Do amor ao oceano
2 Aquele navio de novo?!
Notas iniciais
Quando o sol escaldante da manhã finalmente apareceu,clareando aos poucos o céu obscuro da madrugada,Marinette acordou num impulso,devido ao susto proveniente de um sonho.
"Sentia seu corpo pesar,como se fosse devorado pela própria gravidade,lentamente caindo,o vento cortando sua percepção de espaço. Questão de segundos,a água gélida tomou o lugar do ar. Bolhas, bolhas e a luz cada vez mais ausente,mas respirar não parecia um problema,apesar de sentir o peso incomensurável enquanto seguia rumo ao fundo. Seria ali seu túmulo? Condenada a morrer afogada,completamente sozinha no paraíso submerso que ela tanto ajudou a proteger?… Quando a água finalmente invadiu seus pulmões,queimando-os lentamente,seu olhar começou a piscar com força,procurando se fechar definitivamente,um vulto negro circulou por seu entorno,acima de onde estava,forçando uma abertura brusca de seus olhos. Sentia que finalmente conseguia mexer o corpo e, agilmente,tentou retornar para a superfície,utilizando os últimos resquícios de ar que lhe sobrara. Quando o arredor começou a se agitar,abaixou a cabeça e notou a sombra se aproximar,semelhante a uma forma humana, emparelhando próximo de seu rosto e fixando seu olhar nela. Tinha as orbes verdes fluorescentes,tão brilhantes que pareciam iluminar ao redor. Seu rosto era recoberto por uma mancha negra,que ia do meio de sua testa até a ponta de seu nariz,lembrando algo como uma máscara. Aqueles míseros segundos em que se cruzaram,os quais davam a impressão de estar ali há horas,esgotaram quando sentiu os braços da criatura agarrar-lhe a cintura e,de súbito,a puxar para cima,em direção á superfície,lançando seu corpo para fora da água.
No instante que alçou voo, pôde sentir a gravidade desacelerar e, novamente, os raios de sol tomarem conta de sua pele ,conseguindo deste modo despertar."
O relógio apontava 5h30. Mesmo que tivesse quase meia hora de descanso restante, teria sorte em usar o banheiro antes dos demais,algo consideravelmente raro. Rapidamente pegou o uniforme próprio para dias mais quentes(composto pela camiseta,colete e uma bermuda pouco acima do joelho)numa das gavetas e,no momento em que o retirou, pôde ver a capa de couro marrom que guardava um dos seus bens mais preciosos: A primeira faca de mergulho.
Tocou-lhe devagar,sentindo a forma pontiaguda das laterais serrilhadas sobrepôr-se ao tecido. Havia ganho de sua avó no seu primeiro dia de aula na faculdade. A mulher que lhe apresentou o mar pela primeira vez,que a ensinou a nadar tão rápido quanto um peixe,que a incentivou a seguir seus sonhos mais intrínsecos,mesmo que eles parecessem impossíveis,alguém tão importante para ela quanto sua própria mãe... Qual não foi a sua surpresa quando abriu o presente e,ao vislumbrar a lâmina no canto próximo ao extremo, ver o apelido que apenas ela a chamava?
Para Marinette,
Minha rainha dos oceanos.
Tamanha nostalgia apertou-lhe o peito: Saudades. Ela não pôde contar como foi a sensação de navegar a trabalho,inaugurando um navio novo.
Ela não pôde contar como é mergulhar em mar aberto,nadar com os peixes e explorar os recifes pela primeira vez na vida.
Ela também não pôde vê-la no dia de sua formatura,assobiando com os dedos em comemoração por sua conquista,como sempre fazia em dias de festa.
Porque a perdera de maneira cruel na semana de seu aniversário,havia 3 anos.
Resolveu retirar o objeto do lugar e,segurando firme em seu cabo,alocou a arma branca na bainha que estava presa ao seu quadril. Tinha a sensação de que precisaria mantê-la por perto e,alarmada, acabou despertando da viagem momentânea,indo rapidamente trocar de roupa no banheiro antes que a amiga acordasse.
Quando o despertador finalmente tocou,Alya levantou rápido,sendo surpreendida por Marinette já pronta á frente da porta.
— Bom dia,bela adormecida! Dormiu bem?
A morena a encarou estática,levemente sonolenta
— Mas você já está pronta? Geralmente sou eu quem acorda mais cedo…
— Não dessa vez! Vê se não demora,vou te esperar para subir. — Disse,lançando a chave de acesso do banheiro feminino para a outra,e sentando na escada até o horário propício.
Logo que as duas chegaram ao convés superior,uma voz masculina chamou-as ao longe,podendo se ouvir os passos acelerando em direção à dupla.
— Cuidado aí,Nino! — A mestiça desviou para o lado,quando percebeu que o rapaz trombaria devido a uma desatenção do mesmo — Vai acabar caindo do navio qualquer dia!
— Desculpa,Marinette! Eu tinha que trazer os relatórios pra vocês,é uma situação um pouco urgente…
Alya encarou o parceiro com uma sobrancelha arqueada: Problemas. — O que houve?
