Do Negro Ao Laranja

10 Dia 10 - Hoje À Noite Não Tem Luar, de Legião Urbana


Notas iniciais
Obrigada aos que comentaram no capítulo passado: Fangiirl Yukiloves kake55 (que comentou também em vários dos capítulos passados!

Kageyama sentia todos os ossos de seu corpo tremerem em arrependimento pelo que recém havia feito. Deixara-se levar pelos próprios sentimentos e magoou Hinata. Pensando agora, sua atitude parecia tão infantil e infundada que a vergonha lhe aumentava. Só não menos que a culpa.

Maldição! Não era ele o tão impassível e calculista levantador da Karasuno? Aquele cujos times inimigos impressionavam-se com a precisão? Lembrou-se do conselho do capitão Daichi lhe dera dizendo que nunca deixasse que os próprios sentimentos inferirem em seu julgamento.

Deus, o que ele havia acabado de fazer?

Sim. Ele gostava de Hinata. Sim. Pouco se aguentava para abraça-lo, beijá-lo, tocá-lo. Sim. Se o menino estivesse muito perto de si poderia não resistir à tentação e esgueirar-se ao lado dele na cama, apenas para sentir seu calor....

Sim! Era verdade, mas e daí?!

O que Hinata tinha a ver com isso?! O que lhe concernia seu problema?!

Hinata não tinha culpa do que ele lhe causava... Deus, ele nem sequer sabia!

Decidido a buscar o ruivinho de volta e tentar se redimir pela desfeita, desceu rapidamente as escadas e ignorou as indagações de sua mãe, que acabava de sair do quarto. Fechou a porta atrás de si e por um momento observou a cor piche do céu, e dentro de si originou-se uma sensação de mau agouro.

.

Naquela noite não havia luar.

Ela passou do meu lado

"Oi, amor." — eu lhe falei

"Você está tão sozinha"

Ela então sorriu pra mim

Foi assim que a conheci

Naquele dia junto ao mar

As ondas vinham beijar a praia

O sol brilhava de tanta emoção

Um rosto lindo como o verão

E um beijo aconteceu

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O moreno corria na direção que sabia que o outro havia tomado, era onde ficava o ponto de ônibus mais próximo. Passava tão rápido pelas poucas pessoas na rua e pelos carros transitando que nem se aperceberia se alguém lhe houvesse chamado. Por algum motivo, achou o barulho do vento agitando as folhas de árvores parecido com o de ondas do mar quando quebravam na praia.

Já corria há algum tempo, e o ponto de ônibus parecia nunca se fazer avistar. Era impressão ou sempre havia sido tão longe?

Sem sequer perceber, mirou de soslaio as pessoas pelas quais passava. Em sua maioria, estavam todas sozinhas ou em pares. Arrependeu-se mais ainda de ter.... expulsado o pequeno. E se algumas dessas pessoas fossem malfeitoras?

Para seu alívio, logo depois discerniu o ponto de ônibus. Apertou o passo, e só ousou retardá-lo quando estava a poucos metros do garoto-isca sentado num dos bancos. Não estava sozinho. Há 2 lugares de distância sentava uma aparência feminina encapuzada, entretida com os próprios fones de ouvido.

Ele mantinha a cabeça baixa e os ombros encolhidos, tal qual passara pela porta de sua casa. Parecia tão... sozinho. Fungou uma vez. Duas. Três. Esfregou os olhos com a costa da mão.

Ah, não... Ele estivera chorando? — Oi. — falou de ímpeto, desesperado para exaurir-lhe a tristeza.

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Nos encontramos à noite

Passeamos por aí

E num lugar escondido

Outro beijo lhe pedi

Lua de prata no céu

O brilho das estrelas no chão

Tenho certeza que não sonhava

A noite linda continuava

E a voz tão doce que me falava

"O mundo pertence a nós!"

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— Oi. — Shoyo abismou-se quando escutou a palavra simples da pessoa que lhe expulsara de casa. O que diabos ele queria ali?

A resposta veio de imediato: leva-lo de volta.

Ah... Agora que ele não aceitaria mesmo!

