Notas iniciais
Olá olá pessoas,tudo bem com vocês? Enfim consegui começar a escrever algo que passou semanas na minha cabeça,surgida de uma inspiração repentina,mas que,conforme eu pensava nos detalhes do roteiro,mais me apaixonava pela história. Espero que todos possam ter esta mesma sensação em algum momento deste conto. AVISO IMPORTANTE: Os primeiros dois capítulos contém um vocabulário mais técnico,que foi necessário para o devido desenvolvimento,fato que me requeriu muita pesquisa em vários assuntos e que,com certeza,não é de conhecimento geral. Tentei deixar o mais simplificado possível em alguns diálogos mas,em todo o caso,deixarei um glossário ao final,para que possam aproveitar ainda mais a experiência de verossimilhança com realidade que quero passar por aqui,uma vez que o ambiente retratado é um Universo Alternativo ao apresentado na série. Tenham uma boa leitura!

Saíra bem cedo de casa,correndo apressada pela região central da cidade. A mochila,que ocasionalmente batia pesada contra suas costas,levava todo o arsenal de sobrevivência da jovem que a carregava,afinal,passar semanas no mar não seria tarefa fácil. Sentia o suor começar a escorrer em um filete único por seu pescoço,mas precisava acelerar: Estava a poucos quilômetros do ancoradouro,já podendo visualizar alguns de seus companheiros de viagem embarcando,carregando mantimentos na parte posterior do navio. Acenou frenética,gritando quando finalmente pisou na areia com a bota de proteção e,eventualmente,afundando na parte fofa mais afastada do mar.

— Alya! — A morena,que estava carregando uma caixa já dentro da nau,virou-se para contemplar a garota que corria em sua direção — Alya!

Ela acabou largando o caixote no chão,acenando de volta e ajudando a garota a subir quando esta se aproximou o suficiente — Caramba,Marinette,que demora! Pensei que não vinha mais!

— Desculpa,eu tive problemas com o despertador! Mas agora estou pronta para… — Assim que subiu pela escada lateral,Marinette jogou-se ao chão,respirando ofegante,sentando-se segundos após conseguir recuperar o ritmo respiratório.

— Para correr 5 km sem respirar e quase ter que vir nadando até o navio? — Alya ria debochada,afinal,não era sempre que a via chegar de maneira tão desesperada,causando uma situação cômica de derrota. — Fica tranquila,o pessoal já sabe que você chegou.

— Ah,obrigada! — Ela tomou mais fôlego antes de prosseguir,sentindo suas pernas tremerem de leve e,assim, finalmente criar coragem para se levantar de novo — Mas quando você avisou..?

— Não sei,talvez quando te vi atravessar a última avenida igual a uma maluca? — Marinette emitiu um riso descontraído,sutil — Sério,quase achei que dessa vez você seria atropelada!

— Mas não fui! E agora,nada vai me impedir de cumprir meu serviço! — Ela deu um sorriso largo e amistoso á amiga,sinalizando com a cabeça para o lado — Vamos,preciso guardar minhas coisas no quarto!

Logo que o navio começou a acelerar,ambas desceram a pequena escada mais á frente,em alguns lances,até chegarem ao piso inferior,onde haviam cabines marcadas com numeração nas portas. Caminharam pelo corredor até uma que demarcava o número 7 onde,ao abrirem,detiveram visão de duas camas de solteiro,uma em cada lado do cômodo com cômodas solitárias á frente do pé das respectivas,uma pequena mesa com uma cadeira de madeira e,logo acima,uma escotilha, na qual tinha-se à vista o mar azulado por onde percorriam e,ao fundo,as sombras das últimas construções da cidade que deixavam. Os olhos azuis da jovem atrasada recaíram sob a cama da esquerda,que era a única ainda vazia e,rapidamente,apoiou a mochila no chão,retirando um conjunto de lençóis e cobertor,cobrindo com eles o local onde dormiria,enquanto sua companheira de quarto terminava de guardar suas roupas da mochila na cômoda firmemente fixada. Marinette fez o mesmo e,após terminarem de arrumar o ambiente com seus pertences,resolveram subir para a ala superior,dispostas a averiguar a situação do dia que se iniciava.

Marinette e Alya trabalhavam juntas desde a faculdade,sempre se encontrando coincidentemente,até que da convivência nasceu uma bela amizade. Enquanto Alya era apaixonada por Biologia,tendo se especializado em Biologia Marinha nos últimos anos,Marinette cursou Oceanografia: Impulsionada por sua paixão pelos oceanos desde pequena,queria entender sobre a sua grandeza,seus mistérios e,o mais importante,compreender como algo tão extraordinário poderia ser tão imprevisível,mesmo aos estudiosos mais experientes,que observavam um padrão,como em tudo que a natureza detinha poder. Era majestoso como a vastidão do próprio céu,mas suficiente para colocar todo o seu coração no que fazia.

