DmC 5: Stairway To My Heaven
25 6º Dia, Pelos Olhos de Dante: Responsabilidade Pessoal.
Notas iniciais
Passou alguns dias, e Mada finalmente recebeu alta. Já era hora!
Eu tava cada dia mais fascinado com a idéia de ser pai; visitei Mada todos os dias, acompanhei os ultrassons e levava flores – descobri que ela gostava de Flores do Equinócio. Puta florzinha rara de achar! Mas se era pra minha Mada; eu dava meus pulos. Enchia o peito de ânimo ver o sorrisão dela toda vez que me via chegando.
Eu tava feliz. Um idiota completo. Mas eu tava apaixonado, fazer o que... E eu tava curtindo cada segundo dessa sensação que até tempos atrás eu achava babaca pra cacete. Mas agora... Era mais imprescindível quanto o ar que eu respiro.
Não sei se eram por causa dos hormônios, mas Mada ficava irritada com meus mimos. Vez ou outra ela soltava um coice, tudo ela achava um exagero da minha parte. Quando chegamos na casa dela, foi visível a reação que teve de ver a casa detonada. Os espólios da porradaria ainda estavam lá; as empregadas só deram aquele tapa básico. A acompanhei até o quarto, ela sempre nos protestos e reclamações. Eu não tava ligando.
Dei de cara com a vadia da Dália; estava na sala de tevê completamente inerte, um exemplo de zumbi. Antes que Mada olhasse naquela fuça nojenta, me antecipei: mandei a vagabunda ir pro quarto. No desespero, ela me obedeceu. Foi estranho ver tal atitude tão subserviente...
Mada me questionou sobre o que aconteceu. Gelei e fiquei sem argumento.
– Aconteceu alguma coisa com a Dália? Geralmente ela recepciona quem chega em casa...
–... É que ela recebeu a punição dela.
– Punição? Não entendi.
– Digamos que ela também levou o dela por ter sido culpada pela sua sova.
–... Okay. Entendi.
Senti que Mada não estava de toda convencida; aquilo me deixou nervoso. Se ela insistisse no interrogatório, acho que faria a cagada de ser grosso com ela. Provavelmente ela percebeu que eu não queria estender o assunto...
Banquei o “maridinho” e a carreguei no colo até o quarto. Ela continuava levinha, e ela sempre protestando. Mas desta vez ela tinha gostado da brincadeira. Pedi que uma das empregadas trouxesse chá pra que ela tomasse pra descansar. Dei-lhe um beijo na testa e fui pro meu quarto.
Mandei as botas pra longe, e fui tirando a roupa peça por peça. Fui pro banheiro e me larguei numa chuveirada quente; meu corpo tava implorando por isso. O calor da água foi diminuindo a dor nos músculos, e fui ficando mais relaxado. Pra falar a verdade, eu tava ficando com sono de novo...
Vesti uma calça moletom e me joguei na cama. Eu me sentia leve, bem acomodado. Peguei logo no sono ferrado. É certeza de que devo ter roncado!
Sonhei com meu pai. Óbvio que ele apareceu sem rosto pra mim, mas eu lembrava um pouco da sua voz. Ele havia me dito que tava feliz por que eu seria pai, e ele me aconselhou. Mas quando fui dar um abraço nele, acabei acordando. Acordei com o travesseiro gelado. Eu tinha chorado.
Agarrei o amuleto da minha mãe. Queria que eles estivessem vivos pra ver que no fim das contas, não me tornei o maldito fiasco filho da puta que todo mundo dizia que eu seria. Agora eu era um homem. Eu era um futuro pai.
Acordei e já era de tarde. Me espreguicei, vesti uma regata e fui pegar algo do frigobar. Tinham batido na porta; logo pensei que era Mada. Já fui atender com um sorriso babaca no rosto, mas logo sumiu quando vi que não era ela.
Era a maldita da Dália. Mal descansei e já ia ficar estressado. Puta merda...
–... O que você quer?
– Vim te dar as boas vindas.
– Dispenso qualquer coisa vinda de você.
– Você me maltrata, mas gostou do que fez comigo... – ela entrou no quarto na maior cara-de-pau.
– Como é que pode? – eu tava rindo de raiva. – Como é que pode uma garota ser tão nojenta? Como é que você consegue ser enojante desse jeito?
– Não sou nojenta... – ela sentiu minha ofensa, mas ignorou. – Apenas faço o que me é necessário.
– E foi necessário foder com a vida da sua irmã?
