Do Negro Ao Laranja
26 Dia 26 - Way Back Into Love, de Hugh Grant filme: Letra e Música
Notas iniciais
Um meditativo Kageyama encarou Hinata por um momento, enquanto este esperava por sua resposta. Para ser sincero, pensou em recusar. Queria fazê-lo sentir um pouco do que sentira naquele dia, estar em sua pele, porém lembrou do que sua mãe o havia dito na véspera: “Se aparecer a oportunidade de tudo se resolver, aceite-a sem nem pensar, Tobio-chan, porque manter o orgulho nesses momentos é a pior coisa a se fazer”.
Sua mãe era mais vivida e estava num emocional melhor que o seu. Além do mais, confiava nela. Se se lembrasse de todas as vezes que deixara o orgulho sobrepor-se, saiu perdendo, principalmente em seu catastrófico final de ginasial...
Sem falar que não conseguiria dormir com a nuvem de dúvida do que ele teria lhe falado pairando-lhe a cama à noite.
— Pode ser. — foi curto e grosso, uma aura sombria sobre sua cabeça, tentando não deixar transparecer o alvoroço que era seu coração. Hinata, diferente de si, mostrava o quão estava nervoso. Mexia os pés e as mãos incessantemente, as faces permanentemente coradas e os olhos arregalados.
Suspirou de alívio ao ouvir a resposta positiva e, como se já não bastasse o clima estranho, o ruivinho escolheu justamente a sala de equipamentos para conversarem.
Portas fechadas.
Fechadura trancada.
Aquilo não poderia dar em boa coisa... Poderia?
Há mais ou menos 48 horas atrás não sentia receio nenhum em amar Hinata, apesar de todas as suas recusas e dúvidas. Agora... Agora ele não tinha tanta certeza.
Se em qualquer adversidade – o que aconteceria constantemente, porque eram dois garotos – ele agisse assim, abrindo mão das esperanças e sonhos em conjunto de ambos, nenhum deles conseguiria seguir em frente.
.
Tenho vivido com uma sombra por cima da cabeça
Tenho dormido com uma nuvem sobre minha cama
Tenho estado sozinha por tanto tempo
Presa no passado, eu não consigo seguir em frente
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Tenho escondido todas as minhas esperanças e sonhos
Apenas no caso de eu precisar deles de novo algum dia
Tenho reservado tempo
Para apagar um pouco de espaço nos cantos da minha mente
.
Kageyama sentou-se perto das bolas de vôlei novas e embaladas, sobe os colchões de ginástica, enquanto que Hinata localizava-se um pouco mais distante, recostado à porta dupla de metal, com as mãos e antebraços sobre as costas. Elas contorciam e puxavam o tecido do uniforme de vôlei, de tão nervoso. Embora o mirar de Kageyama fosse indiferente e analítico, a maneira a situação toda o fazia se lembrar do episódio em que fora pressionado por ele no corredor da escola.
Sim, os sentimentos – ou falta deles – expressos naquele olhar o machucavam, porém sentia ainda um pouco da mesma excitação de quando fora a presa. E ele o predador.
O cordeiro e o lobo.
Engraçado perceber que mesmo ferido, o lobo mantinha sua posição altiva e orgulhosa. E o que ele precisava fazer agora era encontrar novamente o caminho de seu amor para aquele lobo.
Afinal, o que era um predador sem interesse por sua presa?
Seria o mesmo que se as estrelas se recusassem a brilha-
Droga, estava ficando emotivo e poético novamente.
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Tudo o que eu quero fazer é achar um caminho de volta ao amor
Eu não posso superar sem um caminho de volta ao amor
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Tenho observado, mas as estrelas se recusam a brilhar
Tenho procurado, mas eu não vejo os sinais
Eu sei que está em algum lugar
Tem que haver algo para minha alma em algum lugar
.
— Ka-... Kageyama, escuta. Desculpa por ter agido daquela forma no dia em que o jornal da escola nos flagrou. Mesmo que eu me sentisse humilhado e perturbado... Eu não tinha o mínimo direto de falar coisas tão cruéis pra você. — trouxe as mãos à frente, entrelaçando-as fortemente. Abaixou a cabeça, a franja combrindo-lhe os olhos grandes e castanhos — Eu fui... Um babaca. Me perdoe.
