Doce Morada
4 Peles
Notas iniciais
A mente humana parece entrar em pane em alguns momentos. Qual outra explicação poderia ser dada a minha reação diante daquilo que eu tanto ansiava? O meu rápido afastar daquele toque serviu para confundir minha cabeça como nunca e um arrependimento latente chocar em meu peito.
Meu desejo era voltar para a situação anterior e colar seus lábios com o meu como se nada tivesse acontecido. Mas eu não tinha a coragem para tal ato agora, não diante daquele olhar indecifrável que Lorenzo me lançava.
— Me desculpe se te ofendi.
— Não vamos falar sobre isso. — e eu não conseguiria nem se quisesse.
Voltei a caminhar querendo que um raio me atingisse, ou que eu me afogasse e a única salvação fosse uma respiração boca a boca para ter novamente seus lábios junto aos meus. Por quê estamos tão longe da água?
Eu não esperava que Lorenzo tomasse tamanha atitude, mesmo que sonhasse com isso. Ele estava fazendo uma brincadeira comigo? Se for realmente uma brincadeira, o quanto deixei transparecer meus sentimentos para ele? Ou talvez ele simplesmente teve vontade de experimentar como seria um beijo de um garoto. Pode até ser que eu lembre uma mulher e isso o deixou curioso. Eu pareço com uma mulher?
Por mais curioso que eu estivesse, aquele não era o momento pra ter essa conversa. Eu ainda não estava preparado para ouvir a verdade. Tinha o medo de meu coração se rasgar ao meio, por mais dramático que possa parecer. Dá um tempo, eu leio Shakespeare. Tenho uma base para ir até o fundo do drama quando quero.
Chegamos até a pensão e o último som que ouvi antes de seus passos foi um "tchau" acuado e quase inaudível. Ele caminhou até o seu quarto e eu segui para o meu que ficava na direção contrária, à esquerda da recepção, onde só tinham o quarto dos meus pais e o meu. Tomei cuidado para a porta não me denunciar e adentrei o cômodo, tirando apenas meus sapatos antes de se deitar na cama e focar minha visão no teto.
Nem sei em qual momento dormi, porém foi mais rápido do que imaginei. Eu realmente estava esgotado fisicamente. Emocionalmente não me encontrava diferente. Mais uma vez não o encontrei no café da manhã. Minha cabeça doía, mas não deve ter em nada a ver com a bebida que ingeri ontem e sim com o cansaço que venho carregando. As horas de sono que tive não foram suficientes para me dar o relaxamento de que necessito.
— Estou preocupada com você Enrique. Foi dormir tão cedo ontem e ainda aparenta estar doente. — minha mãe disse me entregando um pão.
— Devo estar prestes a ficar gripado. O tempo anda muito frio.
— Você nunca foi de ter gripe. Tem certeza de que não é outra coisa? Se você realmente não estiver se sentindo bem, posso convencer seu pai a te levar no médico.
— Não é preciso, mamãe. Eu vou melhorar logo.
— Melhor assim. O casal deve partir logo e o garoto rico só pagou três dias, então ele deve ir hoje ou amanhã. — aquela frase foi como um soco no estômago e meus olhos encheram-se de lágrimas no mesmo instante. — Podemos ficar sem hóspedes por algum tempo e não podemos gastar dinheiro.
— Será que nenhum deles vai ficar por mais tempo? — perguntei tentando mascarar minha angústia.
— Aí já não sei. Tomara que sim.
— Tomara. — falei e comecei a comer.
Aquela manhã na escola foi melhor que a anterior. Consegui prestar atenção melhor nas aulas e dois colegas vieram comentar que me viram no bar. Apenas sorri para eles e continuei a escrever o que tinha no quadro. Em certo momento lembrei de Mafalda. Onde será que ela morava ou estudava? Suas palavras as vezes se repetiam em minha cabeça e eu queria acreditar nelas. Queria acreditar que eu era bonito.
Quando voltei pra casa não encontrei Lorenzo sentado à mesa para o almoço. Minha vontade era de perguntar a minha mãe se ela sabia de seu paradeiro, mas não queria chamar a atenção de meu pai, principalmente depois dele ter me alertado a se afastar dele.
Não tinha fome, então terminei logo o almoço. Minha mãe continuava a comentar que eu estava estranho e que talvez meu pai devesse me levar ao médico. Eu neguei e pedi para ser liberado dos afazeres naquela tarde pra descansar. Meu pai aceitou a contragosto por insistência de Madalena e até mesmo da senhora Bette.
