Do Negro Ao Laranja
21 Dia 21 - À Sua Maneira, de Capital Inicial
Notas iniciais
Os raios da manhã incidiam sobre o rosto de traços pueris de Shoyo Hinata. Aquilo incomodava muito, por isso sempre fechava a cortina de seu quarto... Por que estaria aberta agora? Vagarosamente, suas pálpebras trêmulas fizeram-se levantar, cerrando-se novamente pela agressão da luz.
Espere... Aquele não era seu quarto!
Ainda de olhos fechados, resgatou de sua mente todos os acontecimentos recentes. O karaokê, a garçonete, o banheiro molhado, a noite com Kageyama...
A noite com Kageyama?!
Meu deus, era verdade! Ele... Ele e Kageyama... Eles haviam transado!
Ah, não!
Ah, não!
Não acreditava que havia sido tão fraco e se rendido!
E por um beijo...
Evitou admitir para si mesmo que não se arrependia nem um pouco em ter sido pego nas armadilhas de seu amor por Kageyama.
É.
Flexionou os braços para se levantar – em vão. Só aí que se apercebeu do peso morno sobre suas costas: um braço.
O braço de Kageyama.
Inclinou a cabeça num ângulo estranho, mas finalmente conseguiu observar seus cabelos sobre o rosto, seus lábios ressonantes, o semblante tão calmo que nem parecia seu.
Enterneceu-se pela visão, enquanto sentia o sangue subir-lhe às faces. Se ele não estivesse lá, a seu lado, teria acordado pensando que era um sonho.
Retirou o membro cuidadosamente de cima de si, não querendo acordá-lo. Suspirou. Realmente havia dormido no calor daqueles braços?
.
Ela dormiu no calor
Dos meus braços
E eu acordei sem saber
Se era um sonho
Algum tempo atrás
Pensei em te dizer
Que eu nunca caí
Nas suas armadilhas de amor
.
Arrastou-se cama à fora, tão lento como podia. Se acordasse Kageyama, seria fim, ima morrer de vergonha. Intencionava vestir-se com a roupa da véspera, sair da casa sorrateiramente e voltar a sua própria.
Sim. Aquela seria a melhor forma de agi-
— Ai! — caiu da cama sem perceber, num baque oco e grito alto, logo depois tapando a boca pelo erro.
Merda! E se Kageyama acordasse?
Antes que pudesse erguer-se do chão, notou que seu pé esquerdo havia ficado preso no lençol. Maravilha... Puxou uma vez, uma segunda, não conseguia livrar-se dele. Se irritou e puxou-o com força, trazendo todas as cobertas ao solo.
— Merda... — Mas alguma coisa nos céus conspirava contra ele!
Estalou a língua, procurando ignorar o fato de que Kageyama encontrava-se agora completamente descoberto e que poderia despertar a qualquer minuto. Ou segundo. Ou milésimo de segundo!
Arrastou-se novamente, agora no chão. Se não se livrasse daquele monte de cobertas de cima de si... poderia estar em apuros em breve.
— Hm... — o adormecido murmurou e ele gelou, mas gelou até suar frio. “Não acorde, não acorde, não acorde, não acorde, não acorde, não acorde”.
Não acordou.
Acercou-se finalmente de suas roupas. Ficou de pé. Ignorou o sémen seco que coçava-lhe o abdome. Ou aguentava aquilo até chegar em casa ou teria que se deparar com Kageyama.
Colocou uma peça de cada vez, sendo o mais breve possível; quando flexionou os braços e colocou a blusa... Bateu com o cotovelo num copo de vidro vazio à beira da mesa.
Maldição.
O vidro se estatelou no chão à medida que seu rosto ficava lívido. Estava perdido.
Perdido!
— Hm... Hinata, o que é...? — o moreno recém-despertado esfregou os olhos com o braço e virou-se um pouco na direção do ruído. A cara amassada pelo sono e as pálpebras pouco abertas.
— Na-Na-Na-Na-Nada, Kageyama! Volta a dormir bonitinho, ok? Fica aí que eu só vou... — interrompeu-se ao ver que ele já havia voltado ao sono. — Ufa... — voltou à tarefa, ocasionalmente coçando a barriga. Nunca imaginaria que sémen seco poderia coçar tanto.
Completou o ato de se vestir, satisfeito e orgulhoso. Encontrou o celular no canto do recinto e, ao pegá-lo, deixou-o escapar-lhe da mão, cujo ruído da queda não foi pouco alto.
Kageyama virou-se de supetão, irritado — Hinata, que saco, deixa eu dor-... Aonde você vai?
A brancura retornou ao rosto. Tobio acordara definitivamente agora — Ah, eu... Eu vou pra casa... Né?
Mirou-o franzir o cenho — Sujo assim...?
