Do Negro Ao Laranja
15 Dia 15 - Oceano, de Djavan
Notas iniciais
— Hein? Quem mordeu? — Kageyama já perdia a conta de quantas vezes seu parceiro de time lhe perguntara isso, estava ocupado demais tentando achar uma resposta plausível.
Uma que desse um fim naquela maldita conversa.
Agora que pensava mais lucidamente – na verdade, agora que o medo das consequências falava mais alto –, via o quão inconsequentemente agira. O que esperava conseguir falando com Hinata? Que ele se declarasse para si e então vivessem um feliz conto de fada numa quadra de vôlei.
Pelo amor de deus, Kageyama.
Tentou mais uma vez se soltar do aperto da mão pequena em seu pulso, não o conseguiria sem fazê-lo forçadamente – o que eventualmente machucaria o ruivinho. Era curiosa lembrar que naquele momento, as posições haviam se invertido.
Há pouco tempo atrás, era ele segurando Hinata e exigindo-lhe respostas.
Era Hinata o inconsequente.
Era Hinata que fantasiava.
Era Hinata que tinha medo. Era ele que Kageyama tornava o mais forte na quadra.
O pequeno costumava dizer que viveria para superá-lo.
Mas lá estava ele, vivendo por Hinata.
Levantando-se da cama a cada dia que amanhecia para melhorarem suas técnicas juntos. “A dupla do oni com sua clave”.
Indagou a si mesmo se valeria a pena arriscar-se a falar o que tanto lhe pinicava na ponta da língua. Afinal, isso poderia destruir a dupla oni-clave.
O que era essa dupla oni-clave, então? Uma alcunha para durar o Ensino Médio? Ruiria ela com o tempo?
Iria além?
Será que... Quando tudo aquilo acabasse, esqueceriam um do outro?
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Assim que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão
Dava pra ver o tempo ruir
Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim
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O aperto em si aumentou, levando-o de volta o dilema de se deveria arriscar-se no diálogo. Por fim, o receio ganhou.
Era melhor continuar a ser melhor amigo de Hinata a arriscar-se a ser rejeitado por ele — Foi um cachorro...
O aperto se intensificou, em pura raiva. Kageyama não lhe falaria a verdade mas também continuaria a ignorá-lo? Era egoísmo demais! – tão típico de um rei. — Cachorros não mordem assim!
— Então como eles mordem?
Shoyo ia retrucar, contudo hesitou. Não tinha resposta. Aquela mordida apenas não era de cachorro e pronto! Sabia muito bem como era a mordida de um humano porque sua irmã o mordia sempre.
Todavia não tinha como provar aquilo. A sensação eminente de que as coisas ficariam na mesma assolaram-lhe o peito. Kageyama continuaria a evita-lo, provavelmente. A raiva por não poder controlar a própria ignorância crescia junto da balbúrdia de seu raciocínio.
— Cachorro? Não brinca com isso! E... E o meu sonho?! Onde ele se encaixa nessa história?! —soltou o pulso de Kageyama num estante, para apertar os próprios punhos e colá-los ao corpo; orbes tão semicerrados quanto as bochechas rosadas.
— Sonh-? — a voz do moreno foi ofuscada pelo sinal da escola. As práticas extracurriculares do almoço haviam acabado. Era momento de voltar às aulas normais.
Hinata voltou a se sentar, apertando o tecido esportivo dos shorts entre os dedos, as írises grandes mirando o maior amedrontadas. — Hinata... Você estava acordado ou dormindo? – repetiu a exatamente a mesma pergunta de uns minutos atrás, que fora respondida com tanto desentendimento.
O garoto-isca franziu os cenhos mais uma vez, no mesmo momento que Kageyama moveu os dedos e mais uma vez vislumbrou a mordida.
Finalmente, se apercebera do que falava o outro.
De seu sonho! Ele falava de seu sonho!
Mas... Espere! Se era um sonho, como que Kageyama sabia dele?
— Eu-...
— Ei, vocês! O que estão fazendo aqui fora ainda? Vão se trocar e voltar às classes — o inspetor da escola ralhou-lhes de longe. Kageyama amaldiçoou-o baixinho, enquanto Hinata o abençoava no mesmo tom.
Correu para longe sem mais palavras.
Ninguém saberia o que Kageyama sofreu nesse tempo de aulas até se encontrarem novamente.
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Enfim, de tudo o que há na terra
Não há nada em lugar nenhum
Que vá crescer sem você chegar
Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri
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O sinal do intervalo entre o 8º e 9º período tocou. O ruído de cadeiras sendo arrastadas fez-se ouvir, precedido do de vários estudantes se retirando das salas para fazerem o que bem entenderem. Kageyama foi o primeiro a alcançar a sala do 1ºD, correndo os olhos sobre ela para encontrar uma cabeleira rebelde e ruiva. Tendo-a visto, não perdeu tempo. Alcançou seu dono e arrastou-o em direção ao corredor de laboratórios – um dos mais isolados da escola – pouco se importando com quaisquer reclamações que ouvisse.
— Kageyama! Pare! — Shoyo exigiu pela enésima vez. Tobio julgou o lugar no qual estacaram suficientemente longe do vozerio estudantil. Feito isso, libertou o braço do menor, que distanciou-se de seu raptor até encostar-se sobre a parede. Percebeu que ele encarava-o como se estivesse sobre uma sela de dor. Sabia o que estava por vir.
Não o deixaria ficar na defensiva. Agora, quase sem nenhum receio de arriscar, aproximou-se pé ante pé, até ficarem há pouquíssimos centímetros de distância. Se focou nos enormes olhos marrom-caramelo.
