Notas iniciais
Eu mesmo estou surpreso com a rapidez (comparada a algumas tramas que escrevi antes) em postar novos capítulos aqui. Menção honrosa à Westfall que deixou um comentário no capítulo passado que devolveu parte da minha animação com a história que eu perdi por leitores fantasmas. Mas olha, tudo bem, eu ainda espero vocês nas reviews, tá? É menos doloroso do que parece, eu juro. Boa leitura!

Me despedi rapidamente de Lorenzo no hospital. Felizmente aquela seria a última noite que ele passaria naquele local. Depois de todo o susto, algo na minha mente me faz criar várias possibilidades dele morrendo. É como se houvesse conspiração contra ele e que não vai desistir até conseguir o que quer. Mas provavelmente é tudo paranoia da minha mente cansada. Sinceramente, não sei o quanto de sanidade ainda me resta.

Mas hoje eu descansaria melhor e me recuperaria. Joseph me acompanhou até a sua casa. Pela primeira vez agradeci por não falarmos a mesma língua. Eu não queria conversar. Não sei qual história Lorenzo contou para ele ao pedir que me deixasse dormir em sua casa. O rapaz parecia um pouco reservado. Ele tinha a pele muito branca, cabelos negros, os olhos castanhos escuros pequenos e uma boca finada e arroxeada pelo frio.

Quando chegamos na casa, não estávamos sozinhos. Um outro rapaz estava sentado numa cadeira que ficava na sala de frente a porta de entrada. Deveria ser Ronald. Ele se levantou e veio em nossa direção. Trocou umas palavras com Joseph e se virou para mim.

— Olá. Sou o Ronald. Eu não falo português muito bem. Sei o pouco que minha mãe me ensinou. Ela é teacher. – ele falava carregado de sotaque e não havia entendido a última palavra, acho que era em inglês. Era mais baixo que Joseph. Um pouco gordinho, cabelos morenos cheios, branco e possuía uma feição simpática.

— Olá. Obrigado por me receber. Meu nome é Enrique. – duas mulheres surgiram de um cômodo e apareceram na sala sorrindo.

Elas conversaram com os rapazes e depois fui cumprimentado por cada uma com um abraço.

Hi, i’m Lily! (Olá, eu sou Lily!). – a loira com um par de olhos azuis foi a primeira a falar.

And i’m Carlie. Welcome to our home. (E eu sou Carlie. Bem-vindo à nossa casa.). – disse a outra que tinha um cabelo chocolate em cima dos ombros e olhos cor de mel.

Hi. I’m Enrique! Thank you for everything! (Olá. Eu sou Enrique! Obrigado por tudo!).

Depois de toda a apresentação, Ronald disse que me mostraria a casa e depois meu quarto. Andamos pelos cômodos, mas eu mal prestei atenção na apresentação. O meu sono já estava dominando inteiramente o meu corpo. Quando cheguei no quarto onde dormiria, Lily e Carlie trouxeram algumas roupas e uma toalha. As roupas deveriam ser de Ronald, pois eu vi que eram muito largas para mim. Porém, tínhamos quase a mesma altura. Eu era apenas uns centímetros mais alto.

Peguei a toalha e uma peça de roupas e fui até o banheiro. Despi a roupa que vestia e fui para debaixo do chuveiro. Liguei e deixei que a água relaxasse meu corpo. Eu sentia parte da minha tensão saindo de mim como um espírito que havia se infiltrado em minha pele. Se eu não estivesse tão cansado, juro que ficaria tempo demais naquele banho. A ponto de levar uma bronca dos anfitriões da casa.

Vesti a roupa limpa e levei a velha para o quarto. Dobrei e deixei em um canto. A cama agora tinha uns lençóis, travesseiro e cobertor. Fui seduzido pela imagem e me joguei naquele espaço aconchegante. E não perdi mais tempo, sendo levado para outro mundo.

Quando acordei, senti meu corpo doer. Como poderia estar dolorido depois de ter finalmente descansado? Definitivamente, não fazia sentido. Não faço ideia de quantas horas fiquei adormecido. Mas pelo menos dessa vez eu não lembrava o sonho que tive. Depois dos últimos pesadelos, não lembrar do que sonhei era um alívio.

Percebi que estava com fome. Levantei da cama e abri as cortinas do quarto deixando a luz da manhã entrar. Já era um novo dia. Era tão estranho olhar para fora e não ter a visão de Évora. Com o céu azul coberto de nuvens. Aqui quase não havia céu. Eram nuvens escuras premeditando chuvas o tempo inteiro.

Saí do quarto e fui andando até achar a cozinha. Joseph e Carlie preparavam alguma comida. A mulher foi a primeira a me notar e veio até mim, me cumprimentando com um beijo na bochecha e dando bom dia. Joseph apenas fez um cumprimento com a cabeça. Carlie apontou para as comidas que já estavam prontas em cima da mesa. Eu não sabia o que era aquilo. Deveria ser algo típico de Londres.

