Do Negro Ao Laranja
29 Dia 29 - Accidentally In Love, de Counting Crows
Notas iniciais
Agora, parando para pensar, Hinata descobria cada vez mais que a expressão “acidentalmente apaixonado” não fazia o mínimo sentido. Quer dizer, quando se se apaixona, sempre é por acidente! Uma pessoa não conhece outra e pensa: “É por ela que vou me apaixonar”! Não funcionava assim!
Ele não conseguia parar de pensar nisso. Agora que admitia totalmente a si e aos outros – ou pelo menos, alguns – que se apaixonada por Tobio Kageyama, as reflexões introspectivas sobre os relacionamentos em si diminuíram, mas não por completo.
Mas, espere! Se a maioria das pessoas procuravam por amor, então não se apaixonavam acidentalmente! É. Já ouvira várias vezes em conversas alheias e em filmes sobre alguém procurando por um amor...
... Embora também já tenha visto gente comparando-o a uma doença – que precisaria ser curada.
Não que ele quisesse ser curado. Não, muito obrigado.
— Qual o problema, Hinata? Você de repente parou de jogar, morreu três vezes já. — Kageyama tirou-o de seus delírios ilógicos sobre o amor. Tornara-se um hábito muito comum seu jogar video game na casa do moreno, já que agora eles... Hum... Eles estavam... É.
— Kageyama... — começou hesitante, envergonhá-lo-ia perguntar o que estava na ponta de sua língua, porém estava tão curioso pra saber! O outro desviou os olhos do jogo momentaneamente a si, indicando que ouvia — Você se apaixonou por mim por acidente?
O jogo foi pausado imediatamente, um semblante de descrença no garoto que o fizera — Hinata... Como assim? Acho que ninguém se apaixona de propósito.
— Mas eu tava pensando... Se tanta gente quer se apaixonar, não é por acidente!
Compreensão transpassou pela expressão de traços fortes, sendo que seu dono, ao fazê-la, voltou a dar play no jogo. — Bem... Acho que no meu caso foi. É o que dissemos naquela entrevista maldita, não?
— Verdade. O meu... foi também.
— E você acha isso ruim?
— Eu acho melhor, na verdade.
Kageyama teve que concordar com o menor.
Se você se aproximava de alguém já com o propósito de se apaixonar por ela – o que era bizarro por si só --, dava a impressão de ele ser menos duradouro e um pouco... artificial.
.
Então ela disse, "Qual o problema, amor?"
Qual o problema eu não sei
Bem, talvez eu esteja apaixonado
Penso nisso toda vez que eu penso nisso
Não consigo parar de pensar nisso
.
Quanto mais vai demorar para curar isso
Só para curar porque eu não posso ignorar
Se for amor (amor)
Me faz querer voltar e me encarar
Mas eu não sei nada sobre amor
.
Vamos lá, vamos lá
Acelere mais um pouco
Vamos lá, vamos lá
O mundo virá atrás
Vamos lá, vamos lá
Porque todo mundo está procurando amor
.
Shoyo Hinata estava tão nervoso que seu coração acelerado parecia uma bola de neve rolando e aumentando cada vez mais. Sentia como se todos os seus órgãos fossem pular por sua boca.
Embora a situação cedo ou tarde ocorreria – não havia dela escapatória –, fazia-o melhor saber que não estava sozinho, que Kageyama sentava-se àquela mesma mesa a seu lado, ambos encarando sua mãe curiosa para saber o que iriam lhe falar.
— E então, o que você tem pra me contar, Sho-chan? Seja rápido que tenho que fazer o jantar e hoje quero caprichar, temos visita, você sabe — olhou amorosa a Kageyama. Gostava do menino, ele era educado, não gritava, não fazia bagunça – exatamente o contrário de todos os outros amigos que seu filho já havia trago para casa.
Hinata abaixou a cabeça, encolheu os ombros e engruvinhou entre os dedos finos o shorts casual que usava. — Mã-mã-mã-mãe... Eu... Eu tenho que te contar uma coisa... É-que-... — o moreno colocou uma mão sobre a sua, sob a mesa, embora ele não tivesse desviado o olhar de Hinata-haha. Encorajou-se um pouco, e num impulso, conseguiu se expressar — Eutoapaixonadoporumgarotoeestamossaindo. — ou quase. Sua genitora, obviamente, nada entendeu, e franziu o cenho, ordenando-o a melhorar a dicção — Eu... Eu e-e-e um garoto, ele... — Ah! Não aguentava mais! Suspirou e inspirou profundamente três vezes, pensou “foda-se” para tudo, e soltou a bomba — Me apaixonei por um garoto e agora estamos saindo.
