Do Inicio ao Fim
1 Prólogo
Estava chovendo quando eu sai do quarto de motel do meu terceiro – E último – cliente da noite, devia ser umas três da manha e eu finalmente tinha conseguido dinheiro suficiente para pagar meu quartinho alugado e comprar o suficiente de maconha para, quem sabe, pelo menos uma semana? Havia fumado meu ultimo cigarro a umas... 5 horas atrás, talvez? Se eu estivesse certa sobre o horário, talvez estivesse certa sobre a quanto tempo fumei... De qualquer forma, me sinto alerta de mais, então o efeito dessa merda deve estar passando.
Puxei o capuz do meu sobretudo para tentar me proteger da chuva e sai caminhando pela rua escura e cheia de gente decadente igual a mim. Olhei de relance para dentro de um beco e avistei um trio sentado no chão, dois rapazes e uma moça fazendo coisas obscenas, claramente drogados... provavelmente cocaína? Isso é algo realmente perigoso quando injetado em mim... Me drogo para enfraquecer meus sentidos e essa merda faz o contrário, provavelmente me deixaria ainda mais alerta em relação aos espectros e eu enlouqueceria de vez, não que eu já não estivesse louca o suficiente.
Falando em espectros, acabei por parar na frente do beco de forma um tanto quanto... abrupta. Um dos rapazes do trio me olhou de cara feia enquanto a moça rebolava em seu colo e me mostrou o dedo do meio... Não que aquilo realmente me afetasse, estava mais preocupada com o que eu sabia que somente eu conseguia ver. A aurea de excitação e prazer do trio estava bem clara pra mim, assim como os espectros de frustração, tristeza e decepção não tão grandes parados ao redor deles. Puta que pariu! preciso de um cigarro agora!
Controlei a respiração e voltei a seguir meu caminho acelerando o passo, porem já era tarde demais, eu podia sentir a presença dos meus próprios espectros, o peso nos meus ombros, o ar frio na minha nuca, a angustia no meu peito e a escuridão na minha mente. Eu os odiava, tinha medo deles, queria poder deleta-los, mas não é tão simples. Tudo que eu podia fazer era me drogar o mais rápido possível para que eu ficasse lerda o suficiente para ignorar sua presença e efeitos por algumas horas seguidas.
Que merda eu estou fazendo? Tudo o que eu faço é dormir com um monte de homem idiota e nojento em troca de uma mixaria que só é suficiente para pagar um quartinho minúsculo, fazer duas refeições ao dia e me manter doidona. Porra... que lixo de vida. Qual o meu objetivo? Continuar drogada. Qual a minha função? Ser puta pra vagabundo. O que eu acrescento pro mundo? ... Aquele um minuto de silencio pra constatar que a resposta dessa pergunta é “Merda nenhuma”. Talvez seja até simples me livrar dos espectros...
Segui o caminho em silencio, tentando ignorar aquelas presenças incomodas atrás de mim e fazendo o máximo para não olhar para as outras pessoas no caminho e evitar suas auras e espectros de forma inútil, pois tudo transmitia energias negativas misturadas com excitação e prazer.
Finalmente cheguei em frente à boate Aquarius, no centro da cidade, apesar do meu destino final não ser exatamente nela e sim um beco na lateral. Atravessei a rua as pressas, sem me importar de quase ser atropelada ou de ter certeza de ter ouvido alguém me xingando por isso, e entrei o beco olhando de um lado para o outro, tentando ignorar as presenças humanas e não humanas que não me interessavam enquanto procurava meu fornecedor. A verdade e que eu estava meia tonta de tantas energias e espectros ao mesmo tempo que sentia o sangue começar a ferver pelos mesmos motivos.
—- Psiu! – Ouvi o chamado vindo da minha direita e então notei quem eu conhecia que era mais próximo da definição de amigo, apesar de nossa relação claramente estar longe da amizade. Me aproximei dele. – E ai gatinha... já zerou o estoque?
—- Anham – Dizia me encostando na parede ao seu lado enquanto olhava para a entrada do beco, como se procurasse algo.
—- Beleza... Está com a grana? – Agora olhando pra frente enfiei uma das mãos no bolso que eu tinha colocado o dinheiro para a maconha, entregando na mão dele. – Beleza... O de sempre ne gata? Aquela erva da boa...
—- Na verdade não. – Interrompi, me virando de frente pra ele, ainda encostada no muro, mas agora de lado. – Eu sei que você tem coca aí.
—- Ah... Talvez – Ele respondeu claramente pego de surpresa, olhando de um lado pro outro. – Mas você sabe que se quiser a mesma quantidade que você pega de maconha vai ter que descolar mais uma grana né?
—- Não se preocupe com isso... – Sorri da forma mais doce que eu conseguia, sem ter certeza se tinha passado o efeito que eu queria, pois já estava perdendo a paciência.
—- Beleza... vem comigo.
