Doce Morada
6 Céu. Inferno.
Notas iniciais
Ainda estou tremendo pelo pesadelo que tive. O que eu conseguia lembrar é que Lorenzo e eu andávamos pela rua de mãos dadas, como um casal. Não nos importava as pessoas que presenciavam aquela cena. Estávamos felizes e rindo um para o outro.
Em certo momento uns homens nos abordaram e começaram a deferir socos em nós. O primeiro que senti foi na barriga, o que me fez ajoelhar. Os seguintes foram no rosto, tirando sangue da minha boca e do supercílio. A dor era tão real. Lembro que me sentia incapaz de respirar.
E quem dera eu que terminasse ali. A pior parte foi quando dois homens me seguraram pelos braços e começaram a me arrastar para algum lugar. O pânico tinha se apossado de mim e eu tentava gritar com o que me restava de voz. Implorava misericórdia para eles, que riam alto. Olhei para o lado e o mesmo acontecia com Lorenzo.
E então o ato final. Como numa trágica peça de Shakespeare. Uma fogueira acesa e várias pessoas em volta à espera do espetáculo. Lágrimas deixando minha visão turva. Pedia para o tal Deus que me ajudasse. Parecia ilógico pedir a Satanás estando diante do fogo.
Vi o momento em que Lorenzo conseguiu de alguma maneira se soltar dos caras que o seguravam e inacreditavelmente correr para longe e sumir da minha visão. Por que ele não me ajudou? Por que me deixou para morrer. Mãos me empurravam para cada vez mais perto daquela fogueira. Eu era o tipo de bruxa que queimavam em 1857.
Então no momento em que seria devorado pelas chamas eu acordei. O alívio veio e foi rápido. Eu vi a crueldade humana diante de mim e, sinceramente, quis morrer. Não vale a pena viver nesse mundo. Principalmente se eu não puder ser isso que eu sou.
Não consegui comer nada no café da manhã. Na escola precisei ir umas três vezes no banheiro, pois sentia uma vontade insuportável de chorar. Meus olhos estavam muito vermelhos e eu olhava o tempo todo para baixo para evitar perguntas. Preferi interpretar esse sonho como a personificação do meu maior medo. Estava tão desmotivado que nem o fato de ser sexta, meu dia preferido, me deu alguma esperança.
Na hora do almoço eu me sentei ao lado da minha mãe e Lorenzo no lugar de sempre. Acho que ele esperava que eu também me sentasse no lugar do sempre. Não me sentei por dois motivos: a senhora Bette estava sentada do outro lado agora que o casal havia ido embora, então o lugar vago ao lado de Dona Madalena estava vago e poderia levantar suspeitas se eu não me sentasse ali; o outro motivo era que eu estava evitando trocar olhares com Lorenzo. Me sentia estranho e sua presença já me deixava muito nervoso. Temia que ele fizesse provocações como no dia anterior, colocando o pé em minha virilha.
Forcei a comida a entrar evitando o enjoo que sentia. Nunca pensei que um pesadelo pudesse me derrubar dessa maneira. Foi como se eu estivesse num mundo paralelo, vivendo uma fantasia. E de repente eu era jogado novamente nessa crueldade. Será que o inferno consegue mesmo ser pior que isso aqui? É um grande desafio.
Assim que terminei o almoço fui chamado pelo meu pai. Ele ainda não havia conversado comigo desde o jantar de ontem. Seu olhar era indiferente e isso era algo a temer. Era agora que eu receberia minha punição.
— Hoje você vai limpar a pensão inteira. Os quartos, a recepção, a sala de jantar e a cozinha. Sozinho. — e assim ele lançou seu golpe sagaz.
A pensão não era um espaço tão grande como eu imaginava que outras pensões seriam. Mas mesmo assim, era muita coisa. Me tomaria a tarde inteira e seria muito cansativo. Não adiantaria reclamar, pedir uma punição mais leve. Eu já tinha sorte por ele não ter me batido.
