Do Negro Ao Laranja
25 Dia 25 - Você Não Me Ensinou A Te Esquecer, de Caetano Veloso
Notas iniciais
Shoyo Hinata corria cegamente pelo corredor do primeiro ano da Escola Karasuno. Costurando entre os alunos em movimento, focava-se apenas em seus pés sobre o chão, os comentários rápidos das pessoas pelas quais passava eram cruéis demais.
Ouvia distante perguntarem se era verdade, fazerem piadinhas sobre sua sexualidade, cochichando uns com os outros ou até começando a rir. Embora fosse fruto de sua imaginação, achava que o mundo inteiro debochava de si.
Debochava de seu amor por Kageyama.
Debochava de si por haver se apaixonado por um homem.
Debochava de si por parecer o passivo.
O mundo não queria que ele amasse Kageyama.
E se via num desespero por causa disso.
— E aí, foi bom dar o- — não ficou para ouvir o comentário maldoso do estudante anônimo do qual o rosto nem conhecia, apertara o passo sem nem levantar a cabeça.
As falas alheias zumbiam-lhe tanto na mente que quando parou, havia passado sua classe por alguns metros.
— Gente, é o Hinata-kun! — alvoroço de vozes atacou seus pequenos ouvidos. Cada entonação diferente o fazia se sentir mais humilhado. Seus colegas – e alguns que viriam a se tornar seus ex-amigos – bombardearam-no com perguntas sobre o jornal da escola. “Você é mesmo gay?”, “Vocês estão saindo?”, “Kageyama não é seu companheiro de time?”, “Você realmente o ama ou é só pegação?”, “É bom sexo anal?”, e por fim, os piores, mais agressivos “Não quero mais falar com esse viado!”, “Bicha enrustida! Ou melhor... ex-enrustida!”.
Toda a sua pele latejou, assim como os pelos se eriçaram. Em suas írises permeava pura dor e a única reação na qual pensou foi passar por entre o tanto de gente e arrumar seus materiais displicente e afoitamente.
Estava com medo.
Deus, como estava com medo!
E ainda assim... Não conseguia se arrepender de nada do que fizera.
Feita a última ação que deveria para poder escapar dos questionários curiosos e/ou preconceituosos, virou-se num ato só, encontrando, sem mais nem menos – ainda nem saíra da classe – a pessoa com quem menos queria se deparar no momento: Tobio Kageyama.
O menor afastou-se um passo, temeroso, enquanto o maior aproximava-se um. Segurou-lhe pelo pulso delicadamente — Hinata, vamos conv-
— Não! — recusou e rechaçou-o, libertando-se com tanta violência que entorpeceu as ações de seu perseguidor. — Não me toque, não me toque! Fique longe de mim! — No momento que as palavras saíram de sua boca, percebeu o grande erro que cometera. “Não me toque” e “Fique longe de mim” eram palavras fortes demais, enojadas demais.
Talvez não naquela situação, mas seu sentido aludia que enojava-se por Kageyama.
Enojava-se de seus sentimentos por si.
Hinata, pela primeira vez, machucara-o de verdade. Denotava-se isso claramente por sua contínua letargia de movimentos e olhar. O moreno apenas mirava-o, os braços ainda pendidos, os orbes arregalados e a boca aberta num ‘O’.
Sem reação.
Ah, Ferira-o!
Ferira-o de tal forma que seu sentimento de impotência. Piorara o que não podia ser piorado.
Deus... Nem conseguia mirá-lo, tal seu desconcerto. Sua vontade real era olhá-lo nos olhos e ganhar seus braços de novo para si.
Uma ligeira retrospectiva do que haviam passado recentemente passou por sua mente. E então... Percebeu.