Ele segurou meu braço e me puxou até a saída do beco, onde eu me soltei e o segui caminhando com as mãos no bolso. Eu estava decidida sobre o que queria fazer, e já sentia meu corpo desejar mais droga, além da clara presença nas minhas costas que eu fazia de tudo para ignorar. Meu “amigo” me levou pra dentro de um motel mixuruca quase ao lado da boate e o lugar era realmente horrível e por um momento me perguntei se ele só havia me levado até ali em troca de sexo, mas quando vi ele apenas fazer um sinal com a cabeça para a balconista – Que havia ficado com uma áurea bem feliz e um sorriso sacana pra ele — e ela imediatamente tirar de baixo do balcão uma mochila preta surrada, descartei a ideia. Ele pegou a mochila e nos sentamos num sofá velho no canto do cômodo.
—- Você vai querer a mesma quantidade?
—- Na verdade não. – Interrompi, cruzando os braços. – Acho que o suficiente pra umas três doses na veia. – Já estava impaciente de tantas perguntas e a clara energia de excitação que garota do balcão mantinha enquanto olhava para nós estava piorando a situação.
—- Beleza... – Ele abriu a mochila e me entregou um pacotinho cheio de pó branco. – Você sabe usar essa merda, gata? – Balancei a cabeça positivamente de forma automática, enquanto a áurea dele agora era de preocupação. – Se liga na quantidade... ai dá pra umas 4 agulhas e...
—- Eu sei. – Respondi ríspida, querendo que ele calasse logo a boca, enquanto pegava o pacotinho e estendia a mão para ele, esperando uma seringa. Ele me olhou com um pouco de reprovação.
—- E sério gatinha, tem gente que usa o dobro da quantidade por que está acostumado, mas como você nunca usou...
—- Já usei. – Revirei os olhos e o interrompi. Eu não estava mentindo... não que eu fosse experiente com o uso de cocaína, mas isso pouco importava no momento.
—- Beleza então. – Relutante, ele entregou a seringa na minha mão e eu me levantei imediatamente, sorrindo pra ele e acenando com a cabeça. – Juízo, gatinha.
Sai daquele lugar o mais rápido que pude, sentindo o pacotinho e a seringa no bolso como se pesasse uma tonelada. Toda aquela gente ao meu redor com suas energias e espectos me irritavam, me deixando com náuseas enquanto eu seguia o mais longe possível da multidão, em silencio.
Cheguei a um cais vazio e escuro, que apesar de claramente abandonado e caindo aos pedaços, o céu agora limpo, a luz da lua refletida no mar e o som das ondas faziam aquele lugar perfeito para o que eu pretendia fazer. Subi no cais e caminhei devagar sobre a madeira podre e barulhenta, me sentando na beira e encarando o mar por alguns minutos e logo as lagrimas preencheram meus olhos. Que vida merda eu tenho... desde o inicio até agora, tudo sempre foi uma merda! Eu nunca fui nada, nunca fiz nada e vou continuar sendo um nada!
Com a vista embaçada pelo choro, preparei a droga numa quantidade obviamente exagerada e coloquei na seringa, em seguida soltei o meu longo cabelo liso e negro que, livre, pesou sobre meu corpo, e usando o elástico que havia conseguido, prendi a circulação sanguínea do braço acima do cotovelo. Enfiei a agulha em mim e respirei fundo antes de empurrar todo seu conteúdo para dentro.
Aquilo foi maravilhoso. Prendi a respiração instantaneamente de tanta excitação, jogando meu corpo para trás e me deitando no cais de olhos fechados enquanto meu coração acelerava e meu corpo delirava numa mistura de adrenalina e tesão. Abri os olhos novamente encarando o céu estrelado acima de mim com satisfação e logo aquelas sombras negras com expressões assustadoras entraram no meu campo de visão, cobrindo completamente o céu e me deixando na escuridão. Há! Seus filhos da puta! Acharam mesmo que me atormentariam por mais uns sessenta anos pelo menos?! Vão para o inferno! Aproveitem seus últimos sessenta segundos!
Comecei a gargalhar, mas provavelmente se alguém visse acharia que eu estava sufocando... e estava mesmo. Ficou difícil de respirar de repente, ao mesmo tempo que meu coração batia tão rápido que chegava a doer, enquanto os rostos dos espectros ficavam cada vez mais embaçados.
Então eu ouvi passos... alguém parecia correr perto de mim... talvez correndo para mim? Meu corpo estava mole e eu não tinha forças para verificar de onde vinham esses passos. Apenas senti algo me segurando nos braços e gritando algo que eu não tinha a mínima intenção de entender. De forma rápida e embaçada vi um rosto desconhecido me olhando com preocupação enquanto... corria comigo nos braços? Não! Me deixe em paz! Eu quero ficar aqui! Mas minha boca não obedecia mais a mim... Então tudo escureceu.
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