Peguei os acessórios necessários: uma vassoura, panos e um balde com água e alguma outra substância que servia para deixar o ambiente cheiroso. Comecei pela recepção. Era logo na entrada da pensão, tinha um balcão onde minha mãe e meu pai atendiam os clientes que chegavam. O balcão era de madeira, meu pai havia feito. Depois segui para a cozinha, a sala de jantar. Fui para os quartos e iniciei pelo dos hóspedes.
Limpei aquele que o casal dividia e depois fui para o quarto da senhora Bette. Ela estava sentada numa cadeira, usando óculos de leitura com um livro nas mãos. Era uma mulher que tentava se passar por culta. Uma vez ela disse que quase chegou a completar a escola, mas se casou no último ano e não terminou. Mas sempre foi uma das melhores alunas. Ela era de uma família rica, nem todas as meninas iam para a escola. Pedi licença para poder limpar o quarto e ele me respondeu que iria à procura de minha mãe para ter uma conversa. Acho que a tinha mais como uma filha do que como uma amiga.
Minhas costas já doíam e suor fazia com que eu sentisse nojo do meu corpo. Demorei um pouco mais naquele quarto, pois já não tinha tanta energia. Em seguida fui para o quarto onde estava Lorenzo. Bati duas vezes na porta e logo ele abriu, sorrindo para mim.
— Preciso limpar o quarto. — falei sem devolver o sorriso.
— Entra. — eu entrei e quis beijá-lo, mas me controlei. — Vou te ajudar.
— Não. É claro que não. Minha função.
— Não tem problema. Assim você acaba mais rápido e ganhamos um tempo.
— Na verdade, eu não estou me sentindo muito bem hoje. Quero terminar a limpeza logo para poder descansar. Agradeceria se não fosse até meu quarto essa noite.
— Aconteceu alguma coisa?
— Só cumprindo o castigo do meu pai. Também não tive um sono muito bom.
— Tudo bem. Eu quero muito estar com você, mas se você precisa descansar... Não aconteceu mais nada?
— Podemos conversar depois? Eu realmente quero acabar logo com isso.
— Não vai me deixar te ajudar?
— Se meu pai descobrir ganho um castigo pior. E também, se eu ficar aqui no quarto com você e alguém saber vai nos arranjar problemas.
— Eu já disse que odeio seu pai? Minha vontade é de fazê-lo engolir essa vassoura. Vou na cidade então. Volto para o jantar.
— Bom passeio.
Eu estava sendo tão automático e frio com Lorenzo. Tudo isso porque ele me abandonou no meu sonho? É patético, eu sei. Ainda mais porque ele não me deve fidelidade ou algo assim. Nos conhecemos há poucos dias e, sim, vivemos coisas que criaram uma atmosfera de intimidade, mas eu seria bobo de pensar que isso é algo permanente.
Talvez eu estivesse evitando o tombo. O sofrimento que me abaterá quando ele for embora. Tenho certeza de que vou desejar morrer. A chuva será mais espessa e não deixará o céu por dias. Os meninos na escola serão malvados. Meu pai deixará marcas na minha pele. Todas as desgraças acontecendo em sucessão para me fazer cada dia mais miserável e infeliz.
Chorei novamente. Estava sensível demais e tinha raiva disso. E então chorava de raiva por eu estar chorando. Por que a felicidade para mim é algo tão rápido? Não consigo contar o máximo de tempo em que estive feliz, sem nada que me jogasse no chão.
Terminei de limpar o quarto de Lorenzo e fui para o dos meus pais. Meus pés doíam pela quantidade de tempo que eu estava em pé. Minhas forças se esgotando mais e mais. Eu entendo Lorenzo. Às vezes eu também odeio o meu pai. Quero que ele morra. E isso é mais uma razão para eu ter a certeza de que minha alma está perdida.
Abro o armário e encontro as roupas simples dos meus pais. Escondido entre as roupas, a espingarda. Todo homem de família tinha uma dessas. Era para proteger o lar. Segurei aquele objeto. Uma arma fatal que podia tirar a vida de outra pessoa. Isso era errado, não era? Lembro que em uma de minhas idas a igreja o padre havia comentado algo sobre apenas Deus ter o poder de tirar a vida de alguém. Então por que as pessoas tinham isso? Por que não podia fazer outros pecados, mas matar não motivo de julgamento? Pelo contrário, as pessoas davam razão. Diziam que era necessário para manter a honra.