Nino carregava calhamaços consideráveis no braço,separados por nomes. Parece que teriam bastante serviço.
Nino entregou dois blocos distintos para Marinette,separados por clipes,onde se via nos títulos " Correntes Marítimas Anormais" em um e "Anomalia Ambiental" no outro. Para Alya,um outro bloco considerável com o título de frente escrito "Biópsia das espécies de risco". Ambas o encararam de volta,exigindo silenciosas explicações,afinal,mal haviam entrado no mar para estarem numa situação daquelas.
— Bem,é o seguinte: Alya,as análises de coleta que você fez na nossa última expedição tiveram resultados positivos. Parece que todas as espécimes que salvamos no último mês tem sofrido de uma doença estranha... O relatório que eu te passei tem mais detalhes sintomáticos,mas aparentemente isso é de origem…
A morena entrecortou,entristecida,enquanto lia uma parte do material. — Ambiental… Por que não me falou antes?
O moreno a encarou firme — Eu não podia,precisava de dados concretos antes de te colocar na linha de frente… Enfim,é aí que entra a parte do relatório da Marinette. Muitas espécies,desde cnidários até répteis e mamíferos, não se recuperaram quando os trouxemos para tratamento. A maior parte morreu logo depois que saiu da água,mesmo sendo transferidos imediatamente,como sempre fizemos. E as espécies que sobreviveram em cativeiro estão letárgicas,algo que eu estimo ser um estado de coma induzido,e mal conseguem se alimentarem sozinhas… Se não descobrirmos logo o que está acontecendo naquela região,vamos acabar perdendo todo o trabalho de prevenção que fizemos até agora! Isso sem contar o risco dessa ocorrência se espalhar…
Marinette atentou-se para um dos blocos,na primeira folha. — Nino,o relatório está indicando aumento de eutrofização nas regiões próximas de Marselha e Cannes,para mim isso já é estranho,pois não tem nenhum tipo de poluente humano nas amostras. Mas, parece que os técnicos encontraram alguma coisa além… — Disse,terminando de folhear superficialmente o arquivo,já se afastando dos dois,em direção ao laboratório de análises,mais à frente. — Eu falo com vocês mais tarde,preciso averiguar isso !
Ao chegar,bateu rápida e repetidamente a porta,até que fosse atendida.
Mylene surgiu agitada,fechando-a atrás de si na sequência. — Você já soube da situação?
— Já… Nino veio me alertar agora há pouco! Não pensei que ia ser tão complicado…
— Encontrei um poluente biológico não identificado naquela água... A maior parte dos animais tem mais que o triplo de bilirrubina que um organismo saudável e aquilo tá presente em quase todas as amostras que me enviaram. Como isso não apareceu nos exames anteriores?
— Também não sei,foi a Alya quem coletou da última vez e estava tudo nos padrões... — A mestiça cruzou os braços,preocupada. — Essa mudança brusca… Não sei se tem a ver,mas a diminuição de oxigênio na água no Noroeste da França pode ter sido consequência dessa exorbitância... — Mylene se escorou na parede,ainda atenta na fala da oceanógrafa. — Quase todos os animais que resgatamos de Marselha estão com câncer ou problemas de saúde severos por conta dessa coisa que ainda não sabemos o que é…As regiões aqui perto estão sofrendo com a ameaça de extinção de mais de 60 espécies,devido á pesca pesca industrial predatória,e ainda temos que resolver um desequilíbrio desse nível,sem nem saber com o quê estamos lidando… Isso me deixa muito mal,Mylene!
A loira parecia desolada. — Aparentemente,as doenças estão sendo reações ao patógeno,nas áreas onde a concentração estava muito alta…Parece que o corpo deles entrou em hibernação para não morrer,é algo muito raro acontecendo em larga escala. Já coloquei todos de minha equipe em serviço com o pessoal do biotério para descobrir se há remédio ou vacina que reverta isso,só que ,enquanto não encontramos saída, emitiremos um alerta regional para cessar atividades e acesso ás praias,antes que a contaminação atinja pessoas. Não sei mais o que pode piorar,mas temos que evitar um estrago definitivo a qualquer custo…
De repente, o som de uma buzina estrondosa foi ouvida,fazendo com que todos os tripulantes tapassem os ouvidos de imediato. Marinette correu para a área externa junto com os demais,á procura da origem do barulho,e logo foi tomada pela surpresa: O navio pesqueiro do qual falava havia voltado.
— Essa não... — Teria ficado hipnotizada com o tamanho do navio por mais tempo,não fosse pelos detalhes que chamaram sua atenção tão logo que os viu: Três enormes redes de pesca sendo arriadas em direção ao mar e,para completar,avistou homens armados a bordo,em todos os pontos visíveis. Partir para a intimidação verbal não seria boa ideia dessa vez.
"Desta vez eles vieram preparados… Mas eu ainda sou mais esperta!" — Pensou,se retirando discreta da movimentação. O pressentimento que tivera mais cedo disparou como uma sirene. — "Preciso agir rápido!".
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