Doce Morada

2 Jantar e Conversa


Fazia frio naquela noite de terça. O céu nublado escondia as estrelas que eu desejava admirar enquanto cantarolava na mente alguma canção inglesa. Estava varrendo um dos quartos quando minha mãe me gritou do andar de baixo avisando que o jantar seria servido. Era esse momento que esperei ansiosamente durante as últimas horas. Veria novamente o novo hóspede e tiraria mais conclusões sobre aquele que me instigava.

Trouxe a vassoura e pá que continha o pó recolhido do cômodo até o lado de fora, lugar em que joguei o lixo que subiu as minhas narinas e me causou um espirro. Deixei ali aqueles objetos e me dirigi até a pia que era usada para lavar roupas, lavando minha mão e enxugando num pano pouco molhado que estava estendido no varal improvisado.

Entrei na pensão e me dirigi a sala de jantar vinculada a cozinha que continha uma mesa grande com oito cadeiras e sentei ao lado da senhora Bette, pois a cadeira que costumava sentar, ao lado direito do meu pai, já era ocupada pelo esposo da bela mulher loira que estavam hospedados há dois dias. Hoje sete delas seriam ocupadas, o que era raro. Havia esse casal que se hospedou aqui antes de ontem. Pela aparência, tinham por volta de 35 anos e ficariam por uma semana. Se não me engano estavam comemorando anos de casamento e por isso passavam o dia fora, visitando lugares interessantes pela cidade afora. Eles sentavam um ao lado do outro com uma cadeira vaga ao lado da mulher.

A senhora Bette já estava sentada no lugar de sempre e hoje ficaria entre minha mãe — que se sentava ao lado esquerdo do marido — e eu. Ela nem poderia ser mais considerada uma hóspede e sim inquilina, já que estava na pensão há um ano. Era sozinha e segundo ela, a pensão era uma boa habitação. Sua filha mandava o dinheiro do aluguel todo mês e me parecia que as duas não tinham uma relação muito próxima.

Meu pai estava numa das pontas da mesa e esperava ser servido por sua mulher. Mamãe chegou com as duas bandeijas de comida e olhou ao redor.

— Onde está o novo hóspede? Eu o avisei que serviria o jantar agora. Enrique, vá chamá-lo em seu quarto. — estava a me levantar da cadeira.

— Não será preciso. — entrou Lorenzo carregando um sorriso no rosto sem mostrar os dentes. Sentou-se na cadeira de frente a minha e esse simples fato fez meu coração bater mais forte.

Ainda não sei se foi coisa da minha cabeça, mas trocamos um olhar por um milésimo de segundo. A comida começou a ser servida.

— Como hoje a pensão está mais cheia que o normal, proponho abrir um vinho. O que acham cavalheiros? — perguntou meu pai que recebeu acenos afirmativos como resposta. — Pega lá mulher, a garrafa que venho guardando há algum tempo.

Meu pai não tinha costume de servir vinho aos hóspedes, mas realmente a pensão quase nunca recebia mais de dois hóspedes ao mesmo tempo. Sorri imaginando que talvez o senhor Duarte liberasse que eu tomasse um gole.

Minha mãe encheu os copos de todos, menos o dela, o de Bette e pra minha infelicidade o meu. O rapaz a minha frente tinha uma olhar curioso na face juntamente com um sorriso fino. Ele pigarreou chamando a atenção de todos ao redor que já se ocupavam em comer.

— O garoto não vai nos acompanhar numa taça? — eu podia jurar que o seu tom de voz tinha se tornado minha melodia favorita naquele segundo. Era o tom de um homem jovem, porém carregava muitas experiências das quais eu não chegaria a experimentar a metade. — Fique a vontade para se servir.

— Ele não pode. Tem escola amanhã. Está no último ano e não pode desandar agora. — meu pai falou num tom que tentava disfarçar a irritação por aquela permissão concedida por aquele estranho para que eu me servisse com o vinho. O velho Duarte não gostava que ninguém além dele mandasse naquele aposento.

