DmC 5: Stairway To My Heaven

26 6ª Noite, pelos Olhos de Dante: Nephilim Blood, Human Heart.


Notas iniciais
"Dentro de mim reside um labirinto bagunçado e sem saída, onde nem mesmo a mais perspicaz das criaturas conseguiu sair ilesa. Tudo nele é cheio de dor, de angústia, de ódio represado, de memórias perdidas, confusas e fragmentadas. Não sei quem sou, só sei do que não gosto. E por ser assim é que me querem meio vivo. Ou talvez meio morto."

Abri os olhos.

Me vi caído num chão empoçado de uma água estranha; parecia sangue, mas não tinha cheiro nem textura de sangue. Olhei ao redor e nada além de restos e fragmentos de coisas randômicas, um ambiente esquisito. Me levantei e busquei me familiarizar com o lugar. Caralho! Eu esqueci que tinha sido ferido nas costelas! Será que morri? Estou no Inferno?!?

Fiquei me tateando pra saber se eu não tava delirando, ou se tinha morrido mesmo. Eu tinha a cicatriz da ferida nas costelas; doía pra cacete. Então eu não estava morto... Eu tava onde então?!?

Andei meio cambaleante e sem rumo. Pra qualquer direção que eu olhasse, só via o mesmo tipo de paisagem. O mesmo céu escuro; meio avermelhado, entulho de algo metálico que não parecia metal. Puta que o pariu, onde caralhos eu fui parar?!? Cadê a vadia da Dália, e onde tava a Mada?!?

–... Dante? Se pode me ouvir, me responda.

Uma voz ecoada. Não sabia de onde vinha, só sabia que surgia de todos os lados. Era como se eu fosse um rato preso dentro de um balde virado de boca pra baixo. Já que eu tava fodido, me restava aceitar a situação.

– Okay, respondi. Satisfeita?

– Que bom... Pelo menos não está morto. – a voz tava num tom de deboche bravo. Que filha da puta...

– Tá legal, pode parar com a zoeira e desembucha; onde é que eu tô, afinal?

– Você está dentro de você...

– Mas o quê?!?

–Nunca reparou em nada peculiar no lugar onde está?

– Larga mão de sacanagem e fala logo que lugar é esse, caralho!

–Não estou de “sacanagem”, Dante. – o tom de voz ficou meio tenso. – Você está perdido na própria mente; você está inconsciente.

– Então quem caralhos é você? – Fiquei apreensivo e desconfiado.

– Sou um Anjo.

Parei por um segundo. Não estou morto, mas ouço Anjos. Então só posso estar pela hora da morte! Ou pior, delirando lindamente! Viagem pura e sem escalas pra loucura...

– Ah, tá legal!!! – gargalhei de forma debochada sem o menor dó. – E eu devo estar quase morto!!! Ou talvez drogado!!!

–... A primeira opção é a mais viável.

Parei de rir na hora. Senti os joelhos tremerem de forma babaca; acho que devo estar virando um frutinha; não parei de sentir medo nesses últimos tempos...

–... Okay, já me convenceu. Que é que tá havendo?

– Você foi ferido mortalmente, e uma alma caridosa lhe resgatou a tempo do desencarne.

– Alma caridosa? Quem?

– Isso vem ao caso?

– Puta merda; será que dá pra parar com o cinismo e as patadas?!? – bufei indignado. – Responde direito, cacete!

– Seu linguajar selvagem só intensifica minha leve hostilidade...

– Que se foda, só quero entender a situação!

O tal Anjo ficou em silêncio. Aquilo me irritou demais. De repente, o ar naquele lugar bizarro ficou abafado e quente; respirar tava sendo tarefa prodigiosa. Eu não conseguia me manter consciente. Eu ouvia vozes meio apagadas vindo de todos os cantos, de vários tipos. Não conseguia reconhecer nenhuma. O ar tava ficando escasso, eu tava sufocando. Eu ia morrer?

Meu corpo tava ficando gelado de repente. Eu conseguia ouvir um som longínquo de água caindo; algo do tipo um chuveiro. Mas o ar abafado e a sensação de sufocamento não passavam.

Senti uma pontada nas costelas, e o cheiro de sangue subiu forte nas narinas. Olhei pra baixo e a ferida tava aberta; pior que isso, estava arreganhada, vertendo sangue sem fim. Tentei segurar aquela hemorragia bizarra, mas quanto mais eu me esforçava, mais sangue saía. E lá estava eu com medo de novo.