Levei aquela massa a boca e era muito bom. Tinha um gosto salgado. Me servi de um copo de suco de framboesa e comi um pouco de cada comida na mesa. Ronald e Lily apareceram na cozinha. Lily me abraçou e Ronald estendeu a mão e eu apertei. Todos ali eram bem receptivos pelo que notei. Isso era ótimo, porque como sou tímido, se não fosse por esse aconchego que eles exalam, eu provavelmente estaria morrendo de vergonha.

Até agora me pergunto como eles se tornaram amigos de Lorenzo. Talvez fosse algo das famílias se conhecerem e eles terem crescido juntos. Não vejo tantas semelhanças de Lorenzo com os outros. Ele tem essa aura liberal, rebelde, curiosa. Os outros parecem mais calmos, amigáveis e comportados.

Após matar minha fome fui para a sala e me sentei em uma das cadeiras. Apesar de tudo, ainda não me sentia confortável naquela situação. Vivendo de favor na casa de outras pessoas que eu nem conhecia. A verdade é que eu estava perdido. O que eu faria agora? Esses são os amigos de Lorenzo. Essa é a vida dele. Não a minha. Como eu poderia começar a minha própria vida?

Não sei ao certo quais as intenções daquele homem. Às vezes eu penso que o que ele sente por mim é algo forte e verdadeiro. Mas com tudo o que aconteceu, talvez ele apenas se sinta responsável por mim. Por eu ser mais novo, e por de alguma maneira, ele ter uma certa responsabilidade pelo nosso envolvimento.

Eu não quero que ele fique preso a mim apenas por obrigação. Mas talvez eu queira que ele fique comigo por livre e espontânea vontade. Não parei para pôr em ordem meus sentimentos ainda. Não sei em que fase estou, tudo é muito novo e minha cabeça parece cheia de nós por dentro e não sei como desamarrá-los até chegar numa definitiva sobre o que sinto.

Lorenzo me faz rir. Ele me causa umas sensações diferentes, prazerosas. Tudo o que fizemos foi mágico e carnal. Era como se atingíssemos dois polos distintos ao mesmo tempo. A pureza e o pecado. A compaixão e a luxúria. O céu e o inferno. Éramos assim. E eu gostava disso.

Pensar que nossa história era cronometrada, com tempo certo para acabar e agora temos diante de nós várias possibilidades. A chance de ficarmos juntos até quando não quisermos mais. Agora o poder da escolha me parece mais descomplicado, mas ao mesmo tempo mais difícil. Eu nunca me arrisquei a esse ponto.

Sem falar que teríamos que viver em segredo. Não acredito que esse país tenha uma posição diferente de Portugal quanto a duas pessoas de mesmo sexo vivendo juntas, tendo um relacionamento.

— Vamos para o hospital trazer o Lorenzo. É melhor ficar. Não vamos demorar. – Ronald falou ao aparecer na sala. Eu achava bonito como o seu português era dito com o sotaque.

— Tudo bem.

— Lily e Carlie vão para o trabalho. Joseph irá também depois de passar no hospital. Eu volto para casa com o Lorenzo.

— Tem certeza de que não quer que eu vá?

— Não é necessário. Fique aqui olhando a casa. Estou falando português bem, sim?

— Muito bem. É quase um fluente. – Ronald riu e colocou um casaco. Lily e Carlie me abraçaram como despedida e junto com Joseph, os quatros saíram da casa me deixando sozinho.

Passei a olhar para a decoração da casa. Pintura em tons bege. Alguns quadros pelas paredes. Móveis certamente caros. Eles eram ricos certamente. Eu ainda não havia entendido direito qual era a relação entre eles. Se eram dois casais ou um grupo de amigos. Eu precisava aprender inglês o mais rápido possível para conseguir me situar.

Aparentemente todos na casa trabalhavam e eu deveria começar a procurar um. Mas em quê? Tudo o que na fiz na vida foi ajudar meus pais a cuidar da pensão, limpá-la, ajudar meu pai em tarefas como caça de animais, catar lenha para acender fogueira. O que eu poderia aproveitar disso para arranjar um emprego por aqui?

Évora tinha um muito rural. Já Londres é totalmente urbana. As ruas, as fábricas, até mesmo as pessoas. Tudo é muito diferente pelo pouco que conheci. Me sentia um peixe fora d’água em tantos sentidos.

Esperei por um longo tempo a chegada de Lorenzo. Já era fim da manhã quando Ronald apareceu a porta, com Lorenzo apoiado em seu ombro. Eu fui até os rapazes e ajudei a carrega-lo.

— Vamos coloca-lo no seu quarto. É o mais perto e não precisa subir as escadas. – disse Ronald e eu estranhei um pouco. Será que ele já sabia sobre Lorenzo e eu? Talvez fosse apenas paranoia e suas razões fossem inteiramente inocentes, mas agora eu estava desconfiado.

— Claro. – levamos o baleado para o quarto em que eu estava e o acomodamos na cama.

— Eu vou trazer uma água. – Ronald saiu do quarto e estávamos sozinhos.

— Pareço melhor? – perguntou ele abrindo um sorriso.

— Não. Eu pareço?

— Está lindo como sempre. Quer dizer, nesses últimos dias não tanto. – ri com a sua brincadeira, ou verdade.