Assim que saíram,cada uma seguiu para uma parcela do Navio,afim de verificar suas tarefas iniciais: Alya foi para o sala central de cuidados á vida marinha, enquanto Marinette seguiu para a cabine de navegação.

Seus serviços em alto mar eram extremamente necessários. Marinette juntou-se à ONG de proteção aos Oceanos a cerca de dois anos,quando começaram a montar expedições de patrulha permanente ao redor do mundo e,de imediato,viu-se a necessidade de contratar especialistas das mais diversas áreas,sendo uma delas a Oceanografia: Aquela que detém conhecimento sobre os mares,da navegação ás correntes marítimas,da vida marinha ás composições e interações físico-químicas de cada centímetro submerso. Logo que conseguiu a vaga,indicou Alya e Nino para fechar o quadro e,para sua surpresa,ambos foram chamados. Sem dúvidas,seriam uma equipe imbatível.

Quando finalmente destrancou a porta de metal,aplicando certa força para movê-la,adentrou a sala cheia de equipamentos,olhando cautelosamente para os lados.

— Tá procurando a Alix, Marinette? — Ivan a fitou curioso,em frente ao leme que guiava,enquanto bebericava ocasionalmente sua caneca com café,que preenchia a sala com o cheiro único.

Ela se aproximou — Na verdade,vim ver como estão as coisas... Quero saber um pouco sobre o trajeto antes de achá-la !

— Bom,a princípio,o barlavento está á sudoeste da costa,em 20 nós. — Ele girou parcialmente a cabeça,observando veloz um pequeno tablet que lhe fazia companhia na mesa — Estamos em cerca de 43.67 graus de latitude,a 44 graus Nordeste. Seguiremos até Antibes no primeiro curso.

Marinette acenou positiva — Perfeitamente,capitão Bruel. Mas não seria melhor acelerar até 30 nós? Acho que o navio está bem devagar…

— Certo... — De repente,a embarcação deu um leve tranco,aumentando sua velocidade gradativamente. — Melhor?

— Muito melhor! — Marinette emitiu uma risada singela,avistando a moça de cabelos cor de rosa adentrar o recinto e se afastando em direção á mesma — Alix,como vai?

— Ah, Marinette,chegou em boa hora! Preciso te mostrar uma coisa!

Alix Kubdel era a meteorologista do navio,responsável por estudar os climas e prever o tempo em alto mar,trabalhando com Ivan na cabine de comando central do navio. Curiosamente,Ivan era um verdadeiro especialista em navios,tendo até mesmo projetado o modelo utilizado no momento,e sabia,mais do que ninguém,como combinar as manobras com as instruções meteorológicas precisas sobre regiões mais seguras.

Marinette seguiu a especialista até uma mesa extensa mais ao canto,onde diversos papéis enrolados se destacavam em meio á bagunça deixada. Alix puxou dois rolos,com marcações adesivas vermelhas na borda,desenrolando-os gradativamente sobre os demais. — Tá vendo isso? São os resultados que obtivemos nos últimos 3 meses… Me diz se não tem algo errado nisso?

Marinette estreitou o olhar,se abaixando para observar melhor os dados enquanto processava a informação súbita — Parece que entramos em época de passagem da La Niña mais cedo.

— É pior. Essa alteração climática bizarra aconteceu faz pouco tempo,mas foi o suficiente pra causar um resfriamento anormal das águas da região até perto do estreito de Gibraltar. O que mais me chamou atenção é que,como você disse,parece a passagem de um evento do porte da La Niña,mas que não deixou nenhum rastro de origem... — Ela coçava o queixo,apoiando seu cotovelo no outro braço,intrigada com a situação.

A de cabelos escuros levantou as sobrancelhas — Isso,com certeza,não é normal...

— Pode crer... Ainda não sei que consequências vão vir disso,mas eu vou ficar alerta. Qualquer novidade te aviso! — Assim que terminou a explicação,recolheu as folhas,colocando-as em um canto separado e sentando-se em frente a um computador,que estava sintonizando as informações de um balão meteorológico.

Marinette agradeceu e rapidamente se retirou, retornando para as áreas comuns do navio,buscando outras atividades para fazer em sequência.

