DmC 5: Stairway To My Heaven

23 7ª Noite: Coisas Tão Simples, Pra Onde Vocês Foram


Notas iniciais
"Coisas tão simples, pra onde vocês foram...?"

Eu estava sentada na varanda- já detonada pelo que se sucedeu entre meu pai e Dante-, contemplando o vazio da rua com uma caneca evaporada de chocolate quente. Ouvi a porta se abrir e se fechar lentamente, mas não me dignei a olhar para o lado. Mas eu logo notei; era Dante.

Eu sabia o que estava por vir. E tinha uma breve noção de como iria terminar. Meu peito doía, minha garganta parecia estar em chamas. A ansiedade consumia minha mente, mas eu tinha que manter a calma. Não podia desabar logo na primeira crise que desse.

-... E aí.

- Descarta os rodeios. – fui seca e cruel.

- Nem sei como explicar sem me foder no processo.

- Começa pela merda de idéia que você teve. – eu queria bater nele com todas as minhas forças. – Por quê?

- Porra, Mada...! Você acha que eu curti fazer o que eu fiz? Se eu pudesse, eu teria feito algo menos...

-... Algo menos idiota? Algo que não fosse me ofender? Você tem noção de como eu me senti quando eu descobri essa papagaiada toda?! Você não pensou nos meus sentimentos!!! Você não pensou na gente!!!

- Pera lá; não chafurda na merda o que a gente tem um pelo outro! – ele fechou a cara; a discussão iria ficar feia. – Tudo que fiz desde que assumi que to a fim de você foi SÓ PENSAR EM VOCÊ! E a coisa toda ficou ainda mais poderosa quando você me contou que eu iria ser pai!

- Disse muito bem; “iria”! – meus olhos estavam afogados em lágrimas, já sentia meu rosto ferver. – Mas sua vingancinha custou a vida do nosso filho! E tudo que tem aqui agora é um vazio; um buraco; uma cova sem defunto!!!

- Não fala assim... – a expressão aborrecida logo deu lugar a um olhar triste e doído, como se eu tivesse cutucado sua maior ferida. – Fiquei muito louco quando eu soube que a gente tinha perdido nosso filho... Você não tem noção do quanto essa criança significava pra mim...

- Se você fosse menos imprudente, não teria feito o que fez!!! Agora tenho de amargar o inferno de saber que minha vida foi um mar de lama do fio ao pavio desde o dia em que trombei com você!!!

Eu não tinha me tocado do que havia dito até ver a cara que ele fez: uma expressão de surpresa negativa; de quem levou um golpe baixo. No mais puro instinto, ele lentamente procurou o amuleto de cristal vermelho que ele não tirava pra nada; e ele agarrou com toda firmeza, como se tentasse buscar força e defesa para as palavras duras que acabara de ouvir de mim. Fui idiota. Ah, como fui uma anta...

-... Você tá falando sério? Puta que pariu, Mada... Sério mesmo?

- Não, espera...! E-eu...!

- Não fala nada. – ele me parou. – Falando sério; se fui mesmo um inferno pra você, pelo visto continuo talentoso na arte de foder geral. Heh... Se eu soubesse que você só seria mais uma que eu comi até descadeirar, não teria baixado minha guarda. Caralho, como eu fui burro...

Ele levantou do banco e virou as costas, entrando em casa. Eu sabia que ele estava a ponto de chorar; como fui capaz de dizer aquilo?!? Que mesquinharia da minha parte!!! Fui infantil, tosca demais pra respeitar as intenções por trás dos erros. Não tive olhos pra nada; só enxerguei a minha dor. E estava perdendo o homem que mais amava na vida por conta disso. Eu tinha que fazer alguma coisa; e rápido. Me levantei e tentei correr, mesmo estando fraca do aborto e da exaustão dos últimos acontecimentos. Entrei em casa, e olhei para todos os lados, na esperança de conseguir alcançar pra onde ele teria ido. Nada. Tropecei na beira do tapete da sala de estar; torci o tornozelo. Uma dor aguda; parecia que estavam retorcendo minha alma como pano de chão. Não me deixei abater; me ergui e, mesmo mancando, continuei minha busca. Nada. Dor insuportável. Por que eu tinha que passar por isso? Não aguentava mais. Eu já estava chorando, mas não era um choro de dor. Era um choro de cansaço. Eu estava cansada de perder, cansada de errar, cansada de sofrer. Coisas tão simples: viver, ter paz e ser feliz: pra onde foi tudo isso? Pra onde foram? Será que não mereço nem um terço disso? Que crime eu cometi pra estar nesse limiar? O que eu ganho sofrendo tanto?!?

Acabei vencida pelo meu desespero e caí sentada no meio do corredor do mezanino. Estava acabada; meu corpo tombou para o lado automaticamente. Minhas lágrimas não paravam de cair e minha garganta não parava de arder. Eu já me sentia com febre; estava pedindo por socorro com a voz baixa em meio a um pranto descontrolado. Eu realmente estava cansada dessa vida. Queria morrer.

Eu queria minha mãe.

--------------DmC--------------

Acordei assustada.

Estava na cama; pela “sei lá-gésima” vez. Olhei para o lado; a janela estava fechada, mas notava-se que ainda era tarde da noite. Me sentei e senti o tornozelo arder. Ele ainda estava torcido. Porcaria...

