Doce Criada
22 Capítulo: perdão
Kawaki só se preocupou com que caminho seguir quando se percebeu perdido.
Sua andança se tornava lenta, principalmente com a chuva começando a despencar.
Com o intensificar da queda de água, ele procurou algum abrigo.
Optou por uma árvore que exibia uma cavidade em seu tronco largo.
Bastaria se espremer; ele caberia.
Arranjando-se naquele espaço, abraçou o próprio corpo.
— Assim é melhor.
Ele sorriu um pouco, seus lábios tremiam pelo frio que parecia mais de inverno do que de outono.
~
Anoitecia.
Os pés do Sr. Uzumaki afundavam na lama repetidamente.
Sem luar, nenhuma claridade existia para guiá-lo.
Enchia os pulmões de ar antes de gritar pelo nome de seu filho mais velho.
A quantidade de vezes que o chamou tornou-se indefinida.
Com a bengala, abria caminho pelo mato.
Por conta da intensidade da chuva, mal conseguia abrir os olhos.
— KAWAKIIII!
Chamou uma vez mais, antes de ofegar fortemente.
Precisava descansar.
Ao mesmo tempo, não queria parar.
Cada segundo parado significava que seu filho se afastava mais.
Em um momento, Naruto despencou exausto, rendido ao cansaço e à dor.
Tentou se erguer; todavia, travou de quatro, percebendo que precisaria de um tempo para se recompor e conseguir se colocar de pé.
Gritou em praguejo, largando a bengala e socando com toda a força contra o solo lamacento.
Socou mais uma vez.
E outra.
Espirrando lama contra o próprio rosto.
— Fraco, como és fraco!
Exclamava, pensando que há muito deveria ter arrombado a porta do quarto de Kawaki e tê-lo abraçado à força.
Deveria ter compartilhado seus profundos e sinceros sentimentos pessoalmente.
E não ficar apenas com cartinhas.
Após alguns minutos de lamentação, considerou que conseguiria se levantar.
Segurou sua bengala e fez esforço para se pôr na vertical.
Em meio ao barulho da chuva, identificou uma forte sacudida de mato; contudo, vinha da direção oposta, então não poderia ser Kawaki.
Um estalo correu pela mente de Naruto, considerando que deveria estar mais próximo do território dos lobos do que da propriedade Uzumaki.
Levou uma mão às costas, alcançando seu mosquete; contudo, antes que colocasse a arma à frente do corpo, escutou:
— Sr. Uzumaki!
Aquela voz doce atingiu o coração do loiro como um tiro.
Aquela doce e delicada voz quase fez o Sr. Uzumaki desabar novamente.
— Hinata?!
Chamou-a, desesperado, encarando a direção de onde vinha o barulho do mato.
Que fosse apenas um delírio, ele almejava.
Contrariando seu desejo, a pequena mulher apareceu.
Ela usava um manto de capuz, cobrindo os cabelos presos.
Por cima do ombro esquerdo, passava a alça de uma bolsa de palha, e a mão direita segurava a alça de um lampião.
A perolada cambaleou por um momento, atrapalhando-se com os pés que se afundavam a cada pisada.
Ao vê-lo, ela sorriu, aliviada, dizendo:
— Sr. Uzumaki, eu...
— Por que vieste?! — Naruto a interrompeu, avançando o mais rápido possível, nada agradado. Parando à sua frente, largou a bengala e colocou cada palma contra um lado da delicada face de sua esposa. — Por que vieste, Hinata?! Pensei que fosse um lobo! Se eu não estivesse cansado, teria sacado o mosquete com rapidez e atirado em ti!
Empalidecido, temia imaginar o que quase aconteceu.
Hinata jazia de boca semiaberta, sentindo seu peito doer, horrorizada em imaginar seu marido sofrendo uma nova perda. E arrependida de ter causado tamanho sentimento sofrível nele. Imaginou o terror que a mente dele estaria projetando agora.
— Não foi minha intenção, Sr. Uzumaki — disse, chorosa. — Perdoe-me.
Se ela aproximasse o lampião do rosto masculino, identificaria o rotundo azulado lacrimejado.
A lágrima de Naruto se misturava às gotas da chuva.
Hinata seguiu se justificando:
— Fiquei preocupada porque não retornaste, nem o Sr. Kawaki. Eu não quero perdê-lo, Sr. Uzumaki. Estou com medo de perdê-lo. — A mão esquerda dela pausou na nuca do marido, trazendo a testa dele para a dela. — Naruto, eu acredito que o amo.
O interior do Uzumaki ardeu. Ele se deu conta de que também a chamara pelo primeiro nome momentos atrás. Os lábios do homem tremularam e se depositaram sobre os beiços gelados e molhados da esposa. Um contato rápido, mas cheio de seus sentimentos.
