Do “Inferno” ao “Paraíso” - Por Henry Lazar
4 Capítulo 4
Notas iniciais
POV HENRY LAZAR
Assim, emposto a voz, e não resistindo, pergunto-a...
— E aí se divertindo bastante?
Ela dá um suspiro de frustração e enquanto ela se prepara para dizer, vou retirando minha máscara, pois, tenho o objetivo de aproximar-me dela, pode ser que o ambiente seja propício a isto, e aproveito para fazê-lo, enquanto ela está de cabeça baixa e não percebe que sou eu.
No entanto, ela diz algo que me desarma e me deixa sem reação, de tal forma que, nem a máscara consigo colocar de novo!
— Quem me dera! Como me divertir se estou em uma festa em que estão homenageando o babaca que destruiu a minha vida? Só se ouve Henry Lazar pra lá, Henry Lazar pra cá... Ai que cara idiota! Como eu odeio ele!
Aquilo funciona como um soco em meu estômago, e o pior é quando ela me olha... Ela fica a princípio muito chocada e evidentemente muito envergonhada! Porém, como é durona, ela diz:
— Bem, não é novidade para você que eu te odeio, e agora você também sabe que, eu te acho um babaca! Passar bem!
E ela sai, deixando-me mais uma vez, moído e arruinado por dentro, porque por mais que eu tente, eu não consigo entender...
Por que ela levou aquilo para o lado pessoal, por que ela me odeia? Eu não tenho culpa de ter ganhado? Na verdade, eu nem esperava por isto.
Como não restou em mim, vestígio algum de tolerância à festa ou comemoração, deixo o recinto sutilmente, em busca do refúgio do meu apartamento.
Quando estou indo para o carro, vejo Valerie pegando as chaves do seu com o manobrista. Então, ela também iria embora? Será que ela já não tinha mais clima para festa? E ela nem imagina, que nem eu o tenho...
Assim que chego ao apartamento, dou-me conta que são exatamente 22:25 horas, faltam cinco minutos para o horário que usualmente eu falaria com a... Aff... Já nem sei como chamá-la.
Tiro as minhas roupas em um minuto, e tomo um banho de dois minutos e me visto do pijama, em mais um, e assim exatamente 22:30 horas, pego-me de frente para o computador já ligado, esperando para ser utilizado.
Naquele instante, a minha mente processa exatamente o que o meu coração já sabe, eu não irei desistir.
Entro na sala de bate-papo, e para minha surpresa, ela está lá.
Meu coração dispara... Primeiro, eu preciso saber o que dizer quanto a ter faltado, e segundo, não posso dizer a verdade, e terceiro, ela já sabe que eu estou aqui e está quieta. Então, percebo que como fui eu que supostamente faltei ao encontro, eu é que tenho de reatar o contato... Assim teclo...
— Oi!
Passam-se quatro minutos e ela responde...
— Oi!
Percebo que terei de fazer mais do que isto...
— Acredito que a primeira coisa que preciso fazer hoje, é pedir-lhe desculpas.
Então, ela explodiu, em letras garrafais!
— SIM, E NÃO SÓ PEDIR DESCULPAS, É ME EXPLICAR POR QUE CARGAS D'ÁGUA UMA PESSOA QUE ESTEVE POR MESES, ANSIOSA PARA ENCONTRA-SE COMIGO, ESTRANHAMENTE, NA VÉSPERA, MUDA COMPLETAMENTE E SIMPLESMENTE NÃO APARECE NO ENCONTRO, E AINDA SOME POR TRÊS DIAS, E DO NADA APARECE DIZENDO "OI".
É lógico, que eu consigo ser totalmente solidário à sua frustração. E decido ser sincero dentro do que me é possível. Aquilo na verdade não me assusta, porque eu sei, que de certa forma, ela tem razão, da mesma forma que eu tenho os meus motivos.
