Do trono ao cadafalso
12 Capítulo XII
Notas iniciais
Os conselheiros estavam confusos. Sarada certamente não os havia convocado para dizer que finalmente pretendia se casar. A Rainha estava reunida somente com Mitsuki, Shikadai e Boruto.
Sentada em sua confortável poltrona, Sarada encarava os três homens de pé em sua frente, todos pensativos e igualmente preocupados.
– Quero abrir uma nova investigação. — Ela se manifestou — Sobre Sakura Haruno.
Os três homens se olharam, os dois conselheiros e Boruto. O loiro era mestre de cavalaria da Rainha, uma posição de muito prestígio -o que exigia extrema presença pessoal da monarca -, ele também organizava suas aparições públicas, progressos e entretenimento pessoal. Tal posição lhe convinha perfeitamente.
– Sakura Haruno está morta há cerca de quinze anos. — Shikadai respondeu — Abrir uma investigação agora seria algo extremamente trabalhoso.
– Não importa quanto tempo leve. — Respondeu a monarca — Ainda vivem na Corte pessoas que conheceram Sakura, que conviveram com ela... Não importa o tempo que leve, quero que investiguem.
Por não haver registros do julgamento de sua mãe, Sarada queria que provas concretas fossem apresentadas contra ela caso fosse realmente culpada. Seria difícil, mas não impossível.
– Abrir e dissecar antigas controvérsias sobre a condenação e execução de Sakura Haruno seria imprudente. — Aconselhou Mitsuki — Isso certamente causaria um imenso alvoroço.
– Sim, Majestade. — Boruto assentiu, concordando com Mitsuki — Não sou conselheiro, mas a Rainha me chamou até aqui, então vou expor minha humilde opinião. Bem, monarcas de outros países estão assistindo curiosos e com interesse todos os movimentos, todas as decisões da primeira Rainha regente de Konoha. Um escândalo agora, no início do reinado, com certeza seria um passo para manchar vossa imagem.
— E isso não é tudo. — Disse Shikadai — Adentrar o passado poderia inclusive lançar mais dúvidas sobre a dinastia Uchiha e vosso direito de governar.
– Meu direito de governar? — Sarada estreitou os olhos — A coroa é minha por direito, sou filha de meu pai, o sangue dos Uchiha corre em minhas veias!
– Há quem diga que o casamento de vossos pais era inválido. — Mitsuki falou com certo receio — Vossa posição no trono ainda é frágil, portanto uma investigação sobre a condenação de Sakura pode gerar controvérsias.
– Aceita um conselho de um amigo, Majestade? — Boruto questionou e Sarada imediatamente assentiu — Cremos que sois herdeira legítima do trono. Existe um documento feito na época do casamento de vossos pais, onde Sasuke legitimou toda a linhagem de Sakura. Embora muitos creiam que o casamento foi anulado com a execução de vossa mãe, ainda sois legítima.
– Não acha que seja necessária uma validação, para que assim não questionem mais minha legitimidade? — Indagou a morena.
– Não, Majestade. — Shikadai negou — Contudo, a vida de Sakura, tal como sua morte, gera polêmica e controvérsias. — Explicou — Por isso muitos não apoiam vossa Majestade no trono, não somente por ser uma mulher, mas por ser filha de Sakura Haruno.
– Não sou uma bastarda! — Exclamou irritada — Posso favorecer uma abordagem mais razoável, que ajude a garantir a estabilidade de meu reino. Por enquanto posso deixar de lado a idéia de encomendar uma investigação completa, mas quero que meu lugar no trono esteja firmado!
Muitos monarcas de países vizinhos e tão influentes quanto Konoha questionavam a legitimidade de Sarada. Pelo fato de a dinastia Uchiha ter ligações familiares — mesmo que distante — com outras dinastias, muitos conselheiros temiam que algum outro Rei se achasse no direito de tomar a coroa de Sarada por julgá-la uma filha bastarda de Sasuke. A questão é que, por Sakura ter sido executada, havia quem cresse que o casamento estivesse então anulado, fazendo de Sarada uma bastarda Real.
– Majestade... — Mitsuki se manifestou — O Parlamento poderá elaborar um estatuto que confirma vosso direito sobre o trono de Konoha.
– Ótimo. — Ela sorriu de canto — Quero também que elaborem um ato, declarando que sou a única herdeira de minha mãe, o que dessa forma me dará direito de herdar suas propriedades perdidas para a coroa com a sua morte. Quero também ter em arquivo o documento que tornou nulo o noivado de Sasuke com Izumi, tal como o documento que sancionou seu casamento com Sakura; Quero tudo em arquivo para o caso de precisar provar minha legitimidade.
– Como desejar, minha Rainha. — Disse Mitsuki.