Fui para o meu quarto e me joguei na cama. Como eu queria dormir até que tudo isso passasse. Será que um dia esses sentimentos irão me deixar? Assim como ele vai me deixar em breve.
Peguei no sono e só acordei quando um barulho insistente se apossou dos meus ouvidos. Eram batidas na porta e meu nome sendo sussurrado por uma voz que logo reconheci. Me apressei para abrir a porta e deixá-lo entrar. Fechei a porta, mas como não tinha tranca fiquei apenas encostado a ela no caso de alguém querer entrar.
— Eu acordei você, não foi? — perguntou ele me olhando.
— Não tem problema.
— Eu vim aqui pra...
— Se despedir? — o interrompi bruscamente com uma expressão certamente assustada.
— Como? — Lorenzo pareceu pensar por um tempo até se tocar do que eu falava. — Ainda não estou de partida. Na verdade, isso depende muito da conversa que vamos ter agora. Se você pedir que eu vá, arrumo minhas coisas agora mesmo.
— Eu quero falar sobre o que aconteceu.
— Eu também. Por isso vim até aqui. Quando ouvi que estava descansando no seu quarto, não aguentei.
— O que significou aquilo? Foi uma brincadeira?
— Posso ser totalmente sincero? — acenei positivamente. — Eu queria beijar você.
— Você já fez isso antes? Beijar meninos, digo.
— Sim, já aconteceu. Nas várias festas que eu ia costumava às vezes beijar uns amigos, as meninas ficavam loucas. Eu nunca senti muita diferença entre beijar um menino e uma menina. Mas com você foi diferente. Eu precisava te beijar.
— Isso é errado.
— Não me importo com o que dizem. O importante pra mim é aquilo que sinto. Eu não quero te forçar a nada Enrique, mas desde aquela nossa primeira conversa, eu não paro de pensar em você. E também, pensei que talvez você sentisse o mesmo. Mas aí eu percebi que não quando tomei aquela atitude de forçar um beijo. Peço que me desculpe, de verdade.
— Se você soubesse o quanto eu queria que fizesse aquilo. Eu não sei por que tive aquela reação. Eu sei o que você sente Lorenzo, porque eu também sinto. E se me permite dizer, acredito que sinto ainda mais forte que tu.
— Você também já beijou um garoto antes?
— Não. Apesar de sempre ter me sentindo atraído por outros garotos, nunca tive a coragem e também nunca achei que algum deles fosse querer me beijar. Me arriscaria em vão e acabaria denunciado. Não consigo imaginar o que fazem com pessoas assim.
— Acho uma besteira isso. Por que se incomodaria com quem a pessoa se sente à vontade de estar, de compartilhar, de amar. Por isso nunca fui muito fã de religião.
— Também nunca fui muito ligado a igreja. Minha mãe me leva quando vai de vez em quando, geralmente aos domingos. Mas toda vez que eu ouço sobre isso, sobre homens com homens e mulheres com mulheres, eu fico aterrorizado com o que dizem.
— Fico feliz de estarmos conversando sobre isso. Eu achei que nunca mais ia olhar na minha cara ou me denunciaria pro seus pais.
— Sinto que nem se quisesse conseguiria ficar com raiva de você. Eu gosto de você, gosto muito.
— Eu também, Enrique. Sabe o devaneio que tive? Já pensou nós dois viajando pelo mundo, indo em bares, conhecendo lugares lindo, juntos.
— Não me faça desejar algo que nunca vou ter. É um lindo sonho, mas não passa disso. Nunca poderia abandonar meus pais. E se vivêssemos juntos, nos iriam descobrir e não consigo imaginar o que fariam conosco.
— É, pelo pouco que te conheço, sei que não deixaria seus pais. O que vamos fazer quanto a isso que sentimos, então? Não posso mais fingir que não existe nada aqui dentro. — Lorenzo apontou para o coração e se aproximou de mim. Minha respiração se desembestou naquele momento. — Você quer que eu fique?
— É o que eu mais quero. Mas isso não pode acontecer. Iam desconfiar, meus pais descobririam, eu não consigo mentir pra eles muito bem. Você precisa ir.
— Se é o que você quer, vou hoje mesmo.
— NÃO! — falei rapidamente. — Me dê tempo. Eu preciso me preparar pra isso. Quando você partir, nada voltará a ser igual.