Enquanto isso,no laboratório, Alya passava de um lado a outro da janela retangular,esperando achar a loira em meio a tantas pessoas que usavam o mesmo equipamento de biossegurança. Nino,que estava responsável pelos animais em tratamento no navio,solicitou exames para alguns materiais coletados nas espécies,por um motivo que ele preferiu não dizer,o que incomodou a Césaire por um longo tempo: Ela sabia que ele estava escondendo algo e queria descobrir o que era.

— Tava me procurando,Alya? — Quando escutou a voz,a bióloga desgrudou o rosto do vidro,sorrindo amigavelmente para a pesquisadora. Mylene Haprèle era a bioquímica que comandava o laboratório e, freqüentemente,verificava a fundo qualquer possível problema que aparecesse sem explicação visível, literalmente falando. — O Nino acabou de me ligar,avisou que você ia trazer as amostras que ele precisa que eu veja.

— Eu não faço ideia do que tá acontecendo,Mylene. Ele mal deixou eu me aproximar dos doentes,precisei ficar cuidando dos últimos que encontramos perdidos no meio do petróleo,por conta do incidente com o pesqueiro ilegal,acredito que você se lembre… — A morena entregou a caixa fechada com os tubos de ensaio dentro,cautelosa — Enfim,quando os resultados estiverem prontos,pode mandar direto pro biotério.

— Sem problemas! — Ela estava calma,mas ainda assim preocupada pelo nervosismo aparente da colega de trabalho. — Sabe,talvez o Nino não queira te falar porque talvez tenha medo de que algo lhe aconteça,caso estejam lidando com um contágio grave. — Alya a olhou espantada,pronta para dar uma resposta convincente,digno da ativista pelos animais que era,mas Mylene fora mais rápida. — Ou talvez ele esteja creditando isso a uma doença,mas não tem certeza,e não quer te preocupar antes de confirmar a própria teoria.

A morena suspirou,derrotada. — Talvez seja,mas ainda assim não se justifica! Eu sou tão qualificada quanto ele para tratar dessas coisas e,quando há ameaça de risco,a gente precisa isolar os animais em quarentena,dependendo do que for... Mas prefiro esperar os resultados ficarem prontos para dar uma bronca nele,dessa vez com um bom motivo! — A cientista riu,deixando a de óculos mais confortável. — Bem,eu vou voltar pro centro. Tenha um bom trabalho,Mylene!

— Igualmente,Alya! — A pesquisadora levou a caixa para dentro,logo após colocar o restante do uniforme de volta,e abriu para verificar o conteúdo,balançando cada amostra lentamente para os lados,notando uma substância amarela no fundo dos tubos de ensaio com sangue. — Mas o quê...? — Devolveu as amostras para o devido lugar e adentrou a sala esterilizada,repleta de dúvidas sobre o conteúdo que lhe fora entregue.

Quando a noite caiu e,enfim,todos cessaram suas atividades, Alya e Marinette retornaram ao quarto e,após um rápido banho, deitaram-se em suas camas. Para um primeiro dia de navegação,houveram muitas situações inesperadas e,mesmo com o período de silêncio que predizia o cansaço das duas, aquela conversa com Mylene ainda incomodava Alya.

— Tá acordada, Marinette? — A morena virou-se para o lado,conseguindo visualizar a sombra da amiga que encarava o teto,graças á luminosidade da lua.

— Sim,Alya. Tô pensando em uma coisa...

— Você também,amiga? — Ela apoiou a cabeça sob a mão,colocando o cotovelo no colchão. — Me conta,que que houve?

— A Alix me mostrou uma coisa hoje cedo... Parece que houve um resfriamento súbito no oceano em uma região muito grande,indo até próximo da Espanha… — A mestiça virou a cabeça,encarando a amiga do outro lado. — Nem ela nem eu conseguimos descobrir o que é ainda,mas eu não tô com um bom pressentimento...

Estava estarrecida com o comentário,mas tentou não transparecer. — Resfriamento súbito? Mas sem nenhum motivo?

— Parece que sim… O pior é que também não dá para rastrear a origem disso,porque parece vir de todos os lados,do fundo... — Sua voz começou a oscilar e ela decidiu deixar para contar os detalhes quando estivesse mais disposta. — Mas e você, aconteceu algo diferente?

Alya respirou fundo,tomando coragem. — Parece que os animais doentes que resgatamos na região de Marselha estão com algum problema mais sério... Eu não sei se foi devido ao vazamento de petróleo ou se aquele maldito navio irregular estava com água de outras regiões e trouxe alguma espécie nova predatória doente junto,mas o Nino não me deixa chegar perto… — Marinette emitiu um som de desânimo,entendendo o receio da amiga. — Eu sei que ele quer me proteger de algo com um risco iminente,mas eu preciso saber se eles vão conseguir se salvar ou não! Ficar com a dúvida me aflinge mais do que me contaminar…

— Ele é um namorado cauteloso,Alya,mas tenho certeza que você vai saber quando for a hora,não acho que ele esconderia algo de você se não fosse realmente importante. Além disso,vocês já passaram poucas e boas,certeza que logo descobrirão o que está acontecendo!