— Ok. Tá bom. — mais uma vez, curto e grosso.
Hãn? Tão rápido? Como assim? O levantador não iria cair sobre si desabafando o quanto estava com raiva de si e o quanto ficara chateado? Não gritaria aos quatro ventos o quanto essa última semana e o quanto ele não passava de um egoísta que só pensava em si mesmo? Não se enfureceria por tê-lo deixado na escola sozinho para lidar com os estudantes curiosos?
Sua confusão era clara em seus traços faciais, porém o surpreendente foi que, sem sequer perceber, havia falado todos aqueles pensamentos duvidosos em voz alta. E apenas o notou quando ouviu a resposta — Eu devia ter imaginado que você agiria assim. Se seus sentimentos são tão dúbios, Hinata, é porque não há motivo em ficar furioso.
Agora... Aquilo havia desconcertado. Kageyama estava dizendo que era raso e vazio, basicamente.
Deus, a raiva não podia ser pouca.
Nem a sua era, nesse exato momento – embora soubesse que, de sua parte, era infundado. Ele não havia estado lá para Kageyama no final. A forma como ele reagira era fundada.
— Kageyama! Você não pode ter ficado tão apático assim! Eu fui um escroto egoísta, ok? Estava com tanto medo de lidar com o julgamento dos nossos colegas que te deixei sozinho pra lidar com eles! E há mais! Quando você tentou me acalmar te afastei da maneira mais pode e condenável possível! — aproximou-se uns pequenos passos e cerrou os punhos — Brigue comigo, me bata, me agarre! Qualquer coisa que vá fazer você se sentir melhor! Você não pode esperar de mim apenas uma desculpa básica e então me perdoar! Não tem sentido. Eu... Eu fui o errado!
Aquela apatia não era o que esperava.
Não.
Não!
Aquela pose demonstrava resignação e desistência. Como se tivesse desistido de... si? De sua relação? – Não sabia ao certo.
Pelos céus, que não dissesse que queria voltar a serem apenas amigos.
Observou-o se levantar dos colchões e se acercar alguns passos a si. Não muito perto, não muito longe.
A distância perfeita para amigos.
— Hinata, não vou mentir e dizer que fiquei de boa com tudo isso. Sinceramente, fiquei furioso e extremamente chateado — Kageyama falando tanto dos próprios sentimentos anímicos? Ouviu seu suspiro — Mas pensei um pouco e resolvi que não serve pra nada se indignar com algo que pode acontecer vezes e vezes. A cada vez que fôssemos defrontados pelos outros sobre a nossa... relação, todas as suas dúvidas voltariam e você desmentiria a mim e me deixaria pra trás.
“Se você não disser algo, ele vai desistir de você”.
Maldita garçonete!
Será que seu aviso havia se concretizado? Kageyama havia desistido de si?
Não... Por favor, não!
— Mas... Isso não faz sentido! Não vai resolver nada! Se você não falar o que quer de mim eu não vou poder te dar.
O moreno permaneceu algum tempo ponderando sobre as palavras ditas, um brilho estranho se apoderando de suas írises. Andou mais alguns passos, cruzando com Hinata e ficando de costas para ele – exatamente como havia sido feito consigo no dia do escândalo do jornal. — É que... Hinata, não me leve a mal, mas acho que o que eu quero de você não dá pra fazer, sabe...?
Ah. Aquilo lhe doera falar. Admitir para si mesmo que o máximo que conseguiria era ser um sex buddy do ruivinho era martirizante e extremamente dolorido. O que ele queria... Um caminho para o amor do menor... Bem, não havia direção para tal caminho. Ou pelo menos, nenhuma luz que se emitisse sobre ele.
Só lhe restava fechar seu coração, que dificilmente se abriria de novo.
— Como assim? — virou-se para os olhos defrontarem-se com as costas largas de Tobio — Como você pode ter certeza disso se ainda nem me falou o que é? Juro que vou tentar o máximo que puder para consegui-lo!