— Eu sou louco por ti — declarou. — Também não duvido que passei a amá-la.
Outras pessoas poderiam dizer que os dois se envolveram muito rápido e por isso era muito cedo para tal declaração, contudo, nenhum dos dois duvidava de que o tempo apenas confirmaria a mútua declaração de amor.
Seriamente, Naruto pediu:
— Não se afaste de mim.
A pequena mulher assentiu, passou a mão esquerda contra os olhos, reafirmando sua seriedade e concentrando-se na situação.
Por mais que fosse um belo momento, não estavam em um bom contexto.
Juntos, deram continuidade à procura por Kawaki.
Naruto perguntou sobre os criados e Hinata explicou que se dividiram em três grupos de busca.
Um grupo se concentrou na floresta, enquanto os outros rumaram às estradas que contornavam a região da mata.
***
Sara abraçava seu menino, de pálpebras cerradas, aspirando o cheiro dos cabelos dele.
Era um dia chuvoso e eles dormiam juntos sob os lençóis.
Ela vestia um chemise, ele, um camisolão.
Adoravam a sensação de arrepio na pele, dentro de um ambiente quente e aconchegante, escutando o barulho da chuva.
— Mãe.
— Hum?
Ela não abriu os olhos, mantendo o nariz contra os cabelos do menino.
— Por que sou diferente da família?
— Diferente? — Ela abriu as pálpebras, espantada com a pergunta. — Como assim, meu amor?
— Meu cabelo não é loiro nem ruivo. — Ele espremia o nariz contra o busto dela. Chateado, acrescentou: — E minha pele é mais escura que a sua, do meu pai e dos meus avós.
— Ah, isso. — Sara riu, acariciando os cabelos de seu menino. — puxaste ao seu avô; ele adoraria conhecê-lo. Minha mãe perdeu o quadro do meu pai quando nos mudamos para Bielog. Um acidente aconteceu com a carroça que transportava os objetos; infelizmente, não recuperamos todos. — Suspirou, repleta de saudades. — Eu era tão menina quando meu pai se foi deste mundo. Sabia que seu nome seria Menma III?
— Menma III? Como o nome do meu tio? Só que em terceiro lugar?
O menino não sabia se estranhava mais a mudança de assunto ou a possibilidade de ter crescido com outro nome.
Sara riu e confirmou:
— Meu pai dizia que, se tivesse um filho homem, colocaria o nome de Kawaki. Mas, ele nunca teve filho homem. Seu pai disse que eu podia escolher o nome do nosso primeiro filho.
Kawaki ficou reflexivo; seu falecido avô, então, lhe deixara um nome de presente.
— Uma pena que não se conheceram, meu príncipe. Tens o mesmo olhar que seu avô Dara, olhar de um homem brabo, mas que, por dentro, tem um montão de ternura.
— Eu não sou cheio de ternura! — Ele se embraveceu. — Sou um homenzinho; meu pai me disse isso.
— Tens razão, acho melhor parar com o carinho. Peço perdão, não queria incomodá-lo. — Sara o largou, deitou-se para o outro lado, com as costas viradas para a criança. E completou: — Carinho é só para meninos que são cheios de ternura.
— Hum. — O menino ficou deitado de costas contra o colchão, fitando o teto. Seus lábios tremeram e suas mãos abriam e fechavam devagar. Depois de alguns minutos, apenas escutando o som da chuva, sussurrou: — E-eu...
Sara sorriu e, sem se virar, fingiu um tom curioso:
— Disseste algo?
O pequeno pigarreou e aumentou a voz:
— E-eu acredito que um homem sério pode receber ternura, ele só não pode ficar dando carinho. Então, se quiser continuar me acarinhando, eu permito.
— Agradeço a sua gentileza, filho. Mas não tenho problema em atender à sua vontade. Daqui por diante, o tratarei como um homem sério.
O silêncio veio e se prolongou durante alguns minutos, despertando a curiosidade na linda mulher ruiva em saber o que seu filho fazia.
Ao se virar, a mãe imediatamente se arrependeu da brincadeira, vendo que o menor se esforçava para não chorar.
Ele apertava fortemente o lençol e espremia a boca, enquanto as lágrimas desciam de seus olhos fechados.
— Perdoe-me, meu filho! — Ela se sentou na cama e puxou-o para seu colo. — Mamãe estava brincando; perdoa a mamãe.
Ele esfregou o rosto contra o chemise dela.
— Não é isso, é que vejo que não conseguirei ser um homem sério, mãe. — Ele confessou: — Eu queria ser como meu pai, mas não vai dar porque ainda quero muito carinho.
— Oras, meu amor, homens sérios gostam de carinho, só não gostam de admitir. Quando estou a sós com seu pai, só falta ele querer meu colo.