Eu odiava as pessoas e seus julgamentos seletivos. Deixei a espingarda onde estava e limpei o quarto. Tinha tecnicamente terminado. Não aguentaria limpar o meu quarto. Levei os acessórios que usei para o quintal e olhei para o céu já escuro. A lua ofuscada por nuvens que indicavam uma tempestade.
Lorenzo ainda não havia voltado. O que será que estará a fazer na cidade? Minha vontade era de ir atrás dele. Novamente, sou uma confusão. O rejeitei mais cedo e agora percebo que perdi um dia com ele. Um dia que com certeza me fará falta quando ele partir. Agora não há mais volta. Estou cansado e nem quero jantar. Peço permissão a minha mãe para faltar a mesa. Não tenho fome e só quero dormir. Ela concede e eu vou tomar um banho. Em seguida vou para a cama e durmo assim que me deito na cama.
Quando acordo e olho para a janela já estava claro. Meu corpo está suado e sinto dores. Mesmo nunca tendo sofrido um atropelamento, era assim que eu me sentia. Olhei para o relógio que marcava 06:56. Tomei um banho e fui ajudar minha mãe com o café, mas ela já havia preparado tudo.
—Bom dia. — falou ela e colocou as duas mãos em minha cabeça me dando um beijo na testa. Não era do seu feitio ser carinhosa. Devia estar com pena de mim por causa do castigo de meu pai. — O quarto não estava tão limpo, mas dei um jeito antes do seu pai ver. Imagino o quanto foi cansativo.
— Ele está aí?
— Saiu cedo. Foi ver uns negociantes, fazer algumas trocas.
— Então não tenho nenhum serviço agora pela manhã.
— Não tem. Sente-se na mesa. Já vou servir o café.
— Precisa de ajuda?
— Eu dou conta.
Fui até a mesa e me deparei com uma surpresa. Lorenzo estava sentado, no lugar de sempre, com um óculos tapando seus olhos. Não me atrevi a perguntar o que ele fazia de óculos dentro da pensão, mas isso me arranco um sorriso. Ele não acordava assim tão cedo. Nunca o vi no café da manhã. A senhora Bette também estava ali e me elogiou pela arrumação do seu quarto.
Servi-me com café e pão. Estava com muita fome. Olhei para Lorenzo e ele estava rindo, acho que da rapidez com que eu comia.
— Preciso ir na cidade hoje e gostaria que o garoto me acompanhasse. Sabe, eu andei por lá algumas vezes, mas sempre acabei perdido. Preciso encontrar um local específico. — falou Lorenzo quando minha mãe se sentou à mesa. Sorri imaginando que era algum tipo de plano para ficarmos sozinhos.
— Não sei se é uma boa ideia. Meu marido não está aqui para dar a permissão.
— Prometo que cuidarei do seu filho. Não estaria pedindo se não fosse extremamente necessário.
— Enrique está muito cansado. Não vai aguentar ficar andando pela cidade debaixo desse sol.
— O dia está até fresco comparado aos outros. E eu não acho que ele vá se cansar muito. Tentarei ser o mais rápido que conseguir.
— Deixa o garoto ir. Ele só sai de casa para escola. — disse a senhora Bette e eu fiquei surpreso por ela estar se posicionando.
— Tudo bem. Mas voltem rápido. Seja o que Deus quiser.
Parece que todo o cansaço havia sumido do meu corpo pela alegria que havia me tomado. Sorri olhando para Lorenzo e ele retribuiu o olhar acrescentando uma piscada. Terminei apressado o café e saí da sala dizendo que iria vestir uma roupa mais adequada. Troquei a camisa e a bermuda e esperei na recepção por ele.
— Podemos ir, cavalheiro? — perguntou ele aparecendo com a mesma roupa e ainda com aquele óculos.
— Claro. Será um prazer te ajudar a não se perder na cidade.
Saímos da pensão sem eu ter me despedido da minha mãe. Na verdade, eu tinha esquecido dela até estarmos metros longe. O dia realmente estava mais fresco que os anteriores, que costumavam fazer calor pela manhã e esfriar ao fim da tarde e pela noite.
