Do Negro Ao Laranja

17 Dia 17 - Pra Ser Sincero, de Engenheiros do Hawaii


Notas iniciais
Obrigada aos que comentaram no capítulo passado: kake55 Ayelet E Hensel Joyce Lima Celyzinha Naoko A Ayelet e Hensel me comentou que é gaúcha e que tá super ansiosa pra ver como que vai ser o capítulo com a música de hoje, que é dos Engenheiros do Hawaii (que também são gaúchos). Inconscientemente, escrevi o capítulo pensando nela. Então taí, espero que goste, Ayelet!

Kageyama fechou a porta do banheiro de trás de si silenciosamente, distanciando-se dela logo então. Teve a impressão de ouvir um suave “clic” do lado de fora do banheiro, mas em tal momento, algo assim dificilmente chamaria sua atenção.

Até porque ele estava agora com Hinata.

O ruivinho estava lavando o rosto corado debruçado sobre a pia. Esfregava-o sem parar e era óbvio que ainda não se apercebera que tinha companhia no recinto. — Oi. — o susto foi imediato: Hinata bateu em cheio a traseira da cabeça na torneira, esfregando-a e reclamando de dor enquanto levantava-se.

Teve a impressão de que já havia visto aquela cena uma vez. Assustar Hinata com um simples “oi”*.

— Ka-Ka-Kageyama? Você me deu um susto! — ainda não havia parado de massagear a cabeça; do rosto não enxaguado corriam gotas de água incessantemente, molhando seu pescoço e gola da roupa. Teve uma instantânea gana de lambê-lo ali.

Piscou forte. A cada dia que passava, pensava mais nesses tipos de coisa.

— E aí, por que você veio correndo pra cá, está passando mal? — o assunto foi tão repentinamente abordado que até Hinata, com toda sua credulidade, sabia que não era sobre aquilo que o moreno queria falar.

Esfregou o braço na cara úmida e deu um passo para trás, na defensiva. As intenções de Kageyama e o caminho que sua relação com ele estavam tomando ultimamente assustavam-no.

Mesmo apaixonado por ele, achava que seriam, até o fim... Apenas bons amigos.

— Nossa, não se pode nem mais ficar com vontade d-de fazer xixi que já acham que estamos passando mal? Só vim fazer xixi, Kageyama...! — cruzou rapidamente com o levantador, alcançando a porta. Pensou que estava perto de seu escape, mas- — Trancada? — virou-se para ele — Quando trancou a porta? Por quê?!

Agora, era a vez de Tobio de se surpreender: Ele não havia trancado a porta! Chegou a maçaneta por si mesmo, a porta não abria. Encarou o olhar furioso e apavorado do pequeno. Ah... Estava numa enrascada.

— Por que trancou a porta, Kageyama? — forçava a maçaneta cada vez mais forte, tudo em vão.

Kageyama se sobressaltou com o desespero em suas ações. Por que Hinata estava tão apurado? — Não fui eu, eu juro!

— Claro que foi! Não me diga que deliberadamente trancaram a porta por fora! — não desistiu de tentar forçar a tranca, o que apenas restou ao maior ficar olhando-o fazê-lo com tanto afinco.

Hinata de repente assustara-se com a situação. E o motivo exato não lhe vinha à mente. — Hinata... — esticou o braço no intento de pará-lo, que foi apartado com um safanão.

Continuou a brigar com a porta.

De alguma forma... Não parecia que o fazia racionalmente.

.

Pra ser sincero

Não espero de você

Mais do que educação

Beijo sem paixão

Crime sem castigo

Aperto de mãos

Apenas bons amigos

Pra ser sincero

Não espero que você

Minta

Não se sinta capaz

De enganar

Quem não engana

A si mesmo

.

Arriscou impedi-lo mais algumas vezes, resultando em nada. Uma detonação de raiva insurgiu de seu âmago – não sabia de onde nem o porquê – mas um segundo mais tarde tinha Shoyo pressionado contra a porta segurado pelos ombros. — O que que você tem? Calma! Cedo ou tarde vamos sair! Estamos com o celular, Hinata!

Hinata aquietou-se. Mirou um revolto Kageyama sob os cílios grossos, sentindo o toque de sua mão sobre o ombro queimando. Queria que o tivesse tocando na pele, não sobrea a roupa. Remexeu-se desconfortável, deparando-se com o hálito morno que chocava-se contra sua face. — Nã-... Me... — sufocou um suspiro.