— Olha, eu vou ser muito sincero a você. Eu realmente queria demais este encontro, assim como quero demais continuar me relacionando com você. Porém, eu preciso que você entenda, que eu no momento, neste momento, ainda não posso te dizer o que aconteceu. De verdade! Porém, eu estou muito triste por ter desapontado você. Realmente me perdoe!
Segue-se um torturante silêncio... Mas, sei que ela precisa de tempo para digerir... Mas, meu coração está angustiado... Por fim ela tecla...
— Tudo bem então. Eu acredito em você! Eu só queria que soubesse que muito me angustiou o fato de saber que não teria você mais aqui, para conversarmos. Justo agora que estou precisando tanto, pois, o meu mundo anda desabando.
Aquilo traz alívio ao meu coração. Então, de certa forma ela também sente falta...
Mas, aí eu me lembro: ela não sabe quem eu sou. E outra coisa que passa a me percorrer é preocupação, de o porquê ela diz que seu mundo está desabando... Então, pergunto-lhe...
— Por que você diz que o seu mundo está desabando, Baby?
— Bem, de uns tempos pra cá, tudo tem dado errado para mim. A única coisa que às vezes me faz ter ânimo, é que eu me lembro de minha mãe dizendo que quando algo muito bom está para acontecer em nossas vidas, geralmente, por um período, antes de este algo bom chegar, nós somos provados ao extremo, para fazermos jus ao que temos a receber. É nisto que eu tenho me concentrado.
Ela tecla e coloca uma carinha de triste, o que me leva a confortá-la com mais algumas palavras.
***
A partir desse dia, as conversas ocorrem normalmente. Nós não falamos mais sobre o que aconteceu, nem sobre o encontro, muito menos sobre "nossos" inimigos.
O fim de semana corre tranquilamente.
Passamos a nos falar muito mais e ao que parece, os seus laços comigo estão ainda maior, o que me deixa bastante incomodado, tentando encontrar uma forma de trazê-la para minha vida mesmo sabendo o tanto que ela me odeia.
***
Na segunda-feira, chego ao trabalho. De certa forma na expectativa de encontrá-la. Porém, não a vejo, nem durante uma reunião que temos entre os editores à tarde. O fato me deixa extremamente incomodado e alguém faz um comentário de que ela não veio trabalhar hoje.
À noite quando conversamos, fico tentando encontrar maneiras de saber o que está acontecendo que faltou ao trabalho, porém percebo que só conseguiria se perguntasse abertamente, e isto eu não podia fazer, porque eu seria descoberto.
Na terça, percebo a mesma coisa, que ela não está na empresa. E num determinado momento, eu ouço Peter comentar com alguém que hoje ela não apareceu. Aquilo me deixa preocupado, será que está acontecendo alguma coisa?
À noite, depois de atrasar-se dez minutos para entrar na sala de bate-papo. Por fim, ela tecla...
— Oi, lindo! Hoje eu só vim mesmo dar um oi, pois, eu estou péssima. Peguei um resfriado e não saio da cama desde ontem, não consegui ir trabalhar ontem, nem hoje e também já estou de atestado para amanhã.
— Tudo bem, espero que melhore rápido, Baby!
— Obrigada, beijos!
— Beijos!
Aquilo me deixa bem triste, ela está doente, e provavelmente, não tenha quem cuide dela.
Neste instante, me ocorre algo. Pego as chaves do carro e saio em disparada em direção à empresa. Tenho um amigo que trabalha no turno da noite, ele é muito amigo dos editores do plantão.
Assim, chegando lá, vou à busca do que eu preciso: o endereço dela. Ter bons contatos nesta hora faz milagres.
Volto para casa e percebo que passarei uma noite, bastante ansioso, porque eu estou preocupado com ela.
No outro dia, por volta das oito horas, eu desço bem arrumado e perfumado e a primeira coisa que eu faço é passar em uma floricultura.
Então, compro um lindo arranjo de margaridas, pois, lembro-me de que ela disse que são suas flores preferidas. Em seguida, eu passo no mercado e compro essências para chás e um bolo. Eu suspeito que ela esteja sem forças para se alimentar, e pretendo fazer isto para ela. Ligo para empresa, e aviso que não poderei ir hoje.