— Posso te deixar várias lembranças minhas pra você recordar sempre que quiser.
— Eu quero viver isso, sei que essa é provavelmente minha única oportunidade. Por mais amedrontado que eu esteja, meu desejo por isso é maior. Se você quiser, podemos fazer isso juntos e depois você vai. Não me prive disso, por favor!
— Por mim, está ótimo! Tirando a parte de que terei que te deixar, mas o importante é o que teremos. Podem falar o que quiser, mas é o mais puro que já senti em toda minha vida.
— Vamos impor um prazo pra sua ida. Assim nós podemos controlar melhor isso.
— Posso ficar por mais uma semana. O que acha?
— Arriscado. Meus pais já acham estranho alguém como você, rico, numa pensão como essa. Mas tudo bem, uma semana seria incrível.
— Vamos tomar cuidado. Eles não vão descobrir. Ninguém precisa saber sobre nós.
— Ninguém.
Lorenzo voltou a se aproximar até seu corpo ficar a poucos centímetros parados do meu. Senti minha cabeça girar rapidamente e temi que meu corpo não aguentasse aquela emoção. A mão direita dele veio até meu rosto. Grande e quente. Tocando minhas bochechas e me fitando com aqueles olhos negros tão intensos. Sua outra mão foi até minha cintura e eu agradeci mentalmente porque não sabia se apenas minhas pernas dariam conta de me manter de pé de tão frágil que me sentia.
Suas carícias passearam por todo o meu rosto e eu fechei os olhos por um momento. O dedão passou pela minha boca e eu o engoli. Meu corpo emanava calor e pelo que senti, o dele não estava diferente. Ele colocou a outra mão no meu rosto e enfim separou aquela distância. Os lábios maiores preenchendo os meus. E foi então que eu conheci o verdadeiro beijo. Apesar de não ser o primeiro, foi ali que percebi porque as pessoas gostavam tanto desse ato.
A língua dele por dentro da minha boca. Eu estava perdido, não sabia bem como seguir. Tinha vergonha de estar sendo horrível naquilo, mas não queria perder aquele contato. Ele me guiaria, ficaria tudo bem. Literalmente não pensei no resto do mundo, nos julgamentos, no certo e no errado. Aquele momento era nosso. Ninguém o roubaria da gente ali.
Só separamos nossa boca quando foi realmente necessário. Culpava a mim por ter perdido o ar tão rápido. Na verdade, não sei se foi rápido, mas pareceu que nos beijamos por dez segundos. Seus lábios agora exploravam outra parte da minha pele, o meu pescoço. Como era quente e boa aquela sensação. E pensar que talvez eu nunca tivesse a chance de vivê-la.
Uma questão sobre a qual sempre me perguntei era qual o motivo de eu estar vivendo. Para que eu vim para a terra? Uma parte dessa pergunta foi respondida agora.
— Eu posso fazer em você também? — perguntei querendo sentir sua pele igual ele fazia com a minha.
— O quê? Beijar meu pescoço. — ele se afastou para me olhar e eu assenti. — É claro que pode.
Passei meus lábios pela pele de seu pescoço. Deixei beijos, passava minha língua, sugava a pele. Se aquilo era nojento, eu não sabia, porém eu estava adorando sentir a textura, o gosto dele. Demorei um tempo abusando daquele pescoço. Pelos sons que ele fazia, imagino que Lorenzo deva ter gostado.
— Vem aqui. Quero testar uma coisa com você. — falou ele se afastando e me puxando para a cama.
Olhei para a porta com medo de alguém entrar e nos flagrar numa cena comprometedora. Era mais seguro nos encontrarmos pela noite. Porém eu esteja desejoso de tudo o que ele pudesse me oferecer e decidi me arriscar.
Lorenzo me fez deitar na cama e suas mãos foram até minha bermuda abaixando a mesma. Meus olhos devem ter saltado pela surpresa. Nada perto de quando ele deu um beijo por cima da cueca que eu usava. O meu pênis estava um pouco duro porque os momentos anteriores tiveram efeito em mim.
— Você vai fazer isso mesmo? — perguntei ainda incrédulo.
— Como sabe o que estou pensando em fazer? Achei que fosse ingênuo.
— Não sou surdo. Eu já ouvi garotos conversando sobre isso.
— Pois então se prepare. Se me permite, eu quero tentar.
— Tudo bem. — falei um pouco envergonhado.