– Digamos que foi golpe de sorte... – ela esboçou um sorriso que me deu vontade de vomitar...
– Se você não escafeder daqui Dália, eu...—
– Vai o quê? Vai me... “Estuprar” de novo?
Ela me irritava. E pra piorar, ela me provocava de propósito. Tinha algo no olhar dela que não tava certo. Um olhar obcecado, doente, completamente retardado. Não parecia olhar de gente normal.
– Escuta aqui, sua vagabunda de quinta... Você só pode tá delirando geral se acredita que fiz aquilo por que “gostei” de você. Não sinto tesão por garota desgraçada feito você! Desencana!
– Para com a hipocrisia, Dante! Eu gosto de você!
– Mas eu te odeio!!! Caralho, será que você é burra, garota?!?
– Será que nada do que fizemos significou algo pra você?
– Fizemos o quê, criatura?!? Não rolou nada entre a gente!!! Não viaja, mas que cacete!!!
– Então por que você concordou em fazer tudo aquilo?!? Você é homem, tava gostando do que tava fazendo comigo! Foi minha primeira vez, tem noção disso?
– Não me interessa se foi sua primeira ou foi sua última!!! – soquei a parede de raiva; eu tava perdendo a cabeça. – Você não é nada pra mim!!!
– Deixa de ser teimoso e aceite o que temos um pelo outro... Você pode ter me maltratado, mas não ligo! Só o físico me incomoda...Você tem noção do quanto me machucou? Não consigo mais me sentar, e me sinto incomodada!
– Problema seu! – eu já estava uma fera, apontei o dedo na cara dela com vontade. – Você mereceu cada enfiada que meti em você!
– Você fala como se tivesse gostado de ter se deitado comigo... – Dália se aproximava de um jeito estranho pra cima de mim. – Posso estar sofrendo, mas posso ignorar meu incômodo...
– Mas você é muito mais vagabunda do que imaginei... Tenho nojo de garota assim.
– Então você deveria ter nojo da minha irmã, pois ela foi tão vagabunda quanto eu...
– Vagabunda, ela? Ah vá Dália, se liga! Mada tem muito mais dignidade que você... Ela é bem mais gente que você em muita coisa!
– O que ela tem que eu não tenho?!? – Dália tinha perdido o controle. – Ela é sem sal, é submissa, não tem nada de cativante... Ao invés de perder tempo com ela, por que não fica comigo?!?
– Você não pode tá falando sério...
– Eu gosto de você, Dante... Comecei a gostar... Por que você não entende isso?
– Eu não entendo, não quero entender, e prefiro vomitar lama a pensar em você como mulher. Você não vale nada, é nojenta, é traíra. Eu amo a Mada, e ela me ama. Se pá a gente até se casa. Fica só olhando!
– Não mesmo! – ela tentou me abraçar, mas mandei ela pra longe. Sorte dela que caiu na cama. — E se eu disser que to grávida?!?
Eu gelei.
Ela alegou que tava grávida...?!? Só podia ser piada... Mas que filha da puta!!! Como podia ter apelado a esse ponto?!? Eu não tava acreditando... Eu não conseguia acreditar. Ela tava mesmo disposta a foder geral com meu lance com a Mada!!! Que garota doente!!!
Eu não tinha mais sanidade pra me controlar. Encheu o saco. Eu ia socar a cara dela. Eu queria desfigurar aquela desgraçada. Queria mata-la. Pra mim já deu.
–... Você, grávida?
– Sim, e aí? Você largaria Magdalena?
– Além de vagabunda você é muito filha da puta...
– Então vá lá e diga a ela que acabou, e vamos ser uma família feliz... – ela sorriu de um jeito psicopata.
– VÁ TOMAR NO SEU CÚ!!! VÁ SE FODER! MENTIROSA!!!
Explodi num ódio sem limites. Senti minha cicatriz ferver, meu sangue fervia tanto quanto. Até Rebellion respondeu à minha fúria e acabou evocada. Ela foi muito filha da puta; como podia existir alguém daquela estirpe?!? Dália era baixa demais, covarde demais!!! Nem o mais babaca dos demônios conseguia chegar naquele nível de crocodilagem!!! Eu não conseguia mais pensar. Eu vou espancar aquela vagabunda até morrer. Vou socar a cara dela até virar carne moída. Vou acabar com tudo que ela representa. Vou matar. Vou matar. VOU MATAR!!!
