Doce Morada
3 Ritmo Corporal
Notas iniciais
Estaria mentindo se dissesse que tive boas horas de sono após aquela conversa com Lorenzo. Eu me questionava de onde tirei tanta coragem para lhe responder as perguntas. Era no mínimo estranho eu, um tímido que mal conseguia olhar diretamente nos olhos de alguém, respondendo aquelas perguntas bem pessoais.
Surreal. É a palavra que agora uso para descrever o meu estado diante desse homem. Como em tão pouco tempo, com tão poucas palavras, ele conseguiu fazer com que eu lhe dissesse coisas que ninguém mais tinha ciência? Por que eu era tão aberto a esse estranho? Me assustava o pensamento de que eu não tinha controle das minhas ações perto dele. O que eu seria capaz de fazer sem o controle total da minha mente e do meu corpo?
Meu corpo queimava como em febre de quarenta graus, o qual eu nunca senti, mas deve se assimilar a isso que eu sinto agora. Estranho. Embaraçoso. Emocionante. Poderia usar um dicionário cheio de palavras que se iniciam com E para tentar descrever essa novidade. Como numa das estúpidas brincadeiras que faço comigo para passar o tempo.
Eu queria voltar para ontem, no início da manhã, quando eu acordei e tudo ainda era conhecido. Agora vivia em meio às incertezas, questionamentos que eu não poderia fazer a nenhuma outra pessoa. Os meus segredos duplicaram e agora tenho certeza de que não tenho salvação. Minha alma está entregue.
Como eu queria que aparecesse alguém que sentisse o mesmo que eu. As histórias que ouço de quem já se atreveu a ser descoberto na prática eram aterrorizantes. Meu destino será trágico caso alguém descubra o que se passa na minha cabeça. Fujo das ciganas, das videntes e de qualquer pessoa que aparenta poder ler meus pensamentos.
Olhei para a janela daquele pequeno cômodo e a luz do sol me deu a informação de que era o momento de levantar. Teria que me arrumar e seguir para a escola. Suspirei a pôr os meus pés descalços no chão frio. Mesmo com o sol e a temperatura quente que meu corpo emanava, o frio insistia em se apossar do meu quarto.
Durante o café da manhã esperei encontra-lo, mas ganhei apenas frustração. Minha teoria de que ele deveria acordar tarde deve estar certa. Mal olhei nos olhos de meus pais. Tinha medo de que eles notassem alguma mudança em mim e perguntassem. Qual desculpa eu daria? E eu realmente penso que estou diferente, refletindo o turbilhão dentro de mim.
Segui cabisbaixo na longa caminhada até a escola que ficava no centro da cidade. Ao chegar fui direto para minha sala e me sentei na terceira cadeira da fileira encostada a parede do lado contrário a porta de entrada. Depositei minha mochila em cima da mesinha e dobrei meus braços por cima, depositando minha cabeça ali. O sono não dormido me atacou de imediato.
Eu ouvia os outros alunos chegando e conversando entusiasmados. Um deles falava dos planos que tinha para aquela noite no bar da cidade. A dúvida voltou a saltar na minha mente. Eu iria acompanhar Lorenzo ou não? Afastá-lo seria o melhor fazer ou só aumentaria minha angústia? Tendo como argumento essas horas que não o vejo e que está me enlouquecendo, parece que não vou aguentar fugir por muito tempo.
Mas logo ele partirá de Élvora e me deixará aqui, sofrendo como um condenado. E provavelmente ele nunca saberá dos meus sentimentos e, se vier a descobrir, não dará importância. Será que ele me denunciaria para todos? Contaria a meus pais?
A professora entrou na sala e imediatamente as conversas paralelas acabaram. Fingi como nunca que prestava atenção naquela aula. Mantinha meu olhar com uma falsa atenção quando a professora explicava e passava seu olhar por mim. Minha cabeça se movimentando de cima para baixo em concordância de algo que não faço a mínima ideia do que seja.
E aquela manhã foi de uma tortura tão impiedosa que irei poupar mais detalhes. O tempo fazia uma brincadeira de mal gosto comigo e por momentos pensei em sair dali e fingir estar doente.
Quando voltei para a pensão a mesa do almoço já estava posta e minha mãe me indicou para que eu lavasse a mão e me juntasse a eles. O casal não estava ali, mas fiz questão de me sentar no mesmo lugar que no jantar. De frente para ele, que esbanjava um sorriso de lado e uma cara divertida. Qual era a graça?
Seu olhar passou a maior parte do tempo em mim e aquilo me incomodava. Eu gostava, mas ao mesmo tempo me sentia envergonhado e queria que ele parasse. Meus pais estavam tão perto, eu não podia me expor daquela maneira. Era um jogo o que ele fazia? Queria me ver cair na frente de todos?
