Do Outro Lado Da Porta
6 🌙Capítulo 5 - A Verdade Entre Nós
29.12.00 — São Paulo/SP
(Yellow — Coldplay)
Depois de alguns dias, a praça virou nosso ponto de encontro.
Dou uma última olhada no espelho.
Camisa preta justa de manga longa.
Calça jeans baggy escura, com cruzes desenhadas.
Vans.
Os mesmos acessórios.
O relógio.
Sempre o relógio.
Abro a janela, desço e corro até a praça.
Chego.
20:00.
— Que pontual, princesa.
Sinto os braços dele envolverem minha cintura por trás.
Sorrio automaticamente.
— Oi, gatinho.
Viro e o abraço.
Caminhamos até a árvore grande e nos sentamos na grama.
⋆⋆⋆
Depois de um tempo, percebo que ele tá me observando.
— Ei... calma — ele diz. — Por que você olha tanto pro relógio?
Desvio o olhar.
— Ah... meus pais são meio rígidos com horário.
Ele solta um riso curto.
— Não é isso.
Silêncio.
— O que tá acontecendo?
Droga.
Como ele me lê tão fácil?
Respiro fundo.
— Promete que não vai me achar maluca?
Ele me encara, sério agora.
— Prometo.
Hesito.
Mas não dá mais pra esconder.
— Eu... não sou daqui.
Ele franze o cenho.
— Como assim?
— Eu sou de 2026.
O silêncio pesa entre a gente.
Meu coração dispara.
— Ok... — ele diz devagar. — E como você veio parar aqui?
Engulo seco.
— Eu me mudei pra uma casa antiga... no meu quarto tem uma porta. Um túnel.
Eu atravessei... e vim parar aqui.
Ele me observa.
Pensando.
Analisando.
Cada segundo parece uma eternidade.
— Eu só acredito... se você me mostrar.
Assinto devagar.
— Eu mostro.
Por algum motivo, meu coração acelera ainda mais.
— Ei... — ele sussurra.
Levanto o olhar.
Ele segura meu queixo com cuidado.
— Eu não te acho maluca.
Meu peito aperta.
Eu sorrio.
E beijo ele.
Um beijo mais profundo dessa vez.
Mais verdadeiro.
Como se aquilo fosse a única coisa real ali.
⋆⋆⋆
30.12.00 — São Paulo/SP
Olho o relógio.
3:58.
— Vamos.
Seguro a mão dele e puxo.
— Calma! — ele ri, correndo atrás de mim.
Chegamos na casa.
Subo pela árvore.
Ajudo ele a subir também.
Entro no quarto.
Começo a trocar de roupa.
Então percebo.
Ele tá olhando.
Paro.
Encaro.
Ele vira de costas na hora, com um sorrisinho culpado.
Reviro os olhos, rindo baixo, e termino de vestir o pijama.
— Pode virar.
Ele se aproxima de novo.
Seguro a mão dele.
Levo até o armário.
Empurro.
Revelo a porta.
Abro.
O túnel aparece.
Silencioso. Escuro.
— Eu vou com você.
A voz dele é baixa.
Decidida.
— Não.
Ele franze o cenho.
— Por quê?
— Porque... no meu tempo, você já é adulto. Isso pode dar muito errado.
Ele suspira, frustrado.
— Tá bom...
Dou um beijo nele.
Ele responde com intensidade.
Como se quisesse guardar aquilo.
Olho o relógio.
4:02.
— Eu preciso ir.
— Tchau, princesa.
— Tchau, gatinho... até amanhã. Oito horas.
— Até.
Espero ele sair pela janela.
Respiro fundo.
E entro no túnel.
⋆⋆⋆
30.12.26 — São Paulo/SP
Meu quarto.
Meu tempo.
Minha realidade.
Fecho a porta.
Empurro o armário de volta.
Me jogo na cama.
Exausta.
Mas sorrindo.
Ele acreditou.
E ficou.
⋆⋆⋆
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