— Parece que está tudo resolvido. Pelo menos por agora.

— Sim. Eu sabia que meus amigos não me recusariam ajuda. Eles gostaram de você. Ronald disse que você é uma graça.

Hey! I didn’t say that. (Hey! Eu não disse isso.). – Ronald falou ao chegar no quarto segurando um copo com água que entregou a Lorenzo. – Eu te achei legal. – disse então em português. – Preciso ir para o trabalho agora. Vejo vocês depois. – Ronald saiu do quarto e segundos depois ouvimos a porta da entrada ser aberta e fechada.

— Por que não me beijou? – perguntou Lorenzo na maior cara de pau. Ele falava sério?

— Ah, claro. Eu ia mesmo te beijar na frente de um dos seus amigos.

— Não é como se eles fossem se importar. – ele então levantou a parte de cima do corpo e roubou meus lábios para ele. Me deixei levar e trocamos um beijo demorado. Era o primeiro há um tempo.

— Como assim? Você contou sobre nós dois?

— Contei sim. Mas não precisa se preocupar. Na verdade, aqui nessa casa, nós não precisamos nos esconder.

— Eu não estou entendendo Lorenzo.

— Joseph e Ronald são um casal. Assim como Lily e Carlie. Eles moram juntos para ajudar a disfarçar isso. Para os vizinhos e todo o resto, Joseph é casado com Lily e Ronald é casado com Carlie. – por essa eu não esperava. Foi uma surpresa tão chocante que tenho certeza de que meus olhos dobraram de tamanho.

— Eu nunca que imaginaria. Por um acaso, quando você disse que ficar comigo não havia sido a sua primeira vez com o outro homem. Isso tem a ver com algum deles?

— Uma vez eu participei de um momento com Joseph e Ronald. Mas eles não foram os únicos. Houveram mais um ou dois que não me lembro nem sequer o nome. Bom, agora que sabe toda a verdade, espero que fique tranquilo. Estamos seguros aqui.

— Isso é estranho. Quer dizer, não o fato deles serem um casal. Eu estou surpreso, é isso. Você acha que eles podem acabar me chamando para um momento, igual fizeram com você?

— Eu não deixaria. – Lorenzo me olhou sério, mas depois aliviou sua expressão. – Ah, se eles te chamarem e você quiser participar, é sua decisão. Eu não acho que eles façam mais isso. Porém, você é livre para fazer suas escolhas.

— Não sei se teria coragem. Eu não quero. Além de quê, eu estou meio que com você agora, não é?

— É?

— Não sei, Lorenzo. É?

— Eu também não sei.

— O que você quer comigo? É culpa que está te fazendo ficar ao meu lado. Me diz a verdade, por favor.

— Não. Não. De onde você tirou isso de culpa? Eu gosto de você, Enrique. Não sei exatamente o que somos, o que temos. Pensei que poderíamos descobrir isso juntos.

— É que eu não suportaria saber que você está comigo porque se sente culpado pelo que aconteceu.

— Estou cansado de falar ou pensar no que aconteceu. Eu sei que você ainda sente muito por isso, mas será que podemos deixar esse assunto para trás? Somos livres agora para viver no nosso tempo e fazer as coisas como queremos.

— Você sabe que não é bem assim.

— Parece melhor que antes. Veja se está bom para você. Nós continuamos do jeito que estava. As conversas, os beijos, outras coisas. E aí, com o tempo acho que saberemos como isso vai seguir.

— Eu gostei. Sem pressa para definir algo. Nós nos conhecemos há pouco tempo ainda e apesar de toda a intimidade, há coisas que precisam de mais cuidado.

— Você nem imagina como eu estou feliz de te você aqui comigo. Eu tenho me descoberto ainda mais egoísta quando o assunto se refere a você.

— Uma pena você ainda precisar de descanso. Me veio a cabeça umas coisas que eu quero tentar.

— Sério?

— Não. Só estou te provocando. Acha mesmo que eu tenho cabeça para pensar em algo?

— Pois eu tenho. Se tenho, Enrique. – Lorenzo voltou a me beijar e dessa vez era um beijo quente mesmo.

Enquanto nos beijávamos, eu pensava que eu estava perto de conhecer o amor. Isso era algo que eu achava que nunca encontraria. Mas talvez tudo tenha mesmo um motivo oculto. Uma razão de ser do jeito que é.

Lorenzo tem razão. É hora de deixar para trás o que pode atrapalhar o agora. Isso é definitivamente um momento de mudança e eu me sinto feliz em me entregar a essa mudança. É como estar num lugar alto e ter algo que, se você cair, irá te manter no ar. E eu me sinto voando.

Notas finais
Novamente um capítulo mais calmo, sucinto, pra contextualizar a nova fase. Mas tiveram umas revelações aí, né? O que acharam e o que esperam dessa nova fase? Ainda não sei qual vai ser o ritmo do próximo capítulo, mas provavelmente as coisas voltam a acontecer com agilidade. Fiquem a vontades para dizerem o que quiserem. Beijos e até o próximo capítulo!