Do you love me?
5 Chapter IV – The Beast
Notas iniciais

O anoitecer estava próximo e Thomas e Merida ainda não haviam saído do campo. A ruiva temia que ambos estivessem pedidos, mesmo com o pai assegurando-lhe que sabia bem onde estavam. A neve estava densa e os cavalos andavam lentamente, provavelmente cuidando para não pisar em falso e afundar naquela imensidão branca e fria.
Merida respirou fundo e soltou o ar pela boca, vendo aquela “fumacinha” surgir. Ela soltou uma risada fraca e concentrou-se no caminho. As bochechas da garota quase albina estavam rosada e o nariz parecia congestionado. Ela usava uma capa verde-musgo por cima do vestido de neve azul escuro.
Ao lado da menina, Thomas estava atento ao caminho, que parecia nunca mudar. Eram apenas neve e árvores, neve e árvores, neve e árvores. Os cabelos castanhos – que já estavam a ficar grisalhos – agora estavam cobertos por flocos de neve. Diferente da filha, ele não usava capuz ou capa, apenas uma roupa grossa e quente. Sentia sua garganta arranhar pelo frio intenso e soltou um pigarro seguido de uma breve tosse. Espanou os cabelos e passou a mão pelo rosto. Estava cansado e seu corpo doía, além da fome que começava a apertar. Suspirou fraco sob o olhar de preocupação da filha.
“Papai?” A ruiva chamou “Está tudo bem?”
Ele lançou um olhar terno para menina e assentiu com a cabeça. Logo percebeu que não estava tudo bem. Realmente estavam perdidos. Realmente não sabiam por como ir para a cidade ou como voltar para casa. Só haviam galhos e árvores cobertos de neve por todos os lados.
Merida começava a desesperar-se – coisa que não era de seu feitio, mas, por alguma razão, desta vez ela estava com um certo medo e não conseguia evitar. A ruiva olhou para o pai e Angus afastou-se um pouco, tomando uma boa distância dos galhos que haviam ali e impediam a passagem. Então, de forma inesperada, ele saltou, assustando Merida e parando do outro lado. O cavalo negro relinchou e a menina voltou a olhar para Thomas, que incentivava seu cavalo a fazer o mesmo.
O homem, ao ver o cavalo distanciando-se, segurou firme nas rédeas do cavalo, respirando fundo e aguardando o salto do animal. Fechou os olhos por um instante, apreciando a fria brisa que chegou em seu rosto antes do baque. Thomas estava caído na neve, e o cavalo, machucado.
A filha desceu do cavalo negro e correu de encontro ao pai.
“Pai? Papai! Está me ouvindo?” Perguntou desesperada. Em seus olhos já haviam lágrimas brotando e sua garganta ardia. “Não acredito que isso realmente está acontecendo... Não acredito, não acredito...” ela repetia pra si mesma no pensamento.
Thomas abriu os olhos de vagar. “Merida...” sussurrou, fazendo a garota sorrir.
“Você está bem? Está machucado? Pode ter quebrado algum osso!” Ela disparou a falar.
O pai riu e levantou-se de forma lenta “Estou bem, minha Rida. Por um milagre, estou ótimo!” Exclamou “Mas acho que não posso dizer o mesmo de Myrthie...”Disse referindo-se ao cavalo, que tentava levantar-se sem sucesso. Provavelmente teria machucado-se entre os galhos e quebrado uma pata ao saltar.
“Venha, suba em Angus.” Merida disse. “Myrthie consegue se virar até que voltemos para casa.” Ela assegurou, montando no cavalo e esperando que o pai fizesse mesmo, com um certo pesar por deixar Myrthie para trás, mesmo sabendo que ele ficaria bem.
Angus adentrou a floresta. Parecia mais frio ali, por conta das enormes árvores que deixavam o caminho mais escuro ainda. Merida tremia e apertava os olhos, condenando-se mentalmente por estar sentindo frio – mesmo que não fosse culpa sua. Ela olhava para os lados tentando enxergar alguém ou algum animal que pudesse estar escondido entre as árvores. Ali já não havia mais neve caindo do céu, embora o chão estivesse coberto por ela. A ruiva ouviu o pai fungar atrás dela. Lembrou-se de sua mãe, Primrose, advertindo-a sobre o frio e cobrindo uma pequena Rida de agasalhos. Tanta neve e tanto frio realmente não faziam bem a ninguém. Ela movimentou os ombros, que já começavam a doer. De repente, viu algo totalmente incrível: pouco mais adiante de onde estavam não havia neve ou qualquer sinal de inverno. Ficou tão admirada que nem percebeu que soltara uma exclamação ou que estava de queixo caído. Thomas também havia percebido aquilo, e ficara tão intrigado quanto a filha. A menina olhou para o pai e riu. Como aquilo era possível?! Angus relinchou e saiu em disparada, a fim de se distanciar daquele frio intenso.
Ali, do outro lado, a temperatura era muito confortável. Merida tirou o capuz e respirou fundo, sentindo o ar entrar em seus pulmões e saindo logo em seguida. O fato de não ser um ar frio ou um clima congelante era um grande alívio, tanto para ela quanto para o pai.
Depois de mais algum tempo cavalgando sem rumo, a floresta finalmente chegou ao fim, dando lugar ao que parecia ser um vale. O mais estranho é que não havia ninguém ali! “Será um vale fantasma?”, pensava Thomas pra si mesmo. Mas aquilo pouco importava. O local era tão vivo e bonito – mesmo durante a noite – que chegava a parecer mágico. Pouco mais adiante, avistaram um grande castelo. Um sorriso iluminou-se no rosto de pai e filha. Se tivessem sorte, poderiam arranjar comida ou até mesmo um quarto para passarem a noite! Logo já haviam chegado lá. Deixaram Angus do lado de fora e adentraram o castelo – que por acaso tinha as grandes portas de madeira abertas. O interior do lugar era escuro, não parecia ter uma única luz. Então, como num passe de mágica, as cinco velas de três castiçais acenderam-se uma a uma até a última, antes que a lareira incendiasse também.
