Do Negro Ao Laranja
11 Dia 11 - Back to Black, de Amy Winehouse
Notas iniciais
O garoto ao meu lado no ponto do ônibus chorava em soluços baixos e contidos. Deus, já era tão tarde da noite, por que ele estaria ali naquele estado?
Como a pessoa naturalmente curiosa que era, olhei-o de soslaio e vi que era uma gracinha. O rosto e os olhos estavam vermelhos e inchados, e a todo momento tinha que passar a mão no nariz para impedir a coriza.
— Kageyama idiota! — Ah... Então era por causa desse Kageyama que o garoto ruivo chorava? O que ele era? Um amigo, um irmão...? Um namorado, talvez? Ele limpou mais uma vez as lágrimas que escorriam, dessa vez parando os soluços.
Continuava observando-o discretamente. Embora ainda houvesse indícios, cessara o choro imediatamente e olhava para frente fixamente, uma expressão irritada no rosto.
Cabeça erguida e lágrimas secas.
A vontade de sorrir tentou meus lábios, o que tratei de suprimir. Rá! A situação do garoto parecia com a descrita pela cantora da música que ouvia! Não era engraçado?
Quer dizer... Se a letra realmente refletisse a realidade do Ruivo, então o tal Kageyama seria seu namorado... Um muito mau namorado que lhe havia feito algo horrível.
Sinceramente, estava admirada com o olhar obstinado do meu companheiro-de-assento. Determinado a “seguir em frente sem seu cara” e partir para outra.
Claro... Sua expressão permanecia num luto raivoso. Num luto do qual apenas sairia com o tempo.
Machucado.
Manipulado.
Traído.
É... Provavelmente o “Kageyama” não o merecia. Se bobear, era um cheirador como o descrito na música.
Ah... Será que eu estava imaginando demais?
Adivinhando a vida de outrem por uma composição da Amy Winehouse? Essa era nova!
.
Ele não perdeu tempo com arrependimento
Manteve seu pinto molhado
Com sua segura e velha aposta de sempre
Eu e minha cabeça erguida
E minhas lágrimas secas
Tenho que seguir em frente sem meu cara
Você voltou para aquilo que já conhecia
Tão distante de tudo que passamos
E eu trilho um caminho conturbado
Minhas chances estão empilhadas
Eu vou voltar para o luto
.
O som em meus ouvidos impediram que eu ouvisse passos se aproximando, mas logo que o dono desses proferiu um “Oi”, percebi que era direcionado ao Ruivo.
— O que você quer? — nossa, sua resposta foi bem rude, não? Será que era aquele o tal de Kageyama...? Analisei o recém-chegado dos pés à cabeça. Alto, expressão austera, traços bem delineados, ombros largos, atlético...
Uou. O cara era bonito.
E não parecia do tipo que cheirava cocaína.
— É... Eu vim p-pedir desculpas... Eu agi errado lá em cas-
— Ah, só agora você descobriu? Que bom que pelo menos isso você viu! — A interrupção me surpreendeu. A amargura era a dona integral da entonação do Ruivo. Falava como se tivesse morrido umas cem vezes por causa do outro.
Não parecia que voltaria para ele. Ou para “eles”, a relação que tinham antes.
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Nós sempre nos despedimos com palavras
Eu morri umas cem vezes
Você volta pra ela
E eu volto
Eu volto para nós
Eu te amo tanto
Mas isso não é suficiente
Você ama cocaína e eu amo maconha
.
— De-Desculpa, Hinat-
— Não! — Ah! Agora eu havia descoberto o nome do Ruivo! Era Hinata! Nome bonito, diga-se de passagem. Me lembrava o Sol.
Aliás, tudo naquele menino me lembrava o Sol. O luto não combinava com ele.
Enfim... O “Hinata” parecia realmente irritado e irredutível. Não agia como uma moeda rolando parede adentro do cano que era a vida. Completamente levado por ela – palavras de Amy Winehouse.