Sigo na direção do seu endereço, porém, estou preocupado com uma coisa, tenho certeza que se eu anunciar quem sou no interfone, eu não poderei subir.
Certamente ela não deixará. Então, assim que chego, espero a primeira oportunidade.
Vejo a oportunidade surgir, quando um casal idoso, aproxima-se e percebo que subirão, ajo cordialmente puxando conversa, e sem que eles desconfiem que eu não pertenço ao prédio, entro com eles até o elevador. Eles descem no quarto andar. Eu sigo até o sexto.
Quando a proximidade vai aumentando, sinto o meu coração disparar. Na verdade, eu nunca estive tão ansioso, porque é lógico que eu nunca fiz algo tão arriscado em minha vida.
Ir sem avisar à casa de alguém que me odeia, levando ainda um arranjo de margaridas. Sinto-me de repente, retornando à adolescência... E de certa forma, é interessante sentir isto, pois, eu percebo-me revigorado!
Enfim, quando estou de frente ao seu apartamento, o número 604, eu respiro profundamente pelo menos umas quatro vezes, para então tocar a campainha.
Toco a primeira vez. Passam-se três minutos e nada. Toco pela segunda vez, mais quatro minutos passam e nada. Quando toquei a terceira vez e esperei mais três minutos e já estava a três passos me afastando da porta em direção ao elevador, ouço a porta destrancar-se e volto rapidamente.
Assim que ela é aberta, uma voz bastante rouca e quase sumindo de tão debilitada, responde...
— Quem é?
Bem no momento em que os nossos olhares se encontram...
Mesmo com os cabelos emaranhados, rosto empalidecido por estar doente, vestindo um pijama cor de rosa e pantufas brancas, ela ainda é linda!
Seu olhar tem um misto de espanto, incredulidade e começa a tomar uma expressão de raiva, bem no momento em que crio coragem e digo...
— Não vai me convidar para entrar?
E antes que ela raciocine e me dê uma resposta malcriada, reúno mais coragem, talvez, usando toda a reserva que tenho e vou dizendo, e delicadamente empurrando-a para dentro, enquanto entrego-lhe o arranjo de margaridas...
— Isto é pra você. – Digo-lhe entregando-lhe as flores. – Já que não me convida, vou entrando. Porque eu vim aqui, com um objetivo. Quando vi que você faltou dois dias ao trabalho e que, ninguém sabia de você, deduzi que estava doente. Assim, para tentar me redimir, pelo menos um pouco, do que tenho te causado, senti-me com desejo de vir aqui.
Eu disse tudo mergulhado em seus olhos. Ela estava muda e parecia que estava demorando a processar tudo aquilo.
Ela olhava para o arranjo e para mim... Então, disse, ainda meio sem noção...
— Margaridas? São as minhas flores preferidas sabia?
— Sim, você me disse... – Mas, ela não me deixou concluir, e nem se quer me ouviu. Dizendo, assim que consegue se recobrar do choque...
— Espera aí. O que você está fazendo?
— Já disse, eu vim cuidar de você. E não saio daqui, enquanto eu não te deixar em melhor estado. Quantas vezes, eu preciso dizer que EU NÃO QUERO TE FAZER MAL? EU NÃO ODEIO VOCÊ, aliás, eu não tenho nada contra você... – Eu disse em um tom de autoridade que a assustou. E ela então, disse num sussurro de voz...
— Tudo bem...
Então, eu perguntei...
— Onde eu posso preparar um chá para você?
Ela me aponta onde está cada coisa.
Preparo tudo e deixo a sua cozinha em ordem. Sirvo tudo, o chá e o bolo com duas xícaras em uma bandeja. Ela acompanha cada detalhe, ainda perplexa e muda. Então, digo-lhe...
— Antes de comer, você pode tomar um banho? Por favor.