Teve vontade de rir. Recentemente estiveram trocando de papel em questão de minutos. Ora era Hinata que o interrogava, ora era ele.
Ora era Hinata o cheio de dúvidas.
Ora era ele.
Ora era Hinata o inconsequente.
Ora era-...
— Dá pra parar de me encarar assim? É incômodo — realmente. Ele estava muito incomodado, além de expressá-lo muito bem: mordia o lábio inferior tão forte quanto mordera seus dedos noites atrás, e os braços abraçavam a si mesmo, apertando-se de nervosismo.
Seria descoberto.
(Descoberto de quê?)
A visão espetou seu baixo ventre, assim com sua imaginação. Os tons de voz, a linguagem corporal... Como se naquele momento estivesse submetendo o corpo de Hinata a si, colocando-o a sua mercê.
O acanhado menino deu mostras de se aperceber de suas írises dilatadas, porque, de repente, morder os lábios já não sanavam sua apreensão; nisso, interior da bochecha mostrou-se mais bem-sucedido. O pomo de adão subia e descia sem parar, como se estivesse no deserto e sou predispunha da própria saliva para umedecer a boca.
Fora Tobio Kageyama quem o trouxe ali, porém o lobo maldito demonstrava querer aproveitar sua posição indefesa de carneiro um pouco mais. A boca secou mais. Ah, sim, aquilo era um deserto cheio de temores e adversidades.
O mirar lupino do levantador dissecando-o mais e mais.
Maldição! Kageyama estava tão confuso e indeciso com ele mesmo há algumas horas atrás! Como conseguia mudar o humor tão rapidamente?
Inspirou fundo. Queria se recompor. Mas como poderia fazê-lo se nada fazia o outro para minar o silêncio sepulcral? Tinha duas opções: ser o cordeiro até que alguém se pronunciasse, ou ele mesmo falar a primeira sílaba.
Escolheu a segunda opção.
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Amar é um deserto e seus temores
Vida que vai na sela dessas dores
Não sabe voltar, me dá teu calor
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Tentou começar de quando ainda era ele o inquisidor da conversa — Que-Quem te mordeu, então?
— Fala você.
Seu queixo caiu. Não esperava por aquele rebate! — M-mas não foi pra continuar a conversa que me trouxe aqui? Você ia me dizer isso, paramos nesse ponto, se me lembro bem!
— Não, paramos no ponto em que você ia me falar se estava dormindo ou acordado. — o timbre engrossou.
Maldito! Ele lembrava!
Estava a ponto de ter um piripaque.
— D-Do que que você tá falando? — descruzou os braços e apoiou-se na parede com as mãos – sentia-se os joelhos fraquejarem.
Fitou as faces do moreno tomarem um tom carmim, ele lambeu os lábios e aproximou os rostos mais uns milímetros. A expressão lupina se havia esvaído, embora não a sua própria de cordeiro — Vo-Você disse que teve um sonho... Hinata. Sobre o que que era?
O coração do pequeno ameaçou pular do peito; raspava o interior do beiço em desassossego. — E-eu não tava do-dor-dormindo... Eu acho. Mas tinha que-que ser um sonho!
Droga, Hinata! Por que falara aquilo? “Eu e minha boca grande!”
As narinas de Tobio se inflaram e puxaram uma grande quantidade de ar — E.... E se não foi?
— Foi sim!
— E-eu to dizendo: e se não foi?
— Kageyama, você não tá entendendo! Com certeza foi um sonho! Você me-. S-s-s-seu ded-d-do na minha bo-... Eu... Eu te...
Os dedos de Kageyama formigavam para tocar o ruivinho. Já havia arriscado tudo o que tinha mesmo... Avançar mais um passo não poderia piorar nada. Ergueu a mão direita e depositou-a sobre o quadril estreito. De lá, fez exatamente o mesmo percurso no corpo do menino que fizera naquela noite na penumbra.
Viu-o balbuciar mais e mais à medida que subia em seu corpo. A cintura, o tórax, a clavícula, a saboneteira – momento em que ficou tão estático que os murmúrios cessaram. Achou curioso o fato de que ao roçar do pescoço ao maxilar, erguia o queixo tal qual um gatinho ronronando – embora agora o único que fizesse agora era suspirar por pânico.
Sabia muito bem a que aquela cena os recordava.
Mais lento que antes, alcançou o lábio inferior com o polegar, afagando-o melindrosamente de uma ponta a outra. Sentiu-o engolir em seco e estremecer os lábios exageradamente.
Quando focou-se nos orbes do pequeno corvo, descobriu que as írises estavam opacas e dilatadas como as suas; a boca semiaberta e o rosto tingido num carmim ansioso. A visão fascinou-o e, por isso, quis ouvir sua voz tão trêmula como imaginava estar — Quem me mordeu, Hinata?
As pálpebras do cordeiro ruivo vacilaram, fitando bem Kageyama embora quisessem cerrar. Passou a ponta da língua por toda a extensão dos lábios, lambendo o dedo do maior sem querer. Tentou falar de primeira, mas não conseguiu. Os olhos umedeceram em constrangimento febril. Seu baixo lábio foi acariciado num último chamado, e após isso, com um suspiro, confessou:
— Fui eu.
Pela primeira vez, Hinata Shoyo aprendeu que amar era quase uma dor.
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Vem me fazer feliz porque eu te amo
Você deságua em mim, e eu, oceano
Me esqueço que amar é quase uma dor
Só sei viver se foi por você!
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