Minha cueca foi descida até embaixo do meu joelho. Ele segurou meu pênis com a mão e fez alguns movimentos para cima e para baixo. Minhas pernas se contorceram com a onda de prazer que aquilo tinha me causado. Eu mesmo já tinha feito aquilo antes, poucas vezes e sempre com muita culpa porque pensava que era errado e pior ainda, o fazia pensando em algum homem. Mas nem se comparava aquela outra mão, envolvendo meu membro e me fazendo delirar.
— Eu vou agora. — disse antes de aproximar o rosto da minha virilha.
Seus lábios se depositaram na cabeça do meu pênis e eu tive vontade de gritar. Aquilo me enlouquecia de tão bom. Eu estava entorpecido. Lorenzo ficou por um tempo ali, dando beijos, circulando com a língua aquela parte redonda. Até que ele desceu engolindo o corpo e nessa hora eu soltei um grito que com certeza não deveria. Havia inclinado meu corpo também. O que era aquilo.
— Será que alguém ouviu? — perguntou se afastando para me olhar.
— Não sei. Acho melhor você ir. Minha porta não tem tranca, meus pais não permitem. Se eles ouviram, vão vir até aqui e nos descobrir.
— Tive uma ideia. — e então ele saiu da cama e empurrou uma cadeira até a porta. Era de madeira e um pouco pesada. — Se eles vierem mesmo, essa cadeira vai impedir que entrem de imediato e aí nos dá tempo de agir.
— É muito perigoso.
— Eu não queria parar agora. Estava gostando mais do que podia imaginar. Mas se você prefere assim.
— Não, não. Continue, eu também não vou aguentar se você não continuar o que estava fazendo.
— Você não tem ideia do quanto isso é bom.
— Eu soltei um grito. Isso deve provar que também é muito bom pra mim.
Lorenzo voltou para a cama e me deu outro beijo não muito demorado. Ele voltou para a posição anterior e engoliu de vez todo o membro. Foi quase impossível controlar outro grito. Tive que me segurar tanto que lágrimas tomaram conta dos meus olhos. Aquele homem subia e descia, lambuzando meu membro e me levando à beira do abismo. Porém, em certo momento ele acabou usando os dentes e uma mordida me fez tornou aquela situação um pouco dolorida.
— Ai!
— O que foi? — perguntou ele rapidamente se afastando com uma preocupação nos olhos.
— Isso dói.
— Me desculpe. Eu deveria ter imaginado, afinal também tenho um.
— Tudo bem. Apenas não morda.
— Eu sou péssimo nisso, não é?
— Não tenho como comparar, mas a sensação é prazerosa como nunca antes senti.
Então Lorenzo voltou ao ato. Eu percebi que ele fazia com mais calma agora, com medo de me machucar. Apesar do movimento ter diminuído, continuava me levando à loucura e não demorou pra que eu, sem aviso de tão entorpecido que estava, deixasse meu líquido escapar.
— Uou. Eu nunca tinha provado isso.
— É bom? — perguntei com vergonha. Não deveria ter explodido na boca dele.
— É diferente. Quer provar? — assenti e ele veio até mim.
Compartilhamos aquele líquido branco e espesso num beijo que durou até nossas respirações conseguirem. O que foi um pouco rápido porque estávamos ofegantes depois de tudo.
— Gostou? — questionou com um sorriso após nos separarmos.
— Prefiro o gosto da sua boca.
— Eu tô muito feliz.
— Eu também.
— Acho que preciso ir agora. Seus pais devem vir a qualquer momento ver como você está. Nos vemos a noite?
— Claro. Pode vir direto pro meu quarto, mas tenha certeza de que ninguém te viu e não faça barulho.
— Falou o cara que deu um grito quando eu engoli seu pênis.
— Ei! Eu não pude me controlar. Agora vai. Toma cuidado.
— Me beija antes.
Atendi ao seu pedido e pela primeira vez iniciei o beijo. Me permiti mexer minha língua dentro de sua boca. Ainda tinha um certo gosto do meu líquido. Terminamos o beijo com o selinho e eu o vi sorri para mim antes de sair por aquela porta. O sorriso não saía do meu rosto e eu acabei pegando no sono. Estava cansado de um jeito tão bom. Nada poderia estar melhor ali, a não ser seu corpo me envolvendo. Mas eu me contentava com a lembrança do que fizemos e seu cheiro ainda presente no quarto.
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