Talvez eles estivessem certos, remexer na história da condenação de Sakura poderia trazer questões delicadas sobre a legitimidade do casamento de seus pais. Por enquanto tal assunto ainda era delicado, Sarada estava no início de seu reinado. No entanto, queria descartar qualquer possibilidade de perder seu direito de governar.
– Quero tratar de outra questão. — Disse a Rainha — Quero transladar o corpo de minha mãe. Quero dar a ela um enterro decente, com ritos funerários para honrar sua memória.
– Bem... — Boruto disse desconcertado — Majestade, sequer sabemos onde vossa mãe está enterrada.
– Provavelmente está enterrada nas redondezas do seu local de execução. — Respondeu — Creio que meu pai não se preocupou com o enterro dela, o próprio carrasco deve ter dado um destino ao corpo, ou suas aias.
– Muitos condenados também estão enterrados por lá, minha Rainha. — Shikadai falou naturalmente — Não haveria como saber qual corpo é o de vossa mãe. Sem falar que isso também geraria uma controvérsia judicial.
Sarada soltou um longo suspiro. Não poderia abrir investigações para obter provas contra ou a favor de sua mãe, da mesma forma que não poderia procurar por seus restos e enterrar num local decente.
Continuava no escuro, sem saber de nada além do que estava escrito no diário.
Dispensou seus conselheiros, ficando sozinha com Boruto. Era claro para ele o quanto a Rainha estava frustrada, tentava se colocar no lugar dela e imaginar todo o seu sofrimento.
– Sinto muito, Sarada. — Disse cabisbaixo.
– Não sinta. — Ela riu sem humor — Não tem culpa de nada, Boruto.
– Eu queria poder ajudar.
– Eu queria poder saber sobre minha mãe por outros ângulos, não somente pelo que está escrito no diário. Todavia, parece que é o único recurso que tenho.
Ela se levantou e saiu, deixando Boruto sozinho. O loiro estava preocupado com Sarada, mas conseguia compreender seu sofrimento. Ela precisava de espaço.
Voltou para seu quarto, trancando em seguida a porta. Sozinha, pegou o diário que foi de sua mãe e novamente pôs-se a lê-lo de onde havia parado...
"Minha estrela brilha reluzente como nunca antes. Dizem que o povo já amava Izumi, mas na verdade tinham apenas pena dela, pois celebravam-me como nova Rainha. Depois de anos de espera, meu casamento com Sasuke finalmente aconteceu e na mesma noite foi consumado. Agora somos um, marido e mulher, de corpo e alma.
Nosso casamento foi uma cerimônia simples, contou com poucas testemunhas. Tudo ocorreu no mais profundo silêncio; Todavia, semanas depois do casamento, minha coroação foi o momento mais majestoso de minha vida, talvez o mais majestoso deste país. Sasuke cuidou de cada detalhe, meu vestido púrpura bordado com pedras preciosas e meu manto de arminho deixavam mais do que claro que meu lugar agora é a realeza. Jamais esquecerei este momento...".
Sakura estava casada e, agora, coroada. Era oficialmente Rainha Sakura.
Nunca, no reinado de Sasuke, havia sido dada uma festa daquela magnitude. O banquete dado após a coroação de Sakura era realmente impressionante e contava com a presença de vários nobres, embaixadores e até mesmo Reis.
No entanto, Mikoto e Shion não estavam presentes, mas Sasuke não se importou, pois julgava que logo sua mãe e sua prima aceitariam sua esposa.
Sakura estava sentada ao lado do Rei, como Rainha, no local mais privilegiado do grande salão, na mesa destinada para Sasuke e as pessoas mais íntimas dele.
Os Cortesãos dançavam e se divertiam, muita comida era servida, Sakura estava feliz como nunca antes.
– Não quer dançar? — Sasuke perguntou no ouvido de Sakura por conta da música alta, estranhando o fato de que ela estava sentada desde que chegou e até então não o tinha chamado para dançar.
– Hoje não. — Respondeu com um sorriso e as bochechas coradas.
Sakura nunca havia se sentido tão linda e também realizada. Seu vestido era do mais caro veludo púrpura, após a coroação teve retirado o manto de arminho, mas as mangas de seu vestido também eram de arminho, que era usado somente por membros da realeza. Os cabelos estavam soltos, usava uma coroa dourada, tal como Sasuke. Usava colares de ouro com pérolas, tal como seus brincos e anéis.
– E por que não? — Sasuke questionou — Você adora dançar. — O moreno desviou o olhar para a taça dourada ao lado do prato da nova Rainha, então estranhou o fato de que ela ainda não havia bebido nada — Sequer tocou no vinho que lhe servi. Mal tocou na comida também.
