DmC 5: Stairway To My Heaven
1 Primeiro Dia: De Bonzinho o Inferno tá Cheio.
Notas iniciais
Mas comecei a fazer coisas que, ao contrário da dona do meu nome, eu jamais me arrependerei.
Matei aula.
Pela primeira vez na vida menti e sacaneei.
Liguei pra minha mãe avisando que as aulas tinham terminado cedo, pois o professor tinha faltado por questões de saúde e que eu iria pra casa de algum colega estudar um pouco, portanto eu iria demorar. Ela acreditou prontamente; foi impressionante como deu tão certo!
O porquê de eu ter feito isso? Simples: eu cansei de ser boazinha.
Já estou na casa dos dezenove anos, encalhada (meus pais não me deixam namorar; patético), não tenho amizades das quais valha a pena considerar e sempre desejei fazer coisas diferentes, porém tendo nascido numa família quadrada e meio ignorante me impediu de curtir a vida como toda adolescente normal. Confesso que invejei inúmeras garotas fazendo piercings, tatuagens, tingindo os cabelos das cores mais doidas e fazendo penteados dos mais originais. Isso sem mencionar as roupas; desde as mais periguetes até as mais descoladas. Festas então? Melhor eu nem comentar senão eu entro em crise de choro. Minha vida toda era um marasmo absoluto, um fracasso amargo do qual não desejo nem pro Satã, de tão ruim que é.
Mas após um episódio ridículo onde me vi na mais completa injustiça, decidi tomar coragem e retalhar tudo que passei com os meus pais. Eles mereciam de certa forma.
Ao chegar em casa do colégio, havia chego visitas; até aí não vi problema. Mas a situação ficou atormentadora quando minha mãe anunciou que havia conseguido um “noivo” para mim e que ele estava lá na sala. Mas que diabos?!?
Nem mesmo em um assunto que só era meu eles não mantinham distância!!! Foi o cúmulo que faltava para que eu perdesse o pouco de respeito e o resto de importância que eu sentia por eles.
Como que tivessem puxado um gatilho vermelho dentro de mim, encenei minha subserviência costumeira e dei um sorriso resignado, típicas demonstrações de docilidade debaixo de tanto abuso. Claro que à noite eu chorei absurdamente, derramei tanta lágrima que o travesseiro estava insuportável de tão úmido e gelado. Eu nunca havia me sentido tão invadida e desrespeitada como naquele momento; não tenho a menor ideia do que passa na cabeça oca dos meus pais ao me colocarem num destino escrito inteiramente por eles.
Não preguei os olhos à noite toda, e determinada a me vingar, desci para cozinha mais cedo do que de costume e planejei minhas primeiras loucuras; a começar por colocar algumas roupas na mochila e peguei algumas economias da minha mesada; iria torrar tudo num só dia.
Fui para o colégio pensando no que faria pra fugir, e esperei dar o sinal para a terceira aula. O tempo não passava, que martírio... Já acostumada a fazer caras e bocas, disse à monitora do colégio que precisava sair mais cedo por que minha mãe se acidentou em casa. Foi a primeira mentira que contei, e que acreditaram sem a menor suspeita...
Catei minha mochila e saí às pressas, nem olhei pra trás pra não criar desconfiança em alguém. Peguei um ônibus para o centro e lá fui eu me aventurar sozinha sem um rumo! É muita emoção pra quem nunca viveu uma sequer, né?
Andei calmamente, olhando tudo ao meu redor. Admirei inúmeras vitrines de lojas, todas elas com alguma roupa, acessório ou item que eu sempre quis. E sem a monitoria paranoica da minha família, eu me arrisquei e entrei numa loja de roupas. Comprei tudo que minha mesada podia pagar (entenda como “gastei mais de 400 dólares em uma hora!”). Eu me sentia tão leve e feliz que não percebi que estava cantarolando; olha que ridículo!
O estômago havida roncado, era hora de comer. Olhei ao meu redor, e vi várias lanchonetes; junk food suficiente para causar infartos só de sentir o cheiro. Me autorizei a entrar em uma, e pedi o lanche mais gorduroso e suculento do cardápio; com direito a refrigerante em copo faraônico e um baita milk shake de morango como sobremesa. Eu comia tudo com um sorriso de uma orelha à outra, a garçonete deve ter me achado uma louca. Mas eu tava pouco me lixando; eu tava feliz por ser normal como todo mundo.
Já estava entardecendo, o sol já estava dando “tchauzinho”. Tremi um bocado; pois o hábito de não ser capaz de desobedecer meus pais tilintou no cérebro. Mas dai me lembrei da palhaçada de casamento arranjado e fechei os olhos, respirei fundo e fui em busca de algum hotel pra colocar minhas compras, tava começando a incomodar toda aquela sacolada. E eu também estava precisando de um banho...
Liguei para os meus pais novamente, e mais uma mentira saiu da minha boca; desta vez aleguei ter sido convidada para um sessão pipoca na casa do meu colega fictício, e perguntei se podia passar a noite por lá. Meu pai não protestou, mas me alertou de que assim que batesse a hora do almoço, que era para eu estar de volta. Concordei prontamente e me fiz de santa mais uma vez. Assim que desliguei o telefone, eu não conseguia parar de gargalhar por mal acreditar que aquilo tudo estava acontecendo. Mas ao olhar no espelho do hotel (paguei por um quarto simples, mas o hotel era de três estrelas, e parecia uma mini-casa de tão grande), senti uma ponta de tristeza. Tendo que mentir, enganar e fugir para poder ser feliz por alguns momentos eram os únicos recursos que se dispunham pra mim. Até hoje não sei por que meus pais me tratam de forma tão protetora, tão absurda e sufocante. E pra falar a verdade, mesmo curiosa pra saber, desejo não descobrir. Corro o risco de acabar me sentindo mal demais por tudo que aprontei...