— Ontem não foi um bom dia, hã? — falou ele.
— Péssimo. Desculpe se agi de maneira rude.
— Tudo bem. Todo mundo tem dias ruins. Há algum lugar onde possamos ficar sozinhos? Era esse o objetivo desse passeio.
— Tem uma construção abandonada que fica um pouco longe de tudo. Dizem que era para ser uma fábrica, mas o dono desistiu de construir porque não achava que seria rentável aqui em Évora.
— Pois eu adoro Évora. É um dos lugares mais bonitos de Portugal.
— Quantas cidades em Portugal você conheceu?
— As que eu visitei mesmo foram Lisboa, Porto e agora Évora.
— Por que veio parar aqui mesmo? Não é um lugar onde os turistas costumam vir.
— Gosto de lugares incomuns.
— Esperava encontrar uma esposa rica?
— Você me pegou. Onde fica mesmo essa construção que falou? — vi que ele queria se esquivar do assunto. Eu sabia que ele acabaria encontrando uma mulher rica e casaria com ela. Isso apertava meu peito.
— Preste atenção para ver se ninguém vai nos seguir.
Era improvável que isso acontecesse, porém depois daquele pesadelo, eu estava disposto a tomar todo o cuidado possível. Aquela construção era completamente abandonada. Ninguém nem falava dela, mas eu sempre tive vontade de sair e ir para lá. Ficar completamente sozinho e ter a sensação de estar longe de casa.
— Tive um pesadelo ontem. Por isso, estava estranho.
— Conte-me sobre isso.
— Eu estava com você. Andávamos na rua de mãos dadas. Parecia normal ou simplesmente não dávamos a mínima para nada e ninguém. Então fomos atacados por uns homens. Eles bateram muito na gente e começaram a nos arrastar em direção a uma fogueira. Então você conseguiu sem soltar e fugiu e eu estava quase indo para fogueira, mas acordei.
— Foi um pesadelo terrível. — comentou ele.
— Sim, e me fez muito mal. Por um momento, eu havia deixado de me importar com o que as pessoas pensam a respeito disso. Do que nós estamos fazendo. Esse sonho me fez lembrar que pessoas como nós não podemos ter uma vida normal. Namorar, casar, criar filhos ou ao menos andar de mãos dadas nas ruas. Será que isso algum dia vai mudar?
— Eu espero que sim. Se mudar, nós temos tanto azar de termos nascido agora. Se bem que podemos nos encontrar nas próximas vidas. Mas não sei se seremos dois homens.
— Você acredita nisso? Em outras vidas?
— Sim. Na vida passada, meu pai foi meu grande inimigo sem dúvidas. E você também estava nela. Tenho quase certeza de que éramos amantes.
— Eu não sei se acredito nisso. Porém concordo na parte de que somos azarados.
— Só para que você tenha certeza, saiba que eu nunca te abandonaria. Prefiro morrer junto contigo a conseguir me salvar e você... — ele parou de falar.
Sua voz estava diferente e o olhar triste. Uma lágrima escapou do olho direito e ele passou a mão no rosto rapidamente. Depois olhou para mim e abriu um sorriso (es)forçado. Sua mão direita acariciou minha bochecha. Fechei os olhos sentindo seu toque e aliviando minha mente. Mas tirei ela dali com medo de alguém ver. Porém já estávamos longe de qualquer vida humana e não demorou a chegarmos na construção.
Era um lugar com algumas colunas erguidas, blocos que deveriam formar uma parede, mas ficavam na altura de minha cintura. Não havia teto na maior parte e o sol invadia aquele lugar completamente abandonado. Fomos para a pequena parte coberta e nos sentamos no chão de barro. Eu me sentei acomodando minhas costas em seu peito. Ele passou os braços em volta de mim, estava no meio de suas pernas e ali era um lugar tão confortável.
— Por que estou me abrindo tanto para você? Não faz sentido. Daqui a uns dias você irá embora e essa exposição toda não valerá a pena. — comentei num suspiro.
— Eu não quero te deixar, mas não vejo outra saída. Como você pode querer ficar aqui? Com aquele seu pai canalha que aposto que te machuca.