– M-mentirosa, eu? – Dália tremia. – A gente fez amor, não fez? Então é certeza de que estou grávida!
– CALA BOCA, CARALHO!!! – eu berrava, rosnava feito um animal colérico. – Você tá me tomando por idiota, Dália?!? Por que você realmente deve me achar um idiota!!!
– N-não, não é isso eu...! – Não dei tempo pra que dissesse mais merda; agarrei sua garganta e comecei a esgana-la. Acho que tirei ela do chão.
– Você não tá grávida porra nenhuma, garota!!! E posso dizer isso com certeza pelo cheiro asqueroso de sangue que tá saindo daqui!
Coloquei a mão debaixo da saia daquela imunda e arrebentei sua calcinha. Ela tava usando um absorvente, já todo sujo de sangue, e um fio de sangue morto escorreu do meio de suas pernas. Ela me olhou com cara de quem viu a derrota apontando alegremente; o que ela desejava foi pro ralo abaixo.
Ela tava menstruada; e cheiro de sangue eu sentia de longe. Meus poderes me deram uma chance de virar o jogo, mas ainda não tinha acabado.
– Você realmente não presta... Eu sinto vergonha pela dona Teodora ter você como filha! Sua miserável! Canalha! Sua desgraçada do cacete!
– Você acha que tá provando muito dizendo isso, mas e quanto à Magdalena? O que ela vai pensar quando souber que você se deitou comigo?
–... Ela tem razão, Dante.
Mada apareceu por detrás da porta. Senti meu coração parar de bater, fiquei petrificado. Tava num cagaço sem nome; um medo enorme de saber o quanto ela deve ter ouvido. Caralho! Que situação! Eu não sabia mais o que pensar, eu tava sem ação e apavorado. Eu senti meus joelhos tremerem, minha garganta doía de desespero. Puta merda, que situação!!! To fodido!!!
– Mada, eu...
– Não fala nada Dante, por favor. –a voz dela já estava embargada num choro iminente. – Só me diga o porquê você fez isso... E seja conciso, por favor.
– Sei que fiz merda, Mada... E to pedindo perdão desde já.
– E você acha que merece perdão?
– Não sei... Aliás, nem sei se te mereço... – olhei pro chão, com um ar derrotado. – Você botou seu pescoço na guilhotina por mim, e eu tentei te vingar do jeito mais babaca. Não tenho como dizer o contrário...
– Ele praticamente me pegou pra fazer o que bem quis, Magdalena! – rosnou Dália, sentindo-se na vantagem. – E teve coragem de me chutar pra fora do quarto, toda ensanguentada e sem forças! Um cafajeste!
–... Isso é verdade?
–... ... ... – não tive como esboçar uma palavra sequer. Acabei balançando a cabeça em afirmação.
– Okay. Já entendi tudo.
– Ele não presta maninha! Mande-o embora! Traição é o cúmulo! – vociferou Dália, toda animada de uma maneira ensandecida. – Se ele fez isso comigo, imagina o que...!
Não deu nem tempo de evitar. Só bastou três passos pro quarto adentro.
Foi um som agudo, um tapão ardido e frio. Mada deu um baita tapa cheio de força e com a mão aberta; certamente ficaram as marcas dos cinco dedos na cara de Dália. Ela deu um grito de susto e caiu, assustada e perdida, tentando saber o que a atingiu. Ela olhava pra Mada de forma assombrada, segurando o rosto marcado. Fiquei impressionado com a força do tapão; sinceramente desejei não estar no lugar da Dália... Dever ter sido o sopapo mais poderoso que já tomou na vida. Ardeu até em mim, falando sério!
– Magdalena...?!?
– Sua própria existência me ofende, Dália. –ela estava seca, fria; tava dando medo. – Se o Dante “transou” com você, obviamente não foi pra te satisfazer nem por que te achou mais atraente do que eu... É certeza de que ele te ESTUPROU.
– N-não, não foi isso!!! – ela insistia em bater boca com Mada; que teimosa. – Ele me procurou!!!
– Não minta Dália. Isso me irrita ainda mais. Eu escutei a discussão de vocês; o bastante pra saber o quanto ele te detesta. Não seja tola em tentar me enredar nas suas mentiras, que não são poucas.