— Mas... – Ela já ia protestar, porém, eu não permito dizendo-lhe...
— Seja boazinha, você irá se sentir melhor, confia em mim.
E como uma boa menina ela segue apartamento adentro e eu sigo junto, o que a leva a voltar-se para mim, com espanto no rosto, ela arqueia as sobrancelhas numa pergunta muda para mim. Ela realmente está tão chocada que pela primeira vez, vejo-a sem reação. Então, digo-lhe...
— Fique tranquila, eu apenas quero saber onde é o seu quarto, pois, assim que você sair do banho, você vai para cama descansar. Pois, é isto que os doentes precisam: se alimentar bem, manter uma boa higiene pessoal, manter repouso e receber cuidados, e eu estou aqui para garantir-lhe isto hoje. Então, aproveite!
Muito sutilmente, vejo-a esboçar um leve e tímido sorriso de canto, e seguir para sua suíte. Ela entra, e eu entro atrás dela que diz...
— Espere-me aqui.
Ela segue para o seu banheiro... Eu digo-lhe:
— Esperarei...
Enquanto ela entra para seu banho, rapidamente arrumo o quarto. Pelo visto ela é muito organizada, pois, apesar de estar bem doente, não há tantas coisas fora de ordem.
Quando já estou com tudo pronto, isto inclui a cama refeita, eu me sento no seu sofá de leitura, próximo à sua cama.
Ela destranca a porta, sai do seu banheiro e vai em direção ao guarda-roupa. Ela pega algumas peças. Eu compreendo imediatamente, que como eu estou em seu quarto, eu a privei de sua privacidade para se trocar, o que me constrange um pouco, então, digo-lhe:
— Valerie, eu não pretendo atrapalhar você, em hipótese alguma, se você quiser, eu espero lá fora até terminar, e quando estiver pronta você me chama...
Porém, surpreendentemente ela diz...
— Você não está me atrapalhando... Pode ficar, eu me troco lá dentro...
— Tudo bem então, me desculpe.
Enquanto ela toma banho, fico pensando em como posso dizê-la a verdade, mas, dentro de mim, o medo dela me expulsar de sua vida para sempre é enorme.
Inesperadamente, dou-me conta do que esteve claro este tempo todo pra mim, porém, eu não me permitia ver: estou perdidamente apaixonado por esta mulher. E como as coisas mudaram basicamente, em menos de uma semana! Eu preciso dar um jeito de conquistá-la, mas, como?
A primeira coisa que me ocorre, é que preciso saber a motivação de seu ódio por mim. E bem neste momento sei que é por aí que vou começar a minha abordagem. E sei exatamente o que irei fazer.
Depois de uma meia hora, ela sai do banheiro, e agora, ela está de cabelos penteados, e presos em um, muito bem feito, rabo de cavalo.
Valerie veste um pijama verde de bolinhas brancas que realçam demais os seus olhos, ela ainda calça as suas pantufas brancas.
Assim, aponto-lhe a cama e digo-lhe...
— Hora de ir para cama, para que você possa se alimentar.
Ela dá um sorriso contido e prontamente o faz.
Assim que ela se deita, levanto-me, cubro-lhe com as cobertas. Com o olhar curioso ela pergunta...
— Por que você está fazendo isto?
— Já te disse, não odeio você! Mas, agora coma.
Ela prontamente obedece, mas, diz...
— Você é muito mandão, sabia?
Não resisto e começo a rir, dizendo-lhe...
— Dizem por aí que eu tenho mania de controle. Mas, eu não tenho certeza.
Ela dá um leve sorriso enquanto toma o chá e come o bolo, depois, ela diz-me:
— Você não está comendo, e aqui tem duas xícaras.
— Bem, eu estava esperando ser convidado, afinal, você é a anfitriã.
Ela sorri de canto e diz:
— Sirva-se. – Obedeço prontamente.
Depois de um tempo observando-lhe eu digo:
— Eu preciso muito lhe fazer uma pergunta, isto me angustia todos os dias... Por que você me odeia tanto?
