Doce Morada
8 Esperança vazada
Notas iniciais
A vida, irônica como só ela consegue ser. Lorenzo e eu escapamos vivos do atentado causado pelo meu próprio pai. Viemos para outro país e logo quando chegamos Lorenzo é atingido por um tiro numa confusão entra a polícia e ladrões.
Num ato de desespero, fiquei exposto aquela cena que poderia me render a vida. E não foi algo que eu necessariamente escolhi. Simplesmente saí a procura de ajuda. Como num impulso, eu faria qualquer coisa para salvar a vida de Lorenzo.
Apesar da barreira linguística, consegui a ajuda de dois homens que carregaram o corpo de Lorenzo até um hospital. Ele estava desmaiado e eu me controlava para não chorar. Tinha que ser forte para que não desconfiassem de algo entre nós dois. Meu medo era que deixassem ele para morrer se soubessem as coisas que já fizemos.
No hospital, Lorenzo foi levado para uma sala e uma enfermeira me disse que iriam fazer um procedimento para retirar a bala. Ela falou em espanhol percebendo que eu não sabia o inglês e agradeci pelas aulas que tive na escola. Não lembro a última semana que havia falado tanto com Deus como nessa. Estava pedindo para que ele sobrevivesse e oferecendo a mim em troca. Entregar minha vida estava se tornando um tipo de tradição, eu acho.
Era difícil viver. A angústia no meu peito estava me matando. Não sabia o que havia acontecido em Évora. Minha mãe agora é uma viúva? E se fosse, como iria sobreviver sem o marido naquele lugar? Ela ainda achava que eu era o responsável por sua morte, caso ele tenha mesmo morrido?
Horas e horas se passaram e eu tive que disfarçar o choro várias vezes. Estava tão ferido emocionalmente. Quando você cai e rala o joelho, sabe que uma hora vai cicatrizar e depois de uns dias a aparência voltará ao normal. Eu não sentia que fosse acontecer o mesmo quanto ao meu interior. Havia esse machucado sem cicatrização que me atormentaria enquanto viver.
A enfermeira de mais cedo apareceu em minha frente. Engoli em seco e esperei a pior notícia. Ela me olhava séria, podia dizer até que não piscava. E então se atreveu a falar. Pelo que eu havia entendido — apesar de conseguir entender bem o espanhol, ela possuía um sotaque forte que me causava confusão em algumas palavras — eles conseguiram retirar a bala de Lorenzo e ele perdeu muito sangue, mas iria se recuperar.
Respirei aliviado e a mulher de cabelos castanhos e olhos cor de mel me levou até a cama em que Lorenzo estava deitado. Ele dormia e assemelhei aquela imagem à de um anjo. Parecia que uma criança havia tomado o lugar daquele homem de vinte e três anos.
Havia um tubo tapando seu nariz e a boca, ajudava-o a respirar. Uma agulha no braço direito ligada ao soro. Mas mesmo assim, sua expressão era de descanso. Acho que era a primeira vez que ele dormia tanto tempo desde que saímos de Évora. A enfermeira nos deixou sozinhos e me sentei numa cadeira velha de madeira que estava ao lado da cama.
— Você não pode morrer. — me senti a vontade de conversar com ele, pois provavelmente ninguém entenderia. — Você é o único que me sobrou. Eu não quero ficar sozinho, Lorenzo. Eu preciso de você.
Segurei sua mão direita e apertei um pouco. Queria que ele percebesse que eu estava ali, ao seu lado. E fiquei ali durante o fim da tarde e pela noite. Acabei adormecendo naquela cadeira. Minhas costas pediam por uma cama, não aguentava mais dormir sentado em lugares desconfortáveis. Lorenzo ainda dormia e eu resolvi andar um pouco.
Sai daquele lugar que estava cheio de camas com doentes nelas e alguns acompanhantes. Todos separados por duas cortinas, uma do lado direito e outra no esquerdo. Tive fome e lembrei que com toda a confusão, acabei deixando a mala de Lorenzo para trás. A essa hora já devem ter achado e nunca mais encontraria. Perdemos a resto do dinheiro, as roupas que havia comprado e a comida. Estávamos literalmente sem nada além da roupa do corpo.
Caminhei para fora do hospital e já era um novo dia. O sol fraco como ontem e hoje definitivamente deve chover. O que faríamos agora? Lorenzo num hospital, não sei quanto tempo vai precisar ficar aqui. Eu sem saber me comunicar direito. Parece que tudo estava dando errado de uma vez. Era essa a cobrança pelos momentos felizes que tive semana passada?
Fiquei um tempo encarando o céu, procurando alguma solução. Por que eu não conseguia pensar em algo? Meus olhos lacrimejaram e a ameaça de choro veio. Mas eu estava cansado de chorar, me sentia um fraco. Homens não choram, dizia meu pai. Eu vi Lorenzo chorar uma vez. Acho que ele não se preocupava com isso. Eu queria tanto ser como ele.
Voltei ao encontro dele que agora estava acordado e bebia água, que uma enfermeira dava para ele. Não era a mesma enfermeira de ontem, uma pena. Acho que essa não deve falar espanhol, porque ao perguntar se ele estava bem, ela fez uma cara de confusão e começou a falar com Lorenzo em inglês.
— Parece que eu vou precisar ficar um tempo aqui ainda. – disse ele quando a enfermeira saiu.
— Eu preciso contar uma coisa, mas tenho medo de que fique muito nervoso e acabe piorando.
— Pode contar. Para qualquer efeito, que bom que estou num hospital.
— Tudo bem. – criei coragem e me sentei na cadeira ao lado da cama, ficando frente a ele. – Quando você levou o tiro e eu fui chamar por ajuda, acabei esquecendo totalmente da mala e agora perdemos tudo. Eu sinto muito.