— Não o quê?

— Eu falei pra... — Bamboleou o ombro, afim de se libertar — ... Não me tocar. Não me toque!

Seu grito foi a chave para soltar-se, e seu amigo parecia ofendido — O que há com você, hein?

— Comigo? O que há com você! — pareceu encolher-se mais entre o rapaz e a porta — Vo-Vo-Você tem agido muito estranho! M-Me olhado estranho, m-me tocado estranho! — enxugou a umidade de emoção que tinha sob os olhos — O que quer de mim, afinal?!

Tobio ficou hirto, perplexo. O que queria dele? Hinata era tão parvo a esse ponto? Ah... Não acreditava que havia se arriscado tanto, ultrapassado seu orgulho e seu receio para chegar naquilo. Suspirou, procurando controlar a sensação de “não faça isso” e o constrangimento que viria a viver — Olha, pra ser sincero, me sinto atraído por você.

Pronto!

Falara!

Falara!

Falara...

Ah... Estava perdido.

Observou não muito atento o sangue subir à face do corvo ruivo. Um semblante padecente e surpreso, a boca semiaberta, que embora se fechasse e abrisse constantemente, nada saía de lá — Ma-Mas... Kageyama. Nós somos colegas de time, dois garotos, apenas... bons amigos... Não?

Arregalou os olhos em incredulidade, ele realmente tentaria se enganar assim? Shoyo ainda passava pela mesma fase de negação que ele há uns dias atrás. Inegável que, nesse ponto, eles tinham os mesmos defeitos.

Acercou-se mais ainda – ignorando a reação de tentar se afastar – e deito a cabeça sobre seu ombro esquerdo, agarrando seu quadril. Implorou — Hinata... Não vá se enganar agora quando estou me esforçando pra não fazer o mesmo, por favor... Até porque você não vai conseguir — do ângulo que estava, pode assistir os pés alheios se juntarem em tensão — Se só me visse como um bom amigo, não teria me correspondido quando te... quanto te... t-toquei naquela noite.

Sentiu todos os músculos magros se enrijecerem, imaginou que seus pelos estivessem se eriçando também — É... Mentira.

— Hinata...

— Estou falando que é assi- Ahg! Pa-Para com isso! — a interrupção de sua mentira foi um singelo carinho que recebeu sob a orelha. Não era nada violento ou sexualizado, e sim um rocegar amoroso do nariz de Kageyama.

— Você está com nojo? — não cessou-o a indagar.

— Cla-Claro que- Haa... Pa-Para! — aquilo era tão bom... Não conseguia forçar-se a afastá-lo. Percebeu que ele chegaria até a beijá-lo para fazê-lo admitir. E se isso ocorresse... Isso seria seu fim.

.

Nós dois temos

Os mesmos defeitos

Sabemos tudo

A nosso respeito

Somos suspeitos

De um crime perfeito

Mas crimes perfeitos

Não deixam suspeitos

Pra ser sincero

Não espero de você

Mais do que educação

Beijo sem paixão

Crime sem castigo

Aperto de mãos

Ainda bons amigos

.

— O-ok! Ok... Eu também... Eu tam-mbém me sinto atraído por... v-você. Satisfeito? — mordeu o beiço para contar a vontade de gritar.

O-O que faria agora...?

Estava tudo perdido!

.... Não estava?

— Um pouco. — “Um pouco”? O que ele queria dizer com “um pouco”? Aquilo não era o bastante?! Sentia-se como se tivesse vendido sua alma ao diabo, de tão difícil que fora!

A careta aumentou quando o maior mudou sua localização da orelha, indo para baixo, ignorando sua bochecha, seu maxilar. Era quase tarde demais quando entendeu que ele tentava atingir sua boca. Tapou os lábios a um centímetro de distância.

— Não! Não faça isso, por favor...! — Não poderia se dar ao luxo de perder a calma, e um beijo seria o estopim perfeito. Tentou desviar do hálito quente que se unia ao seu, podia até sentir um pouco da umidade presente no interior da boca.

Revolveu-se incômodo, apertou as pernas uma contra a outra mais ainda.

.

Pra ser sincero

Não espero que você

Me perdoe

Por ter perdido a calma

Por ter vendido a alma

Ao diabo

Um dia desse

Num desses

Encontros casuais

Talvez a gente

Se encontre

Talvez a gente

Encontre explicação

.