Ela me olha sondando-me por um longo tempo e por fim, ela me responde:
— Você sabe. Por sua causa eu perdi a oportunidade da minha vida...
Não a deixo terminar...
— Isto eu já sei, você já me disse isto... Mas, eu não consigo entender. Já passou pela sua cabeça que eu não tive culpa, eu nem se quer, votei em mim, eu já te disse que eu votei no seu projeto!
— Isto que você disse foi sério?
— Claro, ele é incrível, eu nem sonhava que eu iria ganhar dele. Perdoe-me, eu não fiz por mal.
Neste momento, acho que ela identifica algo em meu olhar, que permite que ela desarme-se... Assim começa...
— Eu passei anos de minha vida, dedicando-me a conseguir chegar aonde cheguei, só por aquele manuscrito. Esforcei-me demais na faculdade para ter sempre as melhores notas para manter minha bolsa... Empenhei-me demais para conseguir os melhores estágios, me matei por anos na empresa para ser a editora ideal. Quantas vezes eu trabalhei doente... Simplesmente porque eu esperava demais por uma oportunidade assim. Não por mim, porque na verdade, quando ela surgiu, eu nem sequer pensei nos meus projetos... Eu só me lembrava de que eu prometi a ela que eu um dia iria publicá-lo. E quando enfim, esta oportunidade surge, e ela está bem ao alcance das minhas mãos, você aparece do nada, e... Arranca ela de mim...
Eu estou chocado com tudo que ouço, mas, reúno forças e pergunto...
— Ele não era seu, o manuscrito? Não seria publicado em seu nome?
— Não, é claro que não! Eu publicaria em nome dela, foi à obra da vida dela. Sempre foi o seu sonho permitir que as pessoas o conhecessem, eu lhe prometi isto... Prometi para minha... Mãe. Era dela o manuscrito, e eu não consegui, e o pior que eu nem tenho como dizer a ela que eu não tive culpa.
E bem neste momento, seus olhos enchem-se de lágrimas e eu fico ainda mais angustiado sem saber o que fazer. A única coisa que consigo dizer é...
— Por isto é tão pessoal! – Ela sai do torpor e diz...
— Sim... Claro que é. Você acabou com o sonho de uma pessoa que nem ao menos, pode sonhar mais!
Sua confissão fez-me arrepender-me profundamente por ter ganhado aquele concurso! Movido por este sentimento, digo-lhe com muita sinceridade:
— Bem, agora eu te compreendo, muito embora, eu saiba que no fundo, eu também não tenho culpa, poderia ter sido qualquer outro, eu estava no lugar certo e na hora errada! Porém, eu quero que você saiba... – E agora, eu me aproximo mais, sentando-me na beirada da sua cama. – Se eu nutrisse a mínima ideia, do transtorno que eu traria a você, ganhando este concurso, eu certamente faria algo que me desclassificasse. E isto é sério, falo do fundo do meu coração, me perdoe Valerie!
Digo cada palavra mergulhado em suas imensidões verdes. Ela retribui da mesma forma. Há muita intensidade em nossa permuta de olhares.
— Por que você faria isto?
Respiro fundo e respondo-lhe.
— É complicado...
— Como assim? Eu quero saber... – Ela diz.
— Você não entenderia... – Eu insisto.
— Por quê? – Ela insiste.
Vendo-me num beco sem saída, apenas respondo-lhe...
— Olha, o que posso dizer é que no momento eu não posso lhe falar. Apenas neste momento. Espero que me entenda. Mas, chegará a hora...
E o que eu disse era verdade. E neste instante, ela diz algo que é minha deixa para começar a traçar um plano para resolver esta confusão do relacionamento virtual e tentar conquistá-la pelo que eu sou...
— Credo, você está parecendo alguém que eu conheço: “Eu quero dizer, mas, no momento eu não posso falar, espero que me entenda!” – Ela me imita.