Surpreso, ele ergueu a face, arregalando os olhinhos.
— Jura?
— Juradinho, mas não conta para ele que lhe contei; será nosso segredinho, está bem?
O menino assentiu, e os dois retornaram a se deitar, enquanto a chuva continuava a cair.
***
— ELE ESTÁ AQUI!
A delicada voz, expressada em grito, despertou Kawaki.
Em seu rosto, de cada lado, um toque suave o apalpava.
Confuso, o rapaz aguardou um momento até distinguir a imagem à sua frente.
Hinata recuou os braços, estava ensopada e com metade do vestido lamacento.
Toda feliz, ela soltou outro grito:
— Ele está aqui, Sr. Uzumaki!
Antes, o casal encontrara algumas pegadas recentes que se embaralhavam em alguns lugares.
O loiro iluminou o interior de uma pequena caverna.
A mulher parou de seguir o marido, pois, no momento em que um raio clareou a região ao redor, achou ter visto alguém dentro de uma árvore e, em breve, se separou do esposo para verificar.
Naruto, na entrada da caverna, notou a ausência da esposa. Desesperado, estava prestes a gritar até que a escutou. O mais rápido que pôde, refez seus passos e, após o segundo grito de Hinata, mudou de direção, indo em direção à voz da perolada.
Algumas batidas do coração de Naruto se tornaram agudas; ele sentia.
Avistava Kawaki saindo lentamente de dentro daquela árvore. O jovem Uzumaki fitou o céu e, analisando a pesada tonalidade escura da imensidão, percebeu que havia dormido durante horas. Chegando até os dois, Naruto passou o lampião para Hinata. Ainda segurando a bengala na mão direita, o loiro envolveu seu filho em um abraço. Naruto, meio curvado, esfregou seu rosto contra o peito do jovem Uzumaki.
Kawaki apenas recebeu aquele contato caloroso. Durante o silêncio, no qual observou Hinata enxugando as lágrimas, murmurou:
— Eu não entendo...
O pai então recuou, colocando a extremidade da bengala contra o solo, enquanto a outra mão, suavemente, mantinha-se em um braço do rapaz.
— Eu fiz de tudo... — Kawaki soltou outro murmúrio. Em seguida, franziu o cenho e agarrou os braços de seu pai, erguendo a voz: — Eu fiz de tudo, por que ainda não me odeiam?
O jovem herdeiro jazia incrédulo ao ver o casal ali.
Imaginava que os dois estivessem em casa, lamentando tê-lo perdido para sempre, mas, enfim, desistindo da presença dele.
— Eu não posso odiá-lo; és meu filho — Naruto argumentou. — Se há alguém para ser odiado aqui, sou eu. Sei bem.
Kawaki meneou o rosto, negando.
— Não... não está certo. — Dizia o rapaz. Repentinamente, encarou sua madrasta. — Eu tentei agredi-la! — apontou para ela e voltou a encarar seu pai. — Eu a arrastaria pelos cabelos na noite em que ela me revelou que vocês casaram! Foi o Sr. Wittenberg quem a protegeu!
A pupila de Naruto dilatou; seus músculos faciais enrijeceram, processando a revelação com susto.
Hinata, desesperada, sacudiu a mão esquerda aberta de um lado a outro, na altura do ombro, enquanto dizia ao enteado:
— Foi uma notícia muito forte a que o Sr. Kawaki recebeu. O Sr. Kawaki agiu pela emoção; eu já o perdoei. Um choque, ao se ausentar por pouco tempo e saber que o pai casou, eu compreendo. Guardo a esperança de convencê-lo de que a Sra. Sara nunca será apagada da vida de seus irmãos.
O rapaz, aturdido, relembrava toda a conversa tida quando se reuniram na presença de Menma II.
Ele fixou o olhar no pai, agarrou-o pelos ombros e começou a sacudi-lo, dizendo:
— Foi o que ouvistes pai, eu tentei agredi-la, e não foi só isso. O meu tio não me socou pelo que fiz ao meu irmão, pois ele não sabia que eu tinha batido no Menma III quando me socou. Meu tio me bateu porque eu faltei com respeito a Sra. Hinata! — encarou-a: — Eu o acusei de defendê-la por ser uma criada peituda!
A perolada se tornou um tomate, recuou dois passos, instintivamente cruzando os braços diante o busto, quase deixando cair o lampião.
Naruto expressou pânico, e a mão que segurava a bengala se encostou ao peito, tentando se acalmar.
— Agora que entendem que eu passei dos limites, permitam-me partir — disse Kawaki, aproveitando que os adultos se mantinham mudos e atordoados.
Após cinco passos, o jovem Uzumaki sentiu uma mão circular seu braço.
Olhou para trás, sabendo que encontraria a face de seu pai.