Bateu a escuridão da noite; eu estava eufórica: iria me aventurar a ir numa balada!
Enquanto me arrumava e escolhia as roupas, eu me fascinava e ganhava cada vez mais autoconfiança, tendo noção de como era a vida de uma garota comum; que tinha o costume de ir em uma festinha ou numa dance club. Era uma sensação inexplicável em palavras, não existia descrição exata, nem uma definição mais exemplar do que satisfação plena.
Vesti uma blusinha vermelha do tipo bata – o calor estava sem precedentes-, uma calça jeans skinny e uma sandália Anabela. A princípio estava me sentido insegura, acreditando que mais parecia uma qualquer, uma vadiazinha mesmo. Mas ao me olhar no espelho mais algumas vezes, o que era receio ganhou a classificação “eu sou a garota mais poderosa dessa cidade”. Repeti a mim mesma que eu não podia parecer idiota; respirei fundo mais uma vez e saí. Aquela hora era a hora da decisão; se eu me sairia bem ou seria uma perdedora.
Fui a uma dance club perto do píer de nome “The Heaven”. Entrei na fila e aguardei, e confesso que nunca imaginei ficar plantada tanto tempo pra entrar!
Quando chegou a minha vez, o segurança me olhou de cima a baixo da pior forma possível. Me senti intimidada; um erro meu. E ele deve ter percebido, começando com a chuva de perguntas constrangedoras:
– É de menor, menina?
– Só tenho cara de novinha.
– E eu sou a cara do presidente! Cadê o RG?
– Grosso... – resmunguei, enquanto procurava meus documentos na bolsa.
Ele tomou o RG da minha mão de forma ignorante, olhando pra foto e pra data do meu nascimento. Não escondeu a expressão comparativa, misturada com o que seria um sorriso muito mal-intencionado:
–É... Realmente as garotas de hoje são lolitinhas... Hehehe! – ele devolveu meu RG, e tentou pegar na minha mão; um nojento.- Pode passar, mocinha...
Banquei a esnobe e virei a cara, andando de forma arrogante. Após andar por um corredor escuro, passei por cortinas de veludo pesadas e finalmente me vi dentro da dance club. Que fantástico!!!
As luzes, a música frenética e altíssima, as bebidas, as garçonetes e dançarinas... Eu finalmente iria curtir a vida da forma que eu sempre sonhei! Acho que dei muita bandeira, pois estava com um sorriso besta na cara. Procurei um lugar pra me sentar, mas estava lotado. E não queria sentar na bancada do bar pois ali a coisa tava complicada; casais de todo tipo se pegando sem o menor pudor. Eu estava muito constrangida com todo aquele agarramento. Resolvi dividir a mesinha da pista com alguém, então investiguei cada rosto enquanto passava. Acabei não encontrando confiança em nenhuma das caras que olhei, e quando dei por mim estava na beirada do palco das dançarinas. Elas estava vestidas de anjo; com asas, biquínis brancos com detalhes prateados e muitas delas tinham piercings ou tatuagens fabulosas. Estavam dançando ao redor do poste de ferro, e os homens e rapazes –e até algumas mulheres- estavam ensandecidos e hipnotizados pela sensualidade delas. Pudera, elas eram lindas.
Acabei me distraindo, e fui me inclinando pra me sentar sem ao menos olhar. “Nossa, uma cadeira confortável!”, foi o que pensei quando me ajeitei melhor. Mas tomei um tremendo susto, o suficiente pra me fazer dar um grito agudo quando escutei uma voz masculina sussurrando no meu ouvido:
– Se você continuar esfregando esse rabinho gostoso no meu colo, serei obrigado a acreditar que você quer dar ele pra mim...
Fiquei gelada e trêmula; levantei e tentei correr. Fui puxada de volta num súbito tão grande que acabei descabelada. O cara onde sentei em cima sem querer tinha as mãos fortes, não consegui me soltar por mais que eu tentasse. Meu desespero aumentou quando ele enlaçou minha cintura com os braços, que eu notei que eram musculosos. Eu não iria a lugar algum.
– Onde pensa que vai?
– P-por favor... Me deixa ir...
– Não depois de você ter me atiçado, né... – ele mordiscou a ponta da minha orelha. Arrepiei, mas não sei se foi de medo ou de algo mais. Encolhi.
– Ter... Te atiçado?
– Presta atenção que você vai sentir. –mesmo de costas, percebi que ele estava sorrindo.
De repente, senti algo crescendo no meio das pernas dele. Entrei num pânico tão grande que estava fazendo uma força danada pra me livrar daquele abraço de urso que o cara me deu. Mas cada esforço era em vão, e ele estava se divertindo com as minhas reações. Senti vontade de chorar.
– Eu não sentei em cima de você por que quis... Por favor, me deixar ir...!
– Só deixo você ir com uma condição. – ele afastou uma porção dos meus cabelos com o nariz e beijou minha nuca. Arrepiei de novo. – Vamos embora daqui juntos.
Acuada e tomada pela derrota, tive de aceitar. Mas eu sabia que tava me metendo em encrenca. Me virei, e finalmente vi o rosto do meu agarrador: sorriso largo e com toque maldoso, olhos cinza-azulados e agressivos, cabelos negros num moicano rústico. Uma cicatriz na sobrancelha direita dava um leve charme às suas feições marcantes.
– Me chamo Maria Magdalena. E... Qual é o seu nome?
– Meu nome é Dante, bonitinha. Prazer em conhecer...
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