Não resisto e dou um sorriso com aquilo e entro na minha oportunidade...
— É mesmo? E quem seria?
— Hum... – Ela claramente hesita. – Um amigo...
Continuo instigando...
— Aquele do encontro?
Ela arregala os olhos, e responde desconfortável...
— Sim...
— E ele foi? – Pergunto-lhe. E apesar da situação ser mais trágica do que cômica, estou mordido de vontade de rir... Por notar onde fui me meter...
E ela responde num fio de voz:
— Não...
— Hum... Entendo... E foi esta a resposta que ele te deu, quando você o perguntou por que, é?
Ela apenas afirmou que sim com a cabeça, pois, ela estava constrangida demais para falar, era possível saber, porque ela estava corada aos extremos. E vale observar que ela fica mais linda assim.
— Bem, você não acha estranho ele não ter aparecido e não ter ao menos uma desculpa plausível?
Ela fica muda. E eu prossigo...
— Já perguntou se ele é casado?
Ela assusta-se e diz...
— NÃO! Mas, ele não é casado... – Ela diz exasperada.
— Como você sabe? – Eu provoco...
— Bem eu... Eu... Não sei...
Enfim ela admite... E eu pergunto...
— Só não me diga que é uma destas coisas de amigo virtual?
Ela fica roxa... E depois de algum tempo, só concorda com a cabeça.
— E você caiu nessa, Valerie? Eu não acredito!
Ela fica muda. Muito constrangida. E aproveitando a deixa, eu continuo...
— Tudo bem... E se ele não for casado, mas... For obeso... Ou gay... Ou SE FOR UMA MULHER? Você já pensou nisto?
Pela expressão do seu rosto, ela estava apavorada. Então, eu resolvi aliviar, pois, ela estava doente.
— Bem, você é quem sabe, se vai averiguar ou não, depois você não diga que não avisei... E bom... Agora... – Digo enquanto recolho a bandeja – Você precisa dormir para repousar.
Eu acomodo-lhe, e cubro-a direito com as cobertas.
Por fim digo...
— Durma, pois assim que você o fizer, irei embora.
Digo e vou levantando-me de sua cama para voltar à cadeira... Então, sou surpreendido, quando ela segura a minha mão e diz...
— Henry?
Naquele momento, meu coração é aquecido de uma forma gostosa, por dois motivos, àquele leve toque de sua mão na minha, e por ela pronunciar meu nome mais uma vez, só que desta vez, com carinho.
Olho-a nos olhos e respondo...
— Sim...
— Obrigada! – Ela me dá um belo sorriso que realmente expressa gratidão.
— Tudo bem, eu fiz com prazer. Eu já disse, eu não tenho nada contra você!
Porém, talvez por estar acostumada a não ceder tão rápido e por ser dura na queda ela diz...
— Mas, eu...
De maneira alguma, eu a deixo terminar...
— Por favor, se realmente você ficou agradecida, eu posso te pedir uma coisa?
Seu olhar é de alarme... Mas, ela acena que sim com a cabeça...
— Eu já sei que você me odeia! Você já me disse isto e já me provou de várias maneiras também. Porém, por favor, nunca mais diga isto para mim, pois, isto não é uma coisa fácil, de se escutar. E por mais que eu te compreenda agora, conheça seus motivos e aceite que são muito fortes... De certa forma, você também precisa compreender que eu não tenho culpa. Fui tão surpreendido quanto você. Então, se for possível, nunca mais fale isto para mim, você não precisa gostar de mim, mas, dizer que me odeia com a intensidade que você fala, me faz mal.
Ela me olha com tanta intensidade e percebo passar levemente um sinal de solidariedade em seu olhar... Então, ela diz...
— Tudo bem... Mas, eu ainda não gosto de você...
Ela diz se encolhendo nas cobertas... O que me faz rir, pois, fica parecendo uma menininha que sabe que está fazendo arte...