— Família. O senhor Duarte não nasceu para ser pai. Na verdade, ele só me teve por duas razões. Reafirmar a sua masculinidade, afinal o que é um homem casado que não pode gerar um filho? E também ajudar com os afazeres. Mas o que posso fazer? Ele continua sendo meu pai. E ainda tem minha mãe.
— Você já tem dezenove anos Enrique. Não precisa mais ficar debaixo da sombra deles. Eu só digo que temos uma oportunidade, mas não aqui.
— Minha decisão já está tomada Lorenzo. Nós dois seguiremos nossa vida quando isso acabar. Eu ficarei aqui e você, bom, irá para onde deverá ir.
— Eu não vou conseguir te convencer. — aquilo não era uma pergunta e sim uma afirmação – Tudo bem, não vamos discutir. Gosto tanto de você.
— Gosto absurdamente de ti.
— Pensei muito em você ontem. Não conseguia dormir. Você me pediu para que não te procurasse em seu quarto e não te vi no jantar. Foram momentos de tortura.
— Acabei exagerando um pouco.
— Me passou pela cabeça que tivesse se arrependido do que fizemos.
— Não. — virei a cabeça para olhá-lo — É claro que não. Eu fiz e faria de novo, faria mais. Nunca tinha me sentido assim. — seus lábios vieram diretos ao meu e trocamos um beijo que me roubou o fôlego.
— Enrique, Enrique, Enrique. Gosto tanto do seu nome. Eu sou um louco.
— Você acredita em inferno? Acha que vamos para lá? — eu e minha mania de iniciar assuntos aleatoriamente.
— Não acredito. Mas se existir, eu já iria para lá de qualquer jeito, mesmo sem ter feito nada com você ou outro homem. Mas você, não. Você é bom demais. Deus deve invejar que eu estava com você agora, por isso é tão maldoso conosco. Ele o quer lá com ele, sendo uma espécie de anjo braço direito, que o ajuda a comandar tudo.
— Não sou tão bom. Se você pudesse entrar na minha mente.
— É o meu maior desejo agora. Não só em sua mente.
Uma chama incendiou dentro de mim. Virei-me para ele e olhei profundamente em seus olhos. Ele me olhava com a mesma intensidade. Parecia que faíscas saíam de dentro de nós. Aquela sensação era tão boa e tão sofrida ao mesmo tempo. Tenho vivido em opostos extremos quanto à sentimentos. Aproximei meu rosto do dele e passei a língua por cima de seus lábios que estavam entreabertos. Estava sentado em seu colo e minhas roupas eram um incômodo. Queria arrancá-las agora mesmo.
O beijo. Astuto. Molhado. Fervente. Evaporação. Química. Suas mãos em meu corpo. Apertos. Beliscões. Minhas mãos em seu cabelo. Puxões. Alguns fios acabaram sendo arrancados. Seu toque por baixo da minha camisa. Isso.
—Você está pronto para ir além? — perguntou ele e eu sabia exatamente do que se tratava. É, também tinha ouvido alguns comentários dos garotos da escola sobre penetração. E algumas piadinhas sobre penetração entre homens.
—Sim. Por favor. — não, eu estava com medo. Mas queria tanto isso. Desde que minha sexualidade aflorou e eu descobri como funcionava o sexo, essa parte vem sendo uma curiosidade incessável.
— Você tem certeza do que quer? — questionou ele quando nos afastamos por um segundo. — Se você não estiver pronto, posso voltar daqui a uns anos e podemos tentar.
— Pare de fantasiar e ande logo com isso. — falei fingindo estar emburrado, mas seu pensamento me fez um pouquinho feliz. Ele voltaria a Évora para me ver?
— Sem pressa. Tem que ser momento por momento.
— Se o senhor sexo está dizendo...
— Prefiro que me chame de amor.
— Não seja...
— Ridículo?
— Sai da minha mente.
— A mente eu já consegui entrar, agora falta seu corpo. — ele voltou a me beijar com aquela força capaz de me fazer explodir.
