Do Negro Ao Laranja
22 Dia 22 - Right Now, de One Direction
Notas iniciais
Domingo à noite. Na penumbra de seu quarto, deitado de bruços na cama, Shoyo Hinata meditava sobre os eventos ocorridos recentemente – como se já não bastasse os que já havia feito.
É.
Ele realmente transara com Kageyama.
Deixara-o enfiar seu... “amigo” em seu... “amigo... de trás?”
Sério... mesmo?
Mesmo?!
As lembranças invadiam seus pensamentos uma por uma, fazendo-o se enrubescer e rolar no colchão de um lado para outro, enquanto exclamava — Ah, não acredito, não acredito, não acredito!
Parou. Bateu os pés na cama. Deu um tapa na própria testa com a mão direita e arrastou-a na cara até o queixo. Já pensara isso tantas vezes, no entanto parecia não cansar de se recordar o quanto não havia mais volta.
Sua relação com o moreno, a partir daí, progrediria irrefreavelmente, e chegaria a “algum lugar”.
Não necessariamente bom.
Levou a mão ao lado esquerdo do peito e apertou-a lá, almejando que seu coração se desacelerasse pelo menos um pouco que fosse. Não tinha vizinhos, do lado de fora da casa só ouvia o trilar dos grilos e cigarras e ocasionalmente um piar de pássaros noturnos. Nos dias de vento, o farfalhar das árvores unia-se a eles.
Mas nenhum barulho maior.
Nenhuma voz ou música sendo tocada nas ruas que o distraísse de seus próprios pensamentos.
Imediatamente após pensar isso, os deuses ouviram suas preces, porque sua pequena irmã de seis aninhos* desatou a cantar uma canção desconhecida – tudo errado, claro.
.
Luzes se apagam
E a noite está me chamando, sim
Eu ouço vozes cantando músicas na rua
E eu sei que não vamos estar indo para casa
Por muito tempo, por muito tempo
Mas eu sei que não vou ficar por mim mesmo, sim
Eu amo essa sensação e
.
— Rái náu... I wish you wãru hir uif mi... Cãs rái náu... Vérimin new tchu mi... — escutou a voz desafinada da criança do outro lado da porta. Riu um pouco, diziam que eram bem parecidos.
Aquele era o ruído que precisava. Poderia se concentrar em escutar sua irmã berrando ao invés de pensar em Kageyama pela milionésima vez nas últimas 48 horas.
Puxou o travesseiro sobre os cabelos, desafiando a si mesmo a reconhecer a música e o artista. À medida que a letra avançava, as vozes pareciam-lhe bem familiares... Era de uma banda famosa, não? Uma colega sua de classe gostava deles...
Qual o nome...? Qual o nome?
Ah, sim! One Directio-
Sua porta no estilo japonês foi aberta de supetão, e a pequena compleição laranja que se parecia consigo apareceu por ela, invadindo seu quarto. Natsu segurava um controle rosa de plástico, assim como tinha enrolado no pescoço um cachecol brilhoso — Rái náu...! I wish you wãru hir uif mi...! — o irmão mais velho ergueu-se para ralhar-lhe, porém não foi rápido o bastante para fugir da pequena jogando todo o peso sobre suas costas, cantando colada ao seu ouvido — Cãs rái náu...! Vérimin new tchu mi...!
— Natsu! Que isso, sua louca?! Para de gritar no meu ouvido!
Natsu parou, ofendida e irada — Não é grito, é uma música! Uma das obras-primas do On Diréchon!
— Tá! Mas na sua voz fica horrível! Sai de cima de mim que eu tô com dor no quadril e no trasei-... — interrompeu-se a tempo. Quase.
Ia ser estranho para uma menina de seis anos que seu irmão estava com dor no traseiro. Certamente ela iria perguntar para a mãe e... Seria um auê terrível – provavelmente.
— Não fica horrível, não! Eu vou ficar famosa e vou cantar com o Héri, que vai virar meu marido, tá? — mostrou-lhe a língua e bateu-lhe na têmpora com o microfone. Héri era um dos integrantes, é...? Nome estranho.
— Vai nada, isso seria contra a lei, sua... pedófila ao contrário! — teve uma vaga memória de sua mãe dizendo-lhe que era infantilidade bater boca com uma criança de seis anos, mas ela logo se esvaiu.
Trocando de posições, enfiou as duas mãos – geladas – sob a roupa da menina e começou a fazer-lhe cócegas nas costelas. A menina inicialmente riu tanto que ficou vermelha, contudo foi ficando incapaz de puxar mais ar aos pulmões, indiretamente asfixiando-se. As gargalhadas logo foram substituídas por lágrimas desesperadas, enquanto desatou a bater no braço do maior para fazê-lo parar.
Quanto o garoto-isca o fez, ela desceu da cama rapidamente, queixando-se — Manhê! O nii-chan foi um pedófilo ao contrário e fez cócegas em mim! — ouviu o ruído de seus pequenos pés descendo as escadas. Revirou os olhos.
Um... Dois... Três... — Shoyo! Desça aqui agora mesmo! Venha pedir desculpas a sua irmã. — resmungou e revirou os olhos mais uma vez, dirigindo-se à sala – que é onde estavam sua mãe e irmã.