Mesmo ela dizendo aquilo, e eu sabendo que é verdade, e que seus motivos ainda são muito fortes para que tudo seja desfeito assim... Mesmo assim, eu já não me sinto tão mal, porque eu já percebo que ela está mais desarmada, o que soa para mim, como uma pequena chama de esperança. Então, digo-lhe:
— Obrigado! Já é bem melhor do que ouvir que você me odeia! – E ela sorri e eu dou-lhe um sorriso de volta e prossigo:
— Porém, eu quero te fazer uma pergunta. Quem sou eu? Para você dizer que me odeia ou que eu sou um... Como você disse mesmo? Um... Ah... Um babaca. – Ela se encolhe de novo e fica muito vermelha...
— Para você afirmar isto, você precisa me conhecer, e... Eu acho que não é o caso... Assim, eu pelo menos te peço uma coisa, deixando claro que você tem direito sim, de não gostar de mim. Mas, primeiro me conheça. Daí você tira as suas conclusões. Pelo menos, assim será mais justo.
Ela respira fundo, mas, não diz nada. Continua muda. Porém, pelo seu olhar, eu sei que aquilo mexeu com ela.
Passo mais alguns minutos ali a observando e noto o quanto ela ainda está baqueada, então lhe pergunto...
— Onde tem um termômetro?
Ela aponta uma gaveta... Pego, meço a sua febre e o termômetro acusa 38, 5.
— Está febril, toma. – digo pegando um paracetamol, pois, sempre tenho uma cartela em minha carteira. Para o caso de alguma urgência. E sirvo-a com chá...
— É paracetamol, vou deixar esta cartela aqui na mesinha, para caso a febre volte mais tarde. Junto com a garrafa de chá e meu telefone, para caso você venha precisar. E, por favor, não hesite em me ligar... tudo bem?
— Tudo. – Ela diz tímida.
Ela toma e volta a deitar-se novamente.
Passam-se mais dez minutos e ainda olhando para mim, ela adormece. Vencida pelo seu estado e creio que, pelo efeito do analgésico.
Eu fico ainda mais uns dez minutos a observando, para não perder a oportunidade. Pois, sabe Deus se eu terei, e quando eu terei outra.
Até dormindo ela é linda. Parece mais um “Anjo” assim, e não uma “Diaba”! Como pode as coisas terem mudado tanto em tão poucos dias?
Saio dali com um sentimento de missão cumprida e paz ao coração. E mais, com a certeza de que farei de tudo para conquistá-la.
A primeira coisa a fazer, é retirar o meu rival virtual do caminho: eu mesmo, preciso sabotar-me. E como isto soa engraçado. A segunda é mostrar-lhe quem eu sou de verdade. E terceiro, aguardar por um milagre: que ela se apaixone por mim.
***
O restante da semana passa correndo. Não a vejo. Obviamente, busco informações de forma segura e descubro que ela ainda está de atestado...
Eu não me preocupo tanto com o seu estado, pois, nos falamos na sala de bate-papo todos os dias. Fico feliz, pois, começo a perceber que ela, está mais desconfiada do seu relacionamento virtual.
Então, de alguma maneira as coisas que eu lhe disse lhe colocaram uma “pulga atrás da orelha”.
E isto evidencia para mim, que de certa forma, ela me ouviu e confiou no que eu disse.
***
Na segunda-feira, quando estou chegando ao trabalho, percebo que estou apreensivo e ansioso, pois, eu quero muito vê-la, e ver com os meu olhos, que está bem, mas, ao mesmo tempo, estou receoso temendo sua reação, ao ver-me.
Assim, entro no elevador, e pela segunda vez, em anos na empresa, ele está vazio, e mais uma vez antes da porta se fechar, alguém se materializa ali. Justamente quem?
Errou se pensou em Valerie! Na verdade era Peter, e meu coração já estava dando sinais de tristeza por não vê-la logo pela manhã. Porém, de repente, alguém diz, e a voz soa como a mais perfeita sinfonia aos meus ouvidos:
— Por favor, segura o elevador para mim!
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