Na verdade, pela expressão de Kageyama, podia inferir que quem estava no controle da situação era o ruivinho mesmo – o que é irônico lembrando-se que era ele que chorava há uns minutos atrás.
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E a vida é como um cano
E eu sou uma minúscula moeda rolando parede adentro
.
— Hi... Hinata, me escuta, por favor. — o tom usado era bem suplicante. O que esse Kageyama havia feito para se arrepender assim? O Hinata virou o rosto, tão intrigado pelo timbre usado quanto eu; talvez agora estivesse disposto a ouvir pelo menos um pouco.
No silêncio, esperava Kageyama falar, o que não ocorreu de imediato. Pensei que talvez estivesse pensando demais. Se preocupando demais.
— Então... O que foi? O ônibus está quase chegando, você não vai ter tempo de falar.
— Argh! O-olha! Desculpa, tá bom? Eu agi muito errado e completamente irrazoável! — Enquanto confessava, o sangue subia a suas bochechas. Corava como um personagem de mangá BL* — Eu... Eu tenho estado meio confuso com umas coisas ultimamente e acabei te envolvendo nisso... É que-... Não quero que ninguém descubra esse meu... problema, então acabei ficando meio desesperado. — curvou-se um pouco. — Realmente, me desculpe, Hinata.
Observei as reações de Hinata. A compreensão lentamente preenchia seus olhos e a raiva quase evoluía para o perdão. Aquele garoto mais uma vez me mostrava algo que me faria admirá-lo: a capacidade empática de perdoar alguém.
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Nós sempre nos despedimos com palavras
Eu morri umas cem vezes
Você volta pra ela
E eu volto
Luto, luto, luto, luto, luto, luto, luto, luto
Eu volto
Eu volto
.
Meus ombros tencionavam-se enquanto o menor ponderava. Surpreendi-me quando aliviei-me como Kageyama ao ouvi-lo dizer, bem perto dele.
— Eu te desculpo, com uma condição!
— O que...? — Kageyama falou as palavrinhas como se elas lhe traríam um grande desfio
— Não importa quando, não importa o lugar, sempre que eu pedir pra você fazer levantamentos pra mim fora do horário do treino, você vai aceitar. Tudo bem?
Levantamentos? Treino? Aqueles garotos pareciam ser do time de vôlei de sua escola... Estivera tão perdida na imagem que a Back to Back me havia feito ter deles que ne, imaginei que provavelmente era só amigos!
Dois amigos do clube de vôlei.
Kageyama concordou com a condição – talvez sua amizade com Hinata fosse mais importante que qualquer outra coisa.
Embora minha intuição feminina me dissesse que havia mais coisa naquela história... De que aquilo não ultrapassava uma amizade, e contudo esperava por ser mais que aquilo... Pela explicação e pedido de desculpas de Kageyama, ele havia feito uma grande desfeita para Hinata e se arrependera.
Não antes, é claro, de colocar a culpa na própria confusão de sentimentos...?
Suspeito, no mínimo.
O ônibus pelo qual esperava finalmente chegou. Kageyama pareceu aliviado quando Hinata não subiu nele após mim.
Fiquei tentada a falar-lhes algo, no entanto minha imaginação já havia voltado a música que acabava em meus fones de ouvidos.
Amy Winehouse dizia que sempre voltava ao luto, que sempre se despediam com palavras... E sobre o quão triste estava.
Dessa vez, não relacionei a letra à situação de Hinata. Ele parecia completamente saído de seu luto interior e pronto para outra – o que demonstrava uma grande capacidade de resiliência.
Duvidava que Kageyama o fizesse voltar ao tão “luto” novamente.
Pelo que havia visto, comia facilmente na mão de Hinata.
O ônibus se distanciava e eu os fitava pela janela. Aquilo era um romance BL. Tinha que ser.
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Nós sempre nos despedimos com palavras
Eu morri umas cem vezes
Você volta para ela
E eu volto para
Nós sempre nos despedimos com palavras
Eu morri umas cem vezes
Você volta para ela
E eu volto para o luto
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