— Perdão, o senhor tem total razão. Estude que você pode ir longe. Parece um garoto inteligente. — falou olhando diretamente para mim. Minha vontade de cuspir o animal que mastigação. Manti o seu olhar resistindo a tentação de desviar, queria ver até quando ele me olharia.

Lorenzo desviou o olhar e voltou a sua comida e eu respirei aliviado. Não era sempre que eu me sentia assim intimidado, apesar da minha timidez. A maioria das vezes que eu ficava assim era perto dos outros meninos da escola, mas eu evitava pensar nisso. Evitava descobrir qual era a razão pelo meu nervosismo quando um homem estava perto.

"Eu sou um bom menino!" Esse era o meu mantra pra afastar esses pensamentos. Terminei minha comida com desgosto. Esperei toda a tarde por esse jantar pra poder saber mais do jovem rico e nem se quer interagimos depois do lance do vinho. Meu pai conversava com Roberto, o esposo da loira, sobre como Évora não era uma cidade muito visitada por turistas nessa época.

Isso só fez surgir novas perguntas em minha cabeça. "Por que ele está aqui nessa época do ano?" "De que dinheiro vive?" "Para onde vai depois que se for?".

Depois que todos terminaram do jantar me levantei e fui ajudar mamãe a tirar a mesa e lavar a louça. Ela comentou algo sobre como o novo hóspede parecia um desses ricos que acham que tem o mundo aos seus pés. Não vou mentir que me desagradou um pouco esse pensamento dela. Ele não tinha sido rude em momento algum, pelo contrário, perguntou se eu não iria acompanhá-los no vinho. Uma parte de mim queria desesperadamente que ela gostasse dele, formando outro nó em minha cabeça.

Assim que terminei de ajudar mamãe, fui para o meu quarto pôr um fim naquele dia que parecia ter durado semanas. Tudo depois que ele chegou. Parte de mim queria parar de pensar em Lorenzo porque era estranhamente maluco o que eu estava fazendo, obcecado por alguém que conheci hoje, um homem. Mas a outra parte me vencia. A parte que imaginava a reposta para todas as perguntas que eu tinha. Aquela que tentava me lembrar os detalhes de seu rosto, mesmo tendo olhado diretamente para ele poucas vezes.

Fiquei nessa guerra interior por um tempo, deviam ter se passado vários minutos. Não dormiria tão cedo quanto gostaria, disso eu sabia. Sempre que algo me intrigava eu perdia o sono e acabava no mesmo lugar toda vez. Atrás do quarto da senhora Bette, do lado de fora da pensão a observar as estrelas. Digamos que ali era uma espécie de quintal no qual eu passava minutos olhando para o céu e esperando que uma resposta surgisse magicamente e sanasse qualquer angústia que estivesse sentindo.

Segui para lá com a típica roupa que usava para dormir cobrindo todo meu corpo pelo frio que fazia. Sentei-me num pedaço de madeira e me pus a olhar para o céu, admirando as estrelas que pairavam por ali. Eu procurava repetir para mim mesmo a todo instante: Não pense nele! Não pense nele! Não pense nele! Mas só o fato de eu estar me obrigado a não pensar nele me fazia automaticamente descumprir essa ordem.

A única pausa na minha própria tempestade se deu no momento em que levei um baita susto diante da presença daquela figura. Ele fez de propósito, sabia que eu estava distraído e provocou um barulho me fazendo pular de susto ao perceber que tinha mais alguém ali. Sua risada me irritou e minha bunda dóia porque acabei me levantando rapidamente e caindo logo após.

— Perdão. – disse oferecendo a mão direita de apoio para que eu me levantasse. Recusei e fiz o processo sem a sua ajuda. – Você não vai me fazer se sentir mal por isso, vai? – Notei pela primeira vez como ele estava vestido. Parecia que ia sair. Mas pra onde?

— Não se preocupe.

— O que faz aqui?

— Nada.