Lorenzo respirou fundo e olhou para cima por um momento. Ele com certeza estava decepcionado comigo e me achando um idiota.
— Eu entendo. Você está nervoso e se preocupou comigo a ponto de esquecer todo o resto. É até romântico, se parar para pensar. Também não é como se tivesse muita coisa naquela mala. O dinheiro estava para acabar, só perdemos nossas roupas.
— O que fazemos agora?
— Meus amigos. Preciso entrar em contato com eles e nos ajudarão. Obviamente não posso deixar essa cama, então vou ter que te pedir um favor um pouco complicado.
— Claro. Diga o que é.
— Preciso que ache a casa dos meus amigos e entregue a eles uma carta que eu vou escrever. Vou te dar o endereço e ensinar algumas frases que irão te ajudar a encontrar a casa. Não sei exatamente onde estamos, mas isso eu descubro rápido. Você acha que consegue fazer isso?
— Eu consigo. – tentei soar firme, apesar de não ter tanta certeza do que afirmei. Porém, essa era a nossa oportunidade e eu não podia estraga-la.
— Ótimo. Tudo vai ficar bem. Acredite em mim. – e como eu queria acreditar.
Hi, can you help me, please? I need to find a house. This is the address. (Oi, você pode me ajudar, por favor? Preciso encontrar uma casa. Este é o endereço.)
Lorenzo passou minutos me ensinando essa frase. Ele também desenhou um mapa que partia do hospital até a casa de seus amigos. Eram quatro pessoas que moravam lá: Joseph, Lily, Ronald e Carlie. Ele estava muito preocupado e jurava que estava pensando que eu iria me perder, mas resolveu me mandar porque era a última opção.
Saí do hospital no fim da manhã. Fazia frio e eu me sentia sujo. Precisava de um banho. E de um bom descanso em algo confortável. Segui o mapa tomando o maior cuidado e parando para pensar se estava indo certo a cada rua que tinha que virar.
Cheguei a última rua, onde deve ficar a casa. Lorenzo não lembrava o número, então descreveu como ela era na última vez em que esteve aqui. Parei em frente a casa que achei mais parecida com os detalhes que ele descreveu. Tinha um portão de metal, era de um andar e as paredes eram pintadas de azul.
Tive vergonha de bater palmas, mas fiz e esperei um tempo. No que pareceu demorar um minuto, um homem apareceu no portão e o abriu um pouco. Ele me olhou de cima a baixo e esperou que eu falasse. Quase esqueci todas as palavras em inglês que aprendi pelo nervosismo.
— Hi, how is your name? (Olá, como é o seu nome?)
— Why? (Por que?)
— I'm a friend of Lorenzo Valença and I have a letter for Joseph or Ronald. (Eu sou um amigo de Lorenzo Valença e tenho uma carta para Joseph ou Ronald.)
— Oh. I'm Joseph. Come on in! (Oh. Eu sou Joseph. Entre!)
Ele deu espaço para que eu entrasse e o fiz, lhe entregando a carta escrita por Lorenzo. Joseph a leu com atenção e olhou para mim quando parecia ter terminado.
— So, you don't speak english, right? (Então, você não fala inglês, certo?) — eu não entendi o que ele havia falado.
— I don't understand. (Eu não entendi.)
— Okay. Follow me. I'll go to the hospital. (Okay. Me siga. Eu irei ao hospital.)
Mais uma vez não consegui entender o que aquele homem falava. Joseph era alto, cabelos pretos e olhos grandes e azuis. Ele me deixou ali parado e sumiu por um tempo em algum cômodo da casa. Depois voltou segurando um casaco.
— You don't have one this? (Você não tem um?) — pela minha cara ele percebeu que mais uma vez, eu não o havia entendido.
Então ele saiu novamente e quando voltou estava vestido com o casaco de antes e me entregou um.
— Thank you! (Obrigado!) — ele balançou a cabeça e indicou para a porta.
Ele havia falado algo sobre hospital antes, então acho que era para lá que estava indo. E realmente era. Fomos para aquele lugar que hoje parecia mais movimentado. Andei na frente para mostrar onde ficava o local em que Lorenzo estava.
Chegamos e Lorenzo estava deitado na cama de olhos fechados. Joseph chamou seu nome e ele abriu os olhos e um sorriso. Os dois se abraçaram e começaram a conversar em inglês. Isso era estranho. Eu nunca havia visto Lorenzo abraçar outro homem. Tudo bem que era seu amigo e eles não se viam há um tempo, mas algo em minha cabeça insistia que ali havia uma história. Ou várias histórias.
Lorenzo me apresentou formalmente para Joseph e pelo olhar que me lançou, ele já estava ciente de tudo o que aconteceu comigo e meu pai. Ele sorriu para mim tentando ser amigável, mas eu reconheci que havia um pouco de pena em seu olhar.
— Enrique, o Joseph vai te abrigar em sua casa. Eu também irei para lá assim que sair desse hospital. Não se preocupe que vão te tratar muito bem e você vai adorar os outros.
— Eu quero ficar com você até que se recupere. — por mais que eu quisesse um lugar para poder descansar, seria estranho ficar numa casa com pessoas que eu não conhecia e não podia nem ao menos conversar.
— Não será preciso. Falei com o doutor e ele me disse que amanhã já poderei sair. Será só por uma noite.
— Tudo bem. — resolvi ceder, provavelmente dormiria a maior do tempo devido ao cansaço e não teria que conviver diretamente com os amigos de Lorenzo.
E talvez as coisas realmente se acertassem. Pelo menos uma grande parte de mim queria se apegar aquele pensamento de que tudo iria melhorar. É basicamente o que me restou após tudo. Um restinho vazado de esperança.
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