Do Negro Ao Laranja
5 Dia 5 - Eu Preciso Dizer Que Te Amo, de Cazuza
Notas iniciais
— Ka-Ka-Kageyama! Eu preciso te dizer uma coisa! — Tobio Kageyama, o levantador do time de vôlei Karasuno, de repente, deparou-se com um Hinata diferente. Um que apertava-lhe fortemente os ombros e dissecava profundamente o interior de suas íris, nunca desviando o olhar.
Já passara das 7 da noite, Ennoshita recém saíra da saleta exclusiva do clube de vôlei, portanto só sobravam ele e seu amigo ruivinho no meio da quadra.
Embora Hinata não achava que era o lugar ideal para realizar seu intento... Era o mais privado que podia encontrar.
— P-pode falar, Hinata... — surpreendia-se com a força obstinada com a qual seu ombro era apertado, até chegava a doer. Linhas de nervosismo delineavam a testa e o cenho do menor. Perguntava-se qual a natureza daquilo tudo.
O garoto-isca suspirou, tentando acalmar-se — Eu preciso te dizer uma coisa. — ficou em silêncio, vendo que o outro não havia proferido nada de diferente. — Eu pr-preciso te dizer uma coi-
— Ah! Fala logo, caramba! Temos que ir embora logo!
— Ah, agora não falo mais! — Hinata se virou e fez bico e cruzou os braços, os olhos dardejando em umidade. Kageyama tinha que ser tão insensível num momento importante assim? – não que ele soubesse, mas...
.
Quando a gente conversa
Contando casos besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu nem sei que hora dizer
Me dá um medo (que medo).
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O moreno revirou os olhos e mordeu o interior da gengiva pra esconder seu rubor. Que Hinata não fizesse aquele bico novamente, senão...
— Desculpa, Hinata... Pode falar.
— Não, mas agora eu não consigo mais! — Era verdade. Agora o medo de ser rejeitado arrebatara-lhe até o chão.
Ele precisava dizer a Kageyama que o amava.
De uma vez por todas.
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É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É eu preciso dizer que eu te amo
Tanto
.
Desde seu cômico mal intendido com a história de que Himeko-chan seria a namorada de seu amigo levantador, o sentimento dentro de si começou a borbulhar cada vez mais violentamente, querendo sair. Se uma vez disseram-lhe que a hora certa de se declarar era quando não se conseguia mais manter o que sentia para si mesmo, tal momento estava chegando.
E Hinata tinha que falar.
Ele cada vez mais queria ficar ao lado do moreno maior, e que o tempo se arrastasse quando ocorria.
Quando riam e brigavam, falando besteiras... Quando sem querer falavam coisas sobre si mesmo das quais ninguém deveria saber. Quando descobriam que tinham algo em comum – uma banda, um programa... Quando – em raros momentos – ele falava algo absurdo e Kageyama acocorava-se de tanto rir.
Tais coisas deixavam-no num estado tão eufórico que era capaz de acabar se declarando no meio de uma conversa.
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E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
e nessa novela eu não quero ser teu amigo
É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo
Tanto
.
Kageyama observava com interesse seu amigo ruivo de costas para si. Estático. Aparentemente, um braço se apoiava no outro, no qual se apoiava sua cabeça; a mão tapava a boca e o nariz, escondendo o sangue que subia às faces, que chegava até suas orelhas pequenas e bem esculpidas.
As orelhas de Hinata eram outra coisa com as quais aprendia a se fascinar mais e mais.
Sua clavícula era linda também.
A linha de seu maxilar, então...
Quando notou que secava seu amigo de cima a baixo, recordando ainda os momentos que o fizeram devanear com ele, o maior se perguntou se não estava misturando alguma coisa. Céus, aquilo estava se tornando sério.
Perdera as contas da quantidade de vezes que perdera o sono no meio da madrugada – não por motivos muito ortodoxos.
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Eu já não sei se eu to misturando
Ah, eu perco o sono
Lembrando em cada riso teu, qualquer bandeira
Fechando e abrindo a geladeira a noite inteira
É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É eu preciso dizer que eu te amo
Tanto
Quando a gente conversa
Contando casos besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
.
Hinata, inconscientemente, sentia suas orelhas se avermelharem mais e mais, sua imaginação rolava solta.
Kageyama, de detrás de si, mudou a posição das pernas, seu tênis roçou no chão encerado da quadra e o atrito se encarregou no barulho estridente e breve que isso causava. Despertou-se de repente.
Como apontado antes, tinham já que ir embora.
Deixaria a confissão pra depois, mais uma vez falhara em fazê-la...
Se virou ao levantador — Está na hora de irmos embora mesmo... As coisas já estão todas arrumadas, e gente podia ir então, né?
— Espere, Hinata! Mas você não ia me dizer uma coisa super importante?!
— Ah... — desanimado, puxou a mala escolar do canto da sala, dirigindo-se à porta — Eu conto no caminho. Daqui a pouco vem o zelador chamar a nossa atenção mesmo.
