Do trono ao cadafalso
11 Capítulo XI
Notas iniciais
"Viemos passar alguns dias no meu castelo, pois creio que assim Sasuke e eu podemos ter mais privacidade. Bem, talvez essa não seja a palavra mais correta a ser empregada, todavia me causa alívio saber que estou longe das serpentes da Corte pelo menos por uns dias.
Nesse momento minhas damas de companhia enchem os baldes e conversam enquanto vão enchendo a banheira de cobre para o meu banho, diante da enorme lareira do meu quarto, e algumas acendem braseiras para esquentar o frio aposento. Estou ciente de que os criados de Sasuke fazem o mesmo nos aposentos do Rei.
Posso até imaginar o conteúdo dos comentários de minhas aias quando eu as dispensar de suas tarefas; Criados dificilmente são discretos, mas alguns fingem bem. É impossível impedir comentários sobre o Rei e a futura Rainha, uma vez que ambos levam suas vidas sempre às claras. Dessa vez não vai ser diferente, só fico constrangida de saber que todos saberão o que Sasuke e eu estamos prestes a fazer...
Posso explicar o porquê de minha mais recente decisão; Já escrevi sobre meu recém descoberto amor por Sasuke, meu sentimento é verdadeiro, eu sinto que serei feliz ao lado dele não somente porque me fará Rainha. Sasuke logo partirá para encontrar com embaixadores que são a favor de nossa união e também serão testemunhas dela, participarão de comemorações e torneios antes de retornarem para buscar-me a fim de ser realizado o casamento na Corte. Sasuke e eu decidimos jantar juntos hoje porque concordamos que no seu regresso e com o casamento haverá muita agitação, será difícil manter privacidade (...)"
– O Rei Sasuke e Lady Sakura tomaram banho ao mesmo tempo. — Disse Karui, uma das aias de Sakura.
A rosada havia acabado de dispensar as damas de companhia e agora algumas delas faziam comentários na surdina.
– Sim. — Outra aia, Ino, concordou — Ambos jantaram e beberam, pude sentir no hálito dela o cheiro de vinho. Era ainda cedo quando se recolheu e disse que queria tomar um banho.
– Quando fui procurar pela banheira, o mordomo do Rei me disse que os criados de Sua Majestade fizeram o mesmo pedido. — Karin completou — Quando regressei, a Marquesa cantava feliz, parecia de muito bom humor.
– Quando fui aquecer a água, ela fez um pedido. — Ino se manifestou novamente, falando em tom baixo para que Sakura não ouvisse de seu quarto — Pediu para que a água fosse salpicada com rosas perfumadas, óleos e essências antes que entrasse.
– Lady Sakura não é de uma beleza estonteante. — Karui disse com certo deboche — Muito magra, seios pequenos, pescoço fino. Gostaria de saber o que o Rei viu nela a ponto de quebrar o contrato de casamento com a Princesa Izumi.
– Ela tem uma beleza exótica e sabe usá-la. — Disse Karin — Me pediu que soltasse seus cabelos e escovasse até ficarem tão brilhantes quanto o cetim do vestido que ela escolheu para impressionar o Rei.
– Creio que Lady Sakura vai deitar-se com o Rei. — Ino comentou de forma maldosa, fazendo as outras aias ficarem um pouco sem jeito, coradas, então a loura tapou a boca com as mãos.
– Manteve-se virgem por todos esses anos, é o que diz. — Lembrou Karui — Por que não esperar? Não compreendo.
Em seu quarto, a rosada sentia-se muito bonita, pronta para seduzir mais uma vez o homem que teve na palma de sua mão por longos anos. Ao princípio da noite, ela atravessou a porta secreta entre sua câmara e a do Rei.
O monarca havia mandado servir, em seu quarto, um bela e farta ceia diante da lareira acesa. Já havia ordenado a todos os seus criados que saíssem, ofereceu ele próprio para Sakura uma cadeira estofada e serviu vinho em duas taças douradas cravadas com rubis. Parou ao lado da mulher que estava sentada em frente à mesa, inclinou-se e a beijou no pescoço.
– Teremos dois grandes Reis no nosso casamento, Sakura. — Disse com a voz rouca após afastar os lábios da pele macia e perfumada de Sakura — Deseja opinar sobre?
Sakura olhou nos olhos negros como pedras de ônix.
– Creio que dois é um número bom. Talvez um fosse suficiente.
Sasuke não conteve um riso, puxou uma cadeira para perto da dela, sentou, e logo bebeu um grande gole de vinho.
– Quer dizer que pouco faz diferença se outros Reis aprovam ou não nossa união em matrimônio?