– Estou evitando o vinho. — Respondeu — Também enjoei de caça.
– Mandei que servissem javali, pois sei que gosta muito. Tem coelho também, se preferir.
Sasuke se sentiu um pouco ofendido pela Rainha, pois teve o capricho de mandar preparar tudo que ela gostava para o banquete, mas Sakura mal havia tocado na comida.
– Não. — Ela negou com a cabeça, mas permaneceu com um sorriso no rosto — Por enquanto quero apenas ovos de codorna, Majestade.
– Ovos de codorna? — Indagou — Pois bem, mandarei que lhe sirvam ovos de codorna.
E assim ordenou. Não demorou para que um criado trouxesse para a nova Rainha uma bandeja com diversos ovos de codorna cozidos.
Faminta, mas com toda a classe do mundo, Sakura comeu os ovos que lhe foram servidos.
– Estão ótimos. — Elogiou.
– Eu não sabia do seu apreço por ovos de codorna. — Sasuke comentou, fazendo Sakura rir.
– Nem eu. — Disse ela — Mas, por algum motivo, desejo ovos de codorna mais do que qualquer outra coisa.
Sasuke via claramente a empolgação de sua esposa, assim como via um certo brilho infantil em seu olhar. Ele sorriu.
– Por algum motivo? — Questionou.
O rubor das bochechas de Sakura não passaram despercebidos nem por quem estava longe.
– Um herdeiro está chegando, Majestade. — A felicidade de Sakura era quase palpável, ela não fazia questão de esconder.
Sasuke arregalou os olhos, não sabia como reagir. Estava casado há algumas semanas, não imaginava que Sakura fosse conceber tão rápido. Isso com certeza o alegrou.
Sakura era a única filha de Mebuki, seu histórico familiar de fertilidade não era muito bom, principalmente para uma Rainha consorte cuja principal função é a produção de herdeiros saudáveis. Esse foi um dos pontos discutidos para tentar fazer Sasuke desistir do casamento. No entanto, Sakura facilmente conseguiu conceber uma criança, mostrando-se fértil. Ela era bem jovem, Sasuke também, com certeza a gestação tinha tudo para ser um sucesso.
– Quando descobriu? — Ele questionou.
– Ontem. — Respondeu — Eu vinha sentindo enjôos, meu sangue não veio esse mês. Ontem o médico me confirmou, mas implorei para que não lhe contasse nada. Eu queria dar a notícia, e julguei que hoje seria perfeito.
Sasuke esboçou um largo sorriso. Ao contrário do que muitos diziam, sentia que seria feliz com aquele casamento. Sua esposa era oficialmente uma Rainha e dentro dela crescia um príncipe.
Contente com a notícia de que seria pai, Sasuke segurou na delicada mão de sua esposa e ali depositou um beijo.
– Obrigado por isso, Sakura. Espero que venha saudável e, a partir de hoje, todas as noites pedirei para que venha um menino.
Sakura abaixou o olhar.
– E se vier uma menina? — Indagou com a voz triste.
– Vamos pedir por um menino, sim? — Sasuke mostrou um delicado sorriso, beijando a bochecha de sua esposa em seguida — Eu preciso de um sucessor.
– Ainda viverá muito, portanto não há pressa. Ainda é jovem, Sasuke.
– Preciso preparar meu filho para suceder-me quando eu morrer. — Respondeu seriamente — Portanto, quanto antes você trouxer meninos ao mundo, melhor.
– Meninos? — Uniu as sobrancelhas.
– Sim. — Assentiu — As meninas não são tão úteis. Podem ser usadas como peças num jogo diplomático, mas não são úteis para a sucessão. Meninos podem receber diversos títulos, mantendo cargos importantes nas mãos da coroa. Também não podemos nos esquecer de que todos estamos sujeitos a enfermidades... veja o exemplo de Itachi, que era o primeiro na linha de sucessão após meu pai e que ao menos chegou a se tornar Rei. Isso quer dizer, Sakura, que precisamos não só de um herdeiro varão, mas de um sobressalente.
Sakura sentiu medo. Pela primeira vez sentia o peso de sua posição como consorte, tal como sua importância para a sucessão do trono de Konoha.
Conhecia o histórico de sua mãe. Mebuki teve somente uma filha que sobreviveu à infância, porém deu à luz mais crianças além de Sakura. Ao todo, Mebuki trouxe ao mundo cinco crianças, duas nasceram mortas, duas morreram com poucas semanas por conta do baixo peso e outras complicações. Apenas Sakura, a quarta criança, uma mulher, sobreviveu. Ela temia ter herdado isso de sua mãe, temia não conseguir dar para Sasuke os herdeiros que ele necessitava e, por conta disso, temia perder sua posição.
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