Doce Morada
1 Prólogo
Notas iniciais
Hóspede novo. Carregando uma única e grande mala feita de couro. Os olhos cobertos por um óculos escuro ganharam luz assim que ele tirou ao ganhar a atenção de minha mãe. Tinha uma altura considerável, passava de 1,85 sem dúvidas. Seus olhos negros e concentrados em dar as informações que minha mãe pedia para fazer sua hospedagem. Não parecia ter vivido mais de vinte e cinco anos.
Eu o olhava atentamente, deixando de lado o livro em minhas mãos. Sentado naquela poltrona de estofo velho e rasgado, sua imagem estava de perfil para mim. Seus cabelos, os quais deviam receber uma atenção especial dele, estavam bagunçados. As roupas eram chiques como poucas que já tinha visto por essa parte da cidade. O que faria ele nessa pensão num local abandonado dessa cidade? Pelas vestes, trejeitos e linguajar, esse homem parecia viver muito bem e ter condições de se instalar em um lugar melhor.
A sua voz era grossa como eu gostaria que a minha fosse. Ele finalmente revelou seu nome, Lorenzo Valença. Estava finalizando o processo e ouvi ele dizer que não sabia quanto tempo ficaria, mas deixava adiantado três dias.
Meu pai se aproximou e eu voltei minha atenção ao livro fingidamente. Não saberia explicar porque secava com tanto interesse o rapaz nobre. Esse que nem parece ter percebido a minha presença não muito longe da improvisada recepção. Minha mãe entregou-lhe uma chave que eu suspeitava ser do aposento mais caro.
Espreitei o momento em que vinha em minha direção e ouvi meu pai dizer que o mostraria seu quarto. Ao passar por mim, dirigi meus curiosos olhos a ele e me vendo ali sentado o encarando, pude ver um sorriso se formar em seus lábios como maneira de demonstrar simpatia.
Voltei imediatamente os meus olhos para o livro para disfarçar a vergonha que esse momento me causou. Quem eu achava que era para encarar assim, despudoradamente, um hóspede? Se meus pais notassem meu deslize acabaria levando uma lição.
Pela milésima vez olhei para aquele livro que já nem me lembrava do que se tratava. Era um romance? Um livro escolar? A bíblia? Minha vontade era que chegasse o momento do jantar em que todos os hóspedes vão a mesa para de fartar da comida não tão boa da minha mãe.
Por que eu desejava isso? Não sei, mas queria saber mais desse Lorenzo. Instigou minha curiosidade sua presença aqui. Não desmerecendo a amável pensão, porém esse não parece ser um lugar ao qual ele parecia estar acostumado.
Chega de pensar nisso. Logo meu pai me chamaria para fazer algum serviço. A tarde já dava lugar ao escurecer da noite que prometia ser estrelada. Em poucas horas seria servido o jantar e talvez assim eu matasse minha curiosidade por esse distinto senhor.
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