O ruivinho sentiu-se internamente frustrado por sua tez mudar de cor tão rápido em tão pouco tempo. Do branco-neve ao vermelho tomate. Tenha dó — É-É... Tenho que ir já, minha mãe deve estar preocupada...
— Você avisou ela ontem que dormiria aqui.
— E-Eu sei, mas-
— “Mas” nada. Venha cá agora, deite-se, cale a boca e durma. Porque é o que eu vou fazer, tô cansado. — deu-lhe as costas e enfiou a cabeça sobre o travesseiro.
Shoyo permaneceu encarando-o, indignado. — Mas o que isso tem a ver comigo? — e realmente: Kageyama podia muito bem dormir sem si! Pegou na maçaneta da porta
— Vem cá... Hinata — escutou a ordem do maior e torceu o pescoço. Ele se havia revirado novamente na cama e ainda se via apenas seu cabelo negro sob o travesseiro enquanto pendia o braço esquerdo sobre a cama.
Era pra ele voltar aos seus braços.
Revirou os olhos, o coração latejando.
— Tobio-chan, Hinata-kun, já são 10 horas. Vamos, venham comer! — o chamado de Sarko Kageyama por trás da porta alarmou ambos. Kageyama levantou-se no mesmo instante e encarou Hinata, que correspondeu-o.
Merda!
Os segundos seguidos disso foram uma confusão de roupas e outras coisas jogadas pelo quarto. Hinata teve a impressão de que Kageyama o havia dado um forte soco no estômago, quando notou que na verdade ele tentava limpá-lo com um pano úmido – um pouco grosseiramente demais, diga-se de passagem.
— Isso doeu, Bakageyama! — teve como resposta um revirar de olhos.
— Essas roupas aí tão todas suadas, pegue umas minhas no armário. — pressionou seu nariz entre o indicador e o dedão, chacoalhando-o – num gesto carinhoso. Enquanto corava e esfregava o braço no nariz, Shoyo viu-o fechar a porta. Um segundo depois, ela se abriu de novo.
A semblante do levantador ficara lívido — Hinata... Minha mãe falou seu nome também. Ela não sabia que você dormiu aqui!
Hinata sentiu seu estômago embrulhar-se nervosamente.
Nenhum deles pretendia contar seus segredos – assim esperava ele –, mas e se eles já houvessem sido...?
.
Naquele amor
À sua maneira
Perdendo o meu tempo
A noite inteira
Não mandarei
Cinzas de rosas
Nem penso em contar
Os nossos segredos
.
À mesa, Tobio e Shoyo não tiravam o olhar de seus respectivos pratos. Ela era farta, e a mãe parecia colocar cada vez mais coisas. — O-Obrigado pelo café da manhã, Saeko-san... Desculpe qualquer... incômodo.
— Que isso, Hinata-kun! Kageyama nunca traz amigos pra cá, então adoro quando você vem!
— Ah... — assentiu, rubro, e levou o suco de laranja do copo a sua frente à boca.
Saeko colocou o último prato à mesa e sentou-se a ela, agregando — E então, garotos, o pornô de ontem era bom?
Hinata engasgou e cuspiu todo o líquido como um jato no rosto do moreno ao seu lado, não podendo se conter. Começou a tossir e não via sinais de parar.
Kageyama havia tentado se levantar da cadeira, e no processo, caiu dela, com o rosto todo babado de suco. — Mã-mã-mã-mãe! — passou a bater nas costas do ruivinho que tomara a mesma cor do cabelo, por não poder respirar. — Hinata... Você tá bem? Mãe, olha o que você fez — consciente de que também se ruborizara, trabalhou a imaginação para uma desculpa plausível a mulher de meia-idade.
Essa, por sua vez, parecia divertir-se com o constrangimento de ambos. Balançou as mãos em falsa culpa — Ah! Desculpe falar tão de repente! É que queria muito saber. Custou-me dormir de novo, sabem?
Quando o garoto-isca pensou que sua tosse se abrandaria, ela voltou só ao escutar a última frase. Tossia tanto que pensou que teria que se ajoelhar no chão. Aliás, já o teria feito se seu... amigo – amante? – não o tivesse apoiando pelas costas.
Com muito esforço, obrigou-se a gaguejar, reverenciando — S-S-S-Sinto muito pela noite pas-sada! Nã-Não se voltará a repetir! — terminado o ato, encarou a porta de saída da casa como se ela fosse seu oásis num deserto, e a mãe, sagaz, percebeu.