Eu quase não conseguia manter meus olhos abertos. Suor dominava nossos corpos. Imaginei nós dois num deserto, se amando debaixo de um escaldante sol, em cima da areia. Eu mesmo tirei minha camisa e tentei tirar a dele, mas minhas mãos estavam trêmulas. Ele fez o favor e estávamos os dois desnudos na parte de cima.
Passei as duas mãos pelo seu torso. Lorenzo arfava e mordia um ponto do meu pescoço. Depois se fixou numa das orelhas e eu nunca achei que a orelha fosse um ponto tão prazeroso. Os dentes cravados em meu lóbulo. Provei a pele dele com os lábios e principalmente a língua. Meus dentes cravaram no bico do peito esquerdo, depois no direito. Mais embaixo. Passei pelo umbigo. Subi seu corpo provando a língua até seus lábios. Trocamos outro beijo.
Ele passou a fazer o mesmo comigo, demorando nos meus peitos. Achava tão estranho pensar isso. Meus peitos. Para mim isso era algo tão feminino. Mas era muito boa a sensação. Levantamos para tirar a parte de baixo. Me livrei dos meus sapatos desgastados e puxei a bermuda junto com a cueca que usava.
Estávamos nus ao mesmo tempo, um de frente para o outro. Fiquei olhando para o corpo dele por segundos que pareceram horas. Principalmente aquilo no meio das pernas que ganhava cada mais vida. É loucura pensar que isso provavelmente estará em mim logo.
— Encosta aqui. — a voz dele estava rouca como nunca ouvi antes. Se não tivesse vendo ele, não saberia de quem se tratava.
Encostei na parede dos blocos que ia até minha cintura. Lorenzo me virou de costas. Virei minha cabeça e o vi se ajoelhar diante da minha bunda. Eu havia lavado ela tão bem pela manhã, algo em mim devia estar esperando algum ato que a envolvesse.
Com as duas mãos ele começou a separar as nádegas. Deu uma olhada ali. Eu não tinha muitos pelos. Nunca tive. Choraminguei quando senti sua língua ali. Era tão sensível, a sensação era de cócegas. Mas tão bom.
Peguei no meu pênis e comecei a movimentar para frente e para trás enquanto Lorenzo continuava atrás de mim, lambendo e empurrando a língua para dentro daquele buraco. Como chamam esse buraco?
Eu estava perto de ejacular, mas uma mão firme fez a minha parar de se mexer. Lorenzo se levantou e seu olhar estava diferente. Era luxúria que o dominava.
— Isso vai doer. — disse ele. — Se não aguentar, diga que eu paro. Conforme for se acostumando, dói menos e fica melhor. Muito melhor.
— Entendo. — não, não entendo.
Não entendo até sentir a dor de algo rasgando meu corpo. Eu gritei, sem dúvidas gritei. E agradeci mentalmente por estar num lugar abandonado. Doía muito e parecia que nunca terminava de entrar. Mas eu ia até o fim. A mão quente de Dante envolveu meu pai e continuou o que eu estava fazendo. Acho que era uma maneira para eu me distrair da dor.
Ele ficou parado atrás de mim. E ardia. Sua respiração estava na minha nuca e ele começou a beijar lá. No meu pescoço. Ah, eu enlouquecia quando ele estava no meu pescoço. Depois de um tempo começou a se mover. Eu tinha esquecido a dor era ruim por um momento, mas ela voltou. E continuou por um bom tempo.
Lorenzo ia para frente e para trás. No mesmo ritmo que sua mão fazia em mim. Depois de minutos eu comecei a sentir que melhorava. Ainda doía, mas havia algo a mais. Não pude aproveitar por muito tempo essa boa sensação, pois me desfiz na mão de Lorenzo e ele saiu de mim.
Não conseguia mover minhas pernas e a dor faria com quem eu andasse estranho. Olhei para Lorenzo que tocava o pênis, até que ele também se derreteu. Nossas respirações eram ofegantes. Eu sorri por algum motivo que não entendo. Ele também sorria.
— Acho que vou ter que te carregar no colo até a pensão. — foi a primeira coisa que ele falou.
— Acho que sim.
