Do Negro Ao Laranja
16 Dia 16 - Chasing The Sun, the Hilary Duff
Notas iniciais
Eu não conseguia parar de pensar nos dois garotos que havia conhecido há umas noites atrás, no ponto do ônibus. Estava curiosa para saber o fim que tinham levado aqueles dois.
E qual seu real relacionamento, afinal.
Falaram como se devessem explicações e sentimentos um ao outro, mas não fizeram juras de amor, nem tocaram-se intimamente – um beijo, um abraço.
Tentei me lembrar das informações que havia reunido sobre ambos durante a conversa. Eram... amigos (?) do clube de vôlei. O moreno alto, Kageyama, havia feito algo para chatear o ruivo fofinho, Hinata. O ônibus chegou bem no momento em que fizeram as pazes, então nada mais podia inferir.
— Sasaki-san! Sala 4! Três pratos de batata frita! — o chamado do cozinheiro chamou minha atenção. Aquele par realmente estava tomando muito tempo de minha mente durante o trabalho em meio período. Podia não parecer, mas ser garçonete de karaokê exigia agilidade e cautela.
Peguei os três pratos com presteza e habilidade, dirigi-me à sala 4 e bati na porta – com o pé, porque minhas mãos estavam ocupadas. Quem a abriu foi um charmoso menino de cabelo curto e corpo forte, embora sua expressão mostrasse cansaço e frustração — Ah... Me desculpe a demora. Pode entrar e colocar as coisas. Não note a bagunça e o cara gritando ao microfone... Se puder.
Ri e assenti. Isso era normal em karaokês, oras. Não havia de que se envergonhar. Depositei os pratos sobre a mesa de centro e deu uma rápida olhada de soslaio nas pessoas dá sala.
O charmoso que me atendera à porta, um de cabeça raspada ao microfone, um baixinho com cabelo de galo gargalhando, um alto de barba e quieto, um com uma pinta sob o olho desconcertado pelas ações do de cabeça raspada, um loiro alto, um cheio de sardas e-...
Ah, não!
Não acreditava!
Ao fundo, no canto do sofá, estavam Kageyama e Hinata, sentados lado a lado! Não pude observar muito, porque logo a música começou. E fiquei surpresa com o mau gosto para escolhê-la: Chasing The Sun, de Hilary Duff.
O Cabeça-Raspada pegou o microfone e gritou algumas coisas indecifráveis – pelas expressões irritadas de alguns, notei que havia bebido um pouco, embora fosse menor de idade. O Cabelo-De-Galo riu e concordou. Percebi que era minha deixa para sair dali.
Nunca que faria isso. Não agora que havia reencontrado Kageyama e Hinata!
Contornei o Charmoso, que me encarava de uma maneira inquisidora – afinal, por que a garçonete ainda não havia indo embora? – e cheguei ao tablado, pondo a mão no braço do Cabeça-Raspada. — Hey! É Chasin The Sun da Hilary Duff? Meu deus, adoro essa música! — vesti o máximo que podia do meu charme, e o Cabeça-Raspada e o Cabelo-De-Galo foram fisgados facilmente.
Tipos como eles eram os mais fáceis de se manipular. Ri internamente.
Ambos me convidaram para cantar com eles, apresentando-se com Tanaka e Nishinoya. Aceitei prontamente – ignorando o olhar indignado de alguns de seus amigos – e pus-me a cantar no automático, porque o que realmente queria era me focar na situação de Hinata e Kageyama.
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Por que estou com tanta pressa
Sempre acordando tão cedo
Tudo tão rápido, tudo está desfocado, oh, oh
É como se o relógio estivesse sempre correndo
Mas meu tempo não deve ser desperdiçado
Outra pessoa pode correr atrás dele
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Os dois garotos estavam há pouquíssimos centímetros de distância e raramente cruzavam os olhos, embora trocassem algumas palavras. Os roces eram singelos e pareciam procurar por cada um deles – já havia perdido a conta de quantas vezes vira Kageyama mexer o braço para trombar com o de Hinata –. As faces do menor possuíam um tom rubro, hesitante e inseguro. Embora Kageyama não estivesse muito diferente, pude notar as claras distinções de expressão.
Ansioso e acalorado.
Diferente do Kageyama que havia conhecido no ponto de ônibus, esse deixara a insegurança sobre os próprios e os sentimentos alheios de lado. Parecia entender o que acontecia.
Pelo menos em parte. Afinal, estava descobrindo uma nova realidade de si mesmo, assim como Hinat – provavelmente.
Isso, pressupondo que eles tinham alguma coisa rolando – Sobre o que não havia dúvidas.
