Acordei com o barulho irritante do despertador do lado da minha cama. Estiquei o braço na tentativa de desligar aquela porcaria, mas acabei derrubando... Que tal eu começar a olhar para o que estou mexendo? Me sentei e observei o pequeno aparelho no chão, o display marcando seis da manhã ainda estava aceso apesar de ter saltado para fora da pequena caixinha de metal... Pelo menos tinha parado de apitar.

Peguei aquilo e coloquei de qualquer jeito de volta no lugar e me levantei da cama, coçando os olhos para tentar força-los a abrir de forma mais eficaz e caminhando até a porta do banheiro, usando uma das mãos para abrir a maçaneta e finalmente chegar em frente a pia, onde apoiei as duas mãos e me encarei no espelho. Meu cabelo liso e negro, que eu tinha cortado a uns meses atrás e agora chegavam até um pouco depois do queixo, estava completamente bagunçado de um jeito que me fez rir, enquanto meus olhos azuis e fundos resultante de poucas horas de sono estavam ainda vermelhos de tanto que eu os esfreguei. Suspirei e abaixei o olhar em busca da escova e pasta de dente, e quando iniciei minha higiene bucal ouvi um bip do meu celular.

Voltei ao quarto e procurei o aparelho sobre o balcão onde eu tinha certeza que havia o colocado pra carregar... mas pelo jeito eu estava enganada, merda. Segurei a escova na boca e usei as duas mãos para afastar os lençóis até achar o telefone não muito grande – não gosto de celulares grandes – no meio da cama. O peguei e verifiquei o bip, adivinha o que era? Bateria estava em 1%! Inferno... Ainda na minha mão o aparelho vibrou novamente, dessa vez uma mensagem, o destravei para ler e responder.

“ Bom dia, bela adormecida! Já sei que está acordada! “ — Jonathan, 6:03 AM;

“ Bom dia, eu acho... Como sabe? “ — Saphyra, 6:03 AM;

“ Ouvi o seu despertador caindo “ – Jonathan, 6:03 AM;

“ Você não quebrou, não é? “ – Jonathan, 6:04 AM;

Antes que eu pudesse responder, o celular bipou uma ultima vez e desligou, descarregado. Não sei se fico feliz por não precisar responder agora sobre o pequeno incidente com o despertador ou se fico puta por que vou precisar sair e o celular está zerado... Depois eu decido, de qualquer forma, coloquei o aparelho onde ele deveria ter passado a noite... sobre o balcãozinho, carregando. Caminhei de volta ao banheiro, onde terminei de escovar os dentes e puxei a toalha atrás da porta para tomar um banho. Meu dia hoje ia ser longo, e eu espero que a gente consiga dessa vez algo relevante.

Bom, eu e o Jonathan somos parceiros de “trabalho”, mas eu diria que estou mais pra cobaia. Uma organização secreta do governo, pelo o que me disseram, estavam de olho em mim e no meu “dom” já fazia um tempo, e quando eu tentei suicídio há 2 anos e 3 meses atrás finalmente resolveram intervir. Eu só acho engraçado eles chamarem isso de dom, por que todos a minha volta sempre consideraram loucura e eu, particularmente, sempre considerei uma maldição.

Bom, depois do tempo que passei com eles eu entendi como funciona e até organizamos tudo em classificações mais especificas, e não apenas em áurea e espectro como eu sempre chamei, para deixar as coisas mais claras para pessoas como, por exemplo, Jonathan. Basicamente eu vejo as energias das pessoas, que se forma atrás do que elas sentem.

Se alguém está feliz, eu vejo uma áurea feliz nessa pessoa, e essa é a primeira classificação da energia, Áurea. A primeira manifestação da energia é quando ela está sendo produzida, refletindo o que a pessoa está sentindo naquele exato momento e intensidade.

Se alguém esteve feliz a pouco tempo atrás, dentro do período de tempo de três a cinco dias, a energia que foi produzida na primeira manifestação se mantem ao seu arredor, porem se dissipando aos poucos e deixando rastros, sendo essa a segunda classificação, Fumaça.