No momento, estava inconsciente de tal fato, mas o evento com Natsu empurrara temporariamente os assuntos relacionados à Kageyama ao fundo de sua mente.
Claro, não seria por muito tempo. Aquele não era um sentimento contra o qual poderia lutar.
Logo, logo, voltaria a lembrar-se do levantador moreno. E desejaria que ele estivesse lá consigo.
.
Agora mesmo
Gostaria que você estivesse aqui comigo
Porque agora
Tudo é novo para mim
Você sabe que não pode lutar contra o sentimento
E toda noite, estou sentindo
Agora mesmo
Gostaria que você estivesse aqui comigo
Tarde da noite, os espaços
Com todos os nossos amigos, você e eu
Amo essas caras
Apenas gosto de como costumava ser
.
— Tobio-chan? Você tá bem? Tem estado tão aéreo ultimamente... — Tobio Kageyama, nesse momento, acompanhava sua mãe enquanto fazia compras no supermercado. Não era a tarefa que mais gostava, no entanto a mulher era mestre em chantagear emocionalmente; era impossível negar-lhe algo.
— Ah... Estou bem, mãe, não se preocupe com isso. Só pensando no... nos treinos de vôlei. — a mentira era descarada, embora já estivesse satisfeito com ela. Sua genitora murmurou, pouco crente, todavia deixando o assunto para depois.
Porque ele sabia que ela o abordaria de novo.
Descansou a mão sobre o coração... Ele havia começado a latejar fortemente toda vez que pensava em Hinata e no tempo que passaram juntos... – principalmente quando ele se entregara completamente a si – e como o fazia frequentemente... Suas pulsações estavam sempre aceleradas.
De uma forma ou de outra, tudo aquilo era novo para si.
Agora que tinha mais tempo para pensar no que aconteceria em seu relacionamento, sentia-se desnorteado e por si mesmo... Tinha consciência que no final agiria apenas de acordo com seus instintos e ideias imediatas – principalmente porque comportar-se assim havia mostrado mais resultados que qualquer outra coisa.
Ele era normalmente bem ponderado antes de agir, embora estivesse sendo tão... impulsivo ultimamente. Achou engraçado o fato de que Hinata estivesse fazendo exatamente o contrário. Nele, tão inconsequente, reinava o receio de sequelas.
Não pretendia lutar contra seus sentimentos... Tinha a sensação otimista de que tudo ocorreria bem no final.
.
E nós não vamos estar indo para casa
Por muito tempo, por muito tempo
Mas eu sei que eu não vou ficar por mim mesmo, por mim mesmo
Estou me sentindo como
.
Agora mesmo
Gostaria que você estivesse aqui comigo
Porque agora
Tudo é novo para mim
Você sabe que não pode lutar contra o sentimento
E toda noite, estou sentindo
Agora mesmo
Gostaria que você estivesse aqui comigo
.
Kageyama abriu, segurando algumas sacolas, abriu a porta de casa para sua mãe passar — Pai, chegamos!*
Ouviu uma voz oriunda da sala de estar — Bem-vindos de volta!** — o filho dos Kageyama, quando colocou as sacolas no balcão da cozinha e dirigiu-se aonde estava seu pai, alarmou-se: ele estava com seu laptop na mão! Não! Não havia fechado as guias...
Seu pai mirou-o enquanto apagava um cigarro no cinzeiro — Filho, peguei seu computador porque o meu quebrou e... Você tem visto muitos pornôs ultimamente, né? Deve ser a fase, me lembro quando passei por isso.
Saeko Kageyama chegou ao recinto – para piorar tudo para seu lado — Ah, ele viu uns recentemente com um amigo dele, sabe, o Hinata-kun? — mas a situação podia ficar pior?!
— Ah, legal! Fazia muito isso com meus amigos. — o mais velho acendeu outro cigarro, jogando o esqueiro e o maço na mesa de centro. — Eu e Saeko já estávamos achando que você não tinha amigos.
— É... Mamãe contou...
— Mas enfim, qual de vocês tem uma tara por ruivas? No histórico só tem atriz assim. — Tobio gelou, gotas de suor pesadas e frias escorriam suas têmporas.
— Ruivas? — o desespero fez com que ouvisse a indagação quase em câmera lenta. Fitou-a de soslaio, apenas para descobrir que ela fazia o mesmo. Os olhos demonstravam uma percepção antes em falta – droga, ela mais perceptiva que o maldito do Tsukishima.
Sim, a situação podia ficar pior.
E não, ele não estava falando da naturalidade com a qual seus pais falavam de seu desenvolvimento sexual.
Aquilo só era um prelúdio dos problemas que viriam a enfrentar. Um relacionamento tão novo e instável.
Ah... Ele enlouqueceria. E provavelmente arrastaria Hinata consigo.
Enlouqueceriam juntos – na melhor das hipóteses.
.
E eu poderia fazer isso para sempre
E vamos enlouquecer juntos
Luzes estão descendo
E ouço você me chamando, sim
.
Agora mesmo
Gostaria que você estivesse aqui comigo
Porque agora
Tudo é novo para mim
Você sabe que não pode lutar contra o sentimento
E toda noite, estou sentindo
Agora mesmo
Gostaria que você estivesse aqui comigo
.
Gostaria que Hinata estivesse consigo agora.
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