— Eu tava pensando em sair pelos fundos, mas agora tô me perguntando porque não sair pela frente. Tava tão acostumado em sair escondido do meu pai que não queria ser pego no flagra. Mas isso não importa porque eu tô pagando por isso e posso sair a hora que quiser. – olhei para ele me perguntando se ele sempre falava tanto assim. – Me diz aí, pra qual lugar pessoas como nós vão a essa hora?

— Pessoas como nós?

— Jovens quero dizer.

— Ah, eu não sei muito bem. Mas dizem que tem um bar na cidade que vende bebida barata. Eles devem frequentar. Os jovens.

— Sim, sim. E você, não é de sair muito? – neguei com a cabeça. – Deixa eu adivinhar. O seu pai te proíbe?

— Não é bem uma proibição, mas eu tenho aula, então...

— Você não pode tomar vinho, não pode sair pros lugares. Uau, quantos anos tem mesmo?

— Dezenove.

— Tá brincando né? – ele me olhou com uma sobrancelha erguida. Estávamos encostados na parede (espero que a senhora Bette tenha um sono profundo) e de frente um para o outro. – É sério?

— Sim, por que?

— Te daria no máximo dezessete. Nessa idade você já não deveria ter acabado a escola?

— Eu acabei entrando um pouco mais tarde, por isso sou atrasado. E você? Suponho que já tenha terminado.

— Tenho vinte e três. Era pra ter terminado faz tempo, mas acabei largando no último ano. Aquele lugar não era pra mim.

— Entendi. E você não ia sair?

— Gostei de conversar contigo. Posso sair amanhã. E você vai junto.

— Eu não posso.

— Você nunca desobedeceu seus pais? Que garoto certinho. Vamos lá, tu vai se divertir muito. Prometo que vou fazer de tudo pra que não se arrependa. Acredita que ainda não perguntei teu nome.

— Enrique.

— Bom Enrique, não sei se estava procurando por um amigo, mas acaba de ganhar um enquanto eu estiver aqui. Lorenzo. – ele estendeu a mão e eu apertei. Não iria comentar que já sabia o seu nome. Queria que parecesse que eu era indiferente a ele.

— Eu não tenho certeza de que vai gostar da minha companhia. Somos muito diferentes pelo que percebi.

— Notei isso também, mas não me importo. Eu posso te ensinar algumas coisas. Você já beijou uma mulher? – devo ter arregalado os olhos o máximo que podia com sua indiscrição. Que tipo de pergunta era aquela? Ainda mais numa primeira conversa entre “amigos”.

— Por que isso te interessa?

— Pra saber o quão inocente você é.

— Eu beijei alguém sim.

— Mulher?

— Homem que não seria. – ele deu uma risada e eu queria mandá-lo a merda.

— Mulher mulher ou uma menina?

— Foi uma menina do meu colégio. – eu não estava mentindo, mas não sabia se ele estava acreditando.

— Tudo bem. Eu poderia ir além nesse assunto, mas já vi que você não gostou. O que você gosta de fazer?

— Como assim?

— O que você gosta de fazer? Ler, escrever, ouvir música, pintar quadros. Essas coisas.

— Eu gosto de ouvir música.

— Só isso?

— É o que eu mais gosto. Você me fez tantas perguntas, agora é a minha vez de perguntar. Por que se hospedou aqui? Pelo que deu pra perceber, você está acostumado a algo diferente disso aqui.

— Você quer dizer que eu sou rico? – acenei positivamente. – Isso é uma meia verdade. Meu pai morreu quando eu tinha vinte anos e me deixou uma gorda herança. Digamos que eu gastei quase tudo e vim perceber isso tarde demais. Agora estou tentando conter os gastos. Esperava viver com esse dinheiro até os trinta pelo menos.

— Sinto muito pelo seu pai.

— Tudo bem. Ele era um velho mão de vaca. Acreditava até que ele seria capaz de deixar o dinheiro pra qualquer miserável pra não ter que deixar pra mim. Era advogado, rico. Me cobrava que eu seguisse seus passos, mas eu não queria me tornar um amargurado igual.