— Por quê...? — a fala saiu meio abafada pela boca semitapada

— Porque... Pra ser sincero, não quero que você me beije — Uou. Aquela mentira havia doído até em si mesmo — Embo-... Embora sintamos atração um pelo-... outro, quero que continuemos a ser apenas... bons amigos, tudo bem? — Que droga! Não conseguia falar com a boca de Kageyama tão perto da sua.

O outro emburrou, irritado com o pedido. — Hinata, do que você está com medo...?

A inquirição atingiu-o em cheio, trazendo todos os seus sentidos à alerta. — Se... Se nós nos deixarmos e levar e... — Deus, aquilo levava tempo pra falar. Era doloroso e gradual, expressar tanto de si mesmo em tão pouco tempo — ... Der tudo errado? Vai ser insuportável pra-pra mim, Kageyama... Não quero me arriscar a- a- a- Você sabe!

— A quê?

Não era óbvio? “a me apaixonar por você”.

Embora já estivesse apaixonado.

Não que Kageyama precisasse saber daquilo. Claro.

— De-Deixa pra lá. — numa questão de segundos, confessava todos os seus receios profundos a Kageyama, jogando aos céus tudo que tentara esconder até agora, por seu próprio bem, o de sua amizade, e o do time.

Respirou fundo, não sabendo se devia se arrepender pelo que confessava e viria a confessar. Será que depois daquilo, conseguiriam voltar a ser apenas bons amigos?

Se a relação deles... progredisse a um novo patamar e depois quebrasse a algo tão sério que se tornariam “colegas”. Colegas daquele tipo que só se encontram nas reuniões de classe, 10 anos após o término do Ensino Médio.

— Hinata... — a voz grossa chamou sua atenção, e de repente sentia-se envergonhado por ter viajado a mente a algo tão hipotético num momento tão... crítico. — Tudo isso é se arriscar. Estou me arriscando tanto aqui... Eu quero que você faça o mesmo, apenas isso — jogou-lhe a bomba. Mas que desejo egoísta?

“Estou me arriscando e pulando de um prédio, espero que você faça o mesmo.”

— Como se eu fosse aceitar tudo isso só porque você pediu! — ralhou-lhe, enquanto descia os braços e atrelava as mãos a cada lado da roupa de Kageyama. Ele aproximou a boca mais um centímetro – Droga, havia esquecido desse detalhe!

Tentou rechaça-lo, mas agora sim havia sido tarde demais. Os lábios já haviam se colado minimamente. Um roce bem sutil de lábios.

Kageyama manteve-se lá, um roçe de lábios entreabertos, experimentando um o compasso e o gosto do hálito um do outro.

Hinata franziu o cenho. Não sabia o que fazer! Mudou a posição das penas, sua braguilha inchara.

Abriu os olhos que se haviam fechado com o susto, deu de cara com as írises negras mirando-o. Tão de perto! O olhar parecia querer penetrá-lo até o fundo da alma. Testando-o. Conduzindo-o.

Sem registrar o que fazia, abriu mais os lábios afim de dar-lhe passagem para fazer consigo o que quisesse.

O sentimento de entrega forçou suas ações assim que vira os orbes enegrecidos mirando-o com tanta... paixão?

Poderia chamar de paixão o sentimento que vira estampado nas írises de Tobio Kageyama?

Não se renda, Hinata.

Mas era tarde demais.

Se o que estava prestes a viver seria uma mentira, já estava sendo ludibriado.

.

Um dia desses

Num desses

Encontros casuais

Talvez eu diga

Minha amiga

Pra ser sincero

Prazer em vê-la

Até mais

.

Kageyama aceitou de bom grado o convite – ou seria redenção mesmo? – para transformar o roce num beijo de verdade, mas a porta subitamente começou a bater fortemente, a que várias pessoas chamavam-nos do lado de fora.

Justo naquele momento!

Não sabiam, mas naquele momento, ambos possuíam a mesma intenção assassina de cometer um crime contra quem os havia interrompido.

.

Nós dois temos

Os mesmos defeitos

Sabemos tudo

A nosso respeito

Somos suspeitos

De um crime perfeito

Mas crimes perfeitos

Nunca deixam suspeitos

Notas finais
*Quase a mesma coisa aconteceu no capítulo 10 (Dia 10 - Hoje À Noite Não Tem Luar) *ATUALIZAÇÃO* Editei o capítulo mais ou menos às 12:30