Acabei meu almoço e ajudei minha mãe com a louça. Assim que saí da cozinha para procurar meu pai e lhe perguntar qual era o meu afazer naquela tarde, Lorenzo me abordou e eu quase caí para trás com o susto. Diferente da primeira vez, esse não foi intencional e apenas fruto da minha loucura emocional diante dele.
— Uou. — disse então contendo um riso. — Só queria saber que horas nós vamos.
— Eu não sei se devo.
— Não adianta desistir agora. Você vai e pronto. Meia noite está bom?
— Lorenzo, você não entende. Eu tenho aula amanhã e se meus pais descobrirem, vou me dar muito mal.
— É para isso que você me tem. Sou o melhor em escapar sem que os pais percebam. E sobre a aula, tu gostas mesmo de estudar?
— Eu preciso estudar. Meu futuro depende disso.
— Se o meu futuro dependesse de estudo, não existiria mais vida para mim. Mas vamos lá, eu sou novo por aqui. Posso me perder ou acabar indo no lugar errado e ser roubado. Você não vai querer ser o responsável por eu conseguir um trauma, vai?
— Não insista. Você sabe muito bem como se virar, eu já percebi isso.
— Não vai ser tão divertido se você não for.
— Nos conhecemos ontem. Por que insiste tanto que eu vá?
— Sabe uma coisa que me deixa com muita raiva? Quando eu tento de tudo para conseguir algo e dá errado. Nós vamos nos divertir tanto. Qual é? Você deve querer morrer vivendo aqui sem a chance de se divertir nem um pouco.
— Você vai insistir tanto assim mesmo?
— Posso tentar por outra técnica, mas eu não aconselharia você me deixar fazer isso.
— Meia noite. Me encontra atrás do quarto da senhora Bette como ontem. E se eu não gostar, irei voltar na hora que eu quiser.
— Concordo. Te vejo depois então.
Assim que Lorenzo finalizou a conversa e saiu, meu pai apareceu. Gelei na hora imaginando o que ele teria ouvido. Seus olhos indagadores deveriam se perguntar por que eu parecia uma estátua naquele momento. Será que meu rosto havia empalidecido?
— O que ele queria?
— Saber onde ficava algumas coisas na cidade. — respondi tão rápido que me senti orgulhoso pela mentira que inventei em tão pouco tempo, mas receoso por ter saído num tom não tão seguro.
— Fica longe desse garoto. Ele não parece uma boa companhia. Conheço um problema de longe.
— Certo, pai. Está precisando de alguma coisa?
— Sim. Vim te procurar para me ajudar lá com a lenha. Estranhei que você não apareceu.
— Eu já estava indo.
— Então vamos.
Ajudei meu pai durante a tarde juntando lenha para acender uma fogueira a noite, onde esquentaríamos algumas carnes para comer no jantar. Eu só fiquei mais cansado juntando tudo o que aconteceu naquele dia que parecia que durava uma semana.
E chegou o jantar. Parecia que Lorenzo não conseguia fazer outra coisa a não ser sorrir. Ele ria até mesmo do que não tinha graça, como meu pai falando da dificuldade que teve em matar um cervo para servir no jantar. No fim, eu sabia que ele estava rindo de mim. Tinha mais uma vez conseguido aquilo que queria, o que deve ser algo comum para ele e estava feliz em desvirtuar o santo filho dos donos da pensão.
Eu o ignorei durante todo o jantar. Tinha medo de acabar soltando alguma besteira que denunciasse nossa aventura de mais tarde. Assim que acabou o jantar, minha mãe disse que eu não estava com a aparência boa e me permitiu que eu já fosse dormir. Faltava algumas horas para a meia noite, mas eu sei que se dormisse não iria acordar no horário. Tomei um banho e fui para o meu quarto, deitando na cama apenas de cueca e me cobrindo com os cobertores.
Minha atenção era inteiramente voltada para o relógio na parede ao lado da porta. Depois de um tempo ao perceber que demoraria mais tempo do que eu queria, acabei fazendo algumas atividades da escola. Tentei estudar o que foi dado nas aulas de hoje que não consegui prestar o mínimo de atenção. Se já era difícil entender com a explicação dos professores, imagina sem.
Quando voltei a olhar para o relógio faltava meia hora. Fui até o velho armário e escolhi as peças que usaria. Uma camisa branca e um casaco cinza por cima e uma calça escura. Calcei meus sapatos por fim e fiquei olhando novamente para o relógio. Não resisti e com o maior cuidado deixei o quarto em direção ao lugar marcado. Irei esperar por Lorenzo ali.
