sim não consegui segurar o choro.

Ainda estávamos abraçados e senti que Lorenzo me puxou com mais força. Abaixei a cabeça e descansei em seu ombro. As lágrimas molhavam a camisa azul marinho que ele usava. Ficamos assim uns dois minutos. Acho que ele estava processando o que aquilo que lhe falei significava.

— Não vou esperar pra ser escorraçado. Irei embora antes de amanhecer. É a sua última oportunidade Enrique. Você pode vir comigo e juntos vamos descobrir o que fazer. Mas eu entendo se ficar e vou me esforçar ao máximo pra nunca sentir raiva de ti.

— Estou confuso. Tão confuso. — agora estávamos de frente um para o outro. Os olhos ligados como se por energia magnética. — Estou tomando essa decisão desde nosso primeiro beijo, mesmo tendo negado em todas as vezes que me perguntou. Tenho muito medo, Lorenzo.

— Eu também. Tenho medo de te fazer abandonar sua família e acabar não te oferecendo uma vida feliz, a vida que você merece. Não quero ser egoísta com a pessoa que mais gosto nessa porcaria de mundo.

— Tenho medo de acabar sendo um peso pra você. De ser tão infeliz que acabarei contagiando você e sugando seu espírito livre.

— São medos horríveis, Enrique. Mas será que não devemos enfrentá-los?

— Não sei se estou pronto pra isso.

— Me beija. Como beijaria se fosse a última vez que fazemos isso.

Realizei o seu pedido. Levantei um pouco meus pés pra chegar na sua altura. Suas mãos firmaram na minha cintura me apoiando. Aqueles lábios. A melhor boca que já desejei, provei, que me provou. Selei nossas bocas e tentei memorizar tudo. A textura, o clima, os sentimentos. Como se fosse a última vez. Seria?

A língua. Sorri ao lembrar todos os pontos do meu corpo por onde ela já havia passado. Agora disputávamos. Eu sentia essa disputa gritar em nossos peitos. "Quem sentiu mais? Quem se entregou mais?". Para mim, a resposta era óbvia. Eu. Eu. Eu.

E então o barulho. Não vinha de nós. Meu coração não bateu por dois segundos. E depois bateu descontroladamente. Me afastei de Lorenzo e olhei para nossa frente. Para a porta. Um homem segurava uma espingarda apontada em nossa direção. O homem era meu pai.

O olhar que ele carregava. Aquele para mim foi o primeiro tiro. Não tinha dúvida de que ele não me pouparia. Parecia com ódio, perdido. Um pouco surpreso. Ele não esperava me ver aqui, eu acho. E então porque ele invadiu o quarto com uma espingarda? Para matar Lorenzo? Ele já sabia de nós ou acabou de descobrir?

— Maldito. – o tom de voz carregando raiva, muita raiva. Eu nem sabia com quem ele tinha falado. – Seu bastardo. Como pôde desonrar essa casa desta maneira? Mas você vai pagar nos quintos dos infernos. – agora eu sabia que era comigo que ele falava.

Eu já chorava muito. Meu pai também chorava, eu via. Tomei uma atitude que nem eu mesmo esperava. Me pus de joelhos no chão. Senti como se fosse uma das vezes em que eu apanhava dele e prometia para mim mesmo que aguentaria até o fim, sem contestar, mas acabava implorando para que ele parasse. Eu iria implorar pela minha vida. E pela de Lorenzo.

— Por favor, papai.

— NÃO ME CHAME ASSIM. Eu não sou nada seu. Você acha que eu teria um filho que se deita com outro homem como se fosse mulher? Eu te abomino.

— Eu tentei não ser assim, mas não consegui. – era extremamente complicado falar, pois soluçava ao mesmo tempo de tanto chorar. – Mas isso acabou. Eu vou mudar, eu prometo que vou. Esse homem já está de partida e tudo voltará ao normal. Eu viro padre, se precisar.