Eu ia morrer.

–-------------------------DmC-----------------------

Lusco-Fusco.

Me senti deitado em uma nuvem perto do sol; fofa, quentinha e cheirosa. Um delírio da infância que eu tive por um tempo, né...?

Logo pensei que estava morto. Não existia mais aquela ferida aberta até o talo; vertendo sangue como jarro d’água transbordante. Senti cheiro de Verbena; uma erva de cheiro tão gostoso quanto Flor de Baunilha, Lavanda e Haganbana. Sim, também aprecio flores e plantas cheirosas, Okay? Isso não faz de mim um viado... Pelo menos tenho bom gosto pra perfume, porra...!

Enfim, olhei pros lados e tudo parecia fracamente iluminado. Andei por um tempo e me vi num lugar parecido com de antes, porém menos tosco. Tentei chamar por algo ou alguém, e não tive resposta. Tava foda de aturar aquele lugar sozinho.

Um calorzinho reconfortante apareceu. Fiquei meio distraído com aquilo, mas antes eu tinha que sair daquele lugar muito louco. Uma voz ecoou de novo; mas desta vez era diferente, era familiar. Era a enfermeira...!

–... Se me ouves, Dante... Apenas dê um manifesto.

– Isso de novo? – bufei indignado.

– Não reclame... – a voz deu um risinho. – No estado em que você está muito nos surpreende sua capacidade de ser ranzinza mesmo inconsciente!

– Ha há, “enfermeirazinha”... É um Anjo também?

– É um garoto perspicaz, apesar da natureza xucra!

Só sei que eu estava boquiaberto. Eu não sabia se dava risada da ironia das coisas ou se me considerava idiota por tempo indeterminado. Aliás, eu não sabia de mais nada; foda-se tudo naquela hora! Eu sabia que a enfermeira era esquisita, mas ser um Anjo era demais!

–... Está mais calmo?

– Vai foder minha mente mais um pouco, ou eu já posso respirar?

– Seu humor tem uma acidez impagável, Dante. Sua mãe acha uma gracinha...

– Minha... Mãe...?

– Sim, sua mãe. Ela sempre cuida de você.

Ouvir aquilo me deixou desprotegido. Senti uma vontade de chorar, fiquei infantil e babaca do nada. Queria gritar pela minha mãe, exigir o colo dela, me aninhar num abraço dela. Meu coração apertou demais, a garganta ardeu, senti os olhos marejarem. Me agarrei ao meu amuleto e respirei fundo; eu não podia fraquejar assim do nada. Eu tinha total consciência de que minha mãe fazia uma puta falta, mas eu sempre considerei um baita golpe baixo falarem dela pra mim. Era minha maior fraqueza. E eu odiava isso em mim.

–... Vai se foder. Larga minha mãe fora desses assuntos.

– Você acha que estou sendo maldosa? – o tom de voz parecia pesaroso.

– Você tá sendo escrota. E se aqui é minha cabeça, então sai já. AGORA.

Um silêncio forçado foi tudo que obtive como resposta. Exausto de toda aquela frustração, caí de joelhos e respirei fundo, sentindo um peso ridículo no corpo. Falar da minha mãe me matava. Falar do meu passado me cansava. Era como tomar um tiro no peito à queima roupa.

Senti um sono estranho. Não resisti nem ao menos forcei a me manter de olhos abertos; apenas me deitei no chão e me encolhi. De repente dormi; não vi mais nada.

–-------------------------------DmC------------------------------------

Acordei dolorido pra caralho.

Eu só sabia que estava deitado numa cama, e mais nada. Tava meio complicado respirar; era como se tivessem me partido ao meio. Meu peito inteiro queimava numa dor medonha, e subia pela garganta e que fazia arder até os globos oculares. Coisa mais escrota...

Ouvi a voz de Mada... Ainda bem... Ela tá viva...

Mas tinha algo errado. Não sabia se era algo com ela ou com nosso filho. Caraca, meu filho... Como será que ele está? Será que já dava pra saber se era menino ou menina? Iria preferir menino... Iria ensinar todos os truques com armas e espadas, assim como meus pais fizeram... Porra, nem sei pegar uma criança no colo, como já to pensando em ensinar a lutar? Mas que se foda, eu seria pai!!!