— Tomara,amiga. Infelizmente acho que deve ter algo relacionado com o efeito nas correntes marítimas que você me contou… — Ela voltou a deitar,com o braço já cansado da posição antiga. — Mas o Nino é superprotetor às vezes mesmo. E não tô falando nem de mim,mas sim das tartarugas!

Marinette acabou rindo do comentário — Com você também, futura Alya Lahiffe! Acho mesmo é que vocês têm uma boa sintonia trabalhando juntos! — Alya lançou uma almofada em sua direção,visivelmente envergonhada,fazendo-a rir ainda mais. — É verdade,Alya! Ou vai me dizer que você não pensa em continuar com ele?

— Mas é lógico que sim,Marinette… É que é muito estranho ainda ouvir isso,aliás,nem sei se vou trocar o meu sobrenome se a gente vier a casar algum dia. Hoje em dia dá pra escolher até isso! — A mestiça concordou alegre,com um bocejo. — E você,senhorita Dupain-Cheng,não tem nada pra me contar? Na última expedição você me disse que tinha um encontro quando voltasse… Como foi? O cara era legal ou um completo idiota? Ele sabia a diferença entre maré e onda,pelo menos?

— Ah,é,eu não te contei! Bom,eu saí com ele sim,mas foi meio… Sei lá,não foi o encontro que eu esperava... Era um artista plástico todo alternativo,que nem sequer gosta de praia, não combinávamos em nada! — Alya assinalou positiva,ainda atenta á história. — Acabei ficando com um ou outro depois,durante uma viagem mais extensa a Saint Tropez,mas um deles foi até que interessante,eu diria… Era um músico,muito gentil, de conversa muito agradável e, sinceramente,tinha um beijo daqueles! Acabamos ficando só algumas semanas,preferi não criar esperança,afinal,eu trabalho no meio do mar,quase dois terços do ano… Não teríamos tempo juntos! Ás vezes eu me sinto mal por isso,sempre acho que não vou conseguir escolher…

— Amiga,você sabe que pode mudar também,não sabe? Digo,tem outros espaços que você consiga conciliar melhor,passando mais tempo em terra do que em alto mar… Ou você pode acabar encontrando alguém que está na mesma situação,vai saber! Assim não teria que escolher,igual eu e o Nino!

— Tem razão,Alya. Eu já cogitei a primeira possibilidade,mas não queria me afastar do mar… Já me acostumei a essa rotina maluca que temos e,além disso,trabalhar no meio dessa coisa incrível que é o oceano me faz tão bem… Eu não gostaria de desistir disso tão cedo!

— Com cedo você diz perto dos 90 anos? — Ambas gargalharam,parando de súbito por lembrarem do horário tardio. — Tudo bem,eu entendo… Mas não esquenta a cabeça com isso,Marinette! Minha irmã sempre diz que,quando você está no seu caminho,as coisas fluem naturalmente e,se for para acontecer,você saberá a hora certa de tomar as decisões mais apertadas! — Ao ouvir um bocejo mais longo da companheira de quarto,ela resolveu encerrar a conversa. — Acho que é bom irmos dormir,senão você não levanta amanhã! Boa noite!

— Boa noite,Alya. E obrigada pelos conselhos,eu… Vou tentar.. Seguir…

— Faça o que o seu coração mandar,Mari...

E,rapidamente,ambas adormeceram. Afinal,mesmo que ainda não soubessem,precisariam de muita energia para o dia que se seguiria.

Notas finais
Glossário: Barlavento - Lado da embarcação que recebe o vento utilizado para se deslocar. Nó - Nó é uma unidade de medida de velocidade náutica equivalente a uma milhapor hora, ou seja,1.852 km/h. Assim, 20 nós correspondem a 37,04 km/h,enquanto 30 nós valem 55,56 km/h. La Niña - É um fenômeno oceânico-atmosférico caracterizado pelo resfriamento anormal nas águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Biotério - Viveiro em que se conservam animais em condições adequadas à utilização em experimentos científicos ou produção de vacinas e soros. Latitude - Latitude é uma coordenada geográfica que mede o ângulo entre o plano do equador à superfície de referência. A latitude mede-se para norte e para sul do equador, entre 90º sul, no Pólo Sul e 90º norte, no Pólo Norte. Se gostou do capítulo,deixe um comentário! Até o próximo!