— Ó, meu querido! Não há do que se envergonhar! Isso é normal para meninos da sua idade, principalmente juntos! Já estava achando que Tobio-chan não tinha nenhum amigo, fiquei preocupada, sabe...? — o convidado assentiu, nunca olhando-o diretamente. Tentou confortá-lo mais — Além do mais, isso não foi nada comparado ao dia que flagrei o Tobio-chan no banheiro se bastur-
— Mãe! Que merda é essa agora?! — “Tobio-chan” mostrou-se tão irado que a mulher ponderou sobre suas declarações constrangedoras, embora fosse muito divertido desconcertar seu filho e amigo.
— E-Eu... Vou ao banheiro por um momento, com licença. — Hinata se explicou e dirigiu-se de cabeça baixa ao lavabo, ombros muito tensos.
O levantador voltou a sentar-se, hesitantemente, na mesa, começando a comer em silêncio, a cólera emanando de si. Sua mãe às vezes era completamente inconsequente. Sabia que ela o ama à sua maneira... Mas fazê-la entender o que era certo e errado o levaria a perder seu tempo, o dia e a noite inteiros.
— Hinata-kun é bem vocal, né?
— Mãe!
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Naquele amor
À sua maneira
Perdendo o meu tempo
A noite inteira
Ela dormiu no calor
Dos meus braços
E eu acordei sem saber
Se era um sonho
.
Após o café-da-manhã, Shoyo Hinata buscou ir embora o mais breve possível, mas os protestos de mãe e filho impediram-no de fazê-lo.
No final, ele e Kageyama ficaram o dia inteiro jogando video-games, incessantemente. Hinata não tinha aqueles luxos em sua casa então praticamente se viciara. Já estava quase zerando o terceiro jogo.
— Ah! Não aguento mais! — após sua morte temporária no jogo, o ruivinho jogou-se deitado no chão e espreguiçou-se, pondo-se a observar Kageyama continuar a fase sozinho. Eventualmente, seu foco de visão passou das cenas na TV ao garoto com o controle remoto, concentrado em manuseá-lo.
Os atléticos sob as mangas compridas, a cintura fina, as coxas fortes, os ombros largos... Encaminhou-se às feições faciais, bem esculpidas e tencionadas pela concentração. O maxilar era acentuado e os lábios finos. Viu-se tentado a acariciar o vinco entre suas sobrancelhas com a ponta do dedo.
Virou-se em direção a ele, esticando o braço e pegou a pontinha de sua camisa, roçando-a entre os dedos — Ei, Kageyama... Por que fizemos aquilo?
.
Algum tempo atrás
Pensei em te dizer
Que eu nunca caí
Nas suas armadilhas de amor
Naquele amor
À sua maneira
Perdendo o meu tempo
A noite inteira
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O moreno ficou teso, seus dedos não mais se moviam sobre os botões do controle, deixando o jogo rodar por sozinho.
“Porque eu te amo e quero que me corresponda” — Hinata... Como assim, nós... Porque quisemos, porque deu vontade.
— Até quando... Até quando faremos isso pela... Vontade? Até quando vai funcionar?
Colocou-se na mesma posição que o menor, voltado para ele — O que quer dizer com isso, Hinata...?
— Não percebe...? Se... os senpais souberem disso... Vão ficar tão bravos. Tudo isso pode influenciar nos treinos, na dinâmica dos jogos... Eles vão ficar furiosos, irados.
O levantador franziu os lábios, embora entendesse o que ele queria dizer. Hinata previa que talvez daquilo tudo só restasse cinzas de rosas. Isso nunca aconteceria! — Eles não podem se meter na nossa vida pessoal. Isso já não é argumento o bastante?
Shoyo não respondeu, nem cruzou olhares, porém, quando finalmente o fez, deparou-se com o brilho cegante das írises negras de Kageyama.
Dissecando-o impiedosamente.
Analisando-o.
Testando-o.
Manipulando-o a seu bel prazer.
O maior levantou a cabeça e apoiou-a numa mão, aproximando-se mais um pouco, sem cortar a linha imaginária que tinham criado ligando seus orbes. Acercava-se intercaladamente, dando-lhe opção de negar o beijo iminente.
Hinata apenas abriu uma pequena fresta entre os lábios, inspirando o ar que sabia que precisaria depois. O olhar que sustentava com Kageyama apertava seu coração, instigando-o a se entalar na garganta.
Os dois pares de pálpebras fecharam-se quando as bocas se encontraram, Tobio encontrando-se emocionado pela falta de resistência alheia.
A ósculo tomou continuidade. Nenhum dos dois queria interrompê-lo. Por tal, a mesma coisa passava em suas mentes.
Mais uma vez passariam a madrugada juntos.
Fazendo a mesma coisa.
Adoraria perder aquele tempo com Hinata.
A noite inteira.
A vida inteira.
.
Naquele amor
À sua maneira
Perdendo o meu tempo
A noite inteira
A noite inteira!
A noite inteira!
A noite inteira!
A noite inteira!
A noite inteira!
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