– De modo algum. — Disse calmamente — Mas recentemente foi mostrado o grande poder de Sua Majestade, que conseguiu persuadir brilhantemente membros do Clero para então obter a anulação de um contrato que não tinha como ser anulado. O Rei tem grande poder e isso foi mostrado para todas as nações; Todavia, por que dividir tal poder com outros homens, mesmo sendo eles também Reis?
Sasuke refletiu um pouco, logo em seguida soltou um riso anasalado. A inteligência de Sakura era algo que o deixava admirado, tal como sua petulância e independência para opinar sinceramente sobre assuntos que não eram discutidos com uma mulher.
– Aprecio sua maneira de pensar, minha querida. — Ele pegou uma mecha dos cabelos rosados, sentindo aquela textura macia entre seus dedos — Beba.
Eles tocaram suas taças, então beberam vinho.
A ceia estava farta, mas Sakura não sentia fome. Estava nervosa, ansiosa, imaginando como seria o momento que por tanto tempo aguardou.
– Um brinde a Sasuke Uchiha, o maior Rei que este país já viu, aquele que não teme a ninguém.
As palavras da rosada fizeram inchar o ego do monarca, de forma que ele pareceu ainda maior do que realmente era.
Seu coração parecia querer saltar de seu peito, sentir que estava na presença de alguém tão imponente e de tão fina inteligência a deixava empolgada. Estava completamente apaixonada pelo homem que por tantas vezes se mostrou capaz de mover o mundo por ela. Sakura sentia que ele realmente iria fazê-la feliz.
– Vamos apreciar esse magnífico vinho, meu amor. — Ela esboçou um sorriso em seu rosto — Depois, poderá me tomar de corpo e alma em seu grande leito.
Sasuke não escondeu sua surpresa. Depois de tanto tempo lutando para se manter virgem, Sakura estava realmente disposta a entregar-se completamente antes do casamento?
– Aqui? Agora? — O homem uniu as sobrancelhas — Antes da nossa noite de núpcias?
– Sim. — Ela segurou na mão do Rei e depositou um beijo ali, logo em seguida a levou até sua face, onde Sasuke acariciou a bochecha corada com o dedão — Sasuke, durante quase quatro anos quebramos todas as regras, exceto uma. Sugiro que façamos agora. O que me diz?
Sasuke se pôs imediatamente de pé, pegou nos braços a mulher que tanto amava e a beijou nos lábios como se as vidas de ambos dependessem daquilo. Como uma ladainha, não deixava de pronunciar o nome de sua amada. Sakura queria que acontecesse, queria finalmente se entregar de corpo e alma, e o casamento já tinha data marcada.
Ela sempre quis se casar por amor, portanto sentia que seus sonhos estavam se realizando graças a Sasuke. Ele queria um filho, então ela estava disposta a realizar tal desejo.
(...)
Seria emocionante se Sarada não soubesse o fim da história. Por um tempo, quando começou a ler o diário, Sarada acreditava que Sakura havia se casado por pressão da família, por mera ambição, mas não... ela realmente se apaixonou por Sasuke. No final, foi uma mistura das duas coisas.
A morena não era próxima de seu pai, jamais pensou em vê-lo descrito da forma que Sakura o descreveu no diário. O Sasuke de quem Sarada se lembrava era frio, distante, embora fosse um pai carinhoso — do jeito dele — quando estava com a filha.
Sentiu um aperto no peito. Sasuke era seu pai, mesmo que tenha sido um monstro com sua mãe. Quando criança, antes de saber que sua mãe foi executada — obviamente que por ordens do Rei -, ela era obcecada pela figura do pai, o amava e admirava de todo o coração. Quando tinha um pouco mais de maturidade para compreender os boatos sobre sua mãe, em seu coração brotou um sentimento desgostoso por sua figura paterna.
Mesmo que tivesse a visão de seu pai como um tirano, Sarada não sabia disso quando o perdeu e sofreu muito com isso. Ela era a última Uchiha, sentia-se sozinha.
Sasuke, mesmo ainda sendo considerado jovem e forte, contraiu uma doença que se tornou intratável. Os médicos tentaram todos os remédios e tratamentos possíveis, mas Sasuke não conseguiu se recuperar veio a falecer, deixando sua filha ainda muito nova. Sarada continuou com seus tutores e governantas enquanto Konoha tinha um regente provisório — nomeado por Sasuke quando o monarca sentia que já não tinha muito tempo de vida — até que, como herdeira legítima, atingisse a maioridade.
Sarada jamais esqueceria da decepção que sentiu quando finalmente soube o que houve com sua mãe. Durante o reinado de Sasuke, todo e qualquer membro da Corte era proibido de falar sobre Sakura para sua filha, a única coisa que Sarada sabia era que sua mãe havia morrido. Saber que sua mãe havia sido executada, a mando de seu pai, fez a Uchiha se sentir completamente sem chão.
Seu pai era um monstro...