Ele acabara de perder o direito de amar Kageyama. Embora não soubesse se ele o amava ou não, sempre foi aberta uma oportunidade de desenvolverem uma relação. E o que fizera em troca, impulsionado por seus receios fúteis...? Enrolara-o! Enrolara-o até o último segundo. Recusava-o em momentos, aceitando-o em outros. Confundindo-o. Manipulando-o – mesmo que inconscientemente.
O cerne desse seu erro foi um baque tão grande quanto as declarações que fizera há segundos haviam sido para Kageyama.
Apertou as coisas em seus braços, embranquecendo seus nódulos. Enfiou o queixo no próprio peito, logo espremendo as pálpebras até doerem.
Primeiro passo.
Segundo passo.
Estava quase cruzando Kageyama.
Terceiro passo.
Atravessara-o. Localizavam-se numa posição meio diagonalmente de costas. Hinata, por um motivo desconhecido, sentia-se a ponto de vomitar. Zonzo. E errado. No momento que passara pelo maior sentiu alguma coisa se rompendo – não sabia se dentro dele ou dentro de si mesmo –. Como se houvesse rompido uma linha que tenuamente se mantinha intacta e esticada.
Uma linha que significava: “Você fodeu com tudo”.
Lutou contra as lágrimas – egoístas – que forçavam-se para transbordar. Pé ante pé, obrigou-se a andar.
Realmente, havia fodido tudo.
.
Não vejo mais você faz tanto tempo
Que vontade que eu sinto
De olhar em seus olhos, ganhar seus abraços
É verdade, eu não minto
.
E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro
.
— Meu, filho, querido, o que aconteceu?! — Tobio chegou em casa tão cedo e com o rosto tão macabro que naquele segundo Saeko sabia que uma coisa muito errada havia acontecido.
— Nada. — a voz apareceu gutural e mórbida. Observou seus olhos, não estavam inchados nem úmidos. Não ainda.
— O que aconteceu...? — insistiu, enquanto ele seguia direto para seu quarto. Ela perseguindo-o
— Nada.
Enfureceu-se momentaneamente. Havia algo muito sério atormentando-o e não deixaria as coisas por assim. Virou o filho pelo ombro e confrontou-o — Tobio Kageyama! Estou falando muito sério! — segurou o outro ombro também — O-que-a-con-te-ceu?!
Encarou o seu filho querido arregalar os olhos absurdamente e inspirar tão fundo quanto podia. Alguma coisa entalada em seu peito — Nada... Mãe. Pode me deixar sozinho por um momento?
O timbre era tão suplicante que Saeko enterneceu-se, limitando-se a abraçar o filho bem forte. Foi retribuída. Kageyama o fez tão veementemente que Saeko ficou mais melancólica pela sua prole.
O moreno, depois de uns minutos, se sentiu melhor. Um abraço de mãe sempre o fazia.
Embora não adiantasse procurar os braços de Hinata nos de sua querida mãe.
.
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo, agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la
.
Hinata tinha, precisava de falar com Kageyama.
Ele havia estragado tudo, contudo...
Contudo!
Ah... Ele não sabia mais nada do que pensar agora. Estava com medo de se declarar e... E resultar na quebra de seu coração.
Isso provavelmente o faria ter que esquecer a pessoa que amava. E isso ninguém o havia lhe ensinado.
Por outro lado, receava muito pela reação de sua mãe. Ela era tradicionalista e conservadora e... Nunca o aceitaria se dissesse que amava um garoto.
Mas... Deus! Como queria o moreno! Naquele momento, duvidava que pudesse fazer alguma coisa da vida sem ele.
Ele queria também o perdão de Kageyama.
Queria sua aceitação.
No entanto, também queria a de sua família.
Era um cruel e dúbio impasse. Não havia um meio termo entre eles.
Suspirou, deitado em sua cama. Estava se perdendo em algum ponto de seu raciocínio... E não sabia qual era.
O ruivo ficou pelo resto da noite meditando sobre como deveria reagir. O certo a se fazer era óbvio, claro: desculpar-se para com o levantador, porém o ato os levaria a novas áreas... E eventualmente, a sua relação atual e seus... sentimentos.