Olhei para o outro lado e Dante estava sentado numa poltrona de leitura; dormindo. Ele estava machucado, parecia que tinha ido brigar em algum lugar. Havia uma espada rústica apoiada na parede, e um par de pistolas sobre a mesinha. Se aquelas coisas todas pertenciam a ele, eu sabia bem menos sobre ele do que eu podia supor. Mas mesmo tendo ouvido aquele caminhão de bosta de mim (sim, comecei a adotar o estilo “boca-suja”, não me importo mais), ele não me deixou de lado. Senti o coração subir garganta acima e um peso na consciência me tomou por completo.

Ele despertou; provavelmente estava só cochilando. Gelei, pois não sabia que reação esperar dele. Mantive o olhar, e mesmo sonolento ele me olhou direto nos olhos. Ele tinha os olhos cinza-azulados mais lindos que eu já vi na vida. E só passei a admirar mais.

-... Oi.

- Só dorme no chão quem amanhece bêbado. – ele estava com a voz muito grossa; devia ter dormido pesado.

- Desculpe.

- Não preciso de desculpas.

- Mas quero pedir desculpas mesmo assim. – fui derrotada pelo meu sentimento de culpa; não conseguia mais olhar pra ele. – Fui uma estúpida; falei merda.

- A burguesinha falando bobagem? Senhoras e senhores, a mocinha agora é boca-suja!

- Pode ironizar e debochar, eu não ligo.

- Eu notei que você não liga pra nada mesmo.

- Fui infantil, não pensei no que você sentia... – enterrei minhas unhas na beira do colchão; me segurava pra não chorar. – Pisei em você, fui muito injusta; admito meu erro. Você me perdoa?

- Você fala como se fosse fácil. – ele levantou-se da poltrona e se espreguiçou. – Você não faz idéia da força que fiz pra não chorar na sua frente na hora que falou aquele balde de bosta na minha cara.

- Sei que não é fácil, mas você acha que é fácil pra mim? Vivenciar tudo que aconteceu e não desabar? Dante, eu não sou acostumada a esse tipo de bagunça! Mas pelo menos eu tenho a decência de reconhecer que cometi um erro, e estou aqui te pedindo perdão...

- Você tá me dizendo que eu não admito meus erros? – ele se virou pra me olhar de um jeito cínico.

- Não foi isso que eu quis dizer...!

- Mas foi isso que escutei! – ele estava me encarando diretamente nos olhos, ele sempre me desarmava desse jeito. – Minha vida é sim essa bagunça, e nunca me envolvi com ninguém justamente por isso! Por ser essa porra de bagunça! Você é a primeira garota que me permito me envolver, saca? Nunca foi fácil pra mim aceitar alguém além de mim mesmo, pois tudo que toco vira destruição! E quando você apareceu e fez essa mágica toda, eu... Eu me entreguei, manja? Decidi que ia ser você! E pra coroar geral você veio e disse que eu ia ser pai... Puta merda, eu pirei de alegria! Eu ia ter um filho, ia ser o herói da vida de um pirralhinho, eu ia ser a família de alguém! Tem noção?!? Eu não tenho mais meus pais; e eu ia ser pai! Ia ser foda pra caralho!!!

-... Você... Queria ser pai...? – eu não conseguia mais segurar o choro.

- Ah não, pode parando! – ele veio na minha direção, segurando meu rosto. – Não chora, por favor! Você não tem culpa de ter perdido nosso filho; na verdade a única culpada é a louca da sua irmã. Não fica se martirizando, a gente já passou por merda demais. Tá certo que um cagou na cabeça do outro, mas agora já chega.

Mesmo com o tornozelo dolorido, me sustentei em pé e pulei no pescoço de Dante num abraço apertado. Ele correspondeu meu abraço, e não segurei mais as lágrimas. Meu coração estava acelerado, me sentia sem forças. Eu o amava demais. Podia até ser uma ilusão da juventude, mas eu não queria cair na real. Eu queria me iludir até onde meu coração podia aguentar; até as últimas consequências que esse amor transgressor e devassado podia me levar.

- Te amar dá trabalho...

- Mas eu te amo mesmo você dando trabalho também! – eu ri em meio às lágrimas.

- Hehe, se não fosse assim acho que não teria graça, né não?

- Tá me chamando de tediosa!?

- Nem, longe de mim dizer isso! Hahahahaha! Mas que você é a melhor adrenalina na minha vida isso você é, bonitinha...

- Falando nisso... – olhei nos olhos de Dante, com uma expressão curiosa. – O que são aquela espada doida e aquelas armas? Por onde você andou?

-... Tem certeza de que quer saber disso?

- Já que sou sua namorada, mereço compartilhar alguns segredos... – demonstrei um olhar perspicaz.

- Bom, eu mato demônios.

- Mata demônios?

- Sim. – ele me confirmou com a expressão limpa.

- Eles vivem entre nós?

- Não, num lugar meio doido; o Limbo. Vez ou outra escapam pro nosso lado, mas não duram muito.

- E que tipo de demônios você mata por lá?

- Demônios tipo o seu pai.

-... O quê?

Notas finais
Mais um capítulo pronto!!! ♥
Quem conhece a letra da música "Somewhere Only We Know", da banda Keane, sabe o que este título significa. E foi com base nessa música que escrevi este capítulo! :'3
Muito obrigada pelos feedbacks; e como bem sabem, leio todos! Quero poder responder todos também! c':