— Como eu disse, não vai adiantar nada, então não há porque falar. — Seu pulso foi agarrado pelo pela mão pequena e macia, mas com uma força surpreendente. Aquilo demonstrava o quanto Hinata estava determinado a fazê-lo confessar. Teria que arranjar uma resposta alternativa, e em breve — Ka-ge-ya-ma! Se você não disser as coisas nunca vão se resol-!
— Ok, então. Tava pensando que deveríamos voltar a ser só amigos.
Aquilo acabaria com tudo de uma vez.
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Tenho procurado alguém para emitir alguma luz
Não apenas alguém para passar a noite
Eu poderia usar alguma direção
E estou aberto para suas sugestões
.
Tudo o que eu quero fazer é achar um caminho de volta ao amor
Eu não posso superar sem um caminho de volta ao amor
.
E se eu abrir meu coração de novo
Eu acho que estou esperando que você esteja lá para mim no final
.
Notou a frouxidão repentina em seu pulso, e pela curiosidade, retirou a atenção da parede para fitar Shoyo. Orbes arregalados, boca semiaberta, respiração ofegante, ombros tesos. Inesperado — O quê?! Não! Por quê?!
E a fala espantou-o mais ainda. Nem em um milhão de anos esperaria a resistência de Hinata. Não entendia a natureza dessa reação, porém não estava mais disposto a assumir o mesmo risco para descobrir, se sabia que seus sentimentos por si provavelmente não iriam mudar – o que era tão irônico e triste, sendo que dias atrás estava tão esperançoso — Porque... Eu cansei.
Agora, seu pulso foi liberto de vez. O cenho do ruivinho franzia à proporção que seu queixo iniciava uma tremulação prantina. Hinata estava cheio de surpresas hoje. O menor, por sua vez, atordoava-se tanto quanto sua visão enturvava-se de umidade. Perplexo.
Cansar de mim?
Cansar de mim?
Cansar de...
Olhando para um ponto além do levantador, exprimiu — Cansou, é...? Cansou de que? Cansou... de mim? — na última palavra sua voz já estava tão afinada que era iminente que choraria. — Cansou de mim? Não... Não brinque com essas coisas seu idiota! — a ira e o medo recheavam os olhos empapados. Hinata o havia pego pela gola da blusa o chacoalhado insistentemente enquanto gritava palavras desconexas, precisando ser imobilizado pela força maior de Tobio, pelos braços. Ao ver-se impotente, encolheu os ombros e baixou a cabeça, a franja cobria as lágrimas espessas, porém não os soluços.
Cansou de mim?
— O que está fazendo, Hinata? Por que está assim?
O garoto ficou mole, e se não estivesse sendo amparado pelos pulsos teria caído de joelhos no chão — Por isso... Por isso que eu estava com medo de admitir alguma coisa! Sabia que ia dar nisso! Sabia!
— Hinata, o que está querendo dizer com is-
— Eu sabia que num momento chegaríamos a isso! Sabia que você ia dizer isso! Sabia! Sabia! — três segundos de silêncio que apenas os soluços preenchiam — Você acha que eu fui um idiota e o magoei? Espero que esteja se sentindo vingado, porque está me fazendo o mesmo! Embora não possa te culpar por isso. — riu com escarnio e soltou-se; cambaleando, dirigiu-se as suas coisas e pegou-as uma por uma, atrapalhadamente deixando-as cair, esbarrando em outras coisas. Pouco conseguia visualizar. — Perde quem primeiro se apaixonar, não é esse o ditado?! Eu sabia que era eu! Sabia! — soluços e mais soluços. Aos trancos e barrancos, conseguiu reunir todas as suas coisas e dirigir-se à porta de metal.
As últimas frases atingiram em cheio o peito e a mente do maior, que não teve muito tempo de pensar no que acontecia para impedi-lo de abrir a porta. Puxou-o pelo braço e como resultado, seus pertences recém reunidos voltaram ao chão. — Hinata, espere! — Hinata não ousava mirá-lo, não tinha confiança o suficiente para tal.