.
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho
.
No dia seguinte, Kageyama não apareceu na escola, nem nos treinos. Hinata lidou sozinho com os olhares e inquirições alheios, seu julgamento sobre si e seus deboches implícitos. Ignorou-os o tanto quanto pode.
Pela ausência do moreno, sentia-se sozinho e abandonado. Kageyama o havia atirado num abismo de insegurança – como se já não bastasse toda a massiva quantidade dela que já possuía – e o deixado lá à deriva e por si só.
Queria-o ao seu lado agora.
Superando aquilo... juntos?
Essa era a palavra.
“Juntos” sugeria uma coexistência harmônica, cuja a empatia para com o outro era vital e desprovida de egoísmos próprios.
Juntos. Por si e pelo outro. Por ambos.
Mas não “por ambos” o havia tratado.
Mais uma vez... E por mais um motivo... Havia perdido o direito de amar Tobio Kageyama.
No final, ele o havia jogado no abismo. Ele o havia abandonado à mercê dos julgamentos de outrem.
E com apenas duas frases...
“Não me toque” e “Fique longe de mim”.
O arruivado tinha medo da rejeição... E agora, pensando com clareza, havia rejeição mais humilhante que aquela à qual havia submetido Kageyama na véspera?
Ele era tão cruel.
Tão hipócrita.
— Hinata! — era intervalo do primeiro treino do dia, e foi despertado de sua anomia pela voz profunda de Tanaka-senpai. Não havia falado com ele durante todo o dia. Na verdade, estava tão constrangido que apenas direcionara a palavra a seu treinador e senpais terceiranistas, que haviam tentado tranquiliza-lo sobre os acontecimentos recentes.
“Tudo bem se apaixonar por Kageyama-kun, Hinata-kun”.
Rá. Que o poupassem. Ninguém realmente pensava assim.
Ninguém realmente aceitava integralmente o amor entre duas pessoas do mesmo sexo.
Nem mesmo seus melhores amigos.
Nem mesmo ele próprio.
— O-... O que foi, Tanaka-senpai? — intimidava-o a ideia da conversa que estaria por vir. Tanaka, que sempre era tão másculo, tão afoito por garotas. Um kouhai como... ele seria imperdoável.
— E você com o Kageyama? Como que tão? — o tom usado foi tão casual que surpreendeu o menor. A falta de Kageyama naquele dia tornara-se implicitamente um tabu, e Tanaka, sem mais nem menor, acabara de quebra-lo.
— Olha! Eu e... Eu e Kageyama não... Não temos... Nada. — Maldição! Não era pra falar aquilo! Apenas demonstraria o quão raso e egoísta era. Acabava de desmentir seu relacionamento... diferenciado com o levantador.
Para safar-se. Da crítica, do julgamento de seu senp-
— Ah, é? Que pena.
Hãn? “Que pena?”
— Pe-Perdão...?
— É. Que pena. Vocês meio que combinam. — Tanaka declarou vagamente. Shoyo, se estivesse tomando alguma coisa, a teria cuspido num jato nesse exato momento. Ele? Combinar com Kageyama?
Logo, Noya e Asahi perceberam qual a natureza da conversa do careca com o ruivo, e se acercaram também. — É. Conversei isso com os outros hoje. Vocês sempre estão juntos, agindo em função um do outro, provocando-se... Nunca havia notado isso antes, Hinata, mas tudo faz sentido depois do artigo de ontem e depois que o Suga-san me explicou o plan-
— Tanaka! — Daichi e Suga chamaram-lhe a atenção ao mesmo tempo, alarmado. Hinata, incomumente, interessou-se pelo interrompimento.
— Plano?
— Olha o que você fez, Tanaka! Estragou o plano do capitão Daichi e do Suga-san! — Noya ralhou, em seu típico jeito de pivete.