Hinata a todo momento mordia o interior das bochechas os suspirava de susto quando era tocado. Vi Kageyama com os olhos dardejando de curiosidade pueril, intrigado pelas reações que causava. Era claro que o medo dele de avançar – e arriscar – era cada vez menor.
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Pois eu estou correndo atrás do sol
Eu estou correndo atrás do sol
Eu estou correndo atrás do sol
Não vou perder toda a diversão
Vamos aproveitar enquanto nossos corações são jovens
Eu estou correndo atrás do sol
Estou em busca da felicidade
Percebo agora que mais é menos
Se eu tenho amor, sou abençoada, oh, eu sei
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Lá estava eu, mais uma vez comparando aqueles dois garotos à música que ouvia... Não sabia como conseguia analisa-los ao mesmo tempo que me divertia com Tanaka-san e Noya-san, mas o fazia de alguma forma.
Diferente da letra da música, meu mais novo casal predileto não parecia ter nenhuma pressa, nem tentando acompanhar o andar rápido do tempo.
Acompanhava o progresso da conversa entre eles e mais outros que não havia notado quando adentrei a sala. Acompanhava também a gradual perda de timidez do menor – o que antes era um reles roçar de unha evoluíra para um constante roce de joelhos.
Acontecia tão calmamente que chegava a ser alheio à toda confusão de amigos e diálogos dentro da sala. O relógio se movia como queriam e não tratavam o tempo como se o tivessem desperdiçando. Como na música de Hilary Duff: “aproveitavam enquanto seus corações ainda eram jovens” – Deus, isso havia ficado brega.
Talvez para quem não via fosse difícil explicar, mas parecia um momento só deles que, muitos anos depois, recordariam com nostalgia.
.
Vou aproveitar a vida enquanto puder
E segurar esse momento em minhas mãos
Vou voar até aprender a pousar em meu lar
Eu estou correndo atrás do sol
Eu estou correndo atrás do sol
Eu estou correndo atrás do sol
Não vou perder toda a diversão
Vamos aproveitar enquanto nossos corações são jovens
Eu estou correndo atrás do sol
.
O clima no recinto era de felicidade e descontração. Aqueles dois pareciam contribuir para tal de alguma forma. Pareciam amar suas vidas no momento, e estar dispostos a vive-las.
Não pude deixar de pensar que amor era uma bênção, realmente.
Não aguentava mais cantar aquela música chata, o que melhorou meu humor foi que, oportunamente, naquele momento, Kageyama – sem querer, pelo que havia notado – roçou os dedos na coxa de Hinata, e isso imediatamente o pôs em alerta.
Ele colou as pernas uma na outra, cruzou as mãos sobre onde elas se uniam, baixou mais a cabeça e encolheu os ombros. Poucos mostraram notar o que acontecia – de fato, só Kageyama e loiro alto, que tentava esconder um sorriso de pura diversão.
Fiquei com ciúmes. Só eu podia rir dos constrangimentos que aqueles dois passavam!
As faces de Hinata tomaram um tom mais avermelhado ainda, o que me recordou um Sol escaldante de verão. Na verdade, tudo naquele menino me lembrava um sol: a maneira de falar, de sorrir, de se movimentar, suas expressões, até seu nome*!
Apostava que Kageyama tinha essa mesma opinião sobre o ruivo.
Ele pareceu não aguentar mais, porque levantou-se de supetão, desculpou-se e dirigiu-se à porta – provavelmente ao banheiro.
Kageyama, um minuto depois, fez o mesmo.
Sorri internamente, uma centelha de orgulho por ele crescendo em mim.
Afinal, ele estava perseguindo seu Sol.
Ou pelo menos, achava eu.
.
Eu amo a vida que vivo
E viverei a vida que amo
Abrirei meus olhos e aceitarei o que vier
Eu estou correndo atrás do sol
Eu estou correndo atrás do sol
Eu estou correndo atrás do sol
Não vou perder toda a diversão
Vamos aproveitar enquanto nossos corações são jovens
Eu estou correndo atrás do sol
.
A música maldita já estava terminando – nem sabia como conseguira observar o casal enquanto cantava.
Aquela era minha deixa!
Ao seu término, desculpei-me pelo inconveniente e rapidamente me dirigi ao banheiro masculino. Abri uma fresta da porta para checar se eram apenas os dois dentro dele. Como imaginava, estavam apenas os dois mesmos, a casa não estava cheia porque era dia de semana.
Fechei-a com mais cautela ainda, num mínimo de barulho. Peguei minha chave mestra no bolso e os tranquei lá dentro.
Queria ver no que ia dar.
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