Thomas e Merida entreolharam-se diante daquela situação. Nem uma única alma viva por ali, um castelo para ser explorado e uma enorme mesa cheia de comida, da mais fina às mais simples, que fazia seus estômagos roncarem.
“Tem alguém aí?” Chamou Merida “Alguém...?!”
“Nós... Nós vamos comer um pouco, tudo bem?” Começou Thomas “Estamos morrendo de fome!” Ele disse olhando para mesa.
Então, os dois sentaram-se lentamente em uma das cadeiras e comeram o quanto podiam, ao som agudo e de certa forma irritante vindo de algo que não puderam identificar. Quando achava que já tinha comido o bastante, o homem levantou-se, indo em direção a um baú. Merida olhava para ele de forma curiosa, perguntando-se o que chamara sua atenção naquele baú.
“Impossível...” Ele sussurrou.
“Pai? O que é impossível?”
Thomas retirou um papel dobrado de dentro do paletó “Está tudo aqui, minha Rida! A tinta, os vestidos, os perfumes... Até mesmo seu arco!” O homem exclamou.
A ruiva levantou-se de forma apressada e foi em direção ao baú “Oh... É real! Todos os nossos desejos... Será que podemos levar?”
Thomas olhou para os lados “Se importa se levarmos este baú e tudo o que tem dentro dele?” Sem resposta “Ok... Levaremos então.” Ele concluiu, recebendo um sorriso da parte de Merida.
O mais velho ergueu o baú nos braços com a ajuda da filha. Então, Myrthie apareceu no salão. As patas estavam enfaixadas, sem sinal de sangue ou qualquer coisa do tipo.
“Myrthie... Quem cuidou de você?” A menina perguntou. Ela e Thomas se entreolharam novamente, desta vez o pai deu de ombros. Só podia ser magia. Tudo ali parecia magia. Talvez estivessem ficando loucos...
Com a ajuda de Merida, o homem carregou o baú não muito pesado até o cavalo e subiu. Já do lado de fora do castelo, a ruiva montou no cavalo negro e antes que pudessem dar a partida, ela lembrou-se de algo.
“Papai, está tudo aí, menos uma coisa: a rosa de Punzie.”
O pai raciocinou por alguns instantes e depois assentiu com a cabeça “Sei onde podemos encontrar. Vi uma roseira na entrada. Vamos!”
Assim que chegaram à roseira, Merida desceu do cavalo e começou a observá-la. Parecia haver rosas de todos os tipos ali. Então, uma lhe chamou a atenção. Era branca e delicada. Em algumas pétalas, havia pequenos “fios” em tom vermelho, que a decoravam dando um contraste perfeito da cor alvejada da flor. Mostrou para o pai, que apanhou algo semelhante a uma tesoura e cuidadosamente, cortou-a. Um rugido se seguiu. De repente, um grande animal pulou da roseira e atacou Merida, ficando em cima da garota, segurando seu rosto com uma das patas.
“Oh... Não se parece com ela. Esta é ruiva...” Ele sussurrou, mas Merida pôde ouvir e ficou confusa.
A garota tinha vontade de disparar perguntas, como “quem é você?” ou “com quem não me pareço?” ou até mesmo “qual o problema com a cor dos meus cabelos?!”. Mas, ao invés disso, permaneceu calada. O medo falava mais forte, e era difícil admitir. Agradeceu mentalmente quando a fera saiu de cima de seu corpo, mas logo arrependeu-se, vendo que se aproximara de Thomas e saltara sobre ele.
“A comida e os presentes não foram suficientes? Tinhas que levar meu bem mais precioso?” Esbravejou a criatura.
“É que... E-esta flor é para minha filha mais nova... Desculp-” Thomas fora interrompido por um novo rugido.
“Uma vida por outra.” Ele disse “Volte amanhã. Viverás comigo a partir de agora. Apenas diga ‘mais que tudo no mundo’ para seu cavalo e ele saberá o caminho.” A criatura deu as coordenadas, assustando Thomas.
“M-mas eu tenho uma família para cuidar! Por favor...”
“Silêncio! Você voltará ou eu matarei todos vocês. Esta é minha última palavra.” A fera disse antes de saltar novamente e sumir.
–
A garota sentia um frio imenso. Abriu os olhos lentamente e olhou ao redor. Estava montada sobre Angus em meio à neve. À sua direita, seu pai estava adormecido sobre Myrthie, de uma forma que parecia bastante desconfortável.
Ouviu sons um tanto distantes. Pássaros. Patas de cavalos. Conversa entre pessoas. Merida virou-se o máximo que conseguiu na tentativa de enxergar quem vinha, e sorriu aliviada ao ver que eram Kristoff e Hans. A menina desceu do cavalo e foi até Thomas, sacudindo-o.
“Papai!” Ela chamou “Papai, acorda!”
O homem mexeu-se e pouco tempo depois abriu os olhos, espreguiçando-se. “...Onde estamos?”
“Longe da floresta e daquele castelo horripilante! E, veja! Hans e Kristoff estão perto!” Ela apontou para os irmãos sobre os cavalos que desciam a ladeira cuidadosamente para não escorregar.
Diferente da garota, Thomas não estava tão animado em vê-los. Procurava por uma forma de contar-lhes que teria de voltar ao castelo para viver com o temível monstro.
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