— Você é um perdido, herege. Se tivesse atentado com a minha vida seria melhor do que ser isso. E eu a vida toda tentando fazer de você um homem. Maldita mulher que nem para me dar um filho de verdade me serviu. E você, seu demônio – meu pai se voltou para Lorenzo e eu levantei a cabeça para vê-lo. Parecia surpreso com tudo aquilo, sem reação. – Eu sabia que não deveria tê-lo aceitado em minha morada. Vim aqui te expulsar de uma vez. Pensava que estava influenciando esse pedaço e merda aí no chão. Mas foi bem pior do que esperava. Hoje eu vou enterrar dois corpos, juntos, como vocês gostam, não é? Malditos.

Não havia saída. Eu havia pedido pela morte há minutos e ela veio me buscar. Mas esse não era nosso pacto. Ela não tinha que levar Lorenzo junto a mim. Irei persegui-la depois por não ter cumprido nosso acordo.

— Abaixa essa arma, senhor. O que você pensa que vai fazer? Ele é seu filho, oras. – Lorenzo se pronunciou. Se ele estava com medo, não demonstrou na voz. – Mate a mim. Eu sou o responsável por tudo isso. Eu o obriguei a fazer essas coisas. O único que deve ser punido aqui sou eu.

— Não. Os dois vão morrer. E a morte é apenas o começo porque espero que sofram pela eternidade. Qual vai ser o primeiro? – eu ainda estava ajoelhado, chorando tanto que meus olhos ardiam. – Você. – ele apontou a arma na minha direção e eu abaixei a cabeça.

Fechei os olhos com força e esperei. O medo corroendo o meu corpo ainda vivo. Eu sentia que uma parte minha já tinha perdido. Pedi para Deus que tivesse piedade. Clichê, eu sei. Todos que estão cientes da morte diante de seus olhos devem fazer isso. Abaixei a cabeça e a coloquei no chão, tapando os ouvidos. O frio da morte se aproximando mais e mais.

Ouvi o disparo e tremi. O que acontecia agora? Onde eu estava? Por que não sentia nada. Levantei a cabeça e vi o momento em que Lorenzo partia para cima de meu pai e tirava-lhe a espingarda. O senhor Duarte chorava, talvez de ódio. Ele havia errado? Por isso eu continuava vivo? Os dois homens entraram numa briga. Eu tentava enxugar minhas lágrimas com as palmas das mãos para ver melhor aquela cena. E então Lorenzo acertou forte a espingarda contra a nuca do meu pai que caiu desmaiado.

— Precisamos ir. – disse ele depois de longos segundos. – Vamos. – e começou a correr pelo quarto juntando algumas coisas.

— Ele morreu? – perguntei num fio de voz.

— Não sei, mas não podemos ficar aqui. Vamos agora.

— Assim? Sem nada?

— Não podemos arriscar, Enrique. Pegue a espingarda. Vamos nos livrar dela longe daqui. — eu continuava ali no chão. Não tinha coragem de verificar se meu pai continuava respirando. Senti mãos em volta do meu corpo me impulsionando para me levantar. – Anda. Não vê que vamos morrer se continuarmos aqui? Eu sinto muito pelo seu pai.

— Não posso ir, Lorenzo. Vá você. Eu fico.

— Você acha que vou te deixar para morrer? Eu te disse que não te abandonaria para morrer sozinho na fogueira, não foi? Mas aqui temos a chance de sobreviver, nós dois. Não vale a pena ficar. Esse homem não merece essa consideração. Ele não é seu pai. Um pai não tenta matar o próprio filho.

Lorenzo me pôs de pé e me entregou a espingarda. Ele estava com a mala de couro com que chegou a pensão em uma das mãos. Eu segurei a arma e ele puxou meu braço com a mão livre enquanto caminhava para fora quarto com rapidez. Sua mão era forte, ele sabia que se me soltasse eu ficaria. Vi minha mãe quando chegamos na recepção da pensão. Ela me olhou assustada.

— Você matou ele? – perguntou já chorando. Eu voltei a chorar na mesma hora.

— Não, mamãe. Eu não fiz nada. Eu juro. Eu juro. Sinto muito.