Agora, lendo o diário, Sarada sentia-se ainda mais horrorizada. Sakura amava Sasuke, não merecia o fim que teve...
Após enxugar as lágrimas teimosas, ela voltou novamente sua concentração para as folhas envelhecidas do diário.
"Creio que a vida zomba de mim! O que mais posso pensar ao recordar do que houve na noite passada? A que seria minha noite de glória, que me prometia uma satisfatória recompensa por quatro anos de sacrifício e castidade, tornou-se um verdadeiro fiasco!
Sasuke, o grande Rei, a personificação da virilidade, quando confrontado com o objeto dos seus desejos mais sinceros e ardentes, que lhe abraçava e beijava de maneira intensa e calorosa... falhou. Simplesmente falhou!
Pensei ter sido o excesso de vinho durante a ceia, pois Sasuke não economizou doses da bebida ontem à noite. Julgo que tamanha quantidade de vinho tivesse o objetivo de fazê-lo tomar coragem para um tão importante momento. Talvez se deva culpar pela tensão da espera por todos esses anos, da nossa viagem e do cansaço causado por ela. O que mais temo é que ele tenha olhado para mim, finalmente nua por completo em sua cama, me encarando como se eu fosse uma vítima assustada, como uma pomba que com os olhos inocentes suplica por uma morte suave... tal visão deve tê-lo feito gelar imediatamente.
Nem a necessidade de um herdeiro fez reacender o fogo do soberano, fogo esse que logo foi apagado com minha rendição... sim, eu desisti de tê-lo quando mais desejava. Senti-me frustrada. Mas não houve o que fazer, e tentei, inicialmente com brincadeiras que já fazíamos intimamente para saciar nossos desejos.
Sasuke pareceu-me cansado, rendido, sem possibilidade alguma de reparação. O Rei pareceu tão frustrado quanto eu; Não conseguia encarar meus olhos marejados, não pelo meu total desapontamento, mas pela tristeza estampada no rosto de meu amado.
Desse modo, o Rei e a futura Rainha passaram separados a noite de sua rebelde união. Eu no espaçoso leito, ele numa cadeira próxima à janela (...)."
Quando a luz da manhã obrigou a rosada a abrir os olhos, o Rei já havia deixado o quarto. Ainda um pouco frustrada, Sakura não chamou por suas aias, esforçando-se para vestir os volumosos metros de cetim preto que formavam seu belo vestido.
Pôs uma expressão falsa no rosto — esbanjando satisfação -, como se fosse capaz de usar uma máscara para esconder sua verdadeira identidade.
Regressou para seus aposentos demonstrando disposição, encontrou com suas aias paradas em frente à porta de seu quarto, onde não passou a noite.
As três mulheres riram e cumprimentaram a Marquesa.
Pelos olhares tão humildes quanto tímidos de suas damas, Sakura notou que o Rei havia colocado uma máscara de leão triunfante ao se levantar e que agora todos sabiam que a ligação do Rei com a futura Rainha era um fato consumado, então o futuro de Sakura no trono estava garantido.
Todavia, mal sabiam que a coroa ainda não estava segura na cabeça de Sakura, visto que nada havia sido consumado na noite anterior e ela permanecia virgem.
– Podem me informar o paradeiro do Rei? — Indagou a Haruno.
Os cabelos rosados estavam soltos e um pouco bagunçados, visto que as madeixas eram muito longas e Sakura sempre precisava de alguém para ajudá-la a arrumar.
– O Rei partiu ao amanhecer. — Informou Karin — Saiu a cavalo, com um batalhão de homens.
– Provavelmente foi se encontrar com os embaixadores. — Ino completou.
– Ah, claro. — Assentiu a Marquesa — Estou um pouco cansada, quero que tragam minha primeira refeição em meu quarto.
As damas assentiram, e com isso Sakura seguiu para seu quarto sozinha.
Sentia que seu coração era pesado como chumbo! Por que anos de tão grandes esforços foram retribuídos com tão pequena recompensa?
Ninguém poderia saber do declínio de Sasuke. Absolutamente ninguém, nem mesmo Karin, amiga e confidente de Sakura.
A futura Rainha tinha esperanças, julgava tal fraqueza como temporária. Talvez Sasuke precisasse do sólido casamento legítimo para obter sucesso ao consumá-lo. Mas Sakura também pensava que com esse negro fracasso poderia ter nascido dentro do Rei uma coisa monstruosa e que nenhuma união legítima com ela poderia apagar. Como uma semente doente plantada, que ameaça brotar, mas para originar uma horrível trepadeira que sufoca a vida do amor.
Sakura estava disposta a afivelar em seu rosto uma máscara de felicidade até que sua imagem no espelho enganasse a si própria. Tinha sua postura com firmeza e mantinha os olhos fixos no futuro... para o melhor ou para o pior, os anos haveriam de revelar o que a esperava.
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