Prendeu a respiração e soltou-a. Agradecia pela cara de choro ser camuflada pela penumbra. — O que você quer? — não fez questão de esconder seu tom irritado. A má educação de Kageyama lhe havia espavorido, por isso só pôde sentir abandono de momento... Mas agora, que estava mais racional? Ah, seria tão frio e rude quanto!

— É... Eu vim p-pedir desculpas... Eu agi errado lá em cas-

— Ah, só agora você descobriu? Que bom que pelo menos isso você viu!

— De-Desculpa, Hinat-

— Não! — virou a cabeça para o lado e cruzou os braços. Sentia-se um pouco vingado pelo moreno ter voltado arrependido implorando perdão enquanto ele tinha todo o direito de não aceitar.

Mas só um pouco mesmo.

— Hi... Hinata, me escuta, por favor. — usou a entonação mais austera que podia invocar. Pareceu funcionar, porque o outro virou o rosto. Os orbes, inchados e vermelhos do choro que não vira; mantiveram-se brilhosos também, e Kageyama podia jurar que em casa cintilo via metade das estrelas do céu lá refletidas.

Enrubesceu-se no pensamento. Ah, não... Os delírios românticos não!

— Então... O que foi? O ônibus está quase chegando, você não vai ter tempo de falar.

— Argh! O-olha! Desculpa, tá bom? Eu agi muito errado e completamente irrazoável! — Ah... Que vergonha! Ia mesmo tentar explicar o que lhe ocorria? — Eu... Eu tenho estado meio confuso com umas coisas ultimamente e acabei te envolvendo nisso... É que-... Não quero que ninguém descubra esse meu... problema, então acabei ficando meio desesperado. — fez uma leve reverência — Realmente, me desculpe, Hinata.

Permaneceu lá, de cabeça baixa, esperando o perdão do outro. Viu-o se levantar e, pé ante pé, aproximar-se de si, até ficarem a menos de um metro de distância. Levantou o queixo e se deparou novamente com aquelas írises estreladas. Dessa vez, menos raivosas.

Um monte de emoções passou-lhe pela espinha nesse momento. Sobressaíram-se a certeza de que aquela noite num instante tornara-se linda e o desejo de leva-lo num lugar escondido e pedir-lhe um beijo.

E o faria, se ainda fosse o impetuoso e inconsequente Kageyama que fizera a porcaria que tentava consertar agora. Contudo o lado ponderado e racional voltara a reinar, e não podia estar mais grato.

— Eu te desculpo, com uma condição!

— O que...? — Ah, ainda que ele houvesse voltado ao seu eu de sempre, uma condição de Hinata não era algo para se pensar duas vezes, até porque encontrava-se na desvantagem.

— Não importa quando, não importa o lugar, sempre que eu pedir pra você fazer levantamentos pra mim fora do horário do treino, você vai aceitar. Tudo bem?

— Aah! S-sim! Acho que está tudo bem... — Shoyo riu. Era o exato oposto de rancoroso e entendera facilmente os motivos pelos quais havia sido tão idiota. Claro a mágoa não passaria num passe de mágica, todavia estava disposta a tentar. Além do mais, uma chance de induzir Kageyama a fazer-lhe o que queria? Nunca a perderia!

.

E hoje à noite não tem luar

E eu estou sem ela

Já não sei onde procurar

Não sei onde ela está

Hoje à noite não tem luar

E eu estou sem ela

Já não sei onde procurar

Onde está meu amor?

.

O ônibus que o menor antes esperava finalmente chegou. Descobriram que a menina antes ao lado dele também o esperava, porque apurou-se em subir e pagar o valor devido.

Experimentou o alívio quando Hinata não fez o mesmo que ela.

Fitou o céu pela segunda vez naquela noite. Oras, não é que a lua havia aparecido? Talvez fosse o ângulo do qual olhava antes...

Permitiu que a tranquilidade preenchesse seu peito. Se tivesse chegado ao ponto e Hinata não estivesse lá – talvez já ido, quem sabe –, não saberia onde procurar.

Talvez a lua não teria aparecido também.

Notas finais
Gente, vocês terão uma surpresa com o capítulo de amanhã, que é Back to Black! (não, não é lemon kkkkkkkkk) Obrigada por lerem até aqui. Se puderem, por favor, comentem, @M_Blue_Rose