Essa foi minha última visão dela. Saímos da pensão. Da minha casa. Minha morada. E eu sei que nunca vou voltar aqui. E nunca mais irei ver meus pais. Senhor Duarte e Dona Madalena.

— Vamos andar até a cidade e de lá pegamos uma locomotiva para Lisboa. Depois pegaremos outra locomotiva para Londres. Tenho amigos lá e eles irão nos abrigar.

Como Lorenzo conseguia pensar após tudo o que havia acontecido? Minha mente era um borrão de pensamentos e lembranças que me torturavam. Minha cabeça doía e meu coração batia forte contra meu peito. Uma hora ele acabaria atravessando meu corpo. Minhas pernas tinham vida própria e Lorenzo não me soltava em nenhum segundo.

Ainda era de madrugada. Por volta das 02:00. Ninguém estava nas ruas, tudo completamente escuro. O frio me consolava. Atingia meu rosto descoberto e fazia meus olhos lacrimejarem ainda mais. Isso deveria ser uma sensação boa?

— Você sabe a hora que sai a primeira locomotiva para Lisboa? – perguntou aquele homem em minha frente, eu não o reconhecia daquela maneira. Tão quieto, sem vida.

— Sai às 04:30. – e eu não estava diferente. Era um borrão preto e branco.

— Droga. Vamos ter que nos esconder em algum lugar até dar a hora. Seu pai pode nos encontrar. E se ele for procurar a gente, vai saber que queremos fugir e atrapalhar tudo. Espero que não acorde tão cedo.

— Talvez não acorde nunca mais. É minha culpa.

— Não foi bem assim. Eu acertei a espingarda nele. Inclusive, precisamos nos livrar dessa coisa.

— Eu desejei que ele morresse. Quando ouvi a conversa que estava tendo com a minha mãe, o amaldiçoei. É tudo minha culpa.

— Não era assim que esperava que ficássemos juntos. Mas eu não vou te abandonar, Enrique. Vamos dar um jeito, eu te prometo.

— Estou sendo um estorvo para você. Deveria me largar aqui ou em lugar próximo. Sei que não tem tanto dinheiro lhe restando e deve gastar tudo nessa viagem se me levar.

— Eu só preciso pensar em um plano. Terei tempo para isso durante o trajeto. Deve durar entre três a quatro dias. O que eu quero agora é que não se preocupe com nada. Eu assumo daqui.

— Está bancando o herói. Não quero ser o motivo de sua infelicidade. Não é como se agora fôssemos casados e você tivesse que cuidar de mim, como sua esposa.

— E se eu quiser fazer isso?

— Não devia ser assim. Me prometa que vai pensar em você também, não só em mim. – Lorenzo virou-se para me olhar. Acho que era algo difícil no momento. Olharmos um nos olhos do outro. – Faça a promessa, Lorenzo.

— Eu prometo seguir meu coração. Agora, ele diz para que eu cuide de você. É o que eu vou fazer.

Ele virou-se para frente novamente e continuou a andar até parar em frente ao quintal de uma casa. Já estávamos na cidade e era próxima a estação onde pegaríamos a locomotiva. Havia um poço naquele quintal e Lorenzo tirou a espingarda de minhas mãos e a jogou lá.

Ficamos sentados embaixo de uma árvore, olhando para o céu em completo silêncio. Eu não queria conversar, acho que ele também não. Era tudo muito estranho. Ainda tentava associar o que havia acontecido e o que vai acontecer. Parti de minha casa e irei com um homem para outro lugar, outro país, onde nem sei falar o idioma.

Após algum tempo senti o braço de Lorenzo passar pelo meu ombro, puxando meu corpo para se aproximar do dele. Ele deixou um beijo na minha nuca e se levantou, dizendo que tínhamos que ir para estação para não perder a locomotiva.

Eu estava com medo do meu pai aparecer. Mas ao mesmo tempo esperava por isso, assim eu saberia que ele estava vivo. Talvez eu esteja tendo pensamentos suicidas. Se o senhor Duarte me encontrasse, tentaria me matar novamente. Porém, ele não apareceu.