Mas não foi isso que ocorreu. Acabei voltando andando, ou melhor, cambaleando. Esperava me recuperar logo porque não saberia que desculpa dar para meu estado. Voltamos a pensão atrasados para o almoço. Meu pai ainda não havia chegado. Glórias! Minha mãe reclamou porque demoramos. Ela nem notou que eu não estava andando normal. O medo que ela tinha do meu pai era grande. Será que ela esconderia dele que Lorenzo e eu fomos para a "cidade"?
Almoçamos apenas os dois, pois minha mãe e a senhora Bette já haviam comido. Trocávamos olhares e sorrisos. Agora sábado era meu dia preferido da semana. Queria fazer aquilo outras vezes, deve doer menos conforme mais tentativas e aquele prazer que senti no finalzinho, preciso senti-lo novamente nem que seja uma última vez.
Eu queria quebrar aquele acordo imbecil que eu mesmo fiz. Lorenzo poderia ficar por um mês. Podemos inventar uma história, um emprego temporário. E foi por isso que fomos a cidade. Ele conseguiu um emprego aqui por um mês. Não acho que meus pais iriam atrás conferir se há veracidade na história. Por que eles desconfiaram que seria uma mentira de qualquer jeito? Não, eles não costumavam ser invasivos com os hóspedes.
Isso, um emprego temporário seria perfeito. Nos veríamos todas as noites e eu teria mais tempo de felicidade. Aí sim, depois eu poderia suportar os anos de tristeza e angústia. Falaria com Lorenzo mais tarde e criaríamos melhor a história.
Minha mãe solicitou que eu ajudasse com o jantar. Como meu pai estava fora, eu teria que depenar a galinha. Não vi Lorenzo até a hora do jantar. Senhor Duarte já tinha voltado. Estava ansioso para compartilhar meu novo plano. Mais troca de olhares e sorrisos. Fui para o meu quarto esperar que todos dormissem para ir ao quarto dele.
O relógio me torturava, gostava de fazer isso comigo. Eu pensava em tudo para que não houvesse furos na minha ideia. Me sentia um científico que acabava de fazer uma descoberta importante que auxiliaria no futuro da sociedade.
23:39. Meus pais já deviam estar dormindo agora. A senhora Bette não despertaria nem se uma bomba caísse aqui. Saí do meu quarto e aproximei meu ouvido do quarto dos meus pais para ver se ouvia algum sinal de que ainda estavam acordados. Ouvi gritos. Do meu pai.
— NÃO DEVERIA TER DADO PERMISSÃO. JÁ CONVERSAMOS SOBRE O QUE ACHAMOS DESSE HOMEM. NÃO O QUERO PERTO DO MEU FILHO. É UMA MÁ INFLUÊNCIA, SABE-SE LÁ DE ONDE VEIO.
— Talvez nós exageramos sobre ele. Foi bem-educado pedindo que eu permitisse que o Enrique o acompanhasse. — a voz de minha mãe era mais baixa, quase não conseguia ouvir.
— Onde eles foram? — Duarte pareceu se acalmar.
— Não sei. Só sei que foram a cidade.
— COMO PODE NÃO SABER PARA ONDE FORAM? SERÁ QUE NÃO PENSA O QUE PODE ACONTECER? ESSE DESGRAÇADO PODE TER FEITO ALGO COM O ENRIQUE, TER DADO ALGO A ELE. SABE COMO SÃO ESSES JOVENS PERDIDOS. NÃO SABEMOS NADA DA FAMÍLIA DELE, SE É CASADO. — ele voltou a gritar e eu podia imaginar minha mãe toda acuada, com medo. Eu estava com medo. — Enrique estava estranho quando voltou? Parecia que tinha bebido ou algo assim?
— Não, não que eu tenha notado.
— Do jeito que é imbecil, não deve ter notado nada mesmo. Vamos resolver a situação da maneira mais eficaz. Amanhã mesmo mandaremos esse homem para fora da nossa pensão.
NÃO! Não, não, não. Isso não pode acontecer. Maldito seja esse velho infeliz. Por que ele está fazendo isso? Por que ele vai me tirar a única coisa que me faz bem nessa porcaria de vida? Corri em direção ao quarto de Lorenzo com lágrimas nos olhos e uma notícia cortante como uma faca.
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