Não aguentei manter os olhos abertos nem me manter inteiro, mesmo estando deitado. Era muita dor, muita falta de ar, eu iria desmaiar se fizesse qualquer esforço. Resolvi obedecer meus limites atuais e voltei a afundar o corpo fodido na cama. Um cheiro de lavanda surgiu no ar, e um calorzinho bom demais estava envolvendo minhas costelas. Me forcei a abrir os olhos um pouco, e vi Anjos rodeando a cama e cuidando de mim. Mais ao longe, vi a enfermeira e Mada conversando e indo embora. Puta que pariu, voltem aqui, né... Queria ver vocês, pelo menos um pouco...

Eu já estava melhorando, e depois de um tempo consegui mordiscar alguma coisa; eu tava faminto. Devorei uma bandeja lotada de comida; e logo ganhei ânimo pra conseguir fazer qualquer coisa que fosse. A enfermeira veio até o quarto, com um sorriso limpo na cara.

– Vejo que se recuperou rápido, Dante! – a voz ecoada que ela tinha era maravilhosa, mas me fazia lembrar da escrotidão que passei na minha mente. – Como se sente?

– Me sinto um balde de merda. To cansado de ficar deitado nessa cama. Cadê a Mada, afinal?

– Para cada situação, uma solução. Tenha calma.

– Que se foda.

– Menino boca-suja... – ela falou com um ar debochado. Fiquei puto.

–... ...

– Ela está na varanda da casa; se recuperando.

– Que bom... – me senti mais aliviado. – Quero falar com ela.

– Antes que faça isso, acho que você deveria me ouvir.

– Mais ainda?!? Que caralhos você tem mais pra me dizer?!? – bufei indignado.

– Magdalena sofreu a perda do bebê de vocês.

–... Como é? ... P-perdeu?

– Sentimos muito, Dante. – ela tentou tocar na minha mão, eu recuei pra evitar alguma cagada.

– Como assim, perdeu? O que cacetes brilhantes vocês estavam fazendo que não protegeram a Mada?!?

– Tenha calma, Dante...

– Calma o caralho!!! – senti uma febre subir, minha cicatriz ferveu. – Vocês são Anjos e o cacete a quatro, e deixaram minha família se desmantelar! E agora, conseguem a puta proeza de deixarem meu filho morrer!!! PUTA QUE ME PARIU, VOCÊS SÃO MAIS ÚTEIS QUE CONES!!!

– Não é bem assim, Dante... Nos escute, por favor...

– Escutar vocês?!? Vão se foder!!! É a segunda vez, na minha merda de vida que vocês se provaram incapazes!!! – eu tava transtornado demais pra medir palavras. – E é a segunda vez que deixam alguém da minha família morrer!!! E ainda se dizem Anjos, há!!! Se não prestam pra proteger, só ficam assistindo de camarote a merda toda feder!!! Deve ser pra agregar valor à inutilidade de vocês na vida de alguém, só pode!

–... ... – ela ouvia tudo sem dar um pio sequer, mal piscava.

– Não basta me tirar a minha mãe; tem de tirar meu FILHO de mim! Façam um favor, vão todos pra casa do caralho, sumam daqui! Finjam que foi tudo um sonho, e voltem pro colinho do “Papai”!!!

–... Infelizmente estamos aqui pra protege-lo de algo pior.

– Pior do que já está eu sei que não fica. Então FODA-SE.

Os Anjos se entreolharam, em silêncio. Um por um foram desparecendo como fumaça de incenso, com um olhar triste e preocupado. Eu me sentia descontrolado; sem freio algum tamanho era meu transtorno e desespero. Senti um aperto insuportável no peito.

Eu tinha perdido meu primeiro filho.

Perdi minha família pela segunda vez.

Notas finais
Ok, mais um capítulo pronto! Tenho de confessar; me senti pesada escrevendo essa parte. ._. A dor de Dante ao saber que perdeu o filho me ardeu no coração, pois ele tava gostando tanto da idéia, que ja tava planejando tudo que conseguia imaginar pra criar seu filho do melhor jeito possível. Depois dessa, vou dormir um pouquinho (são 05:59 da matina; não preguei os olhos e_e) e descansar ao máximo pra poder trabalhar e descansar mais e escrever melhor. Agradeço de coração os feedbacks! Muito obrigada mesmo!