Notas iniciais
"Eu ainda estou subindo as Escadarias do Céu..."

O dia raiou forte e reluzente; o sol estava a pino.

Eu abri os olhos sem vontade, consciente da situação que se deu na noite anterior. O quarto continuava uma baderna sanguinolenta, os anjos se mantinham vigilantes e alertas; haviam velado nosso sono pacientemente. Olhei para o lado e Dante ainda estava desacordado, mas pelo menos não aparentava mais sofrimento. Eu não conseguia digerir o que Muriel havia me dito; eu não tinha uma natureza tão sagrada a ponto de interessar alguém. Eu, uma Querubim? Só podia ser piada.

Eu não tinha vocação pra ser um anjo; sinceramente eu não sentia que tinha vocação pra alguma coisa. Sou um fracasso humano, uma mimada egoísta que só deu trabalho e dor de cabeça. Feri quem eu mais amava e os que mais importavam estavam sumidos ou pior. Eu já não enxergava mais chances de felicidade nem de paz de espírito. Eu só pensava em morrer e acabar logo com tudo.

-... Como se sente?

- Ainda destroçada. – murmurei ressentida. – Não consigo digerir nada do que me disse na noite passada.

- Entendemos. – Muriel sibilou sua voz ecoada. – Mas não descarte essa condição; ela pode te salvar em algum momento.

- Piada mais sem graça...

- Se desfazer da sua benção é fazer dela sua eterna maldição...

- Isso me soou como ameaça ou foi só impressão? –olhei de forma cínica.

- É apenas um conselho.

O sorriso acolhedor e inabalável de Muriel fazia tudo parecer possível, indestrutível. Mas o mal da verdade estava sendo esfregado nas nossas caras a cada segundo, e eu não conseguia desviar o olhar. Era demais pra uma garota que até semana passada era uma filhinha de papai criada numa redoma de cristal bruto. Realmente, o mundo havia caído.

Dante finalmente estava abrindo os olhos; todas as atenções voltaram-se pra ele. Ele resmungou um bocado, tentou se mexer; até arriscou-se a se levantar, mas a dor profunda que sentia o impediu. Os anjos juntaram-se ao redor da cama e estenderam suas mãos finas e de dedos longilíneos em direção dele, e um brilho fosco dourado começou a emergir dos mesmos. Comecei a sentir um leve perfume de lavanda, e um calor gostoso que vinha desse brilho peculiar. Gradativamente, a condição moribunda de Dante foi logo reposta por um despertar revigorado, com notáveis brilhos nos olhos e maçãs do rosto levemente coradas.

Em poucos minutos, um Dante totalmente recuperado estava ao meu lado... Graças a Deus!

- Caralho... Há quanto tempo eu to capotado...?

- Você está bem; graças a Deus! – abracei Dante fortemente, já com lágrimas nos olhos.

- Ei, ei, calminha aí, moça... Vai devagar que eu ainda to zoado!

- Mesmo que grosseiramente, ele está correto. – o anjo sorriu, divertindo-se com meu entusiasmo. – Deixe-o descansar e depois podem saborear um momento de alívio e felicidade.

Maneei a cabeça em afirmativo, e obediente fui direto para a cozinha buscar algo para comer. Muriel fez questão de me acompanhar, temerosa de que eu sofresse de uma crise de vertigem ou sentisse algum mal estando próxima à escada.

Sentei-me no banquinho da bancada logo após ter preparado um chocolate quente com a ajuda das empregadas. Eles não pareciam suspeitar da verdadeira natureza de Muriel e dos outros, dado ao comportamento usual que elas estavam tendo. Pelo visto, apenas eu e Dante podíamos enxerga-los como eles realmente eram.

- As coisas mudaram bastante... E o mais irônico é que não estou surpresa.

- Quando nascemos predestinados a ter uma função especial, certos acontecimentos não nos parecem estranhos.