Para o casal, foi como a visão do inferno. Os olhos se arregalando, as narinas se inflando. A mãe de Hinata parecia um touro enlouquecido, de tão vermelha, e ao se levantar de supetão da mesa, assustou a ambos os meninos — O quê?! Como assim, mocinho?!
Kageyama engoliu em seco. Se ele estava super temeroso, imagine Hinata, então?! Observou a mulher chegar em passos pesados à gaveta da cozinha e pegar de lá uma enorme colher de pau, brandindo-a como uma katana — Me fala o nome desse moleque e eu vou acabar com a raça dele! Desvirtuar o meu filhinho assi-!
— É o Kageyama, mulher! — o levantador sentiu o suor cair pela têmpora – estava ferrado, muito ferrado. E Shoyo havia estragado tudo gritando à mais velha! Ele agora que morria com aquela colher de pau!
Opostamente a sua ideia, a mulher abaixou a colher e cessou sua cólera. Logo então juntando as mãos, como numa reza, olhando para cima — Ah... Entendo. Menos mal, menos mal! Obrigada, deuses!
— U-u-u-é, mãe... Tudo bem se for com ele, simplesmente?
A senhora lançou um olhar mortífero, voltando a se sentar à mesa, mas não largando a colher de pau assassina — Escuta, filho. Eu to puta com você, não vou mentir. Tô achando isso uma grande viadagem e, sinceramente? Tenho certeza que é uma fase! — a sinceridade da mais velha aliviou-o e machucou-o ao mesmo tempo. Ela ia ficar mais ou menos em cima do muro... — Mas pelo menos é uma fase que você tá passando com o Kageyama-kun, e não um aproveitador qualquer que só quer te enrabar. E não me olhe assim, moleque, só tô falando a verdade! — o “moleque” havia corado tanto perante a última declaração que a mãe irritou-se. Kageyama chegou a conclusão de que tanto a sua quanto a mãe de Hinata tinham prazer em envergonhar os próprios filhos em frente a outros.
De repente, ela parou de ralhar e apoiou a cabeça nas mãos, pensando em puro cansaço. Ficou lá, massageando as têmporas por uns bons minutos enquanto o casal a observava. Ponderava sobre a situação. Sobre os problemas que estariam por vir se... não fosse uma fase — Só... Só não conte isso ao seu pai, Sho-chan, não ainda. Você sabe como ele é... — O primogênito aceitou anuindo. Sua mãe havia sido tão mais... compreensiva do que pensara.
Parecia que aquela incômoda bola de neve se derretera pela primavera e pelo brilho do sol.
Continuaram a conversar um pouco mais sobre como “tudo” havia acontecido.
.
Então eu disse: Eu sou uma bola de neve rolando
Deslizando ao encontro da primavera
De onde vem todo esse amor
Derretendo debaixo do céu azul
Revelando um amor
Brilhante como o sol
.
Bom, amor eu me rendo
Ao sorvete de morango
Que nunca acaba todo esse amor
Bom, eu não tive a intenção de fazê-lo
Mas seu amor não tem escapatória
.
Esses raios de luz significam que
Nós nunca estamos sós, nunca sozinhos
Não! Não!
.
Kageyama encontrou Hinata sentado encostado respaldando-se na porta de vidro fechada da entrada da escola. Os dois eram os únicos lá e o pequeno abraçava seus próprios joelhos, o rosto enterrado neles. O moreno imediatamente soube que algo corria erroneamente, e a pergunta “Você está bem?” foi abafada pela chuva torrencial lá fora.
Agachou-se de cócoras, perguntando-lhe mais uma vez. O menino mentiu que sim, com a cabeça, sem sair de sua posição. O moreno revirou os olhos por sua recusa em ser ajudado, passando os dedos delicadamente por entre as madeixas macias.
Notou seus músculos relaxarem com o carinho, porém o período foi curto. Um raio originou um clarão dentro da escola e seguido dele um trovão retumbou. O pequeno encolheu os ombros e prendeu a respiração.
Hinata tinha... medo de trovões?
Um instinto superprotetor apoderou-se de si integralmente, e a gana de abraça-lo e beijá-lo bem forte foi quase irresistível. Colou os lábios a um dos ouvidos miúdos — Hinata... Não precisa ter medo. — sem resposta. Outro trovão, seus músculos se atrofiaram novamente.