— Mas não vai mesmo. Não escutaste o que Hinata disse? Ela o perdoou, Kawaki!
Naruto verbalizou, tentando esquecer as últimas revelações.
— Mas... mas...
O filho sussurrou, surpreendido pela atitude do homem, achando que seu pai enlouqueceria depois de saber que quase agrediu a madrasta. Não tinha dúvidas do quanto seu pai era louco por ela.
No entanto, ali estava o Sr. Uzumaki, calmo.
— Hinata foi a mais atingida pelo seu comportamento, Kawaki — Naruto o segurou com mais força. — Por sorte, não cometeste nenhum erro irreparável. Seu tio já o castigou, então vamos esquecer.
— Mas... mas... — Kawaki, incrédulo, não conseguia encontrar mais desculpas. Soltou um fio de voz: — Tão fácil assim?
Ficou paralisado, sem reação. Mesmo ele agindo com violência, ainda assim queriam tê-lo perto. Eram tão amorosos assim? Ou apenas ingênuos? Não demorou para que lágrimas expelissem de seus olhos.
Hinata, menos constrangida, começou a sorrir ao ver o rapaz abaixar o rosto e esfregar o punho contra as pálpebras.
Naruto abraçou o filho por trás, encostando o lado do rosto nas costas de Kawaki.
— Sr. Uzumaki!
— Sr. Kawaki!
As vozes de alguns criados ecoavam.
Hinata gritou, projetou-se na direção das vozes e chamou-os, sinalizando com o lampião.
Em alguns minutos, uma carroça cambaleante apareceu.
Aquele espaço não era adequado para transporte.
O Sr. Diskin, que conduzia o cavalo, sorriu ao ver os três Uzumakis e comentou feliz:
— Graças a Deus, estão todos salvos!
— Venham, é melhor subirem — disse o Sr. Flynn, movendo o braço e olhando para o céu. — Não demorará até que outra chuva caia, e acredito que será mais uma tempestade.
— Tome, Sr. Uzumaki! — Sai lançou uma corda na direção do loiro, que por pouco não deixou cair. — O Sr. Wittenberg fez um laço com a medida do seu filho; disse para usá-lo o quanto antes.
— O que? — Kawaki estranhou.
— Boa, Kakashi! — Naruto elogiou, jogando o laço sobre o corpo de seu filho e puxando a corda, apertando-a. — Homens, coloquem meu filho na carroça!
— Sim, senhor! — os criados responderam ao mesmo tempo.
Iruka e Sai desceram do transporte apressadamente e avançaram até os dois.
Hinata se afastou, preocupada, enquanto assistia à cena.
— Eu não vou fugir! — Kawaki bradou. — Soltem-me!
— Eu não tenho certeza. Me pareces abatido, pode mudar de ideia. Conversaremos em casa — disse Naruto, aliviado, caminhando ao lado de Hinata e abraçando-a pelo ombro.
— Estou falando sério, pai! — o rapaz gritou, parando de se debater.
O Sr. Uzumaki fez sinal para os criados pararem de tentar arrastá-lo.
O jovem Uzumaki, aliviado, mas ainda preso na corda, não conseguia abrir os braços. Compartilhou com todos ali presentes:
— Eu queria que vocês se divertissem sem mim, que fossem felizes e percebessem que seria fácil viver sem mim. — Espremeu os lábios. Continuou com o olhar ao solo: — Eu li suas cartas, pai. — E ergueu o olhar para sua madrasta. — E, Sra. Hinata... eu a ouvi orar por minha mãe. Eu não me considero mais digno de morar na propriedade Uzumaki, não depois de agredir meu irmão e de tentar agredir a Sra. Hinata.
Iruka e Sai se entreolharam, pasmos pela revelação.
— Eu tive certeza de que desistiriam de mim depois de hoje... mas... mas... ainda estão aqui — Kawaki finalizou, com um timbre levemente choroso. — Agradeço a vocês.
Hinata repousou sua mão sobre a mão do marido que se mantinha em seu ombro, acarinhando-o de leve.
— Obrigado, Kawaki — Naruto finalmente teria sua família completa.
Kawaki esboçou um leve sorriso.
— Homens, depressa, tragam-no! — o Sr. Uzumaki ordenou em voz alta.
— O que? — Kawaki perguntou, assustado, enquanto era movido novamente pelos dois criados.
— Ainda assim, vou soltá-lo somente quando chegarmos em casa — Naruto esclareceu, alcançando a carroça e ajudando sua esposa a subir primeiro.
— PAI! — o rapaz gritou, raivoso, sendo jogado como um saco de batata sobre o monte de palha.
— Sr. Kawaki — Hinata mencionou, preocupada.
— Ele está bem; meu filho é muito forte — Naruto disse, orgulhoso.
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