Dália estava afogada na derrota; a coisa toda foi pro ralo, mas ela parecia não querer admitir. Ela olhava pra própria irmã com ódio, misturado com um desprezo sem precedentes. Era como se quisesse nos matar. Eu senti que a coisa toda ia acabar mal. Me coloquei diante de Mada, preocupado em defende-la de algum ataque iminente:
– Já deu, né Dália? Agora volta pro seu quarto e pensa nas suas cagadas enquanto eu ainda não perdi as estribeiras de sentar a mão na sua cara.
– Vai embora, Dália. Você perdeu, como sempre.
– Miserável... – ela parecia estar enlouquecendo; assumi uma postura defensiva. – É sempre você... Tudo é você... Nunca vou aceitar isso!!!
Num surto louco e raivoso, Dália avançou com tudo na direção de Mada. Me joguei na frente e tentei pará-la, mas ela tava subitamente forte.
– Corre daqui, Mada!!! A coisa tá feia; se tranca no quarto, AGORA!!!
– Mas e você...?!?
– Eu tô de boa! – Dália tava enterrando as unhas em mim; tava foda segurar aquela louca. – Pensa no nosso filho! O resto a gente dá um jeito! Vai logo!!!
Mada começou a correr, mas tropeçou no caminho. Merda... A coisa tava ficando ruim demais pra ser verdade... Levanta... Corre logo, Mada!!!
Assim que ela sumiu porta afora, era hora de conter aquela coisa insana, que não parava de gritar, de me estapear e de enterrar as unhas em mim. Ignorei meus princípios e dei-lhe um baita tapa na cara – usei mais força do que deveria, mas foi necessário-, e ela foi pra longe. Olhei pra trás pra ver se Mada já tava a salvo, mas tomei uma pancada feia no supercílio. Ficou tudo nublado de repente. Caralho... Que dor!!!
A vagabunda arremessou um vaso na minha direção. Minha visão ficou turva; meu crânio tava vibrando da pancada. Fiquei com as pernas bambas e com os ouvidos zumbindo, e tentei buscar apoio pra não tombar geral. De repente senti aquela pontada de dor, e som de osso partindo. Porra, o que mais faltava acontecer?!?
Dália enterrou um caco de vidro enorme nas minhas costelas. E isso foi com uma força sobrenatural; pois eu tinha certeza de que ela não tinha força suficiente nem pra me bater direito!!! Senti que tinha algo errado... Olhei pra ela e confirmei minhas suspeitas: estava possuída por um demônio.
Puta que pariu... Eles não perdiam a chance! Cacete... Que dor era aquela! Tava queimando até a alma... Realmente ela tava tomada por algo do Limbo. Sangue... Todo aquele sangue... Era meu...!
– AAAARGH!!!
– Sinta meu ódio... Sinta toda minha dor... Sinta o amargo sabor da derrota que você ofereceu pra mim, seu infeliz!!! – Ela enterrou o caco de vidro ainda mais fundo; senti falta de ar. – Se não posso ter o que quero, ninguém mais terá... Vou acabar com você, vou acabar com seu filhinho e vou acabar com Magdalena também!!! Ela irá pro inferno por último; siiiim... Ela merece ver tudo que ela tem sumir diante dos seus olhos!!! Ela não vai ser feliz se eu não puder ser!!!
De repente senti anemia. Eu bem sabia que sensação era aquela; eu tinha perdido sangue demais.
Caralho, senti medo. Medo puro.
Senti medo de morrer. Essa sensação fazia um tempão que eu não sentia; era amargo, absurdo, era broxante demais. Minha vida tava indo pro ralo!!! Eu tava com as pernas bambas, perdi a força nos braços. Acho que fiquei gelado, pois a circulação dos dedos foram pro saco; não tinha mais sensibilidade. Cai de joelhos, tremendo e tomado por um medo babaca de morrer. Eu não podia morrer... Não sabendo que sou pai! Cacete, e agora!?!
– Você não é... Humana...!!!
– O que sou pra você não me interessa mais!!! – aquela coisa que se apossou de Dália resolveu assumir o controle de vez. – Seu fim e o fim de Magdalena são as únicas coisas que nos interessa agora!!! Morra sozinho e na miséria!!!
“Dália” sumiu porta afora, respirando pesado e carregando um novo pedaço de caco de um vaso quebrado. Ela me largou no quarto, caído, sangrando pacas e sentindo o Diabo vindo me buscar pela perna. Caralho, como eu tava mal... Meu corpo parecia pesar toneladas, minha visão estava escurecendo. O ar estava sumindo da minha respiração; me sentia sufocado aos poucos. O corpo pesou de vez, minha cabeça ficou leve.
Eu tava morrendo.
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