— Kageyama, por favor, não faz isso comigo. Me deixa ir embora, por favor, por favor. — parecia um inocente implorando para pouparem-lhe a vida. O toque de sua mão sobre sua pele ardia como o inferno. Percebeu que as coisas estavam tão fodidas que nada as resolveria o bastante. Não sabia nem se aquilo era real. Seus sentimentos pareciam tão destoados que duvidava que alguém alguma vez já havia se sentido assim. — Me deixa ir, me deixa-
— Hinata! — seus ombros se encolheram ao ouvir o próprio nome, parou de murmurar no exato segundo — O que você disse...?
O ruivo engasgou. Kageyama estava sendo cruel agora. — Me deixa ir.
— Não, a outra coisa, sobre o ditado.
— Perde quem se apaixona primeiro.
— Como assim?
Contorceu os pulsos afim de se soltar, tão desesperado que chegava a ser patético. O moreno segurava-o mais forte, e ele se viu sem opções senão olhá-lo face a face para dizer a verdade e finalmente... ir embora. — Eu me apaixonei por você, droga! Faz tempo já, ok? Grande coisa! Eu me apaixonei por você e saí perdendo nessa história toda! Por isso a do ditado! É tão difícil entender?! — gritava raivoso em meio soluções e fungadas. Agora mirava os olhos do outro mas tudo no que conseguia prestar atenção era em sua pulsação descompassada.
A falta de reação de Kageyama o deixava mais nervoso ainda, sem falar da mesma sensação que acarretara toda aquela situação infernal de humilhação. Estava tão exposto e à mercê... Dessa vez, não de seus colegas, mas da própria pessoa a quem amava. — Agora, me deixe ir! — voltou a tentar libertar-se, com mais afinco que antes. Para que não caíssem por desequilibro, o maior jogou Hinata contra a porta dupla de metal, apoiando a ambos nela.
— Kage- — um soluço — -Yama...! Para, por favor. Só me deixa ir embora. Só iss- — outro soluço. Estava tão desesperado para sair dali que não via a expressão de pura felicidade do outro.
— Hinata, eu vou te beijar.
— Para com isso, agora! Eu quero ir embora, droga! E tô puto com você- — Os lábios chocaram-se atrapalhados e inexperientes. Os soluços do ruivinho impediam que o ósculo se concretizasse direito, e no final só resultou numa atrapalhada troca de saliva e roce de línguas. A maneira como Kageyama o fazia, prendendo seus pulsos, excitava o pequeno desde seu cerne, porém ainda assim, sentia-se humilhado por não entender nada do que acontecia. Ao final dele, estavam ambos ofegantes e de lábios inchados.
— Para... Para. O que-
— Eu estou dizendo que também me apaixonei por você.
Um engasgo. Hinata sentiu-se ficar sem ar e de repente aquela sala era pequena demais. Tentou, mais uma vez, soltar-se. Em vão — Kageyama...! Não brinque com isso! Não tem graça. Eu quero ir em-
— Estou falando que estou apaixonado por você! Não tá me ouvindo?
Claro que ouvia, mas não acreditava. Parecia bom demais pra ser verdade. A troco do que Kageyama apaixonar-se ia justo por si?
— Ka... Kageyama, estou com medo. — fecho os olhos e apoiou a cabeça no ombro largo.
Kageyama fez o mesmo, apoiando o queixo em sua cabeça. Não sabia quanto tempo ficaram lá, ouvindo a respiração e a pulsação um do outro, mas por fim, respondeu — Eu também.
Mas estariam lá um para o outro no final.
Há momentos em que eu não sei se isso é real
Ou se alguém se sente como eu me sinto
Eu preciso de inspiração
Não apenas outra negociação
Tudo o que eu quero fazer é achar um caminho de volta ao amor
Eu não posso superar sem um caminho de volta ao amor
Do lado de fora da porta, Daichi e Suga respiraram em alívio. Alívio porque os dois finalmente pareciam ter se resolvido.
— Eles só precisavam de um pouco de... inspiração. — inferiu Daichi.
— E abrir o coração um ao outro. — Suga completou.
— É. Isso também.
A dinâmica dos treinos ia mudar.
E muito.
.
E se eu abrir meu coração para você
Eu espero que você me mostre o que fazer
E se você me ajudar a recomeçar
Você sabe que eu estarei lá para você no final
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