Se enquanto ainda houver fumaça “feliz” a pessoa voltar a possuir uma áurea do mesmo tipo, a fumaça vai se tornar mais densa e crescer, e depois de muito acumulo de energia pode vir a se tornar um Espectro, a terceira – e mais irritante – classificação. Espectros são como fantasmas que te seguem para todo o lado, irradiando energia e afetando tanto o dono quanto os outros ao redor, sua influência depende de sua força, de quanta energia ele acumulou, chegando a ter a capacidade de sussurrar palavras, frases ou até mesmo interagir ou objetos físicos – olha ai os que vocês chamam de fantasmas! São apenas seus sentimentos, por que fantasmas de verdade não existem... idiotas.

Eu tenho meus próprios espectros – não muito amigáveis – que carrego desde a minha infância, um peso gigante nas minhas costas. Antes da minha tentativa de suicídio fazia um ano que eu fazia de tudo pra me manter completamente drogada apenas para conseguir bloquear essa porra de dom e assim eu conseguia não os ver... mas isso foi uma completa idiotice.

No centro médico da organização, onde fiquei cerca de um ano, passei pelo processo de purificação, basicamente tirar toda aquela merda do meu corpo e... a abstinência dói muito... os primeiros meses foi como estar no inferno e com meus próprios demônios particulares para me castigar, mas eu consegui. Depois desse período o laboratório me entregou uma outra droga, dessa vez não nociva, funciona como um relaxante que bloqueia a ação dos espectros sobre mim, então logo consegui lidar com eles, sempre os tive perto de mim, mas agora apenas como sombras distantes que não me faziam medo enquanto estivesse sobre o efeito do comprimido.

Saí do banheiro enrolada na toalha e vi espalhados pelo quarto... seis espectros, talvez? Mostrei o dedo do meio para eles, digamos que é um pequeno ritual matinal meu, e caminhei até minha mala deitada no chão ao lado da cama... eu não iria me dar o trabalho de colocar tudo no armário do quarto do hotel. Peguei uma calcinha e um sutiã qualquer, uma calça jeans e uma blusa básica azul marinho, lembrando do pedido de Jhonatan por uma roupa comportada porem não tão social.

Me sequei rapidinho com a toalha, incluindo o cabelo para tentar evitar que pingasse na camisa, e me vesti sem muita cerimonia, indo em direção ao celular no balcão em seguida. Consegui liga-lo e agradeci ao ver que já estava com 46% de bateria, mas não tive condições de comemorar quando percebi a hora. Já eram 6:58! Eu deveria estar pronta as sete em ponto! Deixei o aparelho ainda no carregador e procurei uma escova de cabelo na mala e... Onde esta? Sem paciência, me levantei e fui até o espelho do banheiro, penteando o cabelo com as mãos de forma apressada e voltei ao quarto, me sentando na cama para calçar meu tênis branco, que eu sabia que era de uma marca famosa, mas não fazia questão de me importar de qual era.

Peguei meu celular, chave e meu potinho de comprimidos, sem esquecer de tomar um rapidamente, e enfiei tudo no bolso da calça e sai do quarto, pegando o elevador até o térreo. Sai do hotel e dei de cara com o jhonathan encostado no carro em frente a entrada me esperando, usava um jeans e uma blusa social azul clara, seu cabelo castanho claro estava bem penteado para trás e sua recente barba estava meio crescida. Ele mantinha uma áurea divertida e um sorriso brincalhão no rosto para mim.

—- Não reclamaram com você por estar parado na entrada do hotel? – Perguntei enquanto eu descia uns poucos degraus até a calçada.

—- Sabe... – Ele olhou no relógio e bateu uma palminha pra mim. – Estou orgulhoso de você! São 7:12! – Revirei os olhos.

—- Ah! Me deixa em paz! – falei enquanto dava a volta no carro até a porta do passageiro do outro lado.

—- Estou falando sério! – Ele riu, levantou as mãos na altura do rosto como se não entendesse minha reação enquanto virava o corpo, me acompanhando. – Foram só doze minutos! Geralmente são trinta!

—- Vai logo! Precisamos ir! – Ignorei o comentário e falei entrando no carro e fechando a porta.

—- Tudo bem, senhorita! – Respondeu ele ainda rindo e finalmente entrou no carro, colocamos o cinto de segurança e finalmente estávamos a caminho.

Jhonatan era um cara legal, eu o conheci depois de deixar o departamento médico a um ano e três meses atrás, ele foi o agente escalado para ser meu parceiro, mas até onde eu sei o próprio se ofereceu desde o início, e foi ele mesmo que me resgatou no cais. Sempre mantem uma áurea alegre e divertida, apesar de ser sério e profissional quando o assunto é trabalho, e como qualquer pessoa saudável psicologicamente não tinha nenhum espectro.