— Estou atrasado? — perguntou depois de alguns minutos em que eu estava ali.
— Não. Eu que vim mais cedo. — olhei para ele de cima a baixo sem pensar nas consequências para admirar o quanto ele estava deslumbrante.
— Gostou? Talvez eu deva trocar de roupa. — ele trajava um casaco vinho e uma calça com uma roupagem diferente das que eu costumava ver, deveria ser cara.
— Está bem assim.
— Se você diz, então concordo. Podemos ir?
— Vamos de uma vez. — falei fingindo pressa. Por que às vezes tudo o que ele falava me parecia um jogo de palavras que escondia coisas além?
Deixamos a pensão pelos fundos fazendo o mínimo de barulho possível. Eu me martirizei mentalmente quando pisei num galho, mas não foi alto o suficiente para chamar a atenção de ninguém. Indiquei a ele a direção do bar e começamos a caminhar lado a lado.
— Ansioso para sua primeira noite de diversão? Vai ser uma farra das boas.
— Não posso me embebedar. Meus pais perceberiam amanhã.
— Mas pelo menos um pouco você vai beber. Precisa experimentar das boas coisas da vida e eu irei lhe mostrar.
— Devo agradecer a gentileza? — perguntei em tom irônico e ele se virou para mim fingindo um semblante ofendido.
— Gosto mais de você quando está todo tímido e mal consegue me responder.
— Tenho sido tudo menos tímido ultimamente.
— Não diga essas coisas. Irei me sentir responsável por te corromper.
— Eu sei bem onde me meto. Se eu estou fazendo isso, saiba que não é pela sua insistência e sim porque eu quero.
— É bom saber.
— Estamos chegando. — apontei para o bar no qual um amontoado de pessoas se encontrava na frente dançando ao som de alguma música agitada que tocava.
— Melhor do que imaginei.
Entramos no bar e eu reconheci alguns garotos da escola. Gelei por um instante imaginando que minha vinda até aqui chegaria imediatamente ao ouvido dos meus pais. Mas sabia que era um medo infundado, pois ninguém dava a mínima importância para mim naquela cidade.
Lorenzo seguiu diretamente para o balcão onde pediu duas bebidas. Não seria exatamente meu primeiro contato com bebida alcóolica. Já tinha bebido escondido do meu pai às vezes quando ele deixava alguma garrafa aberta na geladeira. Pela minha curta experiência, não sei definir se gostei ou não. Era forte, mas não necessariamente gostoso. Talvez eu apenas não bebi a coisa certa ou não tomei os goles necessários para que a prática se tornasse divertida. Em outras palavras, nunca tive um porre.
— Essa é de leve. Para iniciantes. — Lorenzo me empurrou um copo com alguma bebida em cor prata.
— Nem me atreverei a perguntar o que é. — ele também já se servia de alguma bebida e então virei o primeiro gole.
O gosto amargo desceu por minha garganta e eu apenas continuei de gole em gole até terminar todo o líquido do copo. Era melhor que as bebidas que eu havia provado antes, mas ainda não entendia essa adoração por álcool que os jovens têm. Há outras coisas muito melhores.
— Nossa, já acabou? — ele me perguntou abrindo um sorriso e mostrando seu copo ainda pela metade. — Talvez eu deva pegar mais pesado.
— O problema é que você me subestima demais.
— Quer dançar? — meu coração se embestou a bater com força contra meu peito. Como assim ele estava me convidando para dançar. — Aquelas duas moças ali parecerem estar a fim de companhia. — e tão rápido como a alegria, a decepção me atingiu.
Virei para olhar o local que Lorenzo apontava com os olhos e me deparei com duas meninas que estavam num grupo com algumas outras pessoas. Pareciam amigos que tinham saído para se divertir. O meu olhar encontrou o de uma delas e a mesma sorriu para mim. Resolvi retribuir para não passar de mal-educado.
— E a noite acaba de começar. — falou aquele que era o único que me interessa ali, naquela madrugada, naquele bar.
Ele se levantou e se dirigiu até as meninas. Não sabia se deveria ir com ele ou ficar sentado naquele balcão, observando-o se entregar nos braços de uma linda mulher. Maldito sentimento que só me traz tristezas e o impossível. O que eu mais queria ao ter vindo aqui era a oportunidade. Oportunidade de fazer algo que com certeza eu me arrependeria mais tarde, porém há momentos tudo que meu coração estava cheio era de esperanças.