Pegamos a locomotiva de 04:30 e pela primeira vez eu iria deixar Évora. Deixar para sempre. Sentei ao lado de Lorenzo, do meu outro lado a janela. Fiquei olhando para ela até que as paisagens começaram a mudar. Estávamos nos movendo.

Dias depois...

Acordei assustado sentindo uma mão segurar meu braço. Era Lorenzo que me chamava, avisando que havíamos chegado em Londres. Tinha acabado de ter um pesadelo, como nas outras noites. Nesse eu estava sozinho numa rua e sentia que alguém me perseguia. Então aparecia um senhor, já de idade, com um machado e corria atrás de mim. Eu fugia dele, correndo mais rápido que nunca, quando minhas cederam e eu caí ao chão. E então fui acordado. Ainda bem que fui acordado.

— Já te ensinei o básico do inglês. Estarei sempre ao seu lado, então não vai precisar se preocupar com isso. – ele pegava sua mala de couro e eu me levantei para sair daquela joça.

Minhas costas doíam pela quantidade de tempo que passamos presos ali. A viagem foi extremamente cansativa. Quando paramos em Paris, Lorenzo comprou algumas roupas para mim e comida. Eu vi que não sobrava muito dinheiro e logo acabaria. Isso me angustiava. Não fazia ideia de qual seria meu futuro em Londres.

Mal conversamos durante esses dias. Eu evitava o assunto referente ao meu pai e então nossas conversas eram rápidas e bobas. Falávamos sobre como as pessoas em Paris eram chatas ou sobre como eu achava que Portugal era o país mais frio do planeta, mas estava enganado.

Caminhávamos pela estação e logo estávamos naquelas ruas. E como eram diferentes do que eu estava acostumado. Boa parte porque nunca estive em uma grande cidade. Era de tarde e o sol brilhava fraco, acompanhado por algumas nuvens.

— Se não se incomoda, iremos a pé mesmo. Meus amigos moram próximo. Vai levar só alguns minutos. – concordei com a cabeça. Ele não havia falado muito sobre esses amigos. Basicamente, disse que eles não se importariam em nos receber em sua casa.

Andamos por alguns minutos. Eu estava cansado, mas não reclamaria. Quando viramos em uma rua, acontecia uma confusão. Eu não entendi o que estava acontecendo e tudo foi muito rápido. Ouvia gritos de pessoas, elas falavam muito alto e corriam. Quando me dei conta, havia sido empurrado por Lorenzo para atrás de uma carroça. Eu ouvi tiros e espreitei para ver do que se tratava. Parecia que a polícia estava perseguindo uns homens.

— AI! – gritou Lorenzo antes de cair em cima de mim. Eu me ajeitei assustado e segurei seu corpo pesado.

Olhei para seu rosto e vi uma expressão de dor. Procurei o motivo e vi que saía sangue de sua perna. O desespero tomou conta de mim e eu comecei a gritar, pedindo por ajuda. Ninguém iria me entender e o que eu sabia em inglês não ajudaria para explicar a situação. Deixei Lorenzo deitado na calçada e saí correndo em meio a confusão para procurar por ajuda. Eu não podia perde-lo. Não depois de tudo que passamos.

Notas finais
Quanta coisa né? Não houve nenhum comentário no capítulo anterior, cadê vocês?! Agora os recados: Em primeiro, não sei se vocês lembram, mas eu avisei que poderia ficar sem postar devido ao fato de que vou ficar sem computador por uns dias. Então resolvi adiantar esse capítulo e deixar a fanfic em hiatus por tempo indeterminado. Prometo que vou tentar não demorar tanto. E outra coisa, já tinha dito aqui antes, mas pra quem não viu, Doce Morada não vai ser uma fanfic longa, então ela deve acabar por volta do capítulo 12 (sem contar com o prólogo). Agora a história começa uma nova fase e espero que esse cliffhanger tenha deixado vocês ansiosos pra saber o que vem por aí. Até mais!