Quando eu o conheci fomos treinados para trabalhar juntos, ele aprendeu junto comigo tudo sobre o meu dom e eu aprendi junto com ele o que eu chamo de “coisas de policial”, tipo auto defesa, atirar, como funciona a burocracia, interrogatórios e mais um monte de coisa. Tudo para um experimento que os nossos chefes na organização tinham em mente.

Basicamente, a organização acredita que meu dom – ainda é estranho chamar assim – facilitaria no processo de investigação de assassinatos, sequestros ou coisas parecidas, mas sinceramente até agora não deu nenhum resultado. Já faz três meses que eu e Jhonatan estamos em campo e tudo o que eu consegui foi identificar coisas que os próprios policiais já haviam identificado, então... é, inútil. Mas eles continuam nos mandando de delegacia em delegacia para acompanhar os principais casos e ver no que dá então... aqui vamos nós mais uma vez, não é mesmo? Dessa vez para o Departamento de Policia de Los Angeles, onde vamos dar plantão por uns quinze dias.

—- E ai? Preparada para o próximo caso? – Disse Jhonathan me olhando de relance, mantendo a atenção na direção.

—- Sinceramente, Jhon... – Suspirei. – Você realmente acha que meu “dom” – falei a ultima palavra com um tom de deboche – vai servir pra alguma coisa?

—- iih... – Ele balançou a cabeça negativamente. – É incrível como eu tenho mais fé em você do que você mesma! É claro que sim, Saphy! – Suspirei.

—- Se não der certo, vou poder morrer em paz dessa vez? – Olhei pra ele esperando a resposta.

—- Aah para com isso! – Ele disse e abriu o porta luvas na minha frente. – Só pega o pente que esta ai dentro e arruma o cabelo!

—- Ah.. – Aquilo me pegou de surpresa. – Está tão ruim assim? Não achei a porra da escova hoje.

—- Olha a boca! – Ele me olhou com reprovação e eu revirei os olhos. -- Nem tanto... ainda está molhado, mas mais tarde vai ficar!

Seguimos a viagem em silencio e eu aproveitei pra tirar um cochilo, sendo acordada com cutuques na minha cintura que faziam cocegas... havíamos chegado ao departamento. Ainda dentro do carro, Jhon me deu um coletinho com uma insígnia do governo que nos dava direito e autoridade para acompanha-los e fazer as perguntas que acharmos melhor, basicamente um passe livre.

Cada um vestiu o seu e saímos do carro, caminhando tranquilamente até a entrada do prédio e... quanta gente naquele saguão. O comprimido inibia os efeitos daquele monte de energia e a provável náusea que eu estaria sentindo, mas mesmo assim era um tanto quanto incomodo pra mim, afinal não era sempre que eu estava rodeada de tanta gente e eu não havia me acostumado ainda. Jhon olhou pra mim e pareceu perceber minha situação, colocando a mão no meu ombro e fazendo com que eu o encarasse por alguns segundos com uma expressão tranquilizadora, eu apenas assenti e abaixei o olhar, evitando aquela confusão.

Logo um policial magrinho, branquelo e de olhos e cabelos castanhos se aproximou com um sorriso sincero no rosto, nos guiando até o chefe do departamento, e sinceramente, entrar no escritório fechado foi um alivio. Um homem de cabelo e barba branca e olhos negros cansados nos recebeu não tão animado quanto o policial anterior, e nem se preocupou em se levantar, apenas estendendo a mão para nós cumprimentar.

—- Bom dia, meus jovens! – Disse brevemente, apertando nossas mãos.

—- Bom dia Tenente Frederik! Me chamo Jhon e essa é a minha parceira... – Jhon começou a falar, mas foi interrompido.

—- Saphyra – Ele me olhou de cima abaixo, me julgando e eu apenas assenti. – Sei quem são. Bom, estão com sorte pois agora mesmo está saindo uma viatura para investigar um corpo encontrado agora pouco não muito longe daqui... creio que deve interessar a vocês.

—- Sim, sim! Interessa! Então vamos nos juntar a sua viatura agora mesmo! – Jhon estava claramente um tanto quanto irritado pelo comportamento do tenente, mas manteve a discrição – Então mais tarde voltamos para as formalidades. – O tenente assentiu e nós saímos do escritório.

Notas finais
O que acharam? algo de dizer? Comentem! eu sempre respondo a todos! ♥