Ah, não dava mais! Não-dava!
Sentou-se cruzando as pernas e puxou-o pelas axilas, descansando-o sobre seu colo, uma perna de cada lado do quadril. O menino automaticamente deixou-se ser envolvido pelos braços fortes, abraçando seu pescoço, enterrando o rosto nele, e fazendo o mesmo com as pernas.
Contra sua pele percebeu vários suspiros quentes de alívio. Havia se acomodado em si, e ele parecia se sentir um pouco mais leve. Os músculos voltaram-se a relaxar.
Cada expiração que ouvira era um pequeno sussurro. Aquilo o enternecia tanto...
Não sabiam se ficariam naquela posição por muito tempo. Mas já estavam perdidos nele. Num lugar em que o relógio rodava mais lentamente.
Bem mais lentamente.
.
Vamos lá, vamos lá
Chegue mais perto
Vamos lá, vamos lá
Eu quero escutar o seu sussurro
Vamos lá, vamos lá
Se acomode em meu amor
.
Vamos lá, vamos lá
Pule um pouco mais alto
Vamos lá, vamos lá
Se você se sentir um pouco mais leve
Vamos lá, vamos lá
Era uma vez, nós apaixonados
.
Nós estamos acidentalmente apaixonados
Acidentalmente apaixonados
Acidentalmente apaixonados
Acidentalmente apaixonados
Acidentalmente apaixonados
Acidentalmente apaixonados
Acidentalmente apaixonados
Acidentalmente apaixonados
Acidentalmente
.
Dessa vez, Tobio Kageyama não sabia que o que vivia naquele momento era um sonho. Um sonho extremamente bizarro e impossível de acontecer na vida real. Pelo menos, não com a tecnologia do mundo como era atualmente...
Encontrava-se numa cozinha desconhecida, com aparatos que nunca usara, preparando um tipo de... papinha para neném que nunca preparara...?
Provou o gosto e a temperatura rapidamente, logo escutando — Tobio, vem logo! Ele tá infernal de tanta fome — a voz era-lhe conhecida, o tom e o timbre de Hinata. Sem saber muito bem porque o fazia, apressou-se a andar até o lugar de onde provinha a voz, e lá...
... Viu a cena mais chocante – e linda – de toda a sua vida.
O ruivo sentava-se no chã apoiado no sofá com três lindas crianças o rodeando. Dois pequeniníssimos tão ruivos quanto Hinata e um mais velho, os cabelos tais quais o seu – e aparentemente, o temperamento também.
Com um sorriso que tirou-lhe o fôlego, Hinata controlava a brincadeira das crianças, consequentemente participando dela também.
Acidentalmente, apaixonou-se mais ainda.
Estranhou por não poder controlar as próprias ações, porque acabava de sentou-se ao lado do ruivo maior sem nem sequer ser convidado, colocando no colo dois de seus... filhos...?
Filhos? Sério?!
A partir daí, o sonho tornou-se mais acelerado e turvo. Apenas imagens conexas da família brincando em meio a sala de estar, com a TV ligada num programa para crianças.
Ele estava lá... Com Hinata e seus... filhos (?). Tendo um dos momentos mais felizes de sua vida.
Acordou desgostoso de tê-lo feito. Poxa! Estava vivendo um evento que provavelmente nunca aconteceria! – a não ser que... adotassem? –. O mau humor sumiu aos poucos quando sentiu outro calor ao seu lado na cama. Era Hinata enroscado sem seu braço, dormindo sonoramente, alheio ao sonho utópico e bizarro que tivera.
Riu da expressão contente que fazia em sua inconsciência. Exatamente igual ao Hinata mais velho de seu sonho! Hinata era Hinata, afinal.
Aproximou-o mais ainda de si, querendo unir todos os cantinhos de pele que tivessem para encostar. Suspirou profundamente, e voltou a relaxar, deixando-se cair novamente no cansaço do sono.
.
Estou apaixonado, estou apaixonado
Estou apaixonado, estou apaixonado
Estou apaixonado, estou apaixonado
Acidentalmente
.
Estou apaixonado, estou apaixonado
Estou apaixonado, estou apaixonado
Estou apaixonado, estou apaixonado
Acidentalmente
.
Vamos lá, vamos lá
Se enrosque mais forte
Vamos lá, vamos lá
E o mundo está mais feliz
Vamos lá, vamos lá
Apenas se ponha no amor dela
Eu estou apaixonado
.

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