Foi a vez de Tsukishima se pronunciar, embora parecendo desinteressado — Agora vocês falam tudo, né...? Até porque tudo foi pro brejo e não há mais o que fazer.
Suga olhou-o feio e descordou, cuja resposta foi um discreto revirar de olhos. Explicou a origem de seu plano desde o início, informação que não poderia ter espantado mais o ruivinho. Plano para juntá-los por intermédio do Tsukishima? Hãn? — Eu e o Daichi percebemos que vocês realmente parecem se gostar e que não haveria problema para os treinos, sendo que as emoções influenciam diretamente em suas capacidades no treino... Vocês, eventualmente, se tornariam invencíveis, Hinata.
O garoto-isca permaneceu estático, absorvendo o que lhe havia sido ensinado. Eles... O aceitavam? Realmente o aceitavam? Não era uma mentira por educação e necessidade?
Deus... O que faria agora. Cada vez mais a vida lhe provava que cometera o maior erro de sua vida.
— Hinata-kun... — o quieto e barbado Asahi fez-se ouvir — Se me permite dizer... Soube que você falou coisas bem cruéis ontem ao Kageyama. Ele deve estar muito triste com você. Verdadeiramente mal.... Pra ter faltado a um treino de vôlei, não?
— Ah, eu concordo totalmente! — Noya arrebatou o final — Shoyo, você sabe que apenas nos importamos com suas habilidades e jeito de ser! Se você estar com um homem ou uma mulher, não faz diferença para nó!
O menor viu-se comovido pelo apoio de seus amigos... e consequentemente, uma frase já lembrada tantas vezes apareceu-lhe na imaginação: “Se você não disser algo, ele vai desistir de você”. Maldiya garçonete! Aquela alí queriam esmo acompanha-la.
Sim!
Sim!
Estava na hora de ele dizer algo. Sem mais dúvidas. Sem mais egoísmo ou abandono.
Apenas a verdade.
.
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar
.
E nesse desespero em que me vejo
Já cheguei a tal ponto
De me trocar diversas vezes por você
Só pra ver se te encontro
.
Você bem que podia perdoar
E só mais uma vez me aceitar
Prometo agora vou fazer por onde nunca mais perdê-la
.
— Tem a ver com Hinata-kun? — durante o almoço, Tobio Kageyama deixou os hashis caírem da mão a meio caminho da boca, demonstrando muito choque.
— Ma-Ma-ãe! Claro que não! O que ele teria a ver com minha doença?
Saeko fez-se de desentendida. — filho... Você sabe que pode me contar qualquer coisa, né? Eu te amor exatamente como você é-
— Chega! Quero apenas ficar em casa e não falar mais disso, ok? É pedir demais? — levantou-se abruptamente e dirigiu-se a seu quarto, seu estado emocional piorando a cada dia.
Saeko permaneceu à mesa, terminando sua refeição. Seu filho não havia notado, mas no momento em que falara “não quero mais falar disso”, confirmara sua pergunta.
.
Tinha sim a ver com Hinata-kun!
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho
.
No final da semana, chegou finalmente um dia em que o levantador moreno viesse à escola. Hinata, com todas suas angústias – e finalmente, certezas – guardadas no peito, aproximou-se de sua aura repelente sem um pingo de hesitação aparente.
— Kageyama... Posso falar com você? — proferiu a pergunta no final do último treino. Mais uma vez, eram os últimos a sair do ginásio.
Necessitava falar com Tobio Kageyama. Ouvir sua voz, implorar por seu perdão. Procurar por um caminho em que não tivesse que aprender a esquecê-lo.
Um caminho em que apenas querê-lo seria o bastante.
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Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar
Vou me perdendo
Buscando em outros braços seus abraços
Perdido no vazio de outros passos
Do abismo em que você se retirou
E me atirou e me deixou aqui sozinho
.
Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando me encontrar
.
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