Finalmente viveria aquilo que já venho tendo há um tempo. Mesmo que ele não sentisse o mesmo, num momento, envolvido pela loucura, eu puxaria seu corpo maior que o meu e ficaríamos frente a frente. E então provaria pela primeira vez dos lábios de um homem. Nesse momento, uma tempestade se formaria nos céus e minha alma enfim estaria entregue ao abismo.
Inundado por esses pensamentos, mal percebi o momento que ele voltou a vir em minha direção na companhia daquelas meninas. A que eu troquei olhares tinha os cabelos morenos e ondulados caindo até abaixo do ombro. Olhos castanhos e um sorriso pouco amarelo no rosto. A outra, aquela que Lorenzo passava os ombros por cima, ela era loira e tinha olhos mais claros, verdes, eu acho. A boca carnuda aberta num sorriso que me fez odiá-la por um segundo.
— Enrique, meu amigo, essas são Alice e Mafalda. Meninas, este é o Enrique. — sorri fingindo simpatia.
— Muito bonito seu amigo. — comentou Alice, a loira.
— Obrigado. As duas são lindas.
— Eu estava comentando que viemos aqui para fugir do tédio e que queríamos dançar. Meninas, vocês dão a honra de nos acompanhar numa dança?
— Seria um prazer. — disse Mafalda entrelaçando nossas mãos, ato que me pegou de surpresa. Ela me puxou e fomos os quatro até a frente do bar, onde a música continuava a tocar, ainda era uma animada.
Usei meus passos limitados de dança para tentar jogar fora do meu corpo todas as ideias malucas que me fizeram vir até aqui. Mal prestava atenção em Mafalda que dançava em minha frente. Por que eu não conseguia me sentir atraído por uma garota tão bonita como ela? Seria tudo tão mais fácil.
Em certo momento, as melodias animadas deram lugar às melancólicas. Juntei meu corpo ao da garota e começamos nossa dança conjunta em passos lentos.
— Você é muito bonito. — falou próximo ao meu ouvido.
— Você realmente acha?
— Sim. Você não acha?
— Não sei.
— Pois agora sabe. — seus braços estavam envolvidos ao redor do meu pescoço e eu podia sentir o seu cheiro doce nada parecido com o daquele outro. — Você não está gostando muito dessa dança, né? Sou eu o problema?
— Você é o menor dos problemas.
— Eu sei de algo que pode deixar isso mais interessante.
— O que? — perguntei na inocência e recebi seus macios lábios junto aos meus.
O pensamento de fugir dominava minha cabeça, porém o ignorei. Não fazia mal eu tentar, não é? Continuei a beijá-la e esse foi sem dúvidas o momento íntimo mais longo que já tive com alguém antes. Nossas línguas dançavam desajeitadamente. Acho que ela deve ter notado minha falta de experiência.
Algum tempo se passou e volta e meia estávamos nos beijando ou dançando alguma música agitada. Indo contrária à minha tentativa de fugir do pecado, era nele que eu pensava ao amassar os lábios da garota. Só o pensamento de ser ele aquele que me beijava ali me deu a certeza de que eu não que curaria tão cedo.
Estávamos dançando quando senti dedos em minhas costas. Virei-me e dei de cara com Lorenzo e a loira. Na verdade, há algum tempo que eu não o via. Desde que eu comecei a me beijar com Mafalda.
— Temos que ir Mafalda. — falou Alice com um sorriso no rosto.
— Mas já? — ela pareceu desapontada.
— Sim ou perderemos nossa carona.
— Okay. Foi um prazer te conhecer Enrique. — ela me abraçou e eu retribui.
— Digo o mesmo. Espero poder revê-la. — dei um beijo em sua bochecha e Alice veio me abraçar.
As duas então saíram cochichando uma com a outra e eu enfim olhei para Lorenzo. Ele sorria de uma maneira que nunca tinha visto antes.
— Vamos também? — perguntou ele.
— Por mim, sim.
Começamos a caminhar em silêncio, o que era estranho, pois Lorenzo amava conversar seja a mínima besteira que fosse. No meio do caminho ele parou. Do nada, sem avisos. Parei também e esperei que ele falasse algo para explicar sua ação.
— Você beijou aquela garota? — perguntou como quem pergunta se você tem fome na hora do almoço.
— Sim.
— Posso provar?
— Agora estamos um pouco longe do bar e ela já deve ter ido tamb... — minhas palavras foram bruscamente interrompidas por uma boca.
Não qualquer boca. Aquela boca. A que eu desejei a noite toda. A que me fez vir a esse bar no meio da madrugada escondido dos meus pais. Aquela que me fez prender a respiração e pensar que morreria por um momento. E se eu realmente morresse, tudo bem, eu já tinha conseguido alguma coisa.
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