Hinata sabia que mentia, mas o que importava agora?
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Eu não sei em que hora dizer
Tenho medo
É, que eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo
Tanto
.
As iluminações das ruas quase desertas incidiam sobre Kageyama e Hinata. Com suas bicicletas em seus respectivos lados, ambos andavam lenta e silenciosamente. Talvez porque era sempre o ruivinho que começava uma conversação, e hoje, era tanta a decepção consigo mesmo, que nem isso via-se com gana de fazer.
Ah... Mais uma vez o medo de ser rejeitado impedira-o de... Ah, deixa pra lá.
Era tanto o medo de perder Kageyama sem engano, sem “voltar atrás”, que qualquer coisa já o fazia deixar “pra próxima”.
E provavelmente, o faria para sempre.
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E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Voce chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela baby eu não quero ser teu amigo
Não
.
O levantador da Karasuno mirava o menor andar um pouco de trás. Seus ombros pendiam tristemente, e seu olhar direcionava-se mais ao chão que à frente.
O que acontecera com Hinata tão de repente? Num momento via-o tão animado para falar-lhe algo, e no outro... — E então? O que ia me dizer, Hinata?
— Ah... Esqueci já. Nem era tão importante assim.
Estalou a língua. Porra, o maldito desistiu de contar justo quando havia ficado tão curioso? Ah, não! Sabia que tinha algo de errado com ele. E descobri-lo-ia nesse segundo.
Alargou os passos, alcançando o amigo integralmente — Escuta, o que você tem, hein? Aconteceu algo errado?
O menor arregalou os orbes minimamente, surpreso até pelo “insensível e rude Tobio Kageyama” ter notado. Isso era mau...
— Ah, deixa pra lá. Já disse que até esquec- Ai! — seu nariz foi apertado entre o polegar e o indicador do outro, sua cabeça era balançada de um lado ao outro. Deixou sua bicicleta cair no chão.
— Sei muito bem que tá mentindo! Tô falando sério, agora você tem que falar porque fiquei curioso!
— Kageyama...! — seu nariz finalmente foi libertado, uma coloração carmim dava indícios da pequena agressão — Nem tenho direito o que contar... É sem graça.
— Não é não. — o moreno mostrou-se irredutível. Cruzou os braços e ficou a fitar o menor. Esperando.
Hinata, quando deparou-se com os orbes de Kageyama tão vidrados em si, quis correr. Tinha dificuldades em olha-lo diretamente e estavam perto demais.
Dizia, realmente perto demais.
Mordeu o lábio inferior até machucar. Kageyama não olhava a outro lado além de si. Sentia-se com se ele o estivesse dissecando, analisando-o por inteiro. Um enrubescimento subia a suas maçãs do rosto. Sentia-se completamente nu. À mercê do julgamento de Kageyama.
Queria sair dali. Agora.
Agora!
Respirou fundo.
Fez menção de mexer seus pés, mas eles simplesmente não se moviam. O olhar do maior pregara-o no chão.
O pensamento epifânico de que não sairia dali até que se declarasse surgiu em sua mente. Isso, somada à vontade súbita e urgente de fazê-lo formavam uma soma quase perfeita.
Ele tinha que falar. Tinha que falar. Ele queria fal- — E-Eu... Eu tenho que te dizer que te-
Ah, não. Mais uma vez fora interrompido.
A má sorte da vez viera de um toque de celular prático e austero. Era de Kageyama.
O dono do celular grunhiu de frustação. — Isso não pode estar acontecendo... — Tirou aparelho do bolso e atendeu-o sem cerimônias — O que é?! Ah, é você mãe... Estou a meio caminho de casa, que saco! Ah, comecem a comer sem mim já, não me importo, você sabe disso! Tcha- Mãe. Mãe! Tchau. Nos falamos depois. — guardou-o, certificando-se de colocá-lo no modo “não perturbe”. — Pronto, Hinata, desculpa. Pode falar agora.
Virou a cabeça ao lado, esperando ver o ruivinho. Não aconteceu. Ele já havia pegado a bicicleta do chão e seguido na frente, sem mais nem menos.
— Ei, Hinata! — apressou-se pra alcança-lo, e quando o fez, surpreendeu-se com um Hinata sorridente, rindo baixinho. — Qual é a graça.
— Sua mãe é mandona que nem você, Kageyama! — nisso, ambos começaram a discutir.
Não era por isso que ria – embora a comparação fosse realmente engraçada. Ria da própria má sorte, que chegava a ser tragicômica.
Mas... Bem. Se aquilo ocorrera, era porque não era a hora certa de contar.
Só esperava que ela chegasse um dia.
.
E que eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano...
E que eu preciso dizer que te amo
Eu já não sei se eu tô misturando...
Ah, eu perco o sono...
Lembrando em cada riso teu qualquer bobeira...
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