— Parece que vocês não se davam muito bem.

— Isso não é comum entre pai e filho? Você não parece muito ligado ao seu.

— Eu nunca falaria do meu pai dessa maneira. Ainda mais estando morto.

— Okay, okay. Tem alguém nesse quarto? – ele apontou pra parede em que estávamos encostados. – Se alguém tiver ouvindo essa conversa vai ser bem constrangedor.

— É o quarto da senhora Bette. Ela deve ter um sono pesado. Minha mãe disse que ela toma alguns comprimidos pra dormir.

— Aquela mulher me dá medo. Ela tem um olhar de quem aparece no seu quarto de noite com uma faca pra te matar.

— A coitada mora aqui. Parece que a filha a rejeita. Eu tenho pena dela.

— E podemos culpar a filha? Essa mulher é sinistra.

— Você mal a conhece.

— Tudo bem, não se chateie comigo Enrique. Você vai me acompanhar até a cidade amanhã, não é?

— Vou pensar.

— Qual é? Eu prometo que não farei nada que te envergonhe. Vou ser um bom garoto assim como você.

Se ele soubesse que meus pensamentos naquele momento não eram nada dignos de um bom garoto. Oh, Lorenzo. Por que aparecer assim do nada? Por que parecer tão interessado em mim? Logo você irá embora e me deixará aqui, sozinho e culpado pelos meus sentimentos. Esses malditos sentimentos que me impedem de ser um bom garoto. Aqueles olhos num castanho tão escuro. O sorriso de dentes branquinhos. O cabelo que eu tanto queria sentir entre meus dedos.

— Eu não sou tão bom assim.

— Ninguém é.

— Eu não deveria estar aqui, conversando contigo. Tenho escolha pela manhã e tenho que dormir.

— Sinto muito ter atrapalhado seu sono. E sendo egoísta, sinto muito por não me arrepender de ter feito isso. Na verdade, eu gostei muito de conversar contigo.

— Até parece. Você me acha entendiante, eu sei disso. Só está falando comigo pra rir do quão boboca eu sou.

— Enrique, não pense assim. De imediato já gostei de ti, lendo Shakespeare como se fosse a coisa mais interessante do mundo. – lembrei que na realidade desde o momento em que ele chegou eu não prestei mais nenhuma atenção naquele livro, apenas disfarçava. – Vou deixar com que durma, mas só se me prometer que vamos juntos a cidade amanhã aproveitar a noite.

— Eu prometo. – fingi uma rendição que nunca existiu. Desde o momento que me propôs essa saída eu já tinha aceitado, mesmo sabendo que não deveria.

— Gosto assim. – Lorenzo se aproximou e envolveu seus braços em minhas costas.

Aquilo era um abraço? Se for, era um abraço bem desejeitado. Daqueles que se dão como uma obrigação. Mas por que ele se sentiria obrigado a me abraçar? O que diabos estava acontecendo?

Retribui o abraço da mesma maneira desleixada e ele se afastou antes deixando dois tapinhas de leve nas minhas costas. Li em seus lábios um tchau que juro não ter ouvido sair em voz audível e lá se foi ele.

Me pus a ficar a tempo fazendo o que me colocou naquela situação. Olhando as estrelas em busca de uma resposta. Eu parecia que ia morrer quando sentir o seu corpo me cercar. Meu coração iniciou um ritmo tão rápido que eu me pergunto se ele percebeu. Eu estou ferrado com esse sentimento e amaldiçoou quem quer que seja aquele ou aquilo que me fez ter isso dentro de mim.

E mesmo que, numa totalmente hipotética realidade, venha a dar em algo, essa história já se iniciaria com um prazo de término. Ele se irá assim como chegou, rápido e misterioso. Que todos no céu tenham piedade de mim para que eu não sofra tanto. Se ainda há compaixão no mundo, direcione um pouco para mim. Estou precisando muito agora.

Notas finais
Capítulo novo deve sair logo. Se você leu, dê aquele feedback pra gerar o famoso incentivo. Beijos e até mais!