- Mas aí já beira o ridículo... – eu ri com desgosto. – Precisou esse desmonte todo pra que minha origem fosse revelada? Não tinham um método menos medíocre?

- Deus planeja tudo com um propósito particular, e não deixa lacunas. – Muriel sorriu. – Se era necessário esse desastre, era por que ele lhe facilitaria em algo.

- Não consegui enxergar vantagem em nada até agora...

- Tenha paciência... Tempo é pai de tudo.

- Até de Deus? – fui irônica e seca.

- Certamente, até de Deus.

A confiança e serenidade de Muriel diante de tudo aquilo me dava nos nervos. Mas eu sempre respirava fundo e relevava, afinal, ela era um anjo; anjos desconheciam o amargo sabor do desespero. Tomei um gole ainda evaporado do chocolate quente e olhei para a caneca, pensativa. Acho que me sentia no direito de buscar respostas e soluções.

- Sua carinha não me engana, Maria... Pode perguntar.

Fui tomada pela surpresa, e mesmo estupefata com a facilidade que Muriel obtinha pra me desvendar eu comecei meu balde de perguntas. Queria sair do escuro.

- Já que está perspicaz, acho que mereço sair desse nevoeiro que assombra minha vida. Pra começar; por que sou Querubim?

- Querubins são uma das Hierarquias que sentam ao redor de Deus; sendo eles os mais próximos juntamente com os Serafins e os Tronos. Por serem os mais altos da Ordem Divina, desconhecem o horror e a perda. Mas um dos nossos Querubins foi tragado pela guerra, e acabou se estabelecendo aqui, como vários outros anjos que são atingidos sem querer.

- Quer dizer que sou um desses anjos? – Comecei a ficar entusiasmada.

- Sua mãe é.

Muriel foi tão categórica na resposta que pareceu uma tijolada no meio da cara. Fiquei zonza, perdida nos fatos. Meus pés não sentiam o aro de apoio do banquinho; no meu inconsciente eu não sentia a gravidade atuar. Ao grosso modo; fiquei sem chão.

Minha mãe era o anjo. E eu era sua cria.

Eu estava passada; aterrorizada, perdida. Eu era especial, tinha algo de diferente. E era algo SAGRADO.

Eu precisava terminantemente de um bom tapa na cara ou de um beliscão.

- Minha... Mãe?

- Sim. Sua mãe, que atende pelo nome terreno de Eva, é o Querubim caído.

- E onde ela está agora...?

- Sendo cuidada por nós.

- Queria vê-la... Por favor...

- Entendemos, mas não podemos. Há planos nesse universo em que os seres humanos não possuem acesso, pois correm risco de não sobreviverem.

- Ela vai voltar? –meus olhos já estavam marejados.

- Ela é mãe. Toda mãe de alma e coração jamais abandona seus filhos.

Dei um sorriso triste e voltei a tomar um gole do chocolate quente, sem vontade. Eu queria minha mãe naquele momento, poder deitar minha cabeça cansada no colo dela, me aconchegar e dormir encolhida; poder chorar o quanto quisesse sem me sentir ridícula ou fraca. Ela estava me fazendo muita falta.

Mas o momento não me permitia fraquejar, ser mimada ou indefesa. Tinha mil problemas para resolver; um deles tinha sentença: traição do Dante.

O que eu iria fazer daquele momento em diante era uma incógnita. A única certeza que eu tinha era que eu precisava decidir o que faria da minha vida com relação ao Dante. E nada mais.

Notas finais
Mais um capítulo finalizado!!! :'D
As férias estão chegando; o que me garante um breve tempo livre pra escrever mais e com mais calma... Graças a Deus! ;w;
Sei q é um capítulo curtinho, mas ele prepara pro que virá (na minha mente insana está tudo maquinado, mwahaha!!!), e não será pouca coisa.
Obrigada de coração pela paciência e pelo carinho!!! ♥
E